Autora do livro “Eu Estou Aqui” explica por que o acolhimento a refugiados deve começar na escola
O horror da guerra tem forçado milhões de ucranianos a deixar o país e buscar refúgio em países vizinhos ou até mesmo de outros continentes. Um movimento que afeta todo o planeta e que coloca em pauta a necessidade urgente de criar soluções a longo prazo para todos os necessitados. No caso da Ucrânia, 4 milhões de pessoas, ou quase ¼ da população, deixou o país em busca de proteção.
Páginas do livro “Eu estou aqui”
A Ucrânia, desse modo, se junta a outras nações que vivem um cenário semelhante, em que a guerra e a violação aos direitos humanos forçam famílias inteiras a fugir. Síria, Afeganistão, Venezuela, Sudão do Sul, Mianmar, República Democrática do Congo, Sudão, Somália, República Centro-Africana e Iraque são alguns deles. Uma crise que o mundo irá precisar administrar ao mesmo tempo em ainda tenta se reconstruir depois de dois anos dos efeitos devastadores da pandemia de Covid-19. Dados da ACNUR, a agência da Organização das Nações Unidas dedicada aos refugiados, mostram que o mundo tem cerca de 20,8 milhões de refugiados, sendo 40% de crianças.
O Brasil recebe ondas migratórias há bastante tempo. Na década passada, milhares de refugiados vindos de países africanos se instalaram no país. A partir de 2015, um grande fluxo migratório de venezuelanos chegou ao Brasil. Isso só para citar dois exemplos.
As histórias dessas trajetórias são diversas e, em sua maioria, repletas de obstáculos. O livro “Eu Estou Aqui”, de Maísa Zakzuk, aborda essa temática dura e urgente para sensibilizar toda a sociedade. São perfis de doze crianças que vieram de diferentes partes do mundo para começar uma nova vida no Brasil. Por que fugiram, como chegaram aqui, o que enfrentaram (e enfrentam) para se adaptar à nova língua e aos novos costumes são alguns dos temas explorados na obra. É o único livro sobre refugiados para crianças lançado no país. “O Brasil dispõe de leis que dão proteção aos estrangeiros, garantindo direitos como obtenção de documentos, permissão para trabalho e portas abertas para educação”, explica Maísa.
Páginas do livro “Eu estou aqui”
As garantias legais que as constituições dos países – como no caso brasileiro – conferem aos refugiados não asseguram, sozinhas, o bem-estar e uma adaptação digna para essas pessoas. Na prática, o preconceito e o próprio desconhecimento da melhor forma de acolhê-los são barreiras para que esse processo seja feito com êxito na vida real.
Por onde esse acolhimento deve começar? Maisa Zakzuk aponta um caminho. É no ambiente escolar que as famílias chegam com seus filhos. A participação de educadores e de crianças locais é essencial para criar uma sociedade livre de preconceitos, racismo e xenofobia. “Devemos aumentar a nossa capacidade de criar condições que vão além da assistência e da acolhida”, afirma Maísa. “A escola é a porta de entrada para que toda a sociedade exercite o respeito, a integração e a troca. É também uma maneira de aprendermos a enxergar o potencial dos que chegam e valorizarmos suas culturas”. Por isso, “Eu Estou Aqui” tem sido usado em escolas do país inteiro. Sobretudo neste momento em que mais uma crise migratória preocupa o mundo. “As pessoas falam no plural ‘refugiados’, mas é preciso enxergar cada um deles perto de nós”, explica a autora.
Sucesso no teatro, musical de Vitor Rocha chega aos cinemas e às livrarias. O texto nasceu numa sala de aula no interior de Minas Gerais
Uma peça teatral de uma turma do Ensino Fundamental de uma escola no interior de Minas Gerais ganha alguns dos palcos mais importantes do país, chega às telas dos cinemas e se transforma em livro. Parece ficção, mas é a história real de “O Mágico di Ó”, do jovem dramaturgo mineiro Vitor Rocha. Aos 24 anos, ele vê sua obra alcançar um público cada vez maior nas mais diversas plataformas.
A ideia de criar uma versão brasileira para o clássico “O Mágico de Oz”, publicado por L. Frank Baum, em 1900, surgiu já grandiosa na sala de aula. Tudo começou em 2013, numa oficina de teatro do Colégio Santo Antônio Objetivo, em Jacutinga – cidade do extremo sul de Minas Gerais, que fica mais perto de São Paulo do que de Belo Horizonte. Lá, ele rascunhou a primeira versão do texto: “Tive a ideia de adaptar o clássico para que a história não fosse contada de forma tão distante de nossa realidade”, recorda. “O furacão, Kansas…”.
Ilustrações de Nireuda Longobardi
Mesmo nascido em Pouso Alegre, no interior de Minas Gerais e a pouco mais de 80 quilômetros de Jacutinga, Vitor escolheu o Nordeste brasileiro para ambientar a sua releitura: “O Nordeste é cenário de zilhões de histórias e de uma memória poética infindável”, justifica. Por mais que veja semelhanças entre os cenários, ele prefere dizer que “o encontro mora nas diferenças”. E exemplifica: “A Dorothy via o arco-íris depois da chuva; a Doroteia nunca nem sequer viu a chuva. O Espantalho quer um cérebro; o nosso Mamulengo não acha que precisa de um”.
Transportar a história para uma realidade tão distinta levou a mudanças inclusive nos nomes das personagens: de Dorothy pra Doroteia; de Cara de Lata para Cabra de Lata; e de Espantalho para Mamulengo, numa referência aos teatros de bonecos que partem em caravana de cidade em cidade alegrando a população. Doroteia sai em direção a São Paulo junto da família, mas no meio do caminho acaba levada a uma terra cheia de magia e problemas.
Com a mesma estrutura e algumas modificações ao longo do tempo, a história ganhou corpo. Transformou-se num musical em 2019, num filme em 2020 e agora num livro lançado pela Panda Books. Quem ficou encarregada das ilustrações foi Nireuda Longobardi, que saiu do Rio Grande do Norte para morar em São Paulo. Nireuda é uma grande fã da versão original do clássico de L. Frank Baum: “Os personagens são fantásticos. A Doroteia eu já imaginei como uma boneca de pano; as bruxas, em vez de voarem numa vassoura, usam uma viola”.
Ilustrações de Nireuda Longobardi
Nireuda trabalhou com a arte da xilogravura. Xilo é um prefixo que se refere à madeira. Xilogravura é, portanto, a arte feita sobre madeira. A técnica nasceu na Ásia, mas no Brasil marcou as expressões artísticas nordestinas – como a literatura de cordel. Nireuda Longobardi se interessou pela técnica na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, onde se graduou em Educação Artística com habilitação em artes plásticas. Aprendeu, então, a desenvolver o processo que foi executado nas ilustrações do livro “O mágico di Ó”: “A gente começa lixando, impermeabilizando e limpando uma placa de madeira. Depois, é feito o processo de desenhar diretamente na madeira com um lápis macio. Em seguida, começa o processo de entalhe com goiva [uma espécie de pincel cortante com uma lâmina curta]. Tudo o que você tira da madeira fica em branco, em baixo relevo. E o que sobra, em alto relevo, é o que vai receber a camada de tinta”, explica.
Havia, no entanto, o desafio adicional de transportar as xilogravuras para as páginas de um livro: “É colocada uma folha de papel sobre a madeira-matriz e é feita uma pressão com ajuda de uma colher de pau ou uma prensa. Depois, o papel é retirado com cuidado e é pendurado em um barbante para a secagem”.
“O Mágico di Ó” traz ainda um outro elemento interessante: ele é, na verdade, a reprodução do roteiro do musical. Dessa forma, é construído todo em diálogo e traz as marcações que orientam diretores, atores e cenógrafos, de modo a se constituir também como um elemento rico para aqueles que têm interesse nas técnicas de produção de roteiros.
Ilustrações de Nireuda Longobardi
Mas, afinal de contas, como garantir que o leitor absorva toda a profundidade da obra lendo diálogos que, na teoria, são feitos para serem acompanhados pela interpretação dos atores, pelo faro do diretor, pelos figurinos, pelos cenários, pela música e pela iluminação do palco? Além das xilogravuras que ilustram a obra, o autor Vitor Rocha aposta na força das palavras. Que de tão fortes talvez sejam absorvidas de maneira ainda mais plena por escrito do que seriam em cima do palco: “Desde o começo imaginei que a história pudesse virar um livro. Existe uma costura de palavras e de referências que eu sempre quis que as pessoas observassem com mais calma. No teatro, esse não é o intuito. No palco, ele serve aos atores e a todo o resto. Eu queria que o público tivesse a oportunidade de ler com calma e observar esses detalhes na construção do texto”.
Um presente que ele comemora sobretudo pensando na memória de um país que ainda produz pouca dramaturgia: “É muito legal que a gente eternize um roteiro em formato de roteiro, que ele se perpetue. Para que outras escolas possam ler com os alunos, readaptar e trabalhar o teatro para além do conto de fadas. Não é dizer é o que o Leão faz. É dizer que o Leão está fazendo isso e você precisa interpretar desta forma. Tirar da narração em terceira pessoa é uma coisa muito poderosa”.
Há, portanto, uma infinidade de cenários e contextos nos quais a história original pode ser aproveitada. Em parte, com as mesmas lições. Ao mesmo tempo, observando como uma mesma narrativa pode ser contada e recontada de formas diferentes e com um impacto que jamais será o mesmo em dois lugares distintos. É assim, afinal de contas, que o autor pretende que a sua obra seja recebida: “’O Mágico di Ó’ ensina que não há lugar como o nosso lar. Mas isso vindo da boca de uma menina que vive em um ambiente familiar estável no Kansas é uma coisa. Outra coisa é ouvir isso de uma menina que é obrigada a deixar a sua terra por causa de questões sociais. Fazer com que ela acredite que esse é o melhor lugar do mundo provoca uma reflexão muito grande”.
Dedicados a pensar e estimular o desenvolvimento das crianças, livros confirmam também a força feminina no mercado editorial
Aproveitando que o Brasil e o mundo usam o mês de março para reafirmar a necessidade de que as mulheres ocupem cada vez mais espaços em diversas áreas, a Panda Books está lançando três livros assinados por autoras e ilustradoras.
Os livros são diferentes nos princípios, nas abordagens, nos temas e no público-alvo, mas guardam um elemento em comum: o desenvolvimento da criança. Em “Moleque”, Carmen Lucia Campos narra um dia comum na vida de um menino para mostrar ao público infantil a presença marcante dos idiomas africanos na composição do vocabulário do português brasileiro – com palavras como cafuné, cafundó, miçanga, tagarela, cangote, caramba, perrengue, zoeira, chilique, trambique, lengalenga e muvuca. A leitura ágil é facilitada pelas ilustrações da venezuelana Valentina Fraiz, que vive no Brasil há mais de duas décadas.
O livro ensina mais do que as palavras que têm origem na África. Além de um glossário com os significados de algumas expressões um pouco menos usuais, a autora aposta em um texto de apoio que versa sobre a resistência negra à escravidão e sobre o legado perverso do regime escravista, que a partir da Lei Áurea se converteu numa flagrante desigualdade social. Entender o caminho e as transformações que essas palavras percorreram é uma forma de aprender a própria trajetória dos escravos e de seus descendentes no Brasil.
Essa maneira de ensinar um pouco sobre algo tão importante para a história do nosso país certamente está em sintonia com outro dos lançamentos da Panda Books: “Receitas para Brincar” também aposta na interação entre passado e presente para apresentar às crianças de hoje um mundo que talvez a modernidade esteja escondendo. As autoras Josca Aline Baroukh e Lucila Silva de Almeida selecionaram 11 atividades lúdicas e completamente artesanais para divertir os leitores – na cozinha, fazendo lanches divertidos; com tintas, gravuras e modelagens para fazer arte; e nos jogos de tabuleiro.
Na prática, é como se o livro funcionasse como um “manual de instruções” para que as crianças descubram como planejar e executar novas brincadeiras. Aqui, é preciso criar para brincar. Assim como nos outros livros da dupla – “Parlendas para brincar”, com sua reunião de cantigas do folclore nacional, e “Adivinhas para brincar”, que coleciona charadas iniciadas com o famoso “o que é, o que é?” –, a ilustradora Camila Sampaio traz seu traço leve, colorido e muito bem distribuído ao longo das páginas.
Essa preocupação em colocar no papel algo que no passado era uma brincadeira de rua, dessas que todo mundo conhece, tem certa relação com “O registro e a educação pedagógica – Entre o real e o ideal… O possível”. Este não é um livro para crianças, mas é sobre elas. E, com uma abordagem voltada para educadores, realça a importância justamente de desenvolver um processo que passa por criar, executar e documentar.
Doutora em educação, Maria Alice Proença estimula professores, pedagogos e diretores a pensar em formas diferentes de trabalhar com os alunos. A partir de conceitos acadêmicos, a autora traz a definição de “registro” como um elemento importante para documentar essas novas abordagens e também o resultado empírico dessas experiências entre as crianças.
Trabalhar bem nesse período fundamental para a formação das gerações futuras também é uma forma de garantir que as meninas de hoje cresçam sabendo muito bem os espaços que ocupam e principalmente os que ainda devem ocupar nos próximos anos.
Sucesso com livros infantis, Olívio Jekupé segue fazendo da escrita instrumento de crítica e denúncia sobre os direitos que os povos nativos devem conquistar e preservar
Olívio Jekupé adentrava a adolescência quando alimentou o fascínio pela leitura a partir de uma coincidência geográfica: gostava tanto de jogar futebol que chegava ao local da partida horas antes do apito inicial. Até que, nas redondezas, achou uma biblioteca onde se encantou com as obras do baiano Jorge Amado, do filósofo argentino Henrique Dussel e do teólogo Leonardo Boff: “Lia algumas páginas todos os dias antes dos jogos”, recorda, apontando “Capitães de Areia” e seu impressionante registro da vida dos meninos de rua da Bahia como uma referência especialmente marcante para despertar a indignação e a necessidade de refletir sobre as questões brasileiras.
Como talvez fosse fácil de imaginar, Olívio tornou-se escritor com 21 títulos já publicados, a maior parte deles no concorrido mercado editorial da cidade de São Paulo. Hoje, o paranaense de 56 anos é reconhecido pelos livros infantis que colocam no papel as histórias que os povos indígenas, até agora, só registravam de maneira oral, de geração para geração.
Olívio Jekupé, autor do livro “O Saci Verdadeiro”
Algumas das histórias orais que viraram livros têm larga semelhança com relatos que todo mundo já ouviu pelo menos uma vez na vida: o Saci Pererê, por exemplo, foi fruto de uma transformação que diz muito sobre a história do Brasil. Ele é, para os guaranis, Jaxy Jaterê, o protetor da natureza. Os negros africanos trazidos para o continente sul-americano como escravos fizeram o Saci Pererê, que ganharia os seus contornos mais conhecidos a partir da obra de Monteiro Lobato, o escritor branco de “O Sítio do Picapau Amarelo”. O espanto de Jekupé com o resultado dessa miscigenação se tornou a base do livro “O Saci Verdadeiro”, lançado pela Panda Books. O protagonista, Karaí, percorreu exatamente o mesmo caminho do autor: saiu da aldeia, foi estudar na cidade e lá descobriu o Saci-Pererê. “Pererê” significa algo pouco educado em tradução literal para o idioma guarani. Pela Panda Books, Olívio também lançou “O presente de Jaxy Jaterê” e “A mulher que virou urutau”.
Na época das partidas de futebol, Olívio tinha uma trajetória comum a qualquer outro garoto que crescia em Cornélio Procópio, no extremo norte do Paraná, a praticamente 400 quilômetros de Curitiba. Diferentes mesmo, só o sobrenome e os passeios para a aldeia onde vivia a família materna. A aldeia não existe mais e até mesmo o nome dela já se perdeu nas memórias com o passar do tempo. Durante algumas décadas, essa seria a única relação direta de Olívio – nascido em 1965, numa fazenda em Novo Itacolomi, um distrito que ainda demoraria 28 anos para se tornar município – com a vida em uma aldeia guarani, uma das mais representativas etnias indígenas do continente sul-americano, que chegou a espalhar cerca de 2 milhões de pessoas pelo continente antes das invasões europeias.
Em 2000, ao se tornar mais um dos membros da aldeia Krukutu, às margens da represa Billings, no extremo da zona sul da capital paulista, Olívio encontrou a primeira oportunidade de alcançar grande projeção com o trabalho de escritor: “Nós éramos visitados por muitos turistas e ali eu comecei a vender alguns dos meus livros. Fui ficando conhecido”, diz, com orgulho.
A trajetória até lá foi cheia de percalços: em 1988, Olívio mudou-se para Curitiba e ingressou no curso de filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná: “A filosofia me despertou a escrever sobre a causa indígena. A gente estuda e fica cheio de ideias na cabeça e eu queria fazer alguma coisa. Eu dizia que um dia queria escrever um livro meu”. Veio para a capital paulista, recomeçou o curso praticamente do zero na Universidade de São Paulo e, depois de passar por muitas dificuldades, voltou para o Paraná em 1998 para viver pela primeira vez de fato dentro de uma comunidade nativa. Na aldeia Laranjinha, já havia realizado o sonho de publicar dois livros – sempre com textos altamente críticos –, mas os projetos, independentes, naufragavam diante da falta de leitores. “Era uma região onde viviam apenas fazendeiros e os chamados boias frias que trabalhavam para eles. Os boias frias ganhavam 7 reais por dia e não tinham dinheiro para comprar. Os fazendeiros eram muito ricos e não tinham interesse em saber sobre a causa indígena”, resume.
Na volta à São Paulo, na aldeia krukutu, o sucesso com os turistas logo se refletiu em um maior interesse das editoras. Era o início do século XXI, época de festejos pelos 500 anos do Brasil e a efeméride foi propícia para que o mercado editorial se tornasse um terreno mais amigável. Daí para que os textos críticos e reflexivos a respeito da realidade dos povos indígenas dessem lugar à literatura infantil foi um pulo. A capacidade de escrita chamou atenção até da prefeitura de São Paulo, que viu no texto de Olívio potencial para atrair a atenção e ensinar estudantes paulistanos sobre as tradições e a cultura do índio brasileiro.
“A mulher que virou urutau”, de Olívio Jekupé
Ao ser convocado para escrever para crianças, Olívio tinha frescas na memória as histórias que escutava de tia Erundina. Foi ela a responsável por inserir o então garoto no fascinante mundo das histórias transmitidas de maneira oral – sobretudo aquelas contadas no opy, a casa de reza dos povos guarani. Um costume que, mesmo morando na cidade, ele cultivava contando essas mesmas histórias todas as noites para os seus filhos: “A coisa mais forte do mundo é a oralidade. Eu gosto mais de textos críticos, mas eu vejo a publicação dessas histórias como algo legal porque é um registro importante. Muitas histórias se perderam”. A resposta ajuda a entender como o próprio escritor enxerga a sua obra: a literatura infantil foi uma inesperada – e agradável – surpresa para um autor que segue orgulhoso do ativismo que marca os seus textos.
Não é difícil entender por que, apesar do sucesso na literatura infantil, o autor tem tanto orgulho da sua veia contestadora. Na infância, entre a cidade e a aldeia, Olívio folheou tantos livros que começou a escrever: “Eu achava que já era escritor. Escrevia poesias e romances. Nunca publiquei um romance, mas até hoje tenho esses textos guardados”, conta. Era 1984. Quatro anos antes, o líder indígena Ângelo Kretã havia morrido em um acidente automobilístico de circunstâncias controversas. O ativista ambiental batalhou pela preservação e recuperação de terras conhecidas pelas vastas plantações de araucárias, as árvores típicas do Paraná. A postura combativa e bem-sucedida despertou o indesejado interesse de latifundiários e madeireiros, a quem Olívio credita a suposta emboscada que vitimou Kretã. A luta do cacique chegou ao fim, mas a do futuro escritor estava começando: “Fiquei preocupado e pensei que tínhamos que escrever sobre coisas assim”.
Hoje, Olívio divide a sua produção entre os livros infantis e a literatura crítica. Depois de anos de avanços, ele observa, preocupado, o retrocesso na relação entre o Brasil e os povos nativos nos últimos anos, sobretudo a partir da eleição do presidente Jair Bolsonaro, em 2018: “O atual presidente se elegeu em cima dos povos indígenas. Ele joga o povo contra o povo e jogou toda a sociedade contra a gente. Ele disse que não ia dar um centímetro de terra para os índios brasileiros. Nós somos 1 milhão num país de 200 milhões, então a gente precisa batalhar muito. Não somos vagabundos. Sempre digo que, mesmo que um de nós não faça nada, ainda está fazendo mais do que o resto porque nós preservamos e vocês destroem”, desabafa ele, que atualmente vive na aldeia Kakané Porã, em Curitiba.
Em 2014, a Fifa, que se preparava para organizar a Copa do Mundo no Brasil, foi à aldeia krukutu para encontrar um jovem que pudesse entrar em campo junto com os jogadores do Brasil e da Croácia na partida de abertura, em Itaquera, na zona leste de São Paulo. O escolhido foi Jeguaká, um dos cinco filhos de Olívio – os demais são a professora Kerexu, 24 anos, a artesã Gisele, 20, e os também escritores Tupã, 22, e Jekupé Mirim, 18. Depois de cumprir todo o protocolo, Jeguaká sacou do calção uma faixa que dizia “Demarcação já”, em letras grandes e para o mundo todo ler. O pedido pela demarcação das terras indígenas era tudo o que os dirigentes mais importantes do futebol mundial menos queriam ver, mas correu o mundo.
Hoje, aos 20 anos, Werá Jeguaká Mirim virou o rapper Owerá Kunumi MC, que já foi tema de documentário, gravou com Criolo e lançará em breve uma canção com o DJ Alok. Jeguaká lançou pela Panda Books o livro “Kunumi Guarani”. O pai fala com orgulho das letras e melodias que levam o legado da família adiante: “As pessoas acham bonito e ficam emocionados, mas não sabem do que estamos falando. Se traduzirem a letra, vão ver que também é só porrada. Estamos dizendo: devolvam as terras que vocês nos roubaram”.
Com novos autores e mercado em alta, o gênero aproveita a herança dos clássicos estrangeiros
Não faz tanto tempo assim que os aficionados pela literatura fantástica precisavam recorrer a títulos estrangeiros para encontrar boas histórias ambientadas em galáxias distantes e universos extraordinários povoados por seres sobrenaturais. Pouco a pouco, porém, o panorama vem mudando: a literatura de fantasia, que já há várias décadas vem varrendo as prateleiras e lotando os cinemas em países como os Estados Unidos, passou a ser também um caminho possível para produções completamente brasileiras.
A Panda Books acaba de lançar “Alek Ciaran e os Guardiões da Escuridão”, um romance de fantasia da escritora paulista Shirley Souza. Na história, Alek é um garoto que, em meio aos conflitos normais de qualquer adolescente, acaba sendo transportado para uma civilização desconhecida, de um mundo antigo, onde se tornará um elemento decisivo nos conflitos entre os ciaran e os anuar. “Por mais fantástica que seja uma narrativa, ela conversa conosco de maneira íntima e fala de sentimentos e valores com os quais nos identificamos”, afirma a autora. “Não tive uma preocupação em construir uma costura entre a fantasia e o real. Esse entrelace surge de forma natural”. Shirley revela que muitos capítulos do livro surgiram na verdade enquanto ela estava dormindo – e sonhando.
A receita remete ao que talvez seja o maior sucesso do gênero de fantasia na literatura juvenil: ao longo de sete edições, a saga de Harry Potter, publicada entre 1997 e 2007 pela escritora britânica J.K. Rowling, revolucionou o mercado ao seguir exatamente esta receita – abordar conflitos reais dentro de um universo fantástico – para conectar milhões de jovens leitores, que compraram 450 milhões de cópias no mundo todo. A brasileira Claudia Fusco, mestre em estudos de ficção científica na Universidade de Liverpool, na Inglaterra, confirma que a série teve um papel fundamental na formação de um público leitor para o gênero: “Foi o meu contato mais intenso com a literatura fantástica. Eu era completamente apaixonada, fazia parte de fóruns de discussão… Temos muitos talentos chegando todos os dias e torço para que eles também sejam responsáveis pela formação de novos leitores”, diz ela, que concede méritos também à trilogia “Jogos Vorazes”, lançada entre 2008 e 2010 pela norte-americana Suzanne Collins.
Shirley Souza, autora do livro “Alek Ciaran e os Guardiões da Escuridão”
A história da autora de Alek Ciaran endossa a percepção de Fusco, mas reúne um cardápio de influências que conta também com títulos como “O Senhor dos Anéis”, “O Hobbit”, “O Livro do Cemitério”, “Lugar Nenhum” e “Sandman”: “Sou fã de terror, fantasia e ficção científica. Em “Alek Ciaran”, fiz uma homenagem à Michael Ende, autor de “História sem fim”, o primeiro livro de fantasia que me marcou. São muitos os criadores e as obras que me marcaram ao longo da vida. Passaria horas comentando cada um”, diz Shirley. Formada em publicidade e propaganda, ela tem 15 anos de experiência como autora. São 40 títulos publicados e dois importantes prêmios conquistados: o brasileiro Jabuti, por “Caminho das Pedras”, na categoria livros paradidáticos; e o argentino Jóvenes del Mercosul, por “Rotina (nada normal) de uma adolescente em crise”, ambos em 2008.
Com o seu trabalho mais recente em parceria com a Panda Books, Shirley Souza coloca mais um tijolo na fortaleza que a literatura fantástica vem construindo no mercado nacional e internacional. Se antes para muitas pessoas esse gênero literário nem mesmo podia ser considerado literatura, hoje a aceitação é muito maior entre leitores, críticos e no mercado das editoras também. “A literatura fantástica sempre foi um tanto marginal. Sempre foi rotulada como ‘literatura de entretenimento’ e isso restringia bastante o mercado brasileiro, sim. A produção brasileira existe há muito tempo e conhecemos pouco desse passado. Até hoje ainda há quem torça o nariz”, admite a autora. “O engraçado”, prossegue, “é que essa literatura atrai. Cada vez que visito uma sala de aula e digo que escrevo essas narrativas, a conversa ganha um fôlego impressionante”.
De fato, o uso de elementos fantásticos na literatura brasileira não começou ontem. Em uma dissertação do curso de pós-graduação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro em 2018, a pesquisadora Karla Menezes Lopes Niels avalia, por exemplo, que a coletânea “Noites na Taverna”, lançada em 1855 por Álvares de Azevedo, reúne diversos elementos próprios do gênero. “O momento atual é bem empolgante. Estamos lendo e produzindo muita coisa nova. São tempos bem importantes para a formação de leitores de fantasia, ficção científica e horror no Brasil”, avalia, otimista, Cláudia Fusco. Com as novas tecnologias, as narrativas continuam ultrapassando o campo da literatura. Não só no cinema, como aconteceu com Harry Potter, mas também nos serviços de streaming, nas redes sociais e nos videogames. A dupla Carolina Munhoz e Raphael Draccon, por exemplo, já vendeu cerca de 1 milhão de exemplares na soma dos 10 títulos publicados. Com o sucesso, o casal foi convidado para assinar roteiros de séries de terror, drama e ficção científica para gigantes de produção de conteúdo como a Rede Globo e a plataforma de streaming Netflix.
Todos os dias, cerca de 600 mil pessoas fazem aniversário no Brasil. Por isso, há anos, “Parabéns a Você” lidera o nosso ranking das músicas mais cantadas. A melodia foi criada pelas irmãs americanas Mildred e Patricia Smith Hill, que davam aula numa escola primária em Louisville, em 1875. Turistas americanos trouxeram a canção para o Brasil no final dos anos 1930. Mas havia um radialista, defensor da música brasileira, que não se conformava em ouvir as famílias cantando em inglês. Em outubro de 1941, ele lançou um concurso para a escolha de uma letra em português para aquela música. O concurso teve 5.000 participantes e a ganhadora foi uma dona-de-casa de 40 anos, moradora de Pindamonhangaba-SP: Bertha Celeste Homem de Mello. O jornalista e escritor Marcelo Duarte está lançando “Parabéns a Você”, uma obra juvenil que conta a história de Bertha dentro de uma trama ficcional cheia de suspense. A capa e as ilustrações são de Evandro Marenda. Nessa entrevista ao Panda News, Marcelo conta como foi o trabalho de pesquisa e de escrita.
Parabéns a você… pelo livro!
[risos] Muito obrigado! Costumamos desejar muitos anos de vida, né? E esse livro demorou dez anos para ficar pronto!
Dez anos? Como assim?
Tive a ideia de escrever a biografia do “Parabéns a Você” e de sua criadora, Bertha Celeste Homem de Mello, em 2011. Fiquei encantado com a história da música americana, do concurso de rádio que elegeu a versão brasileira, o fato de ser há anos a canção mais executada no país. Inicialmente, meu plano era lançar o livro nas comemorações dos 70 anos da letra em português do “Parabéns a Você”, em 2012. Fiz uma primeira pesquisa para saber tudo o que já tinha sido publicado sobre ela – e não era tanta coisa assim. As reportagens meio que se repetiam. Até que consegui o contato da única neta de Bertha, Eliana Homem de Mello Prado, e marquei uma entrevista. Conversei por duas horas com Eliana e percebi que a vida de Dona Bertha tinha sido bastante simples, o próprio concurso não foi assim um grande acontecimento na época. Saí com a sensação de que a história poderia não render um livro. Mesmo assim, fiz um esboço do livro e acabei desistindo.
Marcelo Duarte, autor do livro “Parabéns a você”
O que fez você retomar o projeto?
Na verdade, ela nunca saiu da minha cabeça. No começo da pandemia, eu comentei comigo mesmo que a música iria completar 80 anos no começo de 2022. Então reli todo o material que eu tinha pesquisado. Era uma época em que eu estava com uma agenda cheia de lives com escolas. Conversando com as crianças, certa manhã, tive um estalo. Por que não escrever uma história ficcional em que eu contasse a história verdadeira de dona Bertha? Pensei numa história de suspense policial, que combinaria bem com os anos 1940. E, no final das contas, só sei que foi uma delícia escrever.
A história se passa nos anos 1940 em Pindamonhangaba, onde Bertha Celeste morava. Você foi visitar a cidade?
Sim, claro. Viajei até Pinda, que fica a 150 quilômetros de São Paulo, principalmente para fazer uma pesquisa nas edições do jornal “Tribuna do Norte” entre 1941 e 1943. Foi uma viagem no tempo. Mas não encontrei uma única linha sobre o concurso e sobre a vitória de uma cidadã pindamonhangabense. Não é fácil falar esse gentílico… Parece que vai travar a língua [risos]. O que eu consegui foi pegar nomes de estabelecimentos, de pessoas e de ruas da cidade da época. Coloquei até os filmes que o cinema da cidade estava exibindo naquele momento…
O que você fez com aquele material de dez anos atrás?
Toda a pesquisa de 2011 entrou no livro também. Está num capítulo especial, depois que termina a parte ficcional. Assim o livro cumpre totalmente a sua função. Diverte e informa. A principal descoberta é que todas as reportagens que eu tinha lido sobre o concurso diziam que ele tinha sido promovido pela Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Na verdade, o radialista Henrique Foréis Domingues, conhecido como “Almirante”, lançou o concurso no programa “Orquestra de Gaitas da Rádio Nacional”, em outubro de 1941. A ganhadora foi anunciada no dia 6 de fevereiro de 1942. Almirante só se transferiu para a Rádio Tupi um mês depois.
O jornalista escocês Andrew Jennings, o inimigo número 1 da FIFA e de cartolas como João Havelange, Joseph Blatter e Ricardo Teixeira, morreu no dia 8 de janeiro, aos 78 anos. Jennings já havia investigado a máfia italiana, o Comitê Olímpico Internacional e até a corrupção dentro da Scotland Yard. Mas comprou a maior de suas brigas, contra a FIFA, em 1999. Revelou como as eleições internas são manipuladas, como funciona a compra de direitos de transmissão e até as negociatas para a escola do país-sede de uma Copa do Mundo. Jennings foi o primeiro jornalista da história a ser banido de todas as instalações, de todos os eventos e de todas as entrevistas coletivas da entidade sediada em Zurique, na Suíça. Seus dois principais livros – “Jogo Sujo” e “Um Jogo Cada Vez Mais Sujo” – foram publicados pela Panda Books. O diretor editorial Marcelo Duarte deu um depoimento sobre os tensos bastidores para publicação das duas obras:
“Na cobertura da Copa da África do Sul, em 2010, eu descobri numa livraria de Joanesburgo o livro ‘Foul!’, do repórter investigativo escocês Andrew Jennings. A orelha dizia que o livro tinha sido traduzido para 12 línguas e foi transformado em documentário pela BBC. ‘Foul!’ acabou sendo a minha leitura no voo de volta. Devorei o livro e, ao chegar em casa, escrevi para o próprio Jennings. Negociei com ele os direitos para a publicação da obra em português. O livro foi lançado no Brasil com o nome de ‘Jogo Sujo – O mundo secreto da FIFA: Compra de votos e escândalo de ingressos’. As denúncias foram o estopim para a maior investigação do submundo do futebol, que acabou com a prisão de vários dirigentes. Jennings esteve no Brasil para um seminário sobre jornalismo investigativo e tive o privilégio de conhecê-lo. ‘Jogo Sujo’ serviu de inspiração para muitos outros livros investigativos de futebol que vieram logo depois.
No final de 2013, Jennings me escreveu para avisar que estava trabalhando em um novo livro, uma espécie de continuação do primeiro , mas com bastidores de corrupção envolvendo também a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Queria que o livro fosse publicado primeiro aqui e só depois no resto do mundo. Para conseguirmos lançar a obra antes da Copa, ele teve que ir mandando os capítulos aos poucos, à medida que ia terminando. A Panda Books agendou o lançamento de ‘Um jogo cada vez mais sujo – O padrão FIFA de fazer negócios e manter tudo em silêncio’ para 5 de maio. No dia 22 de abril, eu enviei o capítulo 7 (‘Você quer comprar ingressos para a Copa do Mundo?’), que detalhava a ação da máfia de desvio e revenda de ingressos, para o jornalista Juca Kfouri, blogueiro do UOL, como estratégia de divulgação. No dia seguinte, começamos a receber pesadas ameaças de dois escritórios internacionais de advocacia que representavam a FIFA e o Comitê Organizador. Mas resolvemos confiar e bancar a apuração de Andrew. A Panda Books colocou o livro no mercado com o coração na mão.
Uma semana antes da final da Copa, Raymond Whelan, CEO da Match, empresa que tinha exclusividade para venda de camarotes e pacotes corporativos em eventos da Fifa, foi detido em operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro. As denúncias do livro ‘Um jogo cada vez mais sujo’ estavam ali todas confirmadas. Mais um golaço de Jennings.”
Jennings irá fazer muita falta a quem torce pelo lado limpo do futebol. Morreu no sábado, dia 8 de janeiro, aos 78 anos.
Romance escrito na primeira metade do século XIX ganhará nova tradução no Brasil
Quando a mais nova tradução do romance “Oliver Twist”, escrito pelo britânico Charles Dickens, for lançado no Brasil no final de janeiro, a obra estará perto de completar 185 anos de vida. O livro, cuja primeira parte foi concluída em 1837, será o segundo da série “Clássicos Internacionais”. da Panda Books, inaugurada este ano com “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde.
Confira 10 curiosidades sobre “Oliver Twist”:
1. Charles Dickens tinha apenas 25 anos quando começou a publicar o livro em forma de folhetim na revista “Bentley’s Miscellany”. Os 53 capítulos, em geral, eram publicados de dois em dois: os dois primeiros foram lançados em fevereiro de 1837 e os dois últimos em abril de 1839.
2. “Oliver Twist” foi publicado pela primeira vez no Brasil em 1870, também em forma de folhetim no “Jornal da Tarde”, do Rio de Janeiro. Documentos da época indicam que uma parte dos textos foi traduzida por Machado de Assis, que colaborava para o periódico à época.
3. A obra já foi adaptada 18 vezes para o cinema. Na primeira delas, em 1909, o cinema ainda era mudo. “Oliver!”, um filme britânico de 1968, faturou o Oscar de melhor fotografia; neste século XXI, foram duas adaptações: uma em 2005, sob a batuta do diretor Roman Polanski; e a mais recente em 2021, produzida pelo canal SKY Cinema, do Reino Unido, e ambientada nos dias de hoje.
4. Além das versões cinematográficas, “Oliver Twist” se transformou em programas de TV em sete oportunidades – no Reino Unido, na Austrália, na França e nos Estados Unidos; a primeira versão foi da BBC, como um seriado de 13 capítulos, em 1962; a mais longa foi uma adaptação franco-americana em forma de desenho animado com 52 capítulos, que foi ao ar entre 1996 e 1997. A obra ganhou também um musical, que já foi traduzido para cerca de 20 idiomas.
5. A personagem Fagin fez com que a obra fosse acusada, desde a sua publicação, de antissemitismo por causa da construção estereotipada do homem judeu; no livro “Antissemitismo: uma enciclopédia histórica de preconceito e perseguição”, lançado em 2005 pela inglesa Nadia Valman, a obra é criticada por associar Fagin – muitas vezes classificado apenas como “o Judeu” – ao
Diabo.
6. O ano em que “Oliver Twist” começou a ser publicado, 1837, também foi o ano que marcou a ascensão ao trono da Rainha Vitória no Reino Unido; a Era Vitoriana, que terminaria apenas em 1901, foi marcada, dentre outras coisas, por escancarar a desigualdade entre as classes sociais. As críticas à sociedade britânica foram uma grande marca do livro e ajudaram o texto de Dickens a se aproximar dos leitores.
7. Logo nos primeiros capítulos, quando apresenta a personagem que dá título à obra, Dickens aborda um dos principais problemas do Reino Unido no início do século XX: o trabalho infantil. No livro, Oliver Twist começa a trabalhar aos 12 anos em uma fábrica que produzia graxa para sapatos. Documentos da época registram crianças de até 4 anos de idade trabalhando em fábricas, além de inúmeros casos de acidentes de trabalho, alergias e doenças relacionadas às atividades precoces. O subtítulo original – A Parish Boy’s Progress – também faz menção a esta questão: “parish boy”, algo como “garoto da freguesia”, era como se chamavam os meninos que trabalhavam nas fábricas.
8. “Oliver Twist” traz algumas referências da vida do autor: além de ter ele próprio trabalhado na infância, Dickens também sofria de epilepsia, mal que afeta a personagem Monks. Já a criminosa Nancy guarda muitas semelhanças com Eliza Greenwood, uma assassina que marcou a cultura popular britânica no século XIX.
9. Charles Dickens morreu em 1870, aos 58 anos, deixando um pedido: ele jamais gostaria de ser transformado em estátua. Não foi atendido: já em 1891 foi erguida a primeira estátua na Filadélfia, nos Estados Unidos; em 2013 veio outra, em Portsmouth, sua cidade natal, na Inglaterra.
10. A residência onde o autor morava, em Londres, quando lançou Oliver Twist, hoje abriga o Museu Charles Dickens. O local reúne retratos, manuscritos, itens pessoais e até a escrivaninha onde o livro foi escrito. A casa também tem uma programação de espetáculos teatrais que, em geral, fazem referência à vida e à obra do homenageado.
Livro reúne artigos de 17 autores para compartilhar práticas inovadoras que colocam o aprendizado no centro do planejamento pedagógico
De que forma um estudante aprende mais em sala de aula? Essa pergunta parece difícil de ser respondida, mas depois de algumas décadas de pesquisas um grupo de educadores chegou a uma conclusão: o aprendizado é mais eficiente quando professores, diretores e alunos entendem cada etapa do processo.
Planejar, anotar, escrever, tornar explícito para o estudante de que forma ele vai aprender, criar mecanismos para que ele perceba o próprio aprendizado e, por fim, criar estratégias de avaliação que sejam capazes de detectar com clareza a evolução de cada um são alguns dos princípios da “aprendizagem visível”, uma expressão criada há pouco mais de uma década pelo neozelandês John Hattie, mas que resume um século de reflexões sobre a necessidade de otimizar o processo de ensino.
Depois de mais de duas décadas pesquisando o tema, pensando a educação e formando professores, a consultora pedagógica Julia Pinheiro Andrade resolveu organizar uma coletânea de práticas e reflexões inovadoras baseadas nesta ideia: “Aprendizagens visíveis: Experiências teórico-práticas em sala de aula” foi lançado pela Panda Books e reúne artigos de 17 autores – Julia e mais 16 convidados.
“Os textos têm total autonomia entre si. A introdução condensou a base teórica comum e então é possível ler autonomamente cada capítulo sem prejuízo na compreensão”, explica Julia.
Se ainda parece um pouco difícil enxergar de que inovações estamos falando, a autora dá algumas pistas: “Discutimos princípios de planejamento e formação continuada de professores evidenciando mudanças de concepção. Mostramos também algumas práticas “mão na massa” [quando o aluno produz algo com as próprias mãos], que são documentadas para que haja reflexão sobre o que foi produzido. Temos o “thinking design” para pensar como a gente articula essas estratégias de visibilidade do aprendizado, temos capítulos sobre estratégia de avaliação e temos capítulos sobre estratégias de compreensão pra entender como a gente pode alinhar ensino, currículo e avaliação dentro essa ideia de desenvolver a compreensão e não a memorização mecânica e ainda fazer isso de maneira visível para todos”, enumera.
Nessa entrevista, ela explica o que é a aprendizagem visível e traz detalhes sobre o processo de curadoria da obra.
O que este livro e principalmente este conceito das aprendizagens visíveis acrescentam para o debate sobre a educação do Brasil neste momento?
Pesquiso as aprendizagens visíveis desde 2015 e conheci muitas práticas potentes dentro e fora do Brasil. Quis organizar uma coletânea dessas práticas porque faltam materiais em português. Desde o início, a preocupação foi fazer uma curadoria com práticas transformadoras que tivessem fôlego para fazer uma reflexão teórica. São abordagens inovadoras que vão do ensino fundamental até o ensino superior. São práticas que alinham os objetivos, as estratégias metodológicas e as estratégias de avaliação, que tornam esse aprendizado visível porque documentam o aprendizado fazendo com que os estudantes desenvolvam uma consciência sobre o que eles estão aprendendo. Começar a trabalhar desse jeito é um caminho sem volta. Você não faz mais de outro jeito.
O livro reúne textos de 17 autores. Como foi feita essa curadoria?
Eu tinha alguns parceiros nas pesquisas sobre o tema desde o começo. Depois, selecionei algumas autoras que já trabalhavam baseadas no Projeto Zero [centro de pesquisa inaugurado em 1967], da Universidade de Harvard. Em seguida, olhei para o lado e vi quem estava desenvolvendo práticas inovadoras. Ao menos dois convites não se concretizaram por falta de tempo. Mas outros livros virão!
O neozelandês John Hattie é uma espécie de ‘pai’ da bibliografia sobre aprendizagens visíveis em nível internacional. Trata-se de algo mais ou menos recente como literatura. Quais são os principais preceitos e conceitos que representam a ideia de aprendizagem visível?
Hattie teve a felicidade de dar o nome a esse conceito dentro da sua metanálise, que buscava entender os fatores que mais influem no aprendizado para que a gente entenda em quais deles vale investir o tempo. Mas, do ponto de vista pedagógico, não é algo novo. Nova é a pesquisa. O que ele fortalece é algo que já era apontado por toda a pedagogia crítica ao longo do século XX: quando o estudante se envolve em atividades autênticas, com critérios e objetivos conhecidos, e se envolve também no sentido de ganhar consciência sobre o que está aprendendo, ele aprende mais. Isso já aparecia nas pesquisas de vários autores, inclusive do Paulo Freire. O próprio Projeto Zero já estuda o tema há mais de 50 anos e essa é a espinha dorsal do livro. Hattie organizou evidências robustas de pesquisa para explicitar o que é essencial.
O título do livro fala em “experiências teórico-práticas”. Como foi o equilíbrio entre essas duas vertentes – a teoria e a prática?
São estratégias que são refletidas teoricamente, mas todas elas foram colocadas em prática. Esse foi o pedido para todos os autores: eu os convidei por causa das práticas que eles desenvolvem, mas eu queria que houvesse reflexão teórica. Então, em todas as práticas, há uma contextualização sobre qual é a base teórica, quais são os conceitos-chave e como esses conceitos podem ser aplicados na sua realidade. A ideia é que os leitores se inspirem nessas práticas para potencializar as suas próprias práticas em sala de aula. Como eu posso ampliar a minha prática? O que eu posso testar? Esse é o convite.
Falamos aqui de mudanças muito bruscas na forma de ensinar e avaliar. Na sua visão, essas ideias estão em conflito com o modelo padrão da educação brasileira? O professor tem a autonomia para aplicar esses conceitos ou será preciso se chocar com o diretor da sua escola ou até mesmo com as diretrizes do Ministério da Educação?
Todos os autores trabalham com formação de professores, então esse é um debate comum para eles. Todo professor, respeitando as orientações curriculares, consegue desenvolver a aprendizagem visível, a documentação da aprendizagem e a explicitação do processo de maneira mais significativa. Porém, é muito evidente que, quando há um conjunto de professores atuando dentro essa ideia, tudo fica mais potente. Essa é uma das observações da metanálise, de John Hattie. A inteligência coletiva cria uma cultura dentro de sala de aula. Quando a gestão está envolvida, temos as escolas que querem criar uma cultura de pensamento baseada no alinhamento entre os objetivos do currículo, a estratégia de aprendizado e a avaliação do processo.
O Brasil tem escolas, professores, alunos e condições de trabalho muito diferentes -não só de uma região para outra como muitas vezes dentro de uma mesma cidade. Essas ideias são universais? Ou a aplicabilidade é restrita a uma realidade específica?
Todo mundo pode fazer. São princípios. Claro que depende do espaço pedagógico que a escola oferece para esse tipo de visão. Em sistemas apostilados e muito controlados no que diz respeito ao tempo para tratar de cada tema, o espaço pra cultura do pensamento e do debate é menor. Em escolas baseadas em projetos autorais, o espaço é maior. Mas está documentado no livro: os conceitos podem ser adaptados mesmo nos modelos mais rígidos. As ideias já foram aplicadas inclusive em grupos enormes, de maneira online e presencial. É mais difícil do que em uma turma não tão grande, onde é possível criar espaços de debate, mas é possível.
Você mencionou o aprendizado remoto e esta foi uma das grandes novidades trazidas pela pandemia da covid-19. O que esta crise sanitária e os seus impactos na educação trouxeram de novo para o livro e para o conceito no qual ele se baseia?
O livro nasceu antes da pandemia, então as práticas também são anteriores. Mas várias delas foram lecionadas durante a pandemia. Há, inclusive, a documentação de aplicativos que foram usados no período de ensino remoto para auxiliar os registros e a interação entre os estudantes. Tem muita ilustração, muito QRCode, muitos links que foram utilizados… O princípio é tão eficaz que ajudou muito nesse período.
Eleição de “Sagatrissuinorana”, de João Luiz Guimarães e Nelson Cruz, traz esperança de maior reconhecimento para os autores do gênero
A vitória na categoria Livro do Ano na 63ª edição do Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, pertenceu a apenas dois autores: João Luiz Guimarães (texto) e Nelson Cruz (ilusrrações). Um universo muito maior de escritores, no entanto, se permitiu celebrar a escolha de “Sagatrissuinorana”. O reconhecimento à obra que homenageia o escritor mineiro Guimarães Rosa ao mesmo tempo em que relembra as vítimas das tragédias ambientais das cidades mineiras de Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019, pode marcar um ponto de virada no status da literatura infantil, muitas vezes vista como algo “menor”.
Essa é a aposta de Tino Freitas, autor de “Um abraço passo a passo”, lançado pela Panda Books em 2016. Para ele, o próprio espanto causado por essa escolha mostra como este gênero tão importante é ao mesmo tempo tão subestimado: “A gente precisa estar mais presente nesses espaços. A escolha do Jabuti é uma forma de marcarmos território e mostrarmos que nós pertencemos a este ambiente artístico onde a literatura é uma forma de arte que emociona, desconcerta e surpreende”.
Penélope Martins, que assina “Aventuras de Pinóquio”, que a Panda Books lançou em 2018, vê a premiação como “um marco para todas as pessoas que dedicam suas vidas para fazer da leitura um direito de todas as pessoas”. E adiciona: “Escrever infâncias é voltar ao genuíno lugar de nós mesmos, à capacidade de dizer a vida ao brincar, construindo saberes na partilha. Isto é a razão de escrever e ler porque só somos humanos no espaço dialógico em que as ideias são trocadas e as reflexões permitem a construção de algo novo. Por isso, um viva para ‘Sagatrissuinorana’ e para todas as pessoas, editoras, escolas, famílias e leitores que acreditam no poder de contar histórias”.
Dentro do próprio Prêmio Jabuti, a categoria Livro do Ano é recente. Teve início em 2018. Mas desde 1991 havia uma premiação chamada “Livro do Ano Ficção”, que jamais consagrou a literatura infantil e premiou grandes nomes como Chico Buarque de Hollanda (por “Estorvo”, em 1992, “Budapeste”, em 2004, e “Leite derramado”, em 2010), Carlos Heitor Cony (por “Quase memória”, de 1996, e “A casa do poeta trágico”, de 1998), Rachel de Queiroz (por “Memorial de Maria Moura”, em 1993), Lygia Fagundes Telles (por “Invenção e memória”, em 2001), Manoel de Barros (por “O fazedor do Amanhecer”, em 2002), Nélida Piñon (por “Vozes do deserto”, em 2005), Ferreira Gullar (por “Resmungos”, em 2006), Ignacio de Loyola Brandão (por “O menino que vendia Palavras”, em 2008) e Luís Fernando Veríssimo (por “Diálogos impossíveis”, em 2013).
A partir de 1993, o Jabuti também passou a premiar o “Livro do Ano Não Ficção” – unificando as duas categorias em 2018 –, tampouco sem consagrar a literatura feita para as crianças, mas premiando trabalhos de fôlego como “Rota 66 – A história da polícia que mata”, de Caco Barcellos, em 1993; “Estrela solitária”, de Ruy Castro, em 1996; “Estação Carandiru”, de Dráuzio Varella, em 2000; ou a trilogia “1808” (em 2008), “1822” (em 2011) e “1889” (em 2014), todos de autoria de Laurentino Gomes. Essa prateleira respeitável torna ainda mais impactante a presença de um livro infantil nesta galeria consagrada. No último dia 25, na entrega do prêmio, Vitor Tavares, presidente da Câmara Brasileira do Livro, responsável pelo Jabuti, avaliou que o resultado reafirma a criança como o motor da literatura nacional: “É formando jovens leitores que conseguimos difundir os livros em todas as esferas da sociedade brasileira”, afirmou. “Por isso, é tão importante termos uma produção relevante para oferecer aos pequenos”.
Tino Freitas chama atenção inclusive para o fato de a eleição ter sido feita com a obra classificada como “livro infantil”, e não como um “livro ilustrado”: “Ganhou como livro infantil e ganhou como livro do ano enquanto livro infantil. A percepção de que ‘livro ilustrado’ é algo maior do que ‘livro infantil’, além de equivocada, não corresponde à verdade do Jabuti. O prêmio escolheu um livro feito para crianças como o melhor livro do ano e essa é a grande notícia”, resume.