Obras foram contempladas em projeto especial da Secretaria de Cultura para marcar os dois séculos de independência do Brasil
Faltam poucos meses para a Independência do Brasil completar exatamente 200 anos. No dia 7 de setembro de 1822, às margens do rio Ipiranga, D. Pedro I bradou “independência ou morte” para liberar o Brasil do domínio português. O jornalista e escritor Marcelo Duarte resolveu contar essa história de um jeito inédito, pelos olhos e pelas memórias de uma testemunha ocular do episódio: o burro que carregava o Imperador D. Pedro nas costas. Afinal, o belo e imponente cavalo que ficou eternizado em diversos quadros não passa de uma obra de ficção: “Na hora de pintar o quadro “Independência ou Morte”, Pedro Américo se permitiu algumas liberdades poéticas”, explica o autor. “Dom Pedro e sua comitiva não estavam naqueles vistosos cavalos, por exemplo. Eles estavam voltando de Santos no lombo de burros, animais fortes, capazes de subir a serra”.
“Memórias póstumas do burro da Independência” mistura o trabalho de pesquisa sobre os bastidores (muitos deles tão desconhecidos ou distorcidos pela história quanto o burro que virou cavalo) daquele 7 de setembro com essa peculiar escolha para conduzir a narrativa: “Fiquei imaginando como um daqueles burros poderia contar o momento da independência”, lembra Marcelo. “Seria um ponto de vista bastante divertido. Ainda mais que o futuro imperador estava com uma dor de barriga danada”.
A criatividade foi premiada pela Secretaria Especial de Cultura e pelo Ministério do Turismo, que selecionaram o livro no Prêmio de Incentivo à Publicação Literária – 200 Anos de Independência. O primeiro edital, aberto em 2018, selecionou 25 obras dentre as mais de 100 inscritas. “Memórias póstumas do burro da Independência” foi laureada na seara das ficções infantojuvenis.
No ano seguinte, uma nova edição do concurso literário foi realizada, com mais vinte obras selecionadas. E lá estava Marcelo Duarte novamente entre os escolhidos, agora com “Esquadrão Curioso – Independência ou Zero!”. Apesar de a temática ser a mesma, aqui o burrinho não é personagem. Na verdade, as personagens vêm de outro livro, que não tem nada a ver com a Independência, “Esquadrão Curioso – Caçadores de Fake News”.
Agora, o Esquadrão Curioso – formado pelos adolescentes Isa, Pudim, Débora e Léo – viaja em uma máquina do tempo construída para uma feira de ciências e tenta impedir que a famosa cena do grito de Independência seja alterada: “Pela primeira vez, usei os mesmos personagens em um novo livro. O Esquadrão Curioso fez tanto sucesso no papel de “caçadores de fake news”; que achei que seria muito legal se eles fizessem desta vez uma viagem no tempo. Se eu tivesse uma máquina do tempo, eu adoraria voltar 200 anos atrás. Teria a maior curiosidade de assistir à cena de 7 de
Setembro, sabia?”, confessa Marcelo.
Décimo livro da coleção “Clássicos da Língua Portuguesa” traduz expressões rebuscadas e referências antigas com notas explicativas bem curiosas
Um dos charmes da “Coleção Clássicos da Língua Portuguesa”, da Panda Books, são as centenas de notas explicativas, a maior parte delas dedicada a “traduzir” expressões excessivamente rebuscadas ou mesmo que estejam em desuso na língua portuguesa atual. O décimo título da coleção é “O Ateneu”, de Raul Pompéia, cuja publicação original se deu em 1888, um ano antes da Proclamação da República – a decadência da monarquia, aliás, é um elemento fundamental na construção do texto.
Apesar da narrativa envolvente, a leitura, na teoria, não deveria ser simples porque a Língua Portuguesa mudou muito ao longo dos últimos 120 anos e também porque muitas das referências que qualquer brasileiro médio entenderia no fim do século XIX hoje são incompreensíveis.
A Panda Books aposta em reedições que não modificam o texto original, mas que trazem diversos textos de apoio, idealizados e escritos pela jornalista e escritora mineira Fátima Mesquita. Para não atrapalhar a leitura, esses textos estão dispostos em duas colunas laterais, com uma diagramação que deixa muito evidente o que é o texto original e o que faz parte deste esforço de contextualizar tudo o que Raul Pompéia quis dizer com o seu livro.
Separamos 10 exemplos de “O ateneu” que vão além: notas explicativas que são um passaporte para conhecer novas personagens ou para entender melhor como viviam os brasileiros no século XIX.
1. “Na Grécia Antiga, Ateneu era o templo dedicado à Palas Atena, deusa da sabedoria. Daí, o termo ser sinônimo de escola”. Já na primeira página, Fátima contextualiza a escolha do nome do colégio (e consequentemente da própria obra) por parte do autor Raul Pompéia. A obra se passa no Rio de Janeiro no século XIX, mas o batismo da escola – que é bem diferente do Colégio Abílio da vida real, onde Raul estudou e se inspirou para construir “O Ateneu” – denuncia a influência da cultura grega (que vai aparecer diversas vezes ao longo do livro) na construção da obra.
Páginas do livro “O Ateneu”
2. “Na época de Honoré de Balzac (1799-1850), o homem na casa dos trinta anos era considerado jovem, mas a mulher da mesma idade era vista como acabada. Contudo, Honoré mudou o senso comum ao escrever o livro A mulher de trinta anos, defendendo que por causa do amadurecimento, a mulher vive o amor mais plenamente. Na obra, Júlia, após anos de infelicidade no casamento, enfim encontra o verdadeiro amor depois de seus trinta anos. Com o sucesso da ficção, a mulher de trinta passou a ser chamada de mulher balzaquiana”: aqui, Fátima Mesquita traz uma explicação detalhada para o uso da expressão “bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac”. A expressão em si não é fundamental para o entendimento do livro, mas esta nota explicativa deixa evidente a preocupação em contextualizar expressões que eram de conhecimento geral na data da publicação da obra, mas que atualmente poucos compreenderão.
3. “Na época, as pessoas faziam quatro refeições diárias e com nomes diferentes dos de hoje. De manhã, era o almoço. O jantar acontecia entre meio-dia e duas da tarde. Lá pelo pôr do sol era hora da merenda. Depois, tipo nove da noite, vinha a ceia. Então, esse jantar do texto é, na real, o nosso almoço”: assim como os hábitos da população, a língua portuguesa também se modificou muito nesses 200 anos. Então, algumas palavras possuem um significado diferente do que possuíam na data da publicação original. Neste exemplo, a nota explicativa ajuda a situar o leitor no real significado da cena que está sendo narrada como “depois do jantar”. Coisa parecida acontece mais adiante, quando uma nota explica que o termo “carro” é empregado não para designar
um carro de fato, coisa que ainda não existia no Brasil, mas sim um veículo puxado por um cavalo.
4. “Em 1534 Portugal dividiu o Brasil em 15 capitanias hereditárias. Mas em 1709 apagou-se a ideia de capitanias e inventaram que o país seria dividido em províncias. Os estados só surgiram depois da Proclamação da República, em 1889”: o livro é tão antigo que nem mesmo a divisão geográfica do Brasil permanece a mesma. Por isso, na primeira oportunidade em que o texto
original traz a expressão “província”, a nota explicativa trata de explicitar que o paralelo mais simples é com o que hoje se chama de “estado”.
5. “No século XIX, não havia Carnaval, e sim uma festa chamada entrudo. Nela, fazia-se uma guerrinha de jogar água uns nos outros. Para isso, geralmente usavam os chamados “limões cheirosos” como projéteis: bolotas de cera preenchidas com água que se quebravam e molhavam a pessoa, quando atingida”: essa nota surge quando o protagonista narra o seu fascínio dentro
do laboratório de ciências do colégio, comparando a expressão dos seus olhos com os tais projéteis de entrudo.
6. “Em 1843, o Brasil lançou seus primeiros selos postais – o país foi o segundo do mundo a emitir selos válidos em território nacional, atrás somente do Reino Unido. A série conhecida como “Olho de Boi” é formada por três selos que tinham apenas seu valor desenhado (30, 60 ou 90 réis). Não era lá muito bonita, por isso o “malfeitos” do autor, mas hoje é uma das mais raras e almejadas por filatelistas do mundo todo”: seria impossível, sem o auxílio desta nota explicativa, entender o que quer dizer “desde os enormes malfeitos de 1843” no meio de uma descrição sobre uma coleção de selos.
7. “Os italianos que se instalaram no Rio de Janeiro eram pobres, moravam em cortiços e trabalhavam muitas vezes como vendedores ambulantes (os chamados ganhadores). Dependendo da região, carcamano quer dizer italiano, ou então vendedor ambulante. E há ainda quem a use para falar de árabes ou judeus, que tradicionalmente vendiam de porta em porta (os mascates). De um jeito ou de outro, o termo é sempre usado de forma pejorativa”: essa nota, além de trazer a origem de uma expressão que até hoje está na cultura popular brasileira, ajuda a entender também como algumas coisas deixam de ser aceitáveis com o passar dos anos. Hoje, é fácil reconhecer esta expressão como xenófoba. No original, ela é utilizada sem pudor, como se fosse banal, na frase “tantas as linhas, que as carteiras vistas de baixo apresentavam a configuração agradável de cítaras encordoadas, tantas, que às vezes emaranhava-se o serviço e desafinava a cítara dos recadinhos em harpa de carcamano”.
8. “O Rio de Janeiro começou a ter iluminação pública no fim do século XVIII. Ela existia em apenas parte da cidade e era feita por candeeiros queimando óleo de baleia. Em 1854, surgiu a
Páginas do livro “O Ateneu”
iluminação à gás nas ruas”. Para assimilar bem a obra, é preciso ter uma noção real do contexto em que se vivia à época. Por isso, notas como essa (bem como a nota que, poucas páginas antes, fala sobre o início da educação pública no Brasil) estão
cuidadosamente colocadas para que o leitor perceba como viviam os cariocas no período em que se passa a narrativa.
9. “Louis Moreau Gottschalk (1829) foi um pianista e compositor norte-americano que viveu um tempo no Brasil, onde morreu em 1869. Aqui, escreveu uma música baseada no hino nacional, a “Grande fantasia triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro”. Ouça no YouTube. O livro de Raul Pompéia é uma grande oportunidade para conhecer figuras pouco conhecidas das gerações atuais, como o pianista Louis Moreau Gottschalk. A sugestão na última frase traz outra marca do livro: a interação com as novas mídias e a tentativa de fazer a experiência de O Ateneu extrapolar a simples leitura do livro.
10. “O sarampo já fez muito estrago no Brasil. No século XIX, na cidade do Rio de Janeiro, rolaram cinco surtos de sarampo em anos diferentes. Hoje, a doença é bem menos comum, porque foi controlada com a vacinação”: controlar epidemias é algo que faz parte da história brasileira. O livro, por exemplo, fala sobre a dificuldade que havia, na época, para controlar os surtos de sarampo no Rio.
Em “Moleque”, Carmen Lúcia Campos une a paixão pela origem das palavras com a preocupação em ressaltar a cultura e o legado da África no Brasil
O fascínio pela Língua Portuguesa define toda uma vida e pode ser resumida em uma frase reveladora: “Quando eu era criança, meu sonho era ter um dicionário”. Entre o encantamento inicial com os livros e a carreira de sucesso como editora e escritora, Carmen Lúcia Campos teve que driblar as dificuldades impostas às classes mais pobres quando o assunto é o acesso à cultura no Brasil: “Minha família era humilde: não se pensava em comprar livro”, lembra ela, que vê ainda uma dose de sorte nos seus primeiros contatos com a leitura: “Uma vizinha colecionava grandes clássicos e, quando se mudou, quis se desfazer da coleção e nos doou. Eu não entendia muita coisa, mas já tinha essa curiosidade de sublinhar a palavra e procurar na biblioteca no dia seguinte”.
Os clássicos, em sintonia com a força da oralidade nas histórias contadas pela avó, encantaram Carmen. Foram incontáveis os dias na biblioteca do bairro do Jardim da Saúde, zona sul de São Paulo, lendo e construindo na própria cabeça possíveis sequências para as histórias que acompanhava. À medida que avançava na adolescência, trocou as tramas sobre castelos de terras longínquas por obras que lhe tocavam de maneira muito mais particular, como “O mulato”, de Aluísio Azevedo, e “Clara dos Anjos”, de Lima Barreto. Textos que tratam da desigualdade racial, social e de gênero no Brasil e que, mais tarde, moldariam o perfil da escritora Carmen Lúcia Campos. Antes disso, outra Carmen, a professora Carmen, de Língua Portuguesa, reconheceu talento na aluna de mesmo nome e estimulou ainda mais o gosto já tão latente pela Literatura. Com notas altas em todas as matérias em todos os colégios estaduais que frequentou – o Alberto Levy, o Júlio Ribeiro e o Charles de Gaulle –, flertou também com as Ciências Exatas, mas acabou ingressando na faculdade de Letras na Universidade de São Paulo. A aptidão para a escrita era gritante nas aulas de redação: “Fiz um texto que contava a história de uma menina que vivia em um orfanato”, conta. “As pessoas ficaram emocionadas e diziam que não sabiam que eu tinha vivido em um orfanato. Eu nunca vivi em um orfanato! Era tudo ficção. Ali eu percebi que eu era convincente”.
Formada em Letras, entrou na Editora Ática como estagiária e decolou. Foram mais de duas décadas como editora, especialmente de livros infanto-juvenis. Trabalhou, por exemplo, com a consagrada Coleção Vaga-lume e conviveu diretamente com autores do gabarito de Marcos Rey, Ana Maria Machado e Fernando Sabino: “Aprendi muito a ouvir o leitor. Não adianta você escrever um texto, achar maravilhoso e ele não chegar à outra ponta. O texto só faz sentido se tocar a alma e o coração do leitor. Devemos ter a humildade de fazer e refazer”, acredita. Hoje, já são 20 os títulos publicados por ela como autora. “Moleque”, o mais recente, é aquele que mais contempla a trajetória de vida da menina fascinada
pela origem e o significado das palavras. É que, além de trabalhar diretamente com a Literatura, ela também se dedica, há 15 anos, a contar histórias e dar aulas no Centro de Crianças e Adolescentes Gaetano e Carmela, na Vila da Saúde: “Queria levar para eles algo que remetesse ao Dia da Consciência Negra, mas não encontrei nada que despertasse o interesse deles para as
palavras”, lamenta. Se não havia nada pronto, Carmen tratou de construir ela própria uma história que mostrasse aos jovens o quanto de África existe na Língua Portuguesa.
Construída a ideia, começaram as pesquisas para encontrar expressões absolutamente comuns no nosso dia a dia, que saíram primeiro das bocas de iorubas, jejes, bantos e vários outros povos vindos do continente africano. Com a lista em mãos, ela precisou fazer uma seleção e uma amarração simples para criar uma história com começo, meio e fim. Uma história normal, sobre o
dia comum de uma criança, que conscientemente não pretende roubar a cena do que é mais importante no livro: realçar a pluralidade na construção do nosso idioma. “Antes que você comece a leitura, eu quero lhe fazer uma pergunta: Você fala alguma língua africana? Não? E agora? A história desse livro tem MUUUITAS palavras que vieram da África. Elas aparecem destacadas no
texto: Moleque é sapeca e adora uma bagunça. Já escapou de levar um pito só porque é o xodó da vovó”, diz um trecho do livro.
Ao longo de 25 páginas, o leitor passa ainda por cafuné, cafundó, miçanga, tagarela, cangote, caramba, perrengue, zoeira, chilique, trambique, lengalenga, muvuca. Além do valor cultural em si, o livro procura ocupar um espaço que durante muitas décadas esteve vago na produção literária do Brasil, que fala bem menos do que deveria sobre a herança cultural africana e dá menos espaço do que deveria para narrativas construídas a partir do olhar e dos lugares de fala afro-brasileiros: “Existe um campo enorme a ser explorado na Literatura brasileira. Mais recentemente temos autores e autoras com essa preocupação. Minha literatura é preocupada em dar voz”, resume.
Essa empreitada se reflete em outros títulos, como “Meu Avô Africano”, também lançado pela Panda Books, que nasceu quando Carmen percebeu que não era possível deixar a África de fora da série que rememora os costumes e as histórias das primeiras gerações de imigrantes de diversos países no Brasil. Trata-se não apenas de uma questão de justiça, mas também de ajudar a formar novos leitores. Afinal de contas, a leitura tende a ser mais prazerosa quando retrata aquilo que se vê e da forma como se enxerga o mundo. “Certa vez, no Maranhão, conheci uma menina que era tida como muito inteligente, mas que supostamente não gostava de ler. Tomei aquilo como uma missão e ofereci a ela ‘Meu Avô Africano’. Depois, ela me disse que leu duas vezes e que queria mostrar a um dos primos. Na infância, ela não conhecia nenhum livro com personagens negras e eu não gostava de ler porque as histórias não tinham nada a ver comigo”. É um exemplo de como histórias plurais podem e devem transformar o mercado editorial.
Coleção ajuda no processo de alfabetização e na construção da escrita – e diverte ao mesmo tempo
A história da coleção começou em 2013. As educadoras Josca Ailine Baroukh e Lucila Silva de Almeida lançaram, pela Panda Books, “Parlendas para brincar”. O livro reúne uma série de cantilenas, rimas e trava-línguas para serem usadas em brincadeiras das mais variadas. A boa recepção levou a uma segunda produção: em 2018, a Panda Books publicou, da mesma dupla, “Adivinhas para brincar”, com diversas brincadeiras de adivinhar no melhor estilo “o que é, o que é…?”. Agora, Josca e Lucila voltam a desfilar o seu repertório de brincadeiras em “Receitas para brincar”, que ensina jovens leitores, pais e professores a desenvolver jogos, atividades artesanais e até gastronômicas com receitas de fácil entendimento – e 100% analógicas, ou seja, sem nenhuma intervenção de
equipamentos tecnológicos.
Brincadeiras podem ser uma poderosa ferramenta de interação entre dois amigos ou entre um grupo pequeno de pessoas, mas também podem ter um efeito transformador dentro de uma sala de aula com dezenas de crianças: “A primeira dica é brincar. Brincar de roda, brincar com os textos, brincar com os trava línguas…”, recomenda Josca Aline Baroukh, uma das aurtoras. “No caso do ‘Parlendas’ e do ‘Adivinhas’, as crianças irão aprender a memorizar o texto para poder brincar. É um texto curto e fica mais fácil fazer a equivalência entre o que elas estão lendo e o que estão falando. No ‘Receitas’, tem receita de comida, tem brincadeira com tinta, massinha, tear, jogos… É um faça você mesmo. Com um grupo maior, as crianças terão um repertório ampliado para levar para casa e ensaiar os pais. Isso enriquece”, aposta ela.
Apesar da premissa parecida, que versa inclusive sobre valorizar a identidade brasileira do brincar, os livros partiram de sentimentos um pouco diferentes, como destaca Josca: “O ‘Parlendas’ e o ‘Adivinhas’ vêm da tradição oral e resgata brincadeiras que foram se perdendo ao longo do tempo. Nós, como professoras, percebemos que as crianças gostavam muito desse tipo de brincadeira e que seria bom se tivéssemos um repertório variado para elas”.
Além da interação entre as crianças em si, esses dois livros podem auxiliar no processo de alfabetização e na construção da escrita: “Além de serem escritos em letra maiúscula, os textos são facilmente memorizados pelos
alunos. Associar o texto ao que está escrito facilita este processo”. Com uma diagramação um pouco mais complexa, já que é destinado a crianças de idade ligeiramente maior, ‘Receitas’ também é bastante útil nesse processo de formação do estilo de escrita dos mais jovens. Isso porque ele trabalha com um gênero que pode ser chamado de
instrucional – um texto que ensina a fazer algo. “Nosso desafio foi não padronizar os textos instrucionais porque eles podem ser apresentados de formas muito variadas. Os infográficos e os modos de preparo podem ser úteis para os professores que quiserem investigar esse gênero de textos instrucionais. Procuramos trabalhar várias maneiras de ensinar a fazer”. A coleção definitivamente não parou no terceiro livro. A dupla já começa a preparar um quarto volume. Josca e Lucilia estão em processo de elaboração e seleção de cantigas que, em um futuro breve, irão dar vida ao “Cantigas para brincar”.
Simone Izumi reuniu 70 receitas práticas e baratas no livro “Loucuras de Chocolate”, uma ideia de presente para a Páscoa
Ovo ou barras de chocolate? O lado doce da Páscoa não precisa se resumir a essa pergunta. Só em “Loucuras de Chocolate”, lançado pela Panda Books, a autora Simone Izumi traz 70 receitas diferentes: “O livro é um portal para as pessoas curiosas desbravarem o mundo do chocolate de maneira criativa e barata”, diz ela. “É possível reproduzir as receitas no ambiente doméstico, para os filhos, de forma acessível, comprando apenas a matéria prima”. Simone classifica a obra como “uma poesia, uma ode ao chocolate” por meio de trufas, bombons, brownies, pirulitos, e tantas outras criações.
Simone é chef chocolatier e empresária há 18 anos. Em 2004, ela começou a trabalhar na edícula da casa da mãe, com um conhecimento quase que totalmente empírico sobre as técnicas de confeitaria: “Da noite pro dia, larguei minha carreira como arquiteta em uma época em que a confeitaria não estava em alta como está hoje”, recorda. “Meu pai ajudava com a louça e a minha mãe, com os embrulhos”. Era o início da Chocolatria, hoje um projeto bem sucedido que, além de vender os produtos, também oferece cursos e mentorias: “Tenho muito orgulho de ter feito o projeto crescer com equilíbrio pessoal e emocional”. Simone conseguiu conciliar a realização profissional com a criação de dois filhos.
As mentorias e treinamentos da Chocolatria naturalmente não versam apenas sobre o trabalho na cozinha. Simone também traça as diretrizes do ponto de vista do empreendedorismo, para que aqueles que queiram se lançar no mercado saibam exatamente como e quando investir: “Apesar dos pesares, vejo este mercado aquecido. Ao mesmo tempo em que muitos estabelecimentos fecharam, existem novas oportunidades para as pessoas se aventurarem. Meu conselho é para que as pessoas não façam mais do mesmo. Durante a pandemia, os estabelecimentos que se mantiveram de pé foram os que ousaram fazer diferente e se reinventaram”, indica.
Autora do livro “Eu Estou Aqui” explica por que o acolhimento a refugiados deve começar na escola
O horror da guerra tem forçado milhões de ucranianos a deixar o país e buscar refúgio em países vizinhos ou até mesmo de outros continentes. Um movimento que afeta todo o planeta e que coloca em pauta a necessidade urgente de criar soluções a longo prazo para todos os necessitados. No caso da Ucrânia, 4 milhões de pessoas, ou quase ¼ da população, deixou o país em busca de proteção.
Páginas do livro “Eu estou aqui”
A Ucrânia, desse modo, se junta a outras nações que vivem um cenário semelhante, em que a guerra e a violação aos direitos humanos forçam famílias inteiras a fugir. Síria, Afeganistão, Venezuela, Sudão do Sul, Mianmar, República Democrática do Congo, Sudão, Somália, República Centro-Africana e Iraque são alguns deles. Uma crise que o mundo irá precisar administrar ao mesmo tempo em ainda tenta se reconstruir depois de dois anos dos efeitos devastadores da pandemia de Covid-19. Dados da ACNUR, a agência da Organização das Nações Unidas dedicada aos refugiados, mostram que o mundo tem cerca de 20,8 milhões de refugiados, sendo 40% de crianças.
O Brasil recebe ondas migratórias há bastante tempo. Na década passada, milhares de refugiados vindos de países africanos se instalaram no país. A partir de 2015, um grande fluxo migratório de venezuelanos chegou ao Brasil. Isso só para citar dois exemplos.
As histórias dessas trajetórias são diversas e, em sua maioria, repletas de obstáculos. O livro “Eu Estou Aqui”, de Maísa Zakzuk, aborda essa temática dura e urgente para sensibilizar toda a sociedade. São perfis de doze crianças que vieram de diferentes partes do mundo para começar uma nova vida no Brasil. Por que fugiram, como chegaram aqui, o que enfrentaram (e enfrentam) para se adaptar à nova língua e aos novos costumes são alguns dos temas explorados na obra. É o único livro sobre refugiados para crianças lançado no país. “O Brasil dispõe de leis que dão proteção aos estrangeiros, garantindo direitos como obtenção de documentos, permissão para trabalho e portas abertas para educação”, explica Maísa.
Páginas do livro “Eu estou aqui”
As garantias legais que as constituições dos países – como no caso brasileiro – conferem aos refugiados não asseguram, sozinhas, o bem-estar e uma adaptação digna para essas pessoas. Na prática, o preconceito e o próprio desconhecimento da melhor forma de acolhê-los são barreiras para que esse processo seja feito com êxito na vida real.
Por onde esse acolhimento deve começar? Maisa Zakzuk aponta um caminho. É no ambiente escolar que as famílias chegam com seus filhos. A participação de educadores e de crianças locais é essencial para criar uma sociedade livre de preconceitos, racismo e xenofobia. “Devemos aumentar a nossa capacidade de criar condições que vão além da assistência e da acolhida”, afirma Maísa. “A escola é a porta de entrada para que toda a sociedade exercite o respeito, a integração e a troca. É também uma maneira de aprendermos a enxergar o potencial dos que chegam e valorizarmos suas culturas”. Por isso, “Eu Estou Aqui” tem sido usado em escolas do país inteiro. Sobretudo neste momento em que mais uma crise migratória preocupa o mundo. “As pessoas falam no plural ‘refugiados’, mas é preciso enxergar cada um deles perto de nós”, explica a autora.
Sucesso no teatro, musical de Vitor Rocha chega aos cinemas e às livrarias. O texto nasceu numa sala de aula no interior de Minas Gerais
Uma peça teatral de uma turma do Ensino Fundamental de uma escola no interior de Minas Gerais ganha alguns dos palcos mais importantes do país, chega às telas dos cinemas e se transforma em livro. Parece ficção, mas é a história real de “O Mágico di Ó”, do jovem dramaturgo mineiro Vitor Rocha. Aos 24 anos, ele vê sua obra alcançar um público cada vez maior nas mais diversas plataformas.
A ideia de criar uma versão brasileira para o clássico “O Mágico de Oz”, publicado por L. Frank Baum, em 1900, surgiu já grandiosa na sala de aula. Tudo começou em 2013, numa oficina de teatro do Colégio Santo Antônio Objetivo, em Jacutinga – cidade do extremo sul de Minas Gerais, que fica mais perto de São Paulo do que de Belo Horizonte. Lá, ele rascunhou a primeira versão do texto: “Tive a ideia de adaptar o clássico para que a história não fosse contada de forma tão distante de nossa realidade”, recorda. “O furacão, Kansas…”.
Ilustrações de Nireuda Longobardi
Mesmo nascido em Pouso Alegre, no interior de Minas Gerais e a pouco mais de 80 quilômetros de Jacutinga, Vitor escolheu o Nordeste brasileiro para ambientar a sua releitura: “O Nordeste é cenário de zilhões de histórias e de uma memória poética infindável”, justifica. Por mais que veja semelhanças entre os cenários, ele prefere dizer que “o encontro mora nas diferenças”. E exemplifica: “A Dorothy via o arco-íris depois da chuva; a Doroteia nunca nem sequer viu a chuva. O Espantalho quer um cérebro; o nosso Mamulengo não acha que precisa de um”.
Transportar a história para uma realidade tão distinta levou a mudanças inclusive nos nomes das personagens: de Dorothy pra Doroteia; de Cara de Lata para Cabra de Lata; e de Espantalho para Mamulengo, numa referência aos teatros de bonecos que partem em caravana de cidade em cidade alegrando a população. Doroteia sai em direção a São Paulo junto da família, mas no meio do caminho acaba levada a uma terra cheia de magia e problemas.
Com a mesma estrutura e algumas modificações ao longo do tempo, a história ganhou corpo. Transformou-se num musical em 2019, num filme em 2020 e agora num livro lançado pela Panda Books. Quem ficou encarregada das ilustrações foi Nireuda Longobardi, que saiu do Rio Grande do Norte para morar em São Paulo. Nireuda é uma grande fã da versão original do clássico de L. Frank Baum: “Os personagens são fantásticos. A Doroteia eu já imaginei como uma boneca de pano; as bruxas, em vez de voarem numa vassoura, usam uma viola”.
Ilustrações de Nireuda Longobardi
Nireuda trabalhou com a arte da xilogravura. Xilo é um prefixo que se refere à madeira. Xilogravura é, portanto, a arte feita sobre madeira. A técnica nasceu na Ásia, mas no Brasil marcou as expressões artísticas nordestinas – como a literatura de cordel. Nireuda Longobardi se interessou pela técnica na Faculdade de Belas Artes de São Paulo, onde se graduou em Educação Artística com habilitação em artes plásticas. Aprendeu, então, a desenvolver o processo que foi executado nas ilustrações do livro “O mágico di Ó”: “A gente começa lixando, impermeabilizando e limpando uma placa de madeira. Depois, é feito o processo de desenhar diretamente na madeira com um lápis macio. Em seguida, começa o processo de entalhe com goiva [uma espécie de pincel cortante com uma lâmina curta]. Tudo o que você tira da madeira fica em branco, em baixo relevo. E o que sobra, em alto relevo, é o que vai receber a camada de tinta”, explica.
Havia, no entanto, o desafio adicional de transportar as xilogravuras para as páginas de um livro: “É colocada uma folha de papel sobre a madeira-matriz e é feita uma pressão com ajuda de uma colher de pau ou uma prensa. Depois, o papel é retirado com cuidado e é pendurado em um barbante para a secagem”.
“O Mágico di Ó” traz ainda um outro elemento interessante: ele é, na verdade, a reprodução do roteiro do musical. Dessa forma, é construído todo em diálogo e traz as marcações que orientam diretores, atores e cenógrafos, de modo a se constituir também como um elemento rico para aqueles que têm interesse nas técnicas de produção de roteiros.
Ilustrações de Nireuda Longobardi
Mas, afinal de contas, como garantir que o leitor absorva toda a profundidade da obra lendo diálogos que, na teoria, são feitos para serem acompanhados pela interpretação dos atores, pelo faro do diretor, pelos figurinos, pelos cenários, pela música e pela iluminação do palco? Além das xilogravuras que ilustram a obra, o autor Vitor Rocha aposta na força das palavras. Que de tão fortes talvez sejam absorvidas de maneira ainda mais plena por escrito do que seriam em cima do palco: “Desde o começo imaginei que a história pudesse virar um livro. Existe uma costura de palavras e de referências que eu sempre quis que as pessoas observassem com mais calma. No teatro, esse não é o intuito. No palco, ele serve aos atores e a todo o resto. Eu queria que o público tivesse a oportunidade de ler com calma e observar esses detalhes na construção do texto”.
Um presente que ele comemora sobretudo pensando na memória de um país que ainda produz pouca dramaturgia: “É muito legal que a gente eternize um roteiro em formato de roteiro, que ele se perpetue. Para que outras escolas possam ler com os alunos, readaptar e trabalhar o teatro para além do conto de fadas. Não é dizer é o que o Leão faz. É dizer que o Leão está fazendo isso e você precisa interpretar desta forma. Tirar da narração em terceira pessoa é uma coisa muito poderosa”.
Há, portanto, uma infinidade de cenários e contextos nos quais a história original pode ser aproveitada. Em parte, com as mesmas lições. Ao mesmo tempo, observando como uma mesma narrativa pode ser contada e recontada de formas diferentes e com um impacto que jamais será o mesmo em dois lugares distintos. É assim, afinal de contas, que o autor pretende que a sua obra seja recebida: “’O Mágico di Ó’ ensina que não há lugar como o nosso lar. Mas isso vindo da boca de uma menina que vive em um ambiente familiar estável no Kansas é uma coisa. Outra coisa é ouvir isso de uma menina que é obrigada a deixar a sua terra por causa de questões sociais. Fazer com que ela acredite que esse é o melhor lugar do mundo provoca uma reflexão muito grande”.
Dedicados a pensar e estimular o desenvolvimento das crianças, livros confirmam também a força feminina no mercado editorial
Aproveitando que o Brasil e o mundo usam o mês de março para reafirmar a necessidade de que as mulheres ocupem cada vez mais espaços em diversas áreas, a Panda Books está lançando três livros assinados por autoras e ilustradoras.
Os livros são diferentes nos princípios, nas abordagens, nos temas e no público-alvo, mas guardam um elemento em comum: o desenvolvimento da criança. Em “Moleque”, Carmen Lucia Campos narra um dia comum na vida de um menino para mostrar ao público infantil a presença marcante dos idiomas africanos na composição do vocabulário do português brasileiro – com palavras como cafuné, cafundó, miçanga, tagarela, cangote, caramba, perrengue, zoeira, chilique, trambique, lengalenga e muvuca. A leitura ágil é facilitada pelas ilustrações da venezuelana Valentina Fraiz, que vive no Brasil há mais de duas décadas.
O livro ensina mais do que as palavras que têm origem na África. Além de um glossário com os significados de algumas expressões um pouco menos usuais, a autora aposta em um texto de apoio que versa sobre a resistência negra à escravidão e sobre o legado perverso do regime escravista, que a partir da Lei Áurea se converteu numa flagrante desigualdade social. Entender o caminho e as transformações que essas palavras percorreram é uma forma de aprender a própria trajetória dos escravos e de seus descendentes no Brasil.
Essa maneira de ensinar um pouco sobre algo tão importante para a história do nosso país certamente está em sintonia com outro dos lançamentos da Panda Books: “Receitas para Brincar” também aposta na interação entre passado e presente para apresentar às crianças de hoje um mundo que talvez a modernidade esteja escondendo. As autoras Josca Aline Baroukh e Lucila Silva de Almeida selecionaram 11 atividades lúdicas e completamente artesanais para divertir os leitores – na cozinha, fazendo lanches divertidos; com tintas, gravuras e modelagens para fazer arte; e nos jogos de tabuleiro.
Na prática, é como se o livro funcionasse como um “manual de instruções” para que as crianças descubram como planejar e executar novas brincadeiras. Aqui, é preciso criar para brincar. Assim como nos outros livros da dupla – “Parlendas para brincar”, com sua reunião de cantigas do folclore nacional, e “Adivinhas para brincar”, que coleciona charadas iniciadas com o famoso “o que é, o que é?” –, a ilustradora Camila Sampaio traz seu traço leve, colorido e muito bem distribuído ao longo das páginas.
Essa preocupação em colocar no papel algo que no passado era uma brincadeira de rua, dessas que todo mundo conhece, tem certa relação com “O registro e a educação pedagógica – Entre o real e o ideal… O possível”. Este não é um livro para crianças, mas é sobre elas. E, com uma abordagem voltada para educadores, realça a importância justamente de desenvolver um processo que passa por criar, executar e documentar.
Doutora em educação, Maria Alice Proença estimula professores, pedagogos e diretores a pensar em formas diferentes de trabalhar com os alunos. A partir de conceitos acadêmicos, a autora traz a definição de “registro” como um elemento importante para documentar essas novas abordagens e também o resultado empírico dessas experiências entre as crianças.
Trabalhar bem nesse período fundamental para a formação das gerações futuras também é uma forma de garantir que as meninas de hoje cresçam sabendo muito bem os espaços que ocupam e principalmente os que ainda devem ocupar nos próximos anos.
Sucesso com livros infantis, Olívio Jekupé segue fazendo da escrita instrumento de crítica e denúncia sobre os direitos que os povos nativos devem conquistar e preservar
Olívio Jekupé adentrava a adolescência quando alimentou o fascínio pela leitura a partir de uma coincidência geográfica: gostava tanto de jogar futebol que chegava ao local da partida horas antes do apito inicial. Até que, nas redondezas, achou uma biblioteca onde se encantou com as obras do baiano Jorge Amado, do filósofo argentino Henrique Dussel e do teólogo Leonardo Boff: “Lia algumas páginas todos os dias antes dos jogos”, recorda, apontando “Capitães de Areia” e seu impressionante registro da vida dos meninos de rua da Bahia como uma referência especialmente marcante para despertar a indignação e a necessidade de refletir sobre as questões brasileiras.
Como talvez fosse fácil de imaginar, Olívio tornou-se escritor com 21 títulos já publicados, a maior parte deles no concorrido mercado editorial da cidade de São Paulo. Hoje, o paranaense de 56 anos é reconhecido pelos livros infantis que colocam no papel as histórias que os povos indígenas, até agora, só registravam de maneira oral, de geração para geração.
Olívio Jekupé, autor do livro “O Saci Verdadeiro”
Algumas das histórias orais que viraram livros têm larga semelhança com relatos que todo mundo já ouviu pelo menos uma vez na vida: o Saci Pererê, por exemplo, foi fruto de uma transformação que diz muito sobre a história do Brasil. Ele é, para os guaranis, Jaxy Jaterê, o protetor da natureza. Os negros africanos trazidos para o continente sul-americano como escravos fizeram o Saci Pererê, que ganharia os seus contornos mais conhecidos a partir da obra de Monteiro Lobato, o escritor branco de “O Sítio do Picapau Amarelo”. O espanto de Jekupé com o resultado dessa miscigenação se tornou a base do livro “O Saci Verdadeiro”, lançado pela Panda Books. O protagonista, Karaí, percorreu exatamente o mesmo caminho do autor: saiu da aldeia, foi estudar na cidade e lá descobriu o Saci-Pererê. “Pererê” significa algo pouco educado em tradução literal para o idioma guarani. Pela Panda Books, Olívio também lançou “O presente de Jaxy Jaterê” e “A mulher que virou urutau”.
Na época das partidas de futebol, Olívio tinha uma trajetória comum a qualquer outro garoto que crescia em Cornélio Procópio, no extremo norte do Paraná, a praticamente 400 quilômetros de Curitiba. Diferentes mesmo, só o sobrenome e os passeios para a aldeia onde vivia a família materna. A aldeia não existe mais e até mesmo o nome dela já se perdeu nas memórias com o passar do tempo. Durante algumas décadas, essa seria a única relação direta de Olívio – nascido em 1965, numa fazenda em Novo Itacolomi, um distrito que ainda demoraria 28 anos para se tornar município – com a vida em uma aldeia guarani, uma das mais representativas etnias indígenas do continente sul-americano, que chegou a espalhar cerca de 2 milhões de pessoas pelo continente antes das invasões europeias.
Em 2000, ao se tornar mais um dos membros da aldeia Krukutu, às margens da represa Billings, no extremo da zona sul da capital paulista, Olívio encontrou a primeira oportunidade de alcançar grande projeção com o trabalho de escritor: “Nós éramos visitados por muitos turistas e ali eu comecei a vender alguns dos meus livros. Fui ficando conhecido”, diz, com orgulho.
A trajetória até lá foi cheia de percalços: em 1988, Olívio mudou-se para Curitiba e ingressou no curso de filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná: “A filosofia me despertou a escrever sobre a causa indígena. A gente estuda e fica cheio de ideias na cabeça e eu queria fazer alguma coisa. Eu dizia que um dia queria escrever um livro meu”. Veio para a capital paulista, recomeçou o curso praticamente do zero na Universidade de São Paulo e, depois de passar por muitas dificuldades, voltou para o Paraná em 1998 para viver pela primeira vez de fato dentro de uma comunidade nativa. Na aldeia Laranjinha, já havia realizado o sonho de publicar dois livros – sempre com textos altamente críticos –, mas os projetos, independentes, naufragavam diante da falta de leitores. “Era uma região onde viviam apenas fazendeiros e os chamados boias frias que trabalhavam para eles. Os boias frias ganhavam 7 reais por dia e não tinham dinheiro para comprar. Os fazendeiros eram muito ricos e não tinham interesse em saber sobre a causa indígena”, resume.
Na volta à São Paulo, na aldeia krukutu, o sucesso com os turistas logo se refletiu em um maior interesse das editoras. Era o início do século XXI, época de festejos pelos 500 anos do Brasil e a efeméride foi propícia para que o mercado editorial se tornasse um terreno mais amigável. Daí para que os textos críticos e reflexivos a respeito da realidade dos povos indígenas dessem lugar à literatura infantil foi um pulo. A capacidade de escrita chamou atenção até da prefeitura de São Paulo, que viu no texto de Olívio potencial para atrair a atenção e ensinar estudantes paulistanos sobre as tradições e a cultura do índio brasileiro.
“A mulher que virou urutau”, de Olívio Jekupé
Ao ser convocado para escrever para crianças, Olívio tinha frescas na memória as histórias que escutava de tia Erundina. Foi ela a responsável por inserir o então garoto no fascinante mundo das histórias transmitidas de maneira oral – sobretudo aquelas contadas no opy, a casa de reza dos povos guarani. Um costume que, mesmo morando na cidade, ele cultivava contando essas mesmas histórias todas as noites para os seus filhos: “A coisa mais forte do mundo é a oralidade. Eu gosto mais de textos críticos, mas eu vejo a publicação dessas histórias como algo legal porque é um registro importante. Muitas histórias se perderam”. A resposta ajuda a entender como o próprio escritor enxerga a sua obra: a literatura infantil foi uma inesperada – e agradável – surpresa para um autor que segue orgulhoso do ativismo que marca os seus textos.
Não é difícil entender por que, apesar do sucesso na literatura infantil, o autor tem tanto orgulho da sua veia contestadora. Na infância, entre a cidade e a aldeia, Olívio folheou tantos livros que começou a escrever: “Eu achava que já era escritor. Escrevia poesias e romances. Nunca publiquei um romance, mas até hoje tenho esses textos guardados”, conta. Era 1984. Quatro anos antes, o líder indígena Ângelo Kretã havia morrido em um acidente automobilístico de circunstâncias controversas. O ativista ambiental batalhou pela preservação e recuperação de terras conhecidas pelas vastas plantações de araucárias, as árvores típicas do Paraná. A postura combativa e bem-sucedida despertou o indesejado interesse de latifundiários e madeireiros, a quem Olívio credita a suposta emboscada que vitimou Kretã. A luta do cacique chegou ao fim, mas a do futuro escritor estava começando: “Fiquei preocupado e pensei que tínhamos que escrever sobre coisas assim”.
Hoje, Olívio divide a sua produção entre os livros infantis e a literatura crítica. Depois de anos de avanços, ele observa, preocupado, o retrocesso na relação entre o Brasil e os povos nativos nos últimos anos, sobretudo a partir da eleição do presidente Jair Bolsonaro, em 2018: “O atual presidente se elegeu em cima dos povos indígenas. Ele joga o povo contra o povo e jogou toda a sociedade contra a gente. Ele disse que não ia dar um centímetro de terra para os índios brasileiros. Nós somos 1 milhão num país de 200 milhões, então a gente precisa batalhar muito. Não somos vagabundos. Sempre digo que, mesmo que um de nós não faça nada, ainda está fazendo mais do que o resto porque nós preservamos e vocês destroem”, desabafa ele, que atualmente vive na aldeia Kakané Porã, em Curitiba.
Em 2014, a Fifa, que se preparava para organizar a Copa do Mundo no Brasil, foi à aldeia krukutu para encontrar um jovem que pudesse entrar em campo junto com os jogadores do Brasil e da Croácia na partida de abertura, em Itaquera, na zona leste de São Paulo. O escolhido foi Jeguaká, um dos cinco filhos de Olívio – os demais são a professora Kerexu, 24 anos, a artesã Gisele, 20, e os também escritores Tupã, 22, e Jekupé Mirim, 18. Depois de cumprir todo o protocolo, Jeguaká sacou do calção uma faixa que dizia “Demarcação já”, em letras grandes e para o mundo todo ler. O pedido pela demarcação das terras indígenas era tudo o que os dirigentes mais importantes do futebol mundial menos queriam ver, mas correu o mundo.
Hoje, aos 20 anos, Werá Jeguaká Mirim virou o rapper Owerá Kunumi MC, que já foi tema de documentário, gravou com Criolo e lançará em breve uma canção com o DJ Alok. Jeguaká lançou pela Panda Books o livro “Kunumi Guarani”. O pai fala com orgulho das letras e melodias que levam o legado da família adiante: “As pessoas acham bonito e ficam emocionados, mas não sabem do que estamos falando. Se traduzirem a letra, vão ver que também é só porrada. Estamos dizendo: devolvam as terras que vocês nos roubaram”.
Com novos autores e mercado em alta, o gênero aproveita a herança dos clássicos estrangeiros
Não faz tanto tempo assim que os aficionados pela literatura fantástica precisavam recorrer a títulos estrangeiros para encontrar boas histórias ambientadas em galáxias distantes e universos extraordinários povoados por seres sobrenaturais. Pouco a pouco, porém, o panorama vem mudando: a literatura de fantasia, que já há várias décadas vem varrendo as prateleiras e lotando os cinemas em países como os Estados Unidos, passou a ser também um caminho possível para produções completamente brasileiras.
A Panda Books acaba de lançar “Alek Ciaran e os Guardiões da Escuridão”, um romance de fantasia da escritora paulista Shirley Souza. Na história, Alek é um garoto que, em meio aos conflitos normais de qualquer adolescente, acaba sendo transportado para uma civilização desconhecida, de um mundo antigo, onde se tornará um elemento decisivo nos conflitos entre os ciaran e os anuar. “Por mais fantástica que seja uma narrativa, ela conversa conosco de maneira íntima e fala de sentimentos e valores com os quais nos identificamos”, afirma a autora. “Não tive uma preocupação em construir uma costura entre a fantasia e o real. Esse entrelace surge de forma natural”. Shirley revela que muitos capítulos do livro surgiram na verdade enquanto ela estava dormindo – e sonhando.
A receita remete ao que talvez seja o maior sucesso do gênero de fantasia na literatura juvenil: ao longo de sete edições, a saga de Harry Potter, publicada entre 1997 e 2007 pela escritora britânica J.K. Rowling, revolucionou o mercado ao seguir exatamente esta receita – abordar conflitos reais dentro de um universo fantástico – para conectar milhões de jovens leitores, que compraram 450 milhões de cópias no mundo todo. A brasileira Claudia Fusco, mestre em estudos de ficção científica na Universidade de Liverpool, na Inglaterra, confirma que a série teve um papel fundamental na formação de um público leitor para o gênero: “Foi o meu contato mais intenso com a literatura fantástica. Eu era completamente apaixonada, fazia parte de fóruns de discussão… Temos muitos talentos chegando todos os dias e torço para que eles também sejam responsáveis pela formação de novos leitores”, diz ela, que concede méritos também à trilogia “Jogos Vorazes”, lançada entre 2008 e 2010 pela norte-americana Suzanne Collins.
Shirley Souza, autora do livro “Alek Ciaran e os Guardiões da Escuridão”
A história da autora de Alek Ciaran endossa a percepção de Fusco, mas reúne um cardápio de influências que conta também com títulos como “O Senhor dos Anéis”, “O Hobbit”, “O Livro do Cemitério”, “Lugar Nenhum” e “Sandman”: “Sou fã de terror, fantasia e ficção científica. Em “Alek Ciaran”, fiz uma homenagem à Michael Ende, autor de “História sem fim”, o primeiro livro de fantasia que me marcou. São muitos os criadores e as obras que me marcaram ao longo da vida. Passaria horas comentando cada um”, diz Shirley. Formada em publicidade e propaganda, ela tem 15 anos de experiência como autora. São 40 títulos publicados e dois importantes prêmios conquistados: o brasileiro Jabuti, por “Caminho das Pedras”, na categoria livros paradidáticos; e o argentino Jóvenes del Mercosul, por “Rotina (nada normal) de uma adolescente em crise”, ambos em 2008.
Com o seu trabalho mais recente em parceria com a Panda Books, Shirley Souza coloca mais um tijolo na fortaleza que a literatura fantástica vem construindo no mercado nacional e internacional. Se antes para muitas pessoas esse gênero literário nem mesmo podia ser considerado literatura, hoje a aceitação é muito maior entre leitores, críticos e no mercado das editoras também. “A literatura fantástica sempre foi um tanto marginal. Sempre foi rotulada como ‘literatura de entretenimento’ e isso restringia bastante o mercado brasileiro, sim. A produção brasileira existe há muito tempo e conhecemos pouco desse passado. Até hoje ainda há quem torça o nariz”, admite a autora. “O engraçado”, prossegue, “é que essa literatura atrai. Cada vez que visito uma sala de aula e digo que escrevo essas narrativas, a conversa ganha um fôlego impressionante”.
De fato, o uso de elementos fantásticos na literatura brasileira não começou ontem. Em uma dissertação do curso de pós-graduação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro em 2018, a pesquisadora Karla Menezes Lopes Niels avalia, por exemplo, que a coletânea “Noites na Taverna”, lançada em 1855 por Álvares de Azevedo, reúne diversos elementos próprios do gênero. “O momento atual é bem empolgante. Estamos lendo e produzindo muita coisa nova. São tempos bem importantes para a formação de leitores de fantasia, ficção científica e horror no Brasil”, avalia, otimista, Cláudia Fusco. Com as novas tecnologias, as narrativas continuam ultrapassando o campo da literatura. Não só no cinema, como aconteceu com Harry Potter, mas também nos serviços de streaming, nas redes sociais e nos videogames. A dupla Carolina Munhoz e Raphael Draccon, por exemplo, já vendeu cerca de 1 milhão de exemplares na soma dos 10 títulos publicados. Com o sucesso, o casal foi convidado para assinar roteiros de séries de terror, drama e ficção científica para gigantes de produção de conteúdo como a Rede Globo e a plataforma de streaming Netflix.