Julho de 2009


O baterista dos Paralamas e aficionado por Segunda Guerra Mundial, João Barone, deu entrevista ao TV Curioso, apresentado por Marcelo Duarte no TV IG.
Confira o que ele disse sobre seu livro, A Minha Segunda Guerra.


Leia um trecho do livro Chega de falar de mim, da jornalista Jancee Dunn, repórter da revista de música mais famosa do mundo, a Rolling Stone.

No livro, Jancee intercala lembranças divertidas de sua infância, quando era apenas uma garota comum de Nova Jersey, fã de Thriller e de laquê, com histórias de bastidores de entrevistas com celebridades da música e do cinema.
O texto abaixo conta a aventura que foi entrevistar a baixista do Pixies, uma das roqueiras mais importantes dos anos 90, Kim Deal.

Álcool: no mínimo, tão importante quanto seu gravador

Se o entrevistado for um sujeito relutante, faça tudo que puder para que um drinque chegue às mãos dele. O álcool solta a língua e distorce a noção de tempo, portanto, a hora que lhe concederam passa sem que percebam que ela se multiplicou por seis. De preferência, você deve permanecer sóbrio, ao passo que seu entrevistado deve ficar bêbado. Assim, à medida que a noite avançar e seu novo amigo abobalhado começar a cuspir em você ao falar, mude discretamente para um coquetel de frutas. Lá pela meia-noite, arme uma grande cena de “estou tonta” e vá cambaleando ao banheiro, onde você deve se fechar num sanitário e tomar notas tranqüilamente.
Apenas uma vez me desviei dessa regra, durante uma parada no festival Lollapalooza em Atlanta. A lista naquele ano estava particularmente boa: Beastie Boys, Breeders, L7, A Tribe Called Quest, Smashing Pumpkins, George Clinton e P-Funk All-Stars. Peguei um vôo para lá a fim de entrevistar Kim Deal, do Breeders, para a edição especial “Mulheres no Rock” da Rolling Stone. Deveria fazer-lhe a embaraçosa pergunta dirigida a todas as participantes: Como o papel da mulher no rock vem mudando nas últimas quatro décadas? Você se sente afetada pelas letras misóginas que andam rolando no rock e no hip hop?
Encontrei-a nos bastidores do show. Ela estava sentada num sofá velho, com uma camiseta enorme e jeans manchados, fazendo piadas com membros da equipe e outros músicos. Como ex-Pixie e atual membro do Breeders, Deal era uma de minhas heroínas. Adorava o
som suave de sua voz doce e rouca, e o jeito como sorria no palco ao tocar o baixo, como se estivesse se divertindo muito.
Entretanto, apesar de ser extremamente gentil, Deal não estava a fim de falar de si própria como uma vítima da sociedade patriarcal.
– Então… – comecei, nervosa, remexendo meu bloco de notas.
– Sei que não são as perguntas mais interessantes do mundo, mas talvez a gente consiga achar um modo de se divertir com elas.
Silêncio.
– Você acha que a indústria fonográfica tem telhado de vidro, como dizem por aí? – comecei.
Ela suspirou. Todo mundo ao redor riu. Tentei outra pergunta.
– O fato de ser mulher teve qual efeito em sua música? Ela revirou os olhos.
– Será que tenho de responder mesmo a esse tipo de coisa?
Considerei.
– Acho que não – respondi.
– Que bom – ela disse, pegando uma garrafa de vodca e dando um grande gole. – Vamos ver os Black Crowes. Estão tocando no palco dois.
Ela me ofereceu a garrafa e eu bebi, compreendendo que poderia falar com ela mais tarde, quando estivesse mais relaxada. Depois de mais uns goles longos, ela, num salto, pediu que a seguisse. Tivemos de mergulhar na multidão no caminho para o palco menor. Enquanto
passávamos com dificuldade, um grupo de garotas góticas nos rodeou, pedindo autógrafos.
– Não sou ninguém – disse a elas. – Minha assinatura não vale nada.
Elas me olharam com desconfiança. Depois, suspeitando que eu estivesse apenas sendo modesta, me empurraram canetas e papéis com ansiedade ainda maior. Sentindo-me uma boba, dei os autógrafos, enquanto Deal ria. Então ela perdeu a paciência.
– Vamos! – gritou, me arrastando de volta para a multidão. Os Black Crowes estavam afinando os instrumentos. Mãos se sobrepuseram à massa de fãs, oferecendo-nos uns baseados. Maconha sempre me deixava neurótica, cansada e com fome (três coisas que eram meu estado natural, na verdade), mas, é claro, dei uns pegas.
Uma relações-públicas correu até nós com cervejas durante o show, magicamente cheias, apesar do tumulto, algo que me lembrava uma fantasia de Alice no país das maravilhas. Baseados! Cerveja! Crowes! Vodca! Baseados! Cerveja! Crowes! Opa, estou meio zonza.
Não, estou bem. Só vou me agachar aqui um pouquinho.
– Vamos ver os Beastie Boys – gritou Deal no meio da multidão quando a apresentação do Crowes acabou. Ela correu pelo meio dos fãs como uma louca. Parecia bem relaxada. Era hora de atacar.
Parei no meio de um gramado perto dos palcos e gritei para que parasse.
– Sério – implorei, sacando o gravador –, você não poderia responder só a umas perguntinhas? Só algumas. Quem foram seus heróis na música?
– Depois! – ela gritou.
– Agora! – respondi, sem a menor convicção. O gramado girava perigosamente. Uma tempestade perigosa se aproximava, eu percebia. Melhor era ir para o porto!
– Não! – ela gritou, rindo como uma louca. De repente, o chão estava se mexendo e nós duas lutávamos no gramado do Lakewood Amphitheater. O que tornou a cena ainda mais surreal foi que, enquanto estávamos rolando na grama, um cara negro, alto, que usava
fraldas, membro do P-Funk All-Stars, passou por nós sem sequer prestar atenção.
– Você vai responder às minhas perguntas! – gritei, ofegante. Não tinha autoridade nenhuma no que dizia. Implorei, ameacei, fiz piadas, mas ela não estava nem aí. Em algum momento eu teria de desistir.
Então, quando as notas distantes da canção “Sure shot” dos Beastie começaram, ela se livrou de mim e saiu correndo para o palco onde eles tocavam, gritando para que eu a seguisse. Todas as portas se abriram para nós ao chegarmos aos bastidores e passamos para
o lado do palco, com os Beastie Boys a alguns passos de nós. Ela me empurrou para perto das maiores caixas acústicas que eu já tinha visto na vida, e dançamos durante toda a eletrizante apresentação, para o deleite de boa parte do público, que tinha uma boa visão dos nossos pulos e contorções sem ritmo. Aquela foi a melhor entrevista que já fiz, me alegro em dizer.
De volta a Nova York, minha editora Karen estudou meus manuscritos com a testa franzida.
– Esta é a pior entrevista que já fez – ela falou. – O que aconteceu? Pra mim, parece que ela só respondeu a algumas perguntas básicas. E o resto? – Expliquei toda a saga pela qual havia passado, convenientemente deixando de lado a parte em que agi como um peão de obras gastando o salário todo em apenas uma noite.
– Lamento, mas vamos ter de rejeitar isso – disse-me Karen, balançando a cabeça. – Não tem nada aqui.
Ainda assim, Kim Deal era uma Mulher Que Fazia Rock. Ela só preferiu me mostrar a dize-lo.

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