Megafauna brasileira em livro e num jogo de cartas

Biólogo e paleontólogo fazem trabalho inédito sobre os animais que habitaram o território brasileiro, há dez mil anos, na Idade do Gelo – e os seus parentescos com a fauna atual

Você já ouviu falar dos notrotérios e dos gliptodontes? Saberia desenhar um pampatério? Prepare-se, então, para conhecer um pedaço ainda não revelado da história da fauna brasileira. Fauna, não. Megafauna. Lançado pela Panda Books, “Gigantes do Passado” é o livro que reúne informações e curiosidades sobre grandes espécies de animais que habitaram o território brasileiro durante a chamada Idade do Gelo, há cerca de 100 mil anos, e que de alguma forma estão relacionados a animais que estão por aqui até hoje, como onças, tatus e capivaras.

O texto é resultado de um encontro entre o biólogo Guilherme Domenichelli e o paleontólogo Ariel Milani Martine. Parceria iniciada há 20 anos. Além de serem nascidos na região do ABC, na Grande São Paulo, eles compartilham outras afinidades, que resultaram nesse lançamento. Os dois são professores (Ariel leciona em universidades, e Guilherme, nos ensinos fundamental e médio). “Gostamos de museus de história natural e também de estudar animais do passado”, acrescenta Guilherme, autor de quatro livros juvenis, todos publicados pela Panda. Cabe aqui, aliás, sublinhar a diferença fundamental entre biologia e paleontologia: o paleontólogo estuda a fauna do passado; o biólogo, a do presente.

Ficou a cargo de Ariel reunir as informações sobre este período distante da história, que habita o imaginário das pessoas de maneira muitas vezes distante do que foi a realidade. Afinal de contas, o planeta Terra já passou por diversos períodos glaciais, de temperaturas baixíssimas, mas poucos foram os que, de fato, congelaram todo o globo. Neste período glacial mais recente, o Brasil não congelou: “As pessoas têm uma ideia genérica de que na Idade do Gelo o mundo todo ficou coberto de gelo e a fauna era onipresente, como se tivéssemos, por exemplo, um mamute no território brasileiro. Comentando sobre esta confusão, percebemos que poderia dar um caldo para um livro”, lembra o paleontólogo. “Os bichos brasileiros eram diferentes dos bichos do Hemisfério Norte”.

Guilherme transportou essa história para os dias atuais. Alguns animais de hoje (como a onça pintada e o lobo guará) foram, em alguma época, contemporâneos e competidores desses gigantes extintos ou descaracterizados diante da evolução de suas espécies. Falando em evolução, alguns dos gigantes do passado evoluíram até desembocar em animais que hoje são conhecidos de todos nós: o notrotério, que abriu este texto, era um bicho-preguiça gigante; os tatus, por sua vez, guardam parentesco com os gliptodontes e os pampatérios: “Nós fizemos um paralelo muito bacana”, orgulha-se Guilherme. “Uma onça pintada disputou alimentos com um tigre-dente-de-sabre, por exemplo. Inclusive os humanos caçaram e foram caçados por esses bichos. Fizemos essa mistura porque ela existiu”.

Guilherme elogia também o trabalho do ilustrador Pábulo Dominicano, responsável por fazer a representação visual dessa mistura entre passado e presente, desenhando em um mesmo cenário as espécies extintas e as que estão conosco no presente. Ah, entra aqui uma outra ciência: a arqueologia, dedicada ao estudo do homem primitivo. Muito do que está no livro neste aspecto vem do trabalho da antropóloga Niède Guidon, uma das “feras da ciência” do Brasil exaltadas em um capítulo especial de “Gigantes do Passado”.

O livro já sai também com uma espécie de “spin-off” (produto derivado do original). Chega às livrarias ao mesmo tempo um jogo de cartas, no estilo Super Trunfo, com os animais de “Gigantes do Passado” A dupla reuniu fichas técnicas com peso, altura, hábitos e expectativa de vida de 50 animais, do passado e do presente (alguns não retratados no livro). Foi quando perceberam que a absorção seria melhor se isso se tornasse um jogo. As cartas são divididas entre os participantes e, de maneira alternada, eles escolhem um dos quesitos, comparam os números  e o vencedor fica com a carta do rival. É a cartada definitiva para que o livro atinja o seu principal objetivo: “Com tanta informação, a garotada entenderá que a paleontologia vai muito além dos dinossauros”, empolga-se Ariel. Eu também sou apaixonado por dinossauros, mas temos uma vida pretérita extraordinária”.

Livros infantojuvenis da Panda Books estão espalhados pelo mundo inteiro

Dezoito anos de vendas internacionais: Turquia é o novo mercado conquistado e título chega na China antes até de ser publicado no Brasil

Quando o primeiro exemplar de Nós duas foi vendido no Brasil, o leitor já podia conversar sobre a obra com alguém que estivesse literalmente do outro lado do mundo. Os direitos para a tradução do texto de Clarice Alphen e ilustrações de Cris Eich, publicado pela Panda Books, foram negociados tão rapidamente que o livro chegou às livrarias da China antes de a edição brasileira ser finalizada. Quem vê tamanha agilidade nesse contato comercial internacional mal pode imaginar o trabalho que a Panda Books teve para emplacar a primeira obra no país mais populoso do mundo: “Fomos procurados no final de 2011, começo de 2012…”, recorda Tatiana Fulas, uma das sócias da editora. “Naquela época, ninguém no Brasil tinha trabalhado com a China. Não sabíamos se estávamos trabalhando com editoras confiáveis ou não. Foi uma relação construída ao longo de muitos anos”.

Depois de incontáveis trocas de e-mails, um encontro na Feira de Bolonha, na Itália, em 2014, ajudou o negócio a se concretizar. “Foram quatro anos de namoro e aí, já numa primeira venda, os chineses publicaram quatro títulos nossos”, conta Tatiana, citando as versões chinesas de A incrível fábrica de cocô, xixi e pum, Em busca da meleca perdida e Pronto para o socorro, os três de Fátima Mesquita, e A viagem por dentro do cérebro, de Daniel Marins de Barros. Esses quatro livros são ilustrados por Fábio Sgroi.

Com Nós duas, a Panda Books chega a sete livros publicados na China desde então. A relação com as editoras do país asiático é tão boa que é difícil não imaginar que a escolha do panda, o animal preferido dos chineses, como nome e símbolo da editora, não tenha facilitado essa sintonia: “Algo me diz que foi por isso que entraram em contato com a gente”, brinca Tatiana. Muito além do nome, a afinidade também é editorial: todos os livros são infantojuvenis e abordam temas leves e divertidos, que é exatamente o que os editores chineses procuram na literatura estrangeira. Tatiana aponta que essa relação Brasil-China reproduz também uma tendência que se espalha pelo planeta: “Há um movimento mundial que coloca cada vez mais em evidência a literatura infantojuvenil brasileira e também a procura por novos mercados além de Estados Unidos e Europa”.

O sucesso com os chineses celebra a maioridade do projeto de internacionalização dos livros da Panda Books. Há 18 anos, em 2004, cinco anos depois da fundação da editora, a dupla O homem irresistível e A mulher irresistível, de Dalila Magarian, foi publicada no México. Dois anos antes, a Panda tinha vivido a primeira experiência na mão contrária, traduzindo uma obra estrangeira (Tudo bem ser diferente, do norte-americano Todd Parr). Aprender a comprar ajudou a Panda a aprender a vender: “Entendemos que poderíamos usar as mesmas condições que as editoras estrangeiras utilizavam para nos vender os direitos”, afirma Tatiana.

Pouco tempo depois, em 2008, um movimento importante do mercado editorial brasileiro serviu de combustível para este projeto: o lançamento do Brazilian Publishers, projeto de incentivo às exportações de livros nacionais, resultado da parceria entre a Câmara Brasileira do Livro e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos – ApexBrasil. “No passado, havia muita resistência à compra de direitos de livros brasileiros”, lembra Tatiana. “Sempre foi muito mais comum comprar títulos estrangeiros para traduzir aqui. Com o Brazilian Publisher, passamos a ser mais ativos. Antes, vendíamos apenas quando as editoras nos procuravam. Agora, passamos a frequentar as feiras internacionais, não só para comprar, mas também para vender”.

Àquela altura, em 2008, a Panda Books já desfrutava do assombroso sucesso de O doce veneno do escorpião. As histórias da garota de programa Raquel Pacheco, conhecida pelo pseudônimo Bruna Surfistinha, chegaram às livrarias brasileiras em 2005. Dois anos depois, surgiram as primeiras traduções: “O livro entrou muito rapidamente na lista dos mais vendidos, o que chamou a atenção dos agentes literários do mundo inteiro pela temática”, conta Tatiana. A obra foi negociada para cerca de 40 países.

Em todas essas negociações, a figura do agente literário é fundamental. São profissionais com experiência no mercado editorial e que têm a missão de construir pontes entre editoras de diferentes países. A Panda Books tem agentes dedicados especificamente aos mercados da Ásia, da América Latina e da Europa, cada um com a sua área de atuação. De modo geral, os livros com maior penetração nos mercados internacionais são aqueles que tratam de temas universais ou de questões mais existenciais: “Quando participo de reuniões com editores estrangeiros, eu sei o que vai funcionar e o que não vai, porque tratam de questões muito regionais”, admite Tatiana. Mas toda regra tem exceções. O livreiro do Alemão, de Otávio Júnior, por exemplo, atendia exatamente ao desejo de editoras da França e da Espanha por uma obra que retratasse a vida em uma favela do Rio de Janeiro. Já o Canadá tem procurado autores indígenas, como Werá Jeguaká Mirim. Além de autor de Kunumi Guarani, da Panda Books, ele é o rapper Owerá Kunumi MC, que já gravou com Criolo e Alok, fez sucesso fora do país e ajudou a abrir este mercado.

Na retomada dos eventos presenciais, em julho passado, na Bienal do Livro de São Paulo, a Panda Books conseguiu uma nova parceria para publicar As cores de Corina, de Carmen Lucia Campos e ilustrações de Camila Carrossine, na Turquia. Depois de dezoito anos e dezenas de títulos espalhados por dezenas de países, a sensação trazida por cada novo negócio fechado vai além das pretensões individuais da editora: “O principal é divulgar a literatura brasileira e o trabalho dos nossos autores e ilustradores no exterior”, finaliza Tatiana.

Um urso no percurso

Filho do consagrado escritor João Carlos Marinho, Beto Furquim não rejeita influências, mas trilha a própria caminhada como um “obcecado pelas palavras”

A história de “A barca do canoeiro” começou num exercício daqueles que só mesmo um apaixonado pelos vocábulos poderia desenvolver. O jornalista, músico, editor e escritor Beto Furquim procurava palavras dentro de outras para formar frases. A primeira delas foi “tem um urso no percurso”. Depois vieram outras: “é tempo de temporal”, “no estouro entra o touro” e “a foca quase sufoca”. Era tudo apenas uma brincadeira, sem pretensão, até a então namorada de Beto, Sandra, anunciar a senha: “Isso dá um livro”. Deu mesmo.

Da brincadeira ao livro, porém, era preciso amarrar uma história com começo, meio e fim. Foi então que o autor pensou na história da Arca de Noé. Fascinado pelo universo animal desde a infância, a ponto de colecionar fascículos para conhecer o maior número possível de espécies, Furquim passou a perceber que muitas das palavras encontradas dentro de outras palavras eram nomes de bichos – como você já deve ter percebido no parágrafo anterior. “Uma coisa legal foi juntar animais famosos, como girafa, leão, zebra, com outros, como os insetos, que geralmente são esquecidos quando se escreve para as crianças”, afirma ele, que se define como um “obcecado por brincar com as palavras”.

Brincar com palavras e amarrar histórias faz parte de um cotidiano que Beto Furquim viveu praticamente desde a sua infância. Com 58 anos recém-completados no último dia 21 de agosto, ele é o mais velho dos três filhos de João Carlos Marinho, um dos mais importantes escritores infantojuvenis da literatura brasileira, falecido em 2019. Celebrado especialmente pelo seu primeiro livro, “O gênio do crime”, de 1969, Marinho publicou dezenove obras e ganhou em 1982 o Prêmio Jabuti, o mais importante do país, na categoria juvenil por “Sangue Fresco”: “Acompanhar uma pessoa que está criando é algo que influencia”, conta o autor a respeito das suas memórias com o pai, a quem define como alguém que “tinha sempre a preocupação de ser surpreendente, fugir do óbvio e buscar o humor”.

Sem negar essa relação literária que veio do berço, Furquim rechaça qualquer comparação ou mesmo qualquer tentativa de alcançar a projeção dos livros do pai: “Também tenho outras influências, então não se trata de trilhar o mesmo caminho que o dele”, resume. Há, no entanto, um olhar especial para o fato de que a obra de João Carlos permanece nas prateleiras de sucessivas gerações, abordando costumes que também sobrevivem ao tempo. É o caso dos álbuns de figurinhas, protagonistas de “O gênio do crime” e que voltam a pipocar pelo Brasil inteiro às vésperas de mais uma Copa do Mundo: “Meu pai mostrava tudo o que escrevia para mim porque eu tinha a idade do público que ele queria. Ele buscava a identificação com o pensamento de uma criança de 9, 10 anos e com a criança de 9, 10 anos que ele próprio tinha sido”, lembra.

Depois do sucesso de “O gênio do crime”, João Carlos Marinho publicou, em 1971, “O caneco de prata”. Numa edição seguinte, ele modificou bastante o texto para se comunicar melhor com o seu público. Recentemente, Beto Furquim encontrou e compartilhou nas redes sociais um exemplar da versão original do livro que estava todo rabiscado com as ideias que temperariam as versões futuras. É só um dos exemplares do vasto acervo que hoje está sob responsabilidade de Cecília, a filha do meio de João Carlos e Marisa – o casal se separou em 1984 e Marisa faleceu em 2021: “Tem muita coisa interessante sobre o processo de escrita dele, principalmente sobre como ele fazia anotações. É muito rico pra quem deseja entender este processo criativo”, garante Furquim, pai de Nuno (20) e Len (24).

O processo de criação de “A barca do canoeiro”, lançamento da Panda Books, foi feito em uma via de mão dupla: a partir das frases criadas, Beto Furquim estruturava a adaptação da narrativa bíblica da Arca de Noé; ao mesmo tempo, quando necessário, ele buscava algum jogo de palavras que atendesse à alguma demanda para o desenvolvimento da obra. O toque final veio do ilustrador Marcello Araújo, outro apaixonado pelo mundo animal, que desenhou todas as ilustrações a lápis, nos dois lados de uma folha de papel, antes de transportá-las para o computador: “Assim como Marcello deu toques sobre o texto, eu também dei palpites sobre as ilustrações”, afirma Furquim. “Se cada um tivesse feito apenas o seu trabalho, algumas coisas não teriam surgido”.

Com toda essa fuzarca, muitas surpresas estão reservadas ao leitor da arca.

Crianças e idosos se encontram no afeto

Livro de poemas de Clarice Alphen e Cris Eich registra o ciclo de uma relação entre avó e neta

Claudia Ramos teve uma vida longa e cercada de amor. Prima do escritor Graciliano Ramos, a alagoana decidiu sozinha morar no Rio de Janeiro. Casou-se, teve dois filhos e quatro netos. Com eles, construiu uma relação harmoniosa, daquelas que deixam lembranças para toda a vida. Por isso, em 2018, quando a saúde da vovó Claudia começou a falhar, e as lembranças aos poucos foram sumindo da mente de 96 anos bem vividos, uma das netas resolveu eternizar tudo o que havia vivido com ela: “Passamos uma tarde juntas, ela estava muito consciente, e eu comecei a pensar em nossas trocas e como as nossas dinâmicas foram mudando ao longo do tempo”, recorda Clarice Alphen, hoje com 25 anos.

Clarice foi buscar as mais agradáveis lembranças nesta relação – os passeios, os momentos de afeto e o cuidado mútuo, que seria observado, mais tarde, como o ponto mais forte da construção do texto. Cerca de trinta versos apareceram nas coisas mais simples – e, àquela altura, Clarice ainda não imaginava que eles pudessem virar um livro. Assim nasceu “Nós duas”, lançamento da Panda Books.

O desabafo despretensioso foi escrito pouco antes de Claudia falecer. Clarice mostrou o texto para a mãe, a ilustradora Cris Eich: “Claudia era minha ex-sogra, mas continuou sendo uma grande amiga”, conta Cris. “Tive uma ótima relação com as minhas avós e, quando vi as brincadeiras, o cuidado e o afeto no poema, achei fantástico. Tudo casava com aquilo que eu acredito: crianças e idosos, em fases opostas da vida, estão sempre muito próximos. Eles se encontram no lúdico, numa visão de vida que a gente na idade adulta perde. O poema é belíssimo, numa linguagem que as crianças entendem”.

Essa sintonia entre o texto da filha e o trabalho da mãe se explica para além dos laços familiares: “Como eu falava do meu passado, eu escrevia me vendo como criança”, avalia Clarice, que trabalha como tradutora, mas já pensa em novos projetos na carreira como escritora infantojuvenil. “Mostrei para minha mãe porque ela é uma artista incrível e eu comecei a visualizar como o poema ficaria com o trabalho dela. Minha mãe transformou a história”.

Em seus últimos versos, o poema se revela como uma grande alegoria sobre as transformações vividas no ciclo da vida: no início, a avó cuida da neta. No final, a neta está cuidando da avó. Repetindo, com os papéis invertidos, muitas daquelas lembranças: “Coisas básicas como preparar uma refeição, sair para passear, levar para tomar banho… Foram coisas que tive que fazer quando ela se viu debilitada e eu pensei em como era bonita essa transformação”, emociona-se Clarice.

Embora quase tudo verse sobre lembranças reais, há no final de “Nós duas” uma licença poética. Ideia da ilustradora, Cris, explicada pela autora, Clarice: “A narradora tem uma filha no fim. Pensava apenas em deixar marcado que a avó faleceu, mas ela colocou essa questão muito bonita: existe a morte, mas existe a vida”.

Por que somos apaixonados por histórias de terror

A coletânea “Histórias de Tirar o Sono” traz contos assustadores de escritores consagrados como Alexandre Dumas, Edgar Allan Poe e Anton Tchekov

Se uma história de terror já é de dar medo, imagine treze… Para quem gosta de contos assustadores, carregados de suspense e horror, “Histórias de tirar o sono”, lançamento da Panda Books, é praticamente um parque de diversões. A dupla Regina Drummond e Taciana Ottowitz reuniu nesta coletânea treze contos que oscilam entre os gêneros fantástico e terror.

Na lista, estão nomes consagrados, como Alexandre Dumas, autor de “Os Três Mosqueteiros” e “O Conde de Monte Cristo”, aqui representado pelo conto “Solange” – e Edgar Allan Poe, de “O retrato oval”. A obra conta também com autores que são verdadeiras surpresas, caso do francês Hector Mugh Monro, que assinou o intrigante conto “Srdedni Vashtar”  com o pseudônimo Saki.

Mineira que hoje mora na alemã Munique, Regina tem cem livros publicados para crianças e adolescentes e atua também como tradutora e editora – já foi premiada com um Prêmio Jabuti. Taciana Ottowitz é brasileira, nascida na Inglaterra, também vive na Alemanha e tem trinta livros no currículo. Ainda é tradutora e ilustradora especializada em arte botânica e em desenhos de animais. “Nossa mente é capaz de nos pregar peças e isso dá muito medo. Esse é um dos motivos que tornam os contos fantásticos e de terror ainda tão relevantes no nosso dia a dia”, escreveram
as duas na apresentação da obra. “Outro motivo é que a gente se reconhece nos personagens e narradores dessas histórias. Às vezes eles são indecisos, misteriosos, medrosos, bobos e até um pouco ‘fora da casinha’”.

São histórias escritas em épocas, países e estilos narrativos diferentes, o que acaba provando que, independentemente da geração ou da forma, todo mundo sempre gostou de consumir obras de ficção que despertam medo, ansiedade e suspense. Não há nenhum autor brasileiro na lista, mas o país de alguma forma está representado em “O gato do Brasil”, de Arthur Conan Doyle – criador do Sherlock Holmes. O conto traz uma personagem que viveu em terras brasileiras, de onde trouxe uma espécie de misteriosa de gato sob os olhares europeus.

Burro protagonista e viagem no tempo marcam os 200 anos da Independência

Obras foram contempladas em projeto especial da Secretaria de Cultura para marcar os dois séculos de independência do Brasil

 

Faltam poucos meses para a Independência do Brasil completar exatamente 200 anos. No dia 7 de setembro de 1822, às margens do rio Ipiranga, D. Pedro I bradou “independência ou morte” para liberar o Brasil do domínio português. O jornalista e escritor Marcelo Duarte resolveu contar essa história de um jeito inédito, pelos olhos e pelas memórias de uma testemunha ocular do episódio: o burro que carregava o Imperador D. Pedro nas costas. Afinal, o belo e imponente cavalo que ficou eternizado em diversos quadros não passa de uma obra de ficção: “Na hora de pintar o quadro “Independência ou Morte”, Pedro Américo se permitiu algumas liberdades poéticas”, explica o autor. “Dom Pedro e sua comitiva não estavam naqueles vistosos cavalos, por exemplo. Eles estavam voltando de Santos no lombo de burros, animais fortes, capazes de subir a serra”.

“Memórias póstumas do burro da Independência” mistura o trabalho de pesquisa sobre os bastidores (muitos deles tão desconhecidos ou distorcidos pela história quanto o burro que virou cavalo) daquele 7 de setembro com essa peculiar escolha para conduzir a narrativa: “Fiquei imaginando como um daqueles burros poderia contar o momento da independência”, lembra Marcelo. “Seria um ponto de vista bastante divertido. Ainda mais que o futuro imperador estava com uma dor de barriga danada”.

A criatividade foi premiada pela Secretaria Especial de Cultura e pelo Ministério do Turismo, que selecionaram o livro no Prêmio de Incentivo à Publicação Literária – 200 Anos de Independência. O primeiro edital, aberto em 2018, selecionou 25 obras dentre as mais de 100 inscritas. “Memórias póstumas do burro da Independência” foi laureada na seara das ficções infantojuvenis.

No ano seguinte, uma nova edição do concurso literário foi realizada, com mais vinte obras selecionadas. E lá estava Marcelo Duarte novamente entre os escolhidos, agora com “Esquadrão Curioso – Independência ou Zero!”. Apesar de a temática ser a mesma, aqui o burrinho não é personagem. Na verdade, as personagens vêm de outro livro, que não tem nada a ver com a Independência, “Esquadrão Curioso – Caçadores de Fake News”.

Agora, o Esquadrão Curioso – formado pelos adolescentes Isa, Pudim, Débora e Léo – viaja em uma máquina do tempo construída para uma feira de ciências e tenta impedir que a famosa cena do grito de Independência seja alterada: “Pela primeira vez, usei os mesmos personagens em um novo livro. O Esquadrão Curioso fez tanto sucesso no papel de “caçadores de fake news”; que achei que seria muito legal se eles fizessem desta vez uma viagem no tempo. Se eu tivesse uma máquina do tempo, eu adoraria voltar 200 anos atrás. Teria a maior curiosidade de assistir à cena de 7 de
Setembro, sabia?”, confessa Marcelo.

“O Ateneu”: explicando Raul Pompéia e a decadência da Monarquia

Décimo livro da coleção “Clássicos da Língua Portuguesa” traduz expressões rebuscadas e referências antigas com notas explicativas bem curiosas

Um dos charmes da “Coleção Clássicos da Língua Portuguesa”, da Panda Books, são as centenas de notas explicativas, a maior parte delas dedicada a “traduzir” expressões excessivamente rebuscadas ou mesmo que estejam em desuso na língua portuguesa atual. O décimo título da coleção é “O Ateneu”, de Raul Pompéia, cuja publicação original se deu em 1888, um ano antes da Proclamação da República – a decadência da monarquia, aliás, é um elemento fundamental na construção do texto.

Apesar da narrativa envolvente, a leitura, na teoria, não deveria ser simples porque a Língua Portuguesa mudou muito ao longo dos últimos 120 anos e também porque muitas das referências que qualquer brasileiro médio entenderia no fim do século XIX hoje são incompreensíveis.

A Panda Books aposta em reedições que não modificam o texto original, mas que trazem diversos textos de apoio, idealizados e escritos pela jornalista e escritora mineira Fátima Mesquita. Para não atrapalhar a leitura, esses textos estão dispostos em duas colunas laterais, com uma diagramação que deixa muito evidente o que é o texto original e o que faz parte deste esforço de contextualizar tudo o que Raul Pompéia quis dizer com o seu livro.

Separamos 10 exemplos de “O ateneu” que vão além: notas explicativas que são um passaporte para conhecer novas personagens ou para entender melhor como viviam os brasileiros no século XIX.

1. “Na Grécia Antiga, Ateneu era o templo dedicado à Palas Atena, deusa da sabedoria. Daí, o termo ser sinônimo de escola”. Já na primeira página, Fátima contextualiza a escolha do nome do colégio (e consequentemente da própria obra) por parte do autor Raul Pompéia. A obra se passa no Rio de Janeiro no século XIX, mas o batismo da escola – que é bem diferente do Colégio Abílio da vida real, onde Raul estudou e se inspirou para construir “O Ateneu” – denuncia a influência da cultura grega (que vai aparecer diversas vezes ao longo do livro) na construção da obra.

 

Páginas do livro "O Ateneu"
Páginas do livro “O Ateneu”

2. “Na época de Honoré de Balzac (1799-1850), o homem na casa dos trinta anos era considerado jovem, mas a mulher da mesma idade era vista como acabada. Contudo, Honoré mudou o senso comum ao escrever o livro A mulher de trinta anos, defendendo que por causa do amadurecimento, a mulher vive o amor mais plenamente. Na obra, Júlia, após anos de infelicidade no casamento, enfim encontra o verdadeiro amor depois de seus trinta anos. Com o sucesso da ficção, a mulher de trinta passou a ser chamada de mulher balzaquiana”: aqui, Fátima Mesquita traz uma explicação detalhada para o uso da expressão “bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac”. A expressão em si não é fundamental para o entendimento do livro, mas esta nota explicativa deixa evidente a preocupação em contextualizar expressões que eram de conhecimento geral na data da publicação da obra, mas que atualmente poucos compreenderão.

 

3. “Na época, as pessoas faziam quatro refeições diárias e com nomes diferentes dos de hoje. De manhã, era o almoço. O jantar acontecia entre meio-dia e duas da tarde. Lá pelo pôr do sol era hora da merenda. Depois, tipo nove da noite, vinha a ceia. Então, esse jantar do texto é, na real, o nosso almoço”: assim como os hábitos da população, a língua portuguesa também se modificou muito nesses 200 anos. Então, algumas palavras possuem um significado diferente do que possuíam na data da publicação original. Neste exemplo, a nota explicativa ajuda a situar o leitor no real significado da cena que está sendo narrada como “depois do jantar”. Coisa parecida acontece mais adiante, quando uma nota explica que o termo “carro” é empregado não para designar
um carro de fato, coisa que ainda não existia no Brasil, mas sim um veículo puxado por um cavalo.

4. “Em 1534 Portugal dividiu o Brasil em 15 capitanias hereditárias. Mas em 1709 apagou-se a ideia de capitanias e inventaram que o país seria dividido em províncias. Os estados só surgiram depois da Proclamação da República, em 1889”: o livro é tão antigo que nem mesmo a divisão geográfica do Brasil permanece a mesma. Por isso, na primeira oportunidade em que o texto
original traz a expressão “província”, a nota explicativa trata de explicitar que o paralelo mais simples é com o que hoje se chama de “estado”.

 

5. “No século XIX, não havia Carnaval, e sim uma festa chamada entrudo. Nela, fazia-se uma guerrinha de jogar água uns nos outros. Para isso, geralmente usavam os chamados “limões cheirosos” como projéteis: bolotas de cera preenchidas com água que se quebravam e molhavam a pessoa, quando atingida”: essa nota surge quando o protagonista narra o seu fascínio dentro
do laboratório de ciências do colégio, comparando a expressão dos seus olhos com os tais projéteis de entrudo.

6. “Em 1843, o Brasil lançou seus primeiros selos postais – o país foi o segundo do mundo a emitir selos válidos em território nacional, atrás somente do Reino Unido. A série conhecida como “Olho de Boi” é formada por três selos que tinham apenas seu valor desenhado (30, 60 ou 90 réis). Não era lá muito bonita, por isso o “malfeitos” do autor, mas hoje é uma das mais raras e almejadas por filatelistas do mundo todo”: seria impossível, sem o auxílio desta nota explicativa, entender o que quer dizer “desde os enormes malfeitos de 1843” no meio de uma descrição sobre uma coleção de selos.

 

7. “Os italianos que se instalaram no Rio de Janeiro eram pobres, moravam em cortiços e trabalhavam muitas vezes como vendedores ambulantes (os chamados ganhadores). Dependendo da região, carcamano quer dizer italiano, ou então vendedor ambulante. E há ainda quem a use para falar de árabes ou judeus, que tradicionalmente vendiam de porta em porta (os mascates). De um jeito ou de outro, o termo é sempre usado de forma pejorativa”: essa nota, além de trazer a origem de uma expressão que até hoje está na cultura popular brasileira, ajuda a entender também como algumas coisas deixam de ser aceitáveis com o passar dos anos. Hoje, é fácil reconhecer esta expressão como xenófoba. No original, ela é utilizada sem pudor, como se fosse banal, na frase “tantas as linhas, que as carteiras vistas de baixo apresentavam a configuração agradável de cítaras encordoadas, tantas, que às vezes emaranhava-se o serviço e desafinava a cítara dos recadinhos em harpa de carcamano”.

8. “O Rio de Janeiro começou a ter iluminação pública no fim do século XVIII. Ela existia em apenas parte da cidade e era feita por candeeiros queimando óleo de baleia. Em 1854, surgiu a

Páginas do livro "O Ateneu"
Páginas do livro “O Ateneu”

iluminação à gás nas ruas”. Para assimilar bem a obra, é preciso ter uma noção real do contexto em que se vivia à época. Por isso, notas como essa (bem como a nota que, poucas páginas antes, fala sobre o início da educação pública no Brasil) estão

cuidadosamente colocadas para que o leitor perceba como viviam os cariocas no período em que se passa a narrativa.

9. “Louis Moreau Gottschalk (1829) foi um pianista e compositor norte-americano que viveu um tempo no Brasil, onde morreu em 1869. Aqui, escreveu uma música baseada no hino nacional, a “Grande fantasia triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro”. Ouça no YouTube. O livro de Raul Pompéia é uma grande oportunidade para conhecer figuras pouco conhecidas das gerações atuais, como o pianista Louis Moreau Gottschalk. A sugestão na última frase traz outra marca do livro: a interação com as novas mídias e a tentativa de fazer a experiência de O Ateneu extrapolar a simples leitura do livro.

10. “O sarampo já fez muito estrago no Brasil. No século XIX, na cidade do Rio de Janeiro, rolaram cinco surtos de sarampo em anos diferentes. Hoje, a doença é bem menos comum, porque foi controlada com a vacinação”: controlar epidemias é algo que faz parte da história brasileira. O livro, por exemplo, fala sobre a dificuldade que havia, na época, para controlar os surtos de sarampo no Rio.

Um novo olhar para as mesmas palavras

Em “Moleque”, Carmen Lúcia Campos une a paixão pela origem das palavras com a preocupação em ressaltar a cultura e o legado da África no Brasil

O fascínio pela Língua Portuguesa define toda uma vida e pode ser resumida em uma frase reveladora: “Quando eu era criança, meu sonho era ter um dicionário”.  Entre o encantamento inicial com os livros e a carreira de sucesso como editora e escritora, Carmen Lúcia Campos teve que driblar as dificuldades impostas às classes mais pobres quando o assunto é o acesso à cultura no Brasil: “Minha família era humilde: não se pensava em comprar livro”, lembra ela, que vê ainda uma dose de sorte nos seus primeiros contatos com a leitura: “Uma vizinha colecionava grandes clássicos e, quando se mudou, quis se desfazer da coleção e nos doou. Eu não entendia muita coisa, mas já tinha essa curiosidade de sublinhar a palavra e procurar na biblioteca no dia seguinte”.

Os clássicos, em sintonia com a força da oralidade nas histórias contadas pela avó, encantaram Carmen. Foram incontáveis os dias na biblioteca do bairro do Jardim da Saúde, zona sul de São Paulo, lendo e construindo na própria cabeça possíveis sequências para as histórias que acompanhava. À medida que avançava na adolescência, trocou as tramas sobre castelos de terras longínquas por obras que lhe tocavam de maneira muito mais particular, como “O mulato”, de Aluísio Azevedo, e “Clara dos Anjos”, de Lima Barreto. Textos que tratam da desigualdade racial, social e de gênero no Brasil e que, mais tarde, moldariam o perfil da escritora Carmen Lúcia Campos.  Antes disso, outra Carmen, a professora Carmen, de Língua Portuguesa, reconheceu talento na aluna de mesmo nome e estimulou ainda mais o gosto já tão latente pela Literatura. Com notas altas em todas as matérias em todos os colégios estaduais que frequentou – o Alberto Levy, o Júlio Ribeiro e o Charles de Gaulle –, flertou também com as Ciências Exatas, mas acabou ingressando na faculdade de Letras na Universidade de São Paulo. A aptidão para a escrita era gritante nas aulas de redação: “Fiz um texto que contava a história de uma menina que vivia em um orfanato”, conta. “As pessoas ficaram emocionadas e diziam que não sabiam que eu tinha vivido em um orfanato. Eu nunca vivi em um orfanato! Era tudo ficção. Ali eu percebi que eu era convincente”.

Formada em Letras, entrou na Editora Ática como estagiária e decolou. Foram mais de duas décadas como editora, especialmente de livros infanto-juvenis. Trabalhou, por exemplo, com a consagrada Coleção Vaga-lume e conviveu diretamente com autores do gabarito de Marcos Rey, Ana Maria Machado e Fernando Sabino: “Aprendi muito a ouvir o leitor. Não adianta você escrever um texto, achar maravilhoso e ele não chegar à outra ponta. O texto só faz sentido se tocar a alma e o coração do leitor. Devemos ter a humildade de fazer e refazer”, acredita. Hoje, já são 20 os títulos publicados por ela como autora. “Moleque”, o mais recente, é aquele que mais contempla a trajetória de vida da menina fascinada

pela origem e o significado das palavras. É que, além de trabalhar diretamente com a Literatura, ela também se dedica, há 15 anos, a contar histórias e dar aulas no Centro de Crianças e Adolescentes Gaetano e Carmela, na Vila da Saúde: “Queria levar para eles algo que remetesse ao Dia da Consciência Negra, mas não encontrei nada que despertasse o interesse deles para as
palavras”, lamenta. Se não havia nada pronto, Carmen tratou de construir ela própria uma história que mostrasse aos jovens o quanto de África existe na Língua Portuguesa.

Construída a ideia, começaram as pesquisas para encontrar expressões absolutamente comuns no nosso dia a dia, que saíram primeiro das bocas de iorubas, jejes, bantos e vários outros povos vindos do continente africano. Com a lista em mãos, ela precisou fazer uma seleção e uma amarração simples para criar uma história com começo, meio e fim. Uma história normal, sobre o
dia comum de uma criança, que conscientemente não pretende roubar a cena do que é mais importante no livro: realçar a pluralidade na construção do nosso idioma.  “Antes que você comece a leitura, eu quero lhe fazer uma pergunta: Você fala alguma língua africana? Não? E agora? A história desse livro tem MUUUITAS palavras que vieram da África. Elas aparecem destacadas no
texto: Moleque é sapeca e adora uma bagunça. Já escapou de levar um pito só porque é o xodó da vovó”, diz um trecho do livro.

Ao longo de 25 páginas, o leitor passa ainda por cafuné, cafundó, miçanga, tagarela, cangote, caramba, perrengue, zoeira, chilique, trambique, lengalenga, muvuca. Além do valor cultural em si, o livro procura ocupar um espaço que durante muitas décadas esteve vago na produção literária do Brasil, que fala bem menos do que deveria sobre a herança cultural africana e dá menos espaço do que deveria para narrativas construídas a partir do olhar e dos lugares de fala afro-brasileiros: “Existe um campo enorme a ser explorado na Literatura brasileira. Mais recentemente temos autores e autoras com essa preocupação. Minha literatura é preocupada em dar voz”, resume.

Essa empreitada se reflete em outros títulos, como “Meu Avô Africano”, também lançado pela Panda Books, que nasceu quando Carmen percebeu que não era possível deixar a África de fora da série que rememora os costumes e as histórias das primeiras gerações de imigrantes de diversos países no Brasil. Trata-se não apenas de uma questão de justiça, mas também de ajudar a formar novos leitores. Afinal de contas, a leitura tende a ser mais prazerosa quando retrata aquilo que se vê e da forma como se enxerga o mundo.  “Certa vez, no Maranhão, conheci uma menina que era tida como muito inteligente, mas que supostamente não gostava de ler. Tomei aquilo como uma missão e ofereci a ela ‘Meu Avô Africano’. Depois, ela me disse que leu duas vezes e que queria mostrar a um dos primos. Na infância, ela não conhecia nenhum livro com personagens negras e eu não gostava de ler porque as histórias não tinham nada a ver comigo”. É um exemplo de como histórias plurais podem e devem transformar o mercado editorial.

Receitas, adivinhas e parlendas: poderosas ferramentas em salas de aula

Coleção ajuda no processo de alfabetização e na construção da escrita – e diverte ao mesmo tempo

A história da coleção começou em 2013. As educadoras Josca Ailine Baroukh e Lucila Silva de Almeida lançaram, pela Panda Books, “Parlendas para brincar”. O livro reúne uma série de cantilenas, rimas e trava-línguas para serem usadas em brincadeiras das mais variadas. A boa recepção levou a uma segunda produção: em 2018, a Panda Books publicou, da mesma dupla, “Adivinhas para brincar”, com diversas brincadeiras de adivinhar no melhor estilo “o que é, o que é…?”. Agora, Josca e Lucila voltam a desfilar o seu repertório de brincadeiras em “Receitas para brincar”,  que ensina jovens leitores, pais e professores a desenvolver jogos, atividades artesanais e até gastronômicas com receitas de fácil entendimento – e 100% analógicas, ou seja, sem nenhuma intervenção de
equipamentos tecnológicos.

Brincadeiras podem ser uma poderosa ferramenta de interação entre dois amigos ou entre um grupo pequeno de pessoas, mas também podem ter um efeito transformador dentro de uma sala de aula com dezenas de crianças: “A primeira dica é brincar. Brincar de roda, brincar com os textos, brincar com os trava línguas…”, recomenda Josca Aline Baroukh, uma das aurtoras. “No caso do ‘Parlendas’ e do ‘Adivinhas’, as crianças irão aprender a memorizar o texto para poder brincar. É um texto curto e fica mais fácil fazer a equivalência entre o que elas estão lendo e o que estão falando. No ‘Receitas’, tem receita de comida, tem brincadeira com tinta, massinha, tear, jogos… É um faça você mesmo. Com um grupo maior, as crianças terão um repertório ampliado para levar para casa e ensaiar os pais. Isso enriquece”, aposta ela.

Apesar da premissa parecida, que versa inclusive sobre valorizar a identidade brasileira do brincar, os livros partiram de sentimentos um pouco diferentes, como destaca Josca: “O ‘Parlendas’ e o ‘Adivinhas’ vêm da tradição oral e resgata brincadeiras que foram se perdendo ao longo do tempo. Nós, como professoras, percebemos que as crianças gostavam muito desse tipo de brincadeira e que seria bom se tivéssemos um repertório variado para elas”.

Além da interação entre as crianças em si, esses dois livros podem auxiliar no processo de alfabetização e na construção da escrita: “Além de serem escritos em letra maiúscula, os textos são facilmente memorizados pelos
alunos. Associar o texto ao que está escrito facilita este processo”. Com uma diagramação um pouco mais complexa, já que é destinado a crianças de idade ligeiramente maior, ‘Receitas’ também é bastante útil nesse processo de formação do estilo de escrita dos mais jovens. Isso porque ele trabalha com um gênero que pode ser chamado de
instrucional – um texto que ensina a fazer algo. “Nosso desafio foi não padronizar os textos instrucionais porque eles podem ser apresentados de formas muito variadas. Os infográficos e os modos de preparo podem ser úteis para os professores que quiserem investigar esse gênero de textos instrucionais. Procuramos trabalhar várias maneiras de ensinar a fazer”. A coleção definitivamente não parou no terceiro livro. A dupla já começa a preparar um quarto volume. Josca e Lucilia estão em processo de elaboração e seleção de cantigas que, em um futuro breve, irão dar vida ao “Cantigas para brincar”.

Uma poesia em forma de chocolate

Simone Izumi reuniu 70 receitas práticas e baratas no livro “Loucuras de Chocolate”, uma ideia de presente para a Páscoa

Ovo ou barras de chocolate? O lado doce da Páscoa não precisa se resumir a essa pergunta. Só em “Loucuras de Chocolate”, lançado pela Panda Books, a autora Simone Izumi traz 70 receitas diferentes: “O livro é um portal para as pessoas curiosas desbravarem o mundo do chocolate de maneira criativa e barata”, diz ela. “É possível reproduzir as receitas no ambiente doméstico, para os filhos, de forma acessível, comprando apenas a matéria prima”. Simone classifica a obra como “uma poesia, uma ode ao chocolate” por meio de trufas, bombons, brownies, pirulitos, e tantas outras criações.

Simone é chef chocolatier e empresária há 18 anos. Em 2004, ela começou a trabalhar na edícula da casa da mãe, com um conhecimento quase que totalmente empírico sobre as técnicas de confeitaria: “Da noite pro dia, larguei minha carreira como arquiteta em uma época em que a confeitaria não estava em alta como está hoje”, recorda. “Meu pai ajudava com a louça e a minha mãe, com os embrulhos”. Era o início da Chocolatria, hoje um projeto bem sucedido que, além de vender os produtos, também oferece cursos e mentorias: “Tenho muito orgulho de ter feito o projeto crescer com equilíbrio pessoal e emocional”. Simone conseguiu conciliar a realização profissional com a criação de dois filhos.

As mentorias e treinamentos da Chocolatria naturalmente não versam apenas sobre o trabalho na cozinha. Simone também traça as diretrizes do ponto de vista do empreendedorismo, para que aqueles que queiram se lançar no mercado saibam exatamente como e quando investir: “Apesar dos pesares, vejo este mercado aquecido. Ao mesmo tempo em que muitos estabelecimentos fecharam, existem novas oportunidades para as pessoas se aventurarem. Meu conselho é para que as pessoas não façam mais do mesmo. Durante a pandemia, os estabelecimentos que se mantiveram de pé foram os que ousaram fazer diferente e se reinventaram”, indica.