A jornalista Marina Vidigal entrevistou 20 grandes empresários brasileiros para desvendar seus segredos de sucesso. Todas estas tragetórias estão registradas no livro Para ser grande.
Leia agora dois trechos do livro:
Abraham Kasinsky
Nascido em 11 de julho de 1917, na Argentina, chegou ainda bebê ao Brasil, país onde viria a criar e liderar, por mais de quatro décadas, a maior indústria de autopeças da América Latina, a Cofap. Depois da venda desta empresa, criou, aos 82 anos de idade,
a fábrica de motos Kasinski, a qual venderia dez anos mais tarde, para então se dedicar
à Fundação Abraham Kasinsky.
Um símbolo de ousadia
A loja de peças automotivas do pai ele transformou na maior rede de lojas deste setor no Brasil. Mas não foi o suficiente.
O ousado Kasinsky queria mais e decidiu montar com o irmão uma fábrica de autopeças: ele não iria mais apenas comercializar, passaria também a produzir itens como aqueles que tanto lucro vinham lhes proporcionando por meio das vendas. Sem temer a concorrência estrangeira, Kasinsky transformou a Cofap na maior fábrica de autopeças da América Latina. Vendeu seus produtos em quase uma centena de países, montou fábrica na Europa e, aos oitenta anos de idade, por uma série de fatores,
viu-se obrigado a se desfazer do filho chamado Cofap.
Deixando para trás aquela enorme engrenagem, o ousado empreendedor, que já somava mais de oito décadas vividas, percebia que a ociosidade não era obra para ele. E foi então que decidiu, aos 82 anos de idade, e sem experiência prévia no ramo, fabricar motos. Nasceu assim a Kasinski, redigida assim mesmo, com a letra i no final, a conselho de um numerólogo.
Daí a o octogenário posar de garoto-propaganda das novas motocicletas fazendo piruetas em um globo da morte com uma loira na garupa foi um pulo. E lá estava ele, em horário nobre, nas telas do Brasil todo – sua ousadia era exibida em cores, sem truques nem segredos, para quem quisesse conferir.
Rosa tinha apenas 15 anos, Leon tinha 16 e, recém-casados, decidiram deixar a pequena aldeia russa onde viviam com suas famílias. A Rússia passava por um momento difícil, que precedia a Revolução de 1917. Tentariam a vida bem longe dali, e o primeiro destino alcançado pelo casal, naquele início de século, foi Buenos Aires. Na capital argentina, Leon abriu uma barbearia. Trabalhava nela durante a semana e, aos finais de semana, ganhava um extra tocando violino em festas familiares.
Os dois ofícios haviam sido aprendidos na longa viagem de barco à América. Para ajudar no orçamento, Rosa lavava roupa para fora. Os imigrantes sabiam que, para ganhar a vida no país estrangeiro, tinham que dar a cara para bater, aprender, agir, experimentar e, se possível, não errar.
Em pouco tempo, Leon percebeu que seria um bom negócio transformar a barbearia em drogaria. Tateando o filão dos produtos importados, ele revelava seu talento para as vendas e o comércio. O padrão de vida ia crescendo, ao mesmo tempo que a família ia se tornando mais numerosa. O casal já vislumbrava um bom futuro para seus quatro filhos (Abraham era o caçula), quando a Primeira Guerra Mundial fez cair por terra o tão próspero negócio de Leon. Ao mesmo tempo que ele não conseguia mais ter acesso aos produtos estrangeiros, suas prateleiras esvaziavam e os clientes sumiam. Com prejuízo significativo, o comerciante russo resolveu tentar a sorte em um país vizinho.
O Brasil seria a parada seguinte. Abraham Kasinsky, que chegou ao país ainda bebê, mais tarde se naturalizaria brasileiro.
Na capital carioca, Leon trabalhava como mascate e, na medida do possível, recebia alguma ajuda dos filhos mais velhos.
Insatisfeito, decidiu tentar uma investida em São Paulo, onde, conforme se dizia, as possibilidades eram maiores. No bairro do Brás, ele abriu uma lojinha de peças para automóveis.
Seria ele o revendedor dos tantos itens automotivos que se desgastavam com o uso e que com frequência precisavam ser substituídos. Dividia o estabelecimento com um senhor que se dedicava à limpeza de chapéus. Não levou muito tempo para este desistir do ponto, de modo que Leon pôde se estabelecer definitivamente em São Paulo e trazer a família, que aguardava no Rio de Janeiro.
O fundo da loja Três Leões seria o novo lar da família Kasinsky.
A uma pequena cozinha, um banheiro, um quarto para o casal e outro para os filhos mais velhos, somaria-se um cômodo pequenino onde dormiria o caçula Abraham. Dali em diante, ele seria chamado de Abrão. Um garoto que aprenderia a andar apoiando-se em um balcão, que distribuiria os primeiros sorrisos aos clientes que frequentavam a Três Leões e encontraria em parafusos e rolamentos os seus primeiros brinquedos. As lições que aprenderia dali em diante pareciam ser inevitáveis. O tilintar das peças metálicas pinçadas das prateleiras ecoava no modo de ser daquele garoto, que ia solidificando, dia após dia, uma personalidade ousada, empreendedora e vencedora.
“Eu era menino e uma das minhas brincadeiras preferidas era fazer patinetes. Um cliente vinha à loja, comprava rolamentos novos e deixava os velhos. Eu os fixava a uma tábua de madeira, usava dobradiças disponíveis e ali estavam meus patinetes. Depois de prontos, eu os vendia. Meu sonho mesmo era usar as peças da loja para fazer um carro grande, um carro de verdade. Eu dizia à minha mãe que poderíamos guardá-lo na cozinha e que, quando ela quisesse fazer o jantar, poderíamos colocá-lo no quarto ao lado. Eu tinha aquele sonho e, dentro de mim, isso era o suficiente para que um dia eu pudesse transformar o tal carro em realidade.” (…)
Alberto Saraiva
Nasceu em Portugal, em 6 de junho de 1953. Formado em medicina, é fundador e presidente do Habib’s, fast-food de comida árabe que possui cerca de trezentas lojas no Brasil. Para atender a seu negócio principal, possui uma série de outras empresas, como uma fábrica de sorvetes, uma padaria industrial, uma indústria de laticínios e um contact center.
Espiritua lizado
No final daquele domingo, Alberto Saraiva foi à padaria recém-comprada pelo pai. Ele o buscaria e os dois seguiriam para casa. Tão logo estacionou o carro, no entanto, foi noticiado da tragédia. Em um assalto, seu pai havia sido baleado. Morreu na mesma hora, não voltaria mais para casa.
Era agosto de 1973 e o jovem Saraiva, que naquele momento iniciava o velho sonho de estudar medicina, teria uma enorme reviravolta em sua vida.
O pai era um grande ídolo para Saraiva. Uma pessoa sem instrução, que jamais desistia dos seus objetivos. Persistente, trabalhava de segunda a segunda e, ainda assim, era muito ligado à família. Mesmo sendo carinhoso, não hesitava em dar uma boa surra nos filhos quando lhes faltasse responsabilidade.
Diante das dificuldades, por outro lado, era o primeiro a incentivá-los a seguirem seus sonhos. Em resposta ao desânimo de Alberto Saraiva por ter sido reprovado em várias provas de vestibular para medicina, por exemplo, ele insistia: “Não desista, é preciso caminhar, dar sempre um passo a mais. Com persistência, você vai chegar ao seu objetivo. Pode demorar mais um ou dois anos, mas uma hora você chega lá”.
O pai estava certo e o sonho universitário de Alberto foi alcançado. O trágico incidente, no entanto, levou o garoto a colocar os planos temporariamente de lado, trancando a matrícula da faculdade para assumir a padaria. Esta, por sua vez, era muito antiga, estava mal localizada (no meio de outras cinco padarias), tinha padeiros ruins e equipamentos ultrapassados.
Era recém-comprada e ainda havia algumas parcelas a serem pagas. Para tanto, Saraiva chegou a pedir dinheiro a um tio, mas este recusou, pois achava que o sobrinho deveria se desfazer do negócio e retomar os estudos. Saraiva discordava e, em meio às dificuldades e à grande revolta que passou a atormentá-lo, seguiu tocando a padaria.
Até aquele domingo de agosto, Saraiva havia sido um garoto de muita fé. Frequentava a igreja aos domingos, fazia orações ao acordar, rezava antes de dormir. Mas, de repente, seu pai se foi.
Com a dramática partida, Saraiva perdeu também sua crença e sentiu sua vida ficando cada dia mais difícil. Em uma seqüência de casualidades, quebrou uma perna, seu irmão capotou o carro e uma afilhada da mãe dele acelerou o carro que tinham e acertou o Gálaxi do vizinho. Nada mais dava certo, fosse dentro ou fora da padaria. Certa noite, Saraiva entregou os pontos. Ele decidiu que fecharia o estabelecimento.
“Fui dormir certo de que havia tomado a melhor decisão. Ainda assim, na madrugada seguinte, peguei um táxi em direção à padaria, para abri-la cedinho como de costume. Eu chegava lá às quatro horas da manhã, recebia o leiteiro, via se o padeiro tinha feito os pães e, às cinco horas, abria as portas para os clientes. Durante o percurso, não sei por que motivo, comecei a contar minha história para o taxista. Eu estava realmente chateado. Falei que a padaria só me dava problemas e que eu ia desistir.
O tal taxista ficou me ouvindo, absolutamente calado, por cerca de 15 minutos. Quando fui descer, virou-se para mim e disse: ‘Não desista, é preciso caminhar’. Eram as exatas palavras que meu pai dizia… Entendi no ato que se tratava de uma mensagem. Entrei na padaria, me ajoelhei e pedi perdão. Naquele instante, minha fé foi redobrada e minha vida se transformou. Desde então, sei que Deus e Jesus Cristo estão sempre comigo, sempre me protegendo e me abençoando.”
Alberto Saraiva é de origem humilde. Os pais, camponeses, moravam em uma aldeia de Portugal, onde cuidavam da lavoura, do vinho e do azeite. Ainda jovens, vieram para o Brasil.
Primeiro veio o marido, Antonio Saraiva, já que a esposa estava grávida e não podia embarcar. Ela só chegaria ao Brasil meses depois, com seu bebê Alberto nos braços.
Sem estudos nem perspectivas de conseguir um emprego, Antonio Saraiva foi parar na zona norte de São Paulo. Comprava pães de madrugada, dispunha-os em uma carrocinha que providenciou e os levava para serem revendidos em bares, botecos e outros estabelecimentos. A vida em São Paulo não ia bem e, em uma oportunidade que surgiu, ele levou a família para Santo Antônio da Platina, no Paraná. Nessa cidade, o sr. Antonio revendia doces comprados em São Paulo; tratava-se de
uma representação que havia conseguido.
No interior do Paraná, Alberto Saraiva teve uma infância simples e boa. Frequentava a escola e a igreja. A religiosidade tinha grande peso em sua família, e ele foi criado dentro de uma fé católica muito forte. Foi coroinha e um dos pastorinhos que rezavam o terço em maio. Durante parte de sua infância, chegou a ter vontade de se tornar padre, mas a mãe, sabendo que tais anseios poderiam mudar quando ele começasse a se interessar pelas garotas, pediu ao filho que esperasse, que amadurecesse um pouco mais antes de pensar no seminário. Saraiva cresceu e, conforme sua mãe intuía, desistiu daquela ideia. Daí em diante, a medicina se tornou o grande sonho de Saraiva. Em sua família não havia ninguém com curso superior; os pais sonhavam em proporcionar essa realização para o filho e davam total apoio a Saraiva, colocando seus estudos sempre como prioridade. Aos 17 anos, ele fez o terceiro colegial em São Paulo. À noite ia ao colégio e, durante o dia, fazia cursinho. Seis conduções diárias e muito estudo não foram suficientes para a aprovação do garoto que vinha de uma formação escolar inferior à dos concorrentes. Aos 18 anos, Saraiva fez mais um ano de cursinho, voltou a prestar exames vestibulares e teve novas reprovações. O incentivo em casa ainda assim permanecia e este, somado a muita determinação e fé, impulsionou Saraiva para um terceiro ano de cursinho, após o qual ele foi aprovado. Estudaria, então, na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. (…)