Qui 25 Jun 2009
Quer uma boa dica para o almoço do fim de semana? No livro O Melhor do Comidinhas, de Alessandra Blanco, você encontra esta e outras dicas de restaurantes imperdíveis do mundo todo!
A alheira do Sr. Bacalhau
Tirei um final de semana para uma viagem gastronômica até Serra Negra, no interior de São Paulo, com um único propósito: comer a alheira do Sr. Bacalhau. A dica foi de um amigo. Disse que eu precisava conhecer o restaurante, era a melhor alheira que ele já havia provado e o lugar ainda tinha um garçom com jeito de dançarino de tango.
Saí cedo da capital, com minha mãe e uma amiga. Escolhi o caminho que passava por Itatiba, Morungaba, Amparo e finalmente Serra Negra. Formado por várias serras e curvas, belíssimo, principalmente no domingo ensolarado de outono.
Chegamos ao Sr. Bacalhau exatamente na hora marcada na reserva, 13h, depois de cerca de duas horas de viagem.
A casinha amarela no alto já pareceu bem convidativa. Entramos e nos sentamos a uma simpática mesa redonda, pedimos água e escolhemos um vinho verde português. Peço a alheira, como entrada. O garçom responde: “Então, você já conhece a casa…”. Respondo-lhe que não, mas que havia recebido a indicação de um amigo.
Ele então nos conta que a alheira da casa é muito especial. Feita com carnes suína, bovina e de coelho. Todas cozidas, depois desfiadas e misturadas a miolo de pão e temperos. Em seguida são trituradas, montadas no formato da alheira e assadas. “Se você gosta de alheira, vou também trazer a nossa pimenta, que é nosso segredo, feita pelo chef e proprietário da casa”, diz o garçom.
O potinho traz pimentas dedo-de-moça desidratadas e depois curtidas em azeite português. Vem a alheira. O garçom retira do bolso luvas de cetim brancas e parte nossa entrada com muita elegância. Serve junto com uma “panhoca”, um pão macio, quentíssimo, feito também na casa. Fico prestando atenção em todo aquele ritual e me dou conta de que meu amigo tinha razão.
Flavio Godoy, o nosso garçom, é “o” dançarino de tango. Elegante, prestativo, com cabelo todo puxado para trás com gel.
Começo a perguntar e ele me conta que vem de uma família de garçons. Seu avô era, assim como seu pai, e ele bem que resistiu, mas não consegue ficar sem trabalhar em um restaurante. Durante a semana, é segurança. Nos finais de semana, garçom. “Dos poucos que ainda sabem a tradição de transformar um guardanapo em coelho ou sapinho para entreter as crianças, enquanto os pais podem apreciar a refeição”, diz, me ensinando seus truques.
Godoy dá seu show e sai da sala para nos deixar apenas com a verdadeira estrela da casa. Corto meu pedaço de alheira, pingo três gotas de azeite português extravirgem e duas da pimenta especial. Coloco na boca e mastigo. Mais uma vez o amigo tem razão. É totalmente diferente de qualquer alheira que havia provado. Não há gordura. Há uma massa seca, quase uma pasta.
E saborosíssima. Vou sentindo a mistura das carnes. O segredo é o tempero, ainda ressaltado pela pimenta. Dá para sentir pedacinhos de alho. Perfeita. Com a “panhoca”, fica melhor ainda.
Podia ter ficado só com a alheira. Mas não podia dirigir mais de 300 quilômetros (ida e volta) sem provar um dos pratos de bacalhau da casa. Escolhemos o chamado “à moda do Porto”: assado, regado com azeite, lâminas de alho crocantes, batatas assadas (divinas), azeitonas, brócolis e arroz.
O chef José Maria Martins, português nascido no Porto, conta que todas as receitas são de família, aprendeu com a mãe e a avó. Além de o prato ser maravilhoso, fico impressionada com a técnica, o bacalhau de alta qualidade, a batata assada perfeitamente, os brócolis cozidos no vapor, verdinhos e crocantes.
Até mesmo as louças em que cada posta do bacalhau é servida são réplicas de porcelanas de sua avó, que ele mandou fazer para que seu serviço ficasse ainda mais perfeito.
Finalizamos com um pastel de Belém, um papo-de-anjo, três colheres e cafés. E voltei a encarar mais 150 quilômetros, mais do que satisfeita.
Sr. Bacalhau
Rua 14 de Julho, 51 1, Centro, Serra Negra (SP).
Tel. (1 9) 3842-1 342
Qui. a sáb., almoço e jantar; dom. e feriado, apenas almoço.
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