O vírus contra o futebol

A pandemia do novo Coronavírus paralisou os campeonatos de futebol em praticamente todas as partes do mundo. A UEFA e a Concacaf, por exemplo, adiaram a Eurocopa e a Copa América para 2021. Seria a primeira vez que essas interrupções ocorrem por questões de saúde? “Estamos vivendo um fato inédito do ponto de vista mundial”, diz o jornalista Celso Unzelte, pesquisador, professor, comentarista da ESPN-Brasil e autor da Panda Books. “Mesmo na época da Segunda Guerra, como a América do Sul não era o campo de batalha, a vida continuava normalmente por aqui. As Copas de 1942 e 1946 foram canceladas, mas tivemos os campeonatos sul-americanos.” Celso deu a seguinte entrevista ao Panda News:

Panda News – É a primeira vez que o futebol para por causa de uma pandemia?

CELSO UNZELTE – Em 1918, o problema era a chamada Gripe Espanhola, mas, nesse caso, o futebol europeu já estava parado. A epidemia veio logo depois da Primeira Guerra, que só acabou em 11 de novembro daquele ano. Tinha futebol no Brasil, e aqui o primeiro caso do surto foi diagnosticado no dia 15 de outubro, em São Paulo. Cinco dias depois, as partidas de futebol foram suspensas de um modo bem abrupto: os torcedores estavam nos estádios quando os agentes de segurança chegaram para dizer que não haveria jogo. O público não quis ir embora, e alguns times resolveram atuar amistosamente — veja como a sociedade não estava preparada para a situação. Naquele dia, três partidas estavam marcadas na capital paulista: no Jardim América, onde até hoje está a sede do Paulistano, Paulistano x Internacional; na Floresta, atual local da Ponte das Bandeiras, São Bento x Minas Gerais; na Avenida Água Branca, aconteceria a inauguração do campo do Ypiranga, com um jogo contra o Mackenzie, que não ocorreu. O campeonato só foi reiniciado em 15 de dezembro e acabou em 19 de janeiro do ano seguinte.

Foi então uma paralisação rápida?

Sim, relativamente rápida. Não havia a quantidade de jogos que há hoje. Na época, eles decidiram que só seriam realizadas as partidas que envolvessem a decisão do título. Por isso, o Paulistano terminou campeão disputando 15 jogos; o Corinthians foi vice com 17; o Santos ficou em quarto com 13, e o Mackenzie, oitavo, com 11. Isso não aconteceu apenas em São Paulo. No Rio de Janeiro, o campeonato também ficou parado por 56 dias — entre outubro e dezembro, com a final em janeiro de 1919. Um jogador do Fluminense, Archibald French, morreu por causa da Gripe Espanhola. Aliás, o presidente eleito do país, Rodrigues Alves, morreu no Rio antes de tomar posse. No Rio Grande do Sul, os jogos também foram cancelados. O primeiro campeonato gaúcho ocorreria em 1918, ano em que a Federação foi criada. Seria um triangular entre Cruzeiro (campeão da região de Porto Alegre), Brasil de Pelotas e o 14 de julho (de Santana de Livramento, na região da fronteira com o Uruguai). O campeonato só aconteceu no ano seguinte, mas com a participação de outros clubes e o Brasil de Pelotas foi campeão. Cem anos depois, os times de 1918 tentaram fazer com que a federação reconhecesse todos eles como vencedores do campeonato que não teve, mas a entidade discordou.

 

Celso Unzelte é autor de livros como “Corinthians: uma caixinha de surpresas”.

Hoje, alguns clubes profissionais estão oferecendo suas instalações para atender gente doente. Na época da Gripe Espanhola, os clubes de futebol fizeram o mesmo?

Sim, principalmente o Paulistano e o Palmeiras, que ainda se chamava Palestra Itália. Na sede social do Palestra, localizada no centro da cidade, havia uma enfermaria com 31 leitos. O time também doou 500 mil réis mensais para os órgãos de saúde. Houve um engajamento muito grande da sociedade contra a Gripe Espanhola, e pessoas ligadas ao Palestra Itália criaram um grupo de apoio às famílias dos enfermos. Graças aos clubes, empresários doaram cestas de alimentos. Conseguiram até ambulâncias para o tratamento de doentes. O Paulistano também cedeu espaço em sua sede, no Jardim América. O futebol se mobilizou naquela época, como agora também.

Houve algum time rebaixado nessas competições?

Não. Nessa época, felizmente para a ordem dos campeonatos, não havia o rebaixamento, que é um outro grande problema dos dias de hoje. Os clubes podem até resolver, por consenso, qual será o campeão. Mas a questão dos rebaixados é complicada, pois envolve os times que têm direito a subir de outra divisão.

Mais recentemente, nos anos 1970, nós tivemos o surto da meningite em São Paulo. Em algum momento se falou em paralisar o futebol por aqui?

Futebol, especificamente, não. Mas os Jogos Pan-americanos de 1975, sim. Eles estavam marcados, inicialmente, para Santiago do Chile, mas houve o golpe militar de Pinochet em 1973. Logo depois de tomar o poder, a junta militar abriu mão do Pan. Então, São Paulo assumiu a empreitada, e as competições deveriam ter ocorrido aqui. Em outubro de 1974, porém, a cidade abdicou da competição, alegando oficialmente riscos à saúde dos participantes por causa da epidemia de meningite. Essa é uma das versões, a oficial, do então presidente do COB [Comitê Olímpico Brasileiro], major Sylvio de Magalhães Padilha. Uma outra versão dá conta de que não havia verbas. O advogado Alberto Murray Neto, neto do major Padilha, confirma ter ouvido do avô que o então ministro da Educação e Cultura, Ney Braga, afirmara não haver dinheiro, mas a justificativa do governo seria o surto de meningite. Existia censura da imprensa vigente, não era interessante que se divulgasse os números daquele surto, que foi bem grande no Brasil.

Por que o surto do vírus ebola não cancelou a Copa da África de 2014?

Ela deveria ter acontecido no Marrocos, mas o país pediu para adiar por causa do avanço ebola. A federação africana não concordou e mudou a sede do torneio para a África do Sul. O campeonato ocorreu em pleno surto da doença, que se espalhava desde o final de 2013. Quando a epidemia acabou, cerca de 11 mil pessoas tinham morrido.

A importância da literatura nativa

“As pessoas sempre veem os indígenas como atrasados, mas não somos, nós temos uma cultura diferente. A literatura nativa faz com que a sociedade entenda melhor os índios”. O escritor guarani Olívio Jekupé se refere a livros sobre a cultura dos povos indígenas escritos por eles mesmos. São histórias que costumam ser transmitidas apenas oralmente entre seus membros.

O primeiro livro publicado por Olívio Jekupé com a Panda Books.

A literatura nativa coloca o leitor em contato direto com a cultura e a visão indígena. Olívio escreve desde 1984, quando quase não havia autores nativos, e era difícil ter espaço para publicações. “As editoras gostavam de publicar livros de antropólogos, a gente não tinha muito acesso”, afirma. Diretora de projetos especiais da Panda Books, Tatiana Fulas explica que o cenário começou a mudar a partir da promulgação da lei nº 11.645, de 2008, que tornou obrigatório o ensino da cultura indígena e afro-brasileira na educação básica. “O que a lei ajudou a fomentar foi o protagonismo dos autores indígenas, dando-lhes a possibilidade de serem os narradores de suas próprias histórias”, complementa.

Olívio Jekupé e Werá Jeguaka Mirim, o Kunumi MC.

Em 2014, o jovem Werá Jeguaka Mirim, filho de Olívio, publicou pela Panda Books a primeira autobiografia de uma criança indígena, o livro Kunumi Guarani. O pai ajudou na tradução do texto, escrito originalmente em guarani — Werá ainda não dominava a língua portuguesa. “A ideia da obra era mostrar o cotidiano de uma criança indígena que morava próximo a uma região urbana, rompendo com a clássica representação dos índios isolados”, explica Tatiana. Eles vivem na aldeia Krukutu, na região de Parelheiros, Zona Sul de São Paulo.

Além de escritor, Werá também é rapper, conhecido na cena musical como Kunumi MC: “Foi difícil quando comecei a cantar, porque tem muito preconceito na cidade. Falam que o índio não pode cantar rap ou escrever música. Tem que viver na floresta, isolado”. Seu pai também retrata episódios de preconceito. Formado em filosofia pela USP e ex-professor de educação básica, ele conta que às vezes os alunos pesquisavam o que era ensinado em sala de aula, pois não confiavam no seu conhecimento. Atualmente, Olívio Jekupé escreve e é palestrante, mas ainda passa por problemas. “Nas palestras, as pessoas tomam susto, mas quando começo a apresentação, elas ficam impressionadas e me tratam bem”, diz.

Werá se mostra feliz com o desenvolvimento de seu trabalho. Ele conta que várias escolas adotam livros seus, e pessoas não indígenas ouvem os raps. “Hoje, conseguem ver melhor como é a nossa realidade aqui na aldeia indígena”.

Como o circo pode estimular as crianças

Um novo circo chegou! Movida pelas lembranças afetivas de palhaços e trapezistas, a autora Leninha Lacerda leva as atividades do picadeiro para o cotidiano das crianças com o livro Sou de circo, lançado pela Panda Books.

“A minha geração teve muitos palhaços queridos”, diz a escritora, citando Torresmo e Pururuca, Chupeta e Chupetinha e Arrelia como exemplos. “As calças caindo, os colarinhos e gravatas desobedientes, os sapatos enormes, o nariz vermelho, os tropeções, a maquiagem, as cores fortes, a bandinha pontuando, a água espirrando e a gente sorrindo!”, lembra. Leninha ainda fala que os animais causavam certa estranheza nela e a deixavam com pena, mas era a melhor oportunidade que ela e sua família tinham para chegar perto de bichos como tigres, leões e ursos. Havia também os trapezistas, que a deixavam de pescoço esticado e boca aberta. “Aquele era mesmo o maior espetáculo da Terra”, afirma a autora.

Foi com a influência de todo esse cenário que Sou de circo surgiu. O livro incentiva as crianças a trabalhar o corpo e brincar em qualquer lugar, desde o parque até o sofá da avó. O importante é usarem a imaginação sem amarras e o corpo para a diversão. A autora também mostra aos pequenos como é importante persistir, suar, tentar e cair. Os artistas – assim como as crianças – precisam de dedicação e coragem.

Foto: divulgação

O trabalho com fotografia editorial

Durante a produção de Eu estou aqui, a fotógrafa Daiane da Mata passou um ano e meio acompanhando a escritora Maísa Zakzuk em visitas a casas e escolas onde vivem crianças refugiadas no Brasil. Foi necessária a confiança e a autorização das famílias para fotografar os jovens que hoje estão na obra de Maísa.

Miolo do livro Eu estou aqui com foto de Daiane da Mata.

Livros abordam os mais variados assuntos e essa é uma das principais características do trabalho com fotografia no ramo editorial. Alexandre Battibugli já fez cliques para o Almanaque Desimpedidos e para o Livro do quindim. “O fotógrafo está acostumado e preparado para fotografar qualquer evento”, afirma. Como exemplo, cita que também já trabalhou para jornais e hoje atende revistas, onde a variedade faz parte do cotidiano.

Em O livro do quindim, o fotógrafo acompanhou a produção das receitas para capturar as etapas. Foto: Alexandre Battibugli

O desafio pode ir além. Daiane conta que, ao registrar pessoas refugiadas, viu como elas têm muita insegurança, pois há momentos em que não são bem tratados. Foi necessário explicar com clareza o projeto para eles. “A ideia era falar dos refugiados de outra maneira, da vida mais lúdica da criança, falar um pouco da história deles para que outras crianças também se identificassem”, diz.

Para Alexandre, o mais complicado é colocar nas fotos as características dos personagens e compreender a imagem que a editora deseja. Paula Korosue também já trabalhou com diferentes publicações, como Os sucos da Mari e Navio negreiro. Ela concorda que ter “múltiplos talentos” é importante para atender aos projetos, e fala sobre fotografar pessoas que não gostam de sair em fotos, mas precisam fazer isso. “Conseguir tirar um olhar sincero, ou ainda um sorriso não forçado são grandes desafios dessa profissão”.

Daiane também documenta a rotina de famílias e a vida pessoal de domésticas para projetos pessoais. Ela explica que, ao serem retratadas, as pessoas buscam mais uma estética ideal do que o registro daquele momento como realmente é. Quando está trabalhando, a fotógrafa busca um equilíbrio entre o esperado pelos clientes e a sua visão. “Tento fazer uma foto que ela vai colocar num porta retrato e que também represente o momento da fotografia”, diz.

Mês da mulher: como é ser escritora no Brasil?

O inglês Ellis Bell (1818-1848) publicou em 1847 seu único romance: O morro dos ventos uivantes, obra relevante para além de seu tempo. Prova disso foram as inúmeras adaptações para o cinema e para a televisão em diferentes países durante o século XX – no Brasil tivemos uma novela homônima, e outra chamada Vendaval. Os irmãos de Ellis, Currer (1816-1855) e Acton (1820-1849), também foram escritores. Acontece que os três eram mulheres que utilizaram pseudônimos masculinos para publicar seus textos. Ellis se chamava Emily, Currer era Charlotte e Acton, Anne. O sobrenome real das irmãs era Brontë.

A utilização de nomes masculinos por escritoras aconteceu principalmente entre o século XIX e o início do XX. Aqui no Brasil, por exemplo, tivemos a pintora, pianista, cantora, atriz e cartunista Nair de Tefé (1886 – 1981), conhecida pelos seus trabalhos artísticos e por ter sido primeira-dama do país (era esposa do marechal Hermes da Fonseca). Ela publicava caricaturas nos jornais e assinava como Rian, seu nome escrito ao contrário. O pseudônimo também se assemelha ao som da palavra francesa rien, que significa “nada”.

Durante o século XX, romances conhecidos popularmente como “água com açúcar” foram tidos como único gênero aceitável para autoras mulheres. Algumas escritoras atuais optaram por publicar seus textos sem deixar o gênero claro, como J. K. Rowling, criadora da série Harry Potter.

Foto: arquivo pessoal
Josca Baroukh tem cinco livros publicados pela Panda Books. Foto: arquivo pessoal

Há exceções – autoras que conseguiram espaço sem deixar suas identidades de lado. “Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Marina Colasanti são muito lidas e citadas, e se tornaram expoentes da literatura nacional”, afirma Josca Ailine Baroukh, coautora de Ler antes de saber ler e outros quatro títulos para o público infantil publicados pela Panda Books.

Qual é o espaço que as mulheres têm hoje no meio editorial?

O Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB) pesquisou o perfil dos autores de livros nacionais publicados entre 1965 e 2014. De acordo com a pesquisa, no período de 2005 a 2014, 70,6% dos títulos foram escritos por homens.

Penélope Martins, autora de Aventuras de Pinóquio, fala sobre duas discussões importantes: existe a denominação “literatura feminina” para livros escritos por mulheres, da qual discorda. “Literatura é literatura, e pronto”, afirma a escritora; ela também aborda o termo “poetisa”, que, por causa da flexão de gênero, remete mais ao sentido romântico de musa inspiradora. Já com a palavra “poeta” isso não ocorre. “Repare bem que poeta termina com ‘a’, nem precisaríamos de esforço para entender como um substantivo sem gênero”, diz.

A escritora e ilustradora Clara Gavilan, de Me dá um abraço, retrata experiências conturbadas. Ela conta que ainda ouve homens dizendo frases como “Legal que você lançou o seu livrinho!” ou “Que fofinho!”. Clara questiona se receberia o mesmo tratamento caso fosse homem. “Não consigo imaginar alguém falando assim com Ziraldo ou Oliver Jeffers [autores e ilustradores de livros infantis]”.

Foto: arquivo pessoal
“Eu fui criada para estudar, buscar uma área de interesse, trabalhar e ter algum impacto sobre o mundo”, afirma Clara Gavilan. Foto: arquivo pessoal

Ao abordar a recepção de livros escritos por mulheres, Maísa Zakzuk, autora de Eu estou aqui, estranha haver diferenças nesse aspecto atualmente. “Ainda existe leitor que escolhe livro por gênero do autor?”, questiona. Josca possui opinião semelhante: “Uma vez que conseguem entrar no mercado, as autoras são bem recebidas, pois quem gosta de literatura, gosta de bons livros, independentemente do gênero do autor”.

Foto: arquivo pessoal
Maísa afirma que em um cenário ideal não precisaríamos discutir espaço por gênero. Foto: arquivo pessoal

A escritora Stella Florence, autora do romance Eu me possuo, tem opinião contrária à das colegas. Ela cita E.L. James (criadora da série 50 tons de cinza) e J.K. Rowling, que são atuais e esconderam seus gêneros no início das carreiras – Rowling publicou pela primeira vez em 1998, e James em 2015.

Foto: arquivo pessoal
Stella Florence explica que o mundo da literatura sofre os mesmos problemas com machismo que o restante da sociedade. Foto: arquivo pessoal.

Penélope olha para a diversidade de gêneros literários. De acordo com ela, nas literaturas infantil e juvenil há mais espaço para escritoras. “As funções na educação de crianças e jovens sempre foram garantidas às mulheres, o que não acontece no ensino superior, em geral”, diz. Segundo ela, nos livros considerados adultos a realidade é oposta. De acordo com a pesquisa da UnB, o perfil médio dos romancistas brasileiros é: homem branco, nascido no Rio de Janeiro ou em São Paulo e pertencente à classe média.

Entre o público leitor a realidade se inverte. A última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2016 pela Fundação Pró-Livro, mostrou que 48% dos leitores do país são homens e 52%, mulheres.

As mais belas histórias do Evangelho: papa Francisco lança livro para crianças

“Um homem que fala de frente tanto com líderes políticos quanto com crianças”. Assim Frei Alvaci Mendes da Luz, padre franciscano e mestrando em história pela PUC-SP, define o papa Francisco, que completará sete anos à frente da Igreja Católica no dia 13 de março. Durante esse período, o pontífice chamou atenção pela forma como aborda assuntos considerados polêmicos, e escreveu livros mostrando sua visão de mundo. Agora, ele lança uma nova obra escrita especialmente para crianças: As mais belas histórias do Evangelho, pela Panda Books.

O livro é movido por um questionamento – “que tipo de mundo deixaremos àqueles que virão depois de nós, às crianças que estão crescendo?” – e reúne as passagens dos evangelhos que mais marcaram a vida do papa, usadas por ele em orações e pregações até hoje. Ao todo, foram selecionados 16 textos dos quatro evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João). Francisco ainda acrescentou comentários dele feitos em discursos, audiências, pregações, preces e até mesmo postagens no Twitter.

Frei Alvaci explica que as discussões levantadas pelo papa não são novas. “Padres casados e ordenação de mulheres são debatidos há séculos”, diz. A diferença está no fato de o pontífice priorizar questões que não recebiam a mesma atenção antes. Como exemplos, o frade cita a atenção dada aos pobres, o menor uso de liturgia nas pregações e a busca pela atenção do público infantil. “Igrejas e religiões são difíceis, os textos, os ritos, as missas são chatos para as crianças, não são acessíveis”, explica o religioso. Ele também fala sobre o papa Francisco ter realizado missas para os pequenos enquanto vivia na Argentina, onde adaptou pregações ao público infantil. Sobre As mais belas histórias do evangelho, o frade afirma que se aproximar das crianças é uma preocupação que Bergoglio já tinha antes de se tornar papa.

Muito noticiado e com poucas soluções: o problema dos refugiados no Brasil

Um relatório da ONU estima que, por ano, cerca de 272 milhões de pessoas deixam seus países em direção a outras terras. No Brasil, a situação é dramática: dos 1,1 milhão de imigrantes, 11 mil são refugiados. O país teve três grandes ondas migratórias nesta última década: a dos haitianos, depois do terremoto que matou cerca de 150 mil pessoas em 2010; a síria, em decorrência da guerra civil que assola o país há anos (e que já vitimou 500 mil pessoas) e a venezuelana, com a acentuação das tensões políticas no país vizinho.

A vida de um refugiado não é fácil por aqui. Além da falta de políticas públicas, muitos deles têm de lidar com o preconceito e a violência no dia a dia Grave para todos os envolvidos, a questão se torna ainda mais delicada quando envolve os mais jovens. “O medo, a desconfiança e o problema da língua foram alguns dos obstáculos que eu encontrei para me aproximar de crianças refugiadas”, diz Maísa Zakzuk, autora do livro Eu Estou Aqui, o primeiro no Brasil a abordar a questão para o público infantil. Maísa conta ter visitado 50 entidades e instituições ligadas a refugiados e à imigração, além de escolas da rede municipal, em um processo de apuração que durou 13 meses. A escritora revela que, apesar de a maioria ter se entusiasmado com o projeto, muitos tinham receio de dar entrevistas ou indicar alguém que se propusesse a falar.

Sobre como esses jovens lidam com a sensação de morar em outro país, com costumes completamente diferentes de sua terra natal, Maísa acredita que certa dificuldade em entender a situação pela qual estão passando – além da própria questão da língua – faz com que eles não falem com tanta profundidade sobre o assunto.

A história desses jovens

Em seu livro, lançado pela editora Panda Books, Maísa Zakzuk traz as histórias de 12 crianças, de 12 países diferentes. Confira alguns personagens “revelados” pela autora:

 

Mariam – Palestina

Oficialmente, a jovem Mariam nasceu em Damasco, capital da Síria, mas é considerada apátrida, isso é, sem uma nação oficial, por causa de um conflito que dura longas décadas. A família da garota é da Palestina, região formada pela Cisjordânia, Faixa de Gaza e parte de Jerusalém, que nunca foi reconhecida oficialmente como país. Portanto, todos os seus parentes foram desde cedo privados dos direitos básicos de cidadãos. Antes de vir para o Brasil, a família viveu em um campo de refugiados na Síria e no Líbano, e nesse tempo a garota aprendeu a lidar com sentimentos de medo e tensão.

No Brasil, a família foi acolhida por um grupo de palestinos no centro de São Paulo. O pai de Mariam teve seu sonho de se formar em psicologia interrompido pela guerra. Já a garota quer aprender a pilotar aviões, e vive com a certeza certeza de que por aqui terá mais chances de ver seu sonho realizado.

 

 

 

 

 

Sebastien – Haiti

 

Um garoto apaixonado por Michael Jackson e futebol. Um sonho extremamente nobre, que reflete o tanto que viveu na sua ainda curta vida: ser missionário e propagar a paz pelo mundo. Depois do terremoto que devastou o Haiti em 2010, a mãe de Sebastien abandonou o país para buscar uma vida melhor. Chegou em 2014 ao Brasil. O menino ficou um ano e meio vivendo com o pai em Porto Príncipe, capital do país, até que sua mãe foi buscá-lo.

Apesar da barreira enfrentada pelo novo idioma, Sebastien já aprendeu uma de nossas palavras mais bonitas: saudade. Diz ter saudade do pai que ficou no Haiti, e também sente falta do chicô, um salgado de milho de sua terra.

 

 

 

 

 

 

 

Rosa – Angola

Em 2013, depois de chegar ao Rio de Janeiro com sua família da Luanda, Angola, a garota Rosa tomou seu primeiro banho de chuveiro com água quente na vida. No dia seguinte, a jovem, o pai e a mãe e as duas irmãs pegaram um ônibus com destino a São Paulo para buscar uma nova vida.

Rosa já está acostumada com sua rotina na capital paulista. Aqui, vai para a escola, estuda, tem aulas de balé, culinária e bordado. Apesar de muito jovem, lembra com carinho de quando ela e as irmãs esquentavam arroz e feijão em uma latinha de refrigerante vazia. Essa memória despertou em Rosa o desejo de se tornar uma grande chef de cozinha de um restaurante de comida africana, além de virar mestre em artes marciais.

 

 

 

 

 

 

 

Curiosidade: Apesar de existir uma crescente onda de xenofobia no Brasil, dados do Instituto Ipsos mostram que nossa percepção quanto à presença de estrangeiros é um tanto equivocada: os brasileiros acreditam que os imigrantes ocupam em média 30% de nossa população, quando na realidade o número não passa de 0,4%.

“O que está por trás das roupas que vestimos?”: Projeto escolar fala sobre o futuro da indústria têxtil

Como são produzidas as roupas que usamos no nosso dia a dia? Como podemos pensar esses processos?

As dúvidas estavam nas cabeças dos alunos do colégio Sagrado Coração de Jesus, localizado no bairro da Pompeia, em São Paulo. Coordenados pela professora Deborah Vallilo, produziram o projeto “O que está por trás das roupas que vestimos? Moda consciente e sustentável”, que fez parte de uma série de atividades interdisciplinares na escola no segundo semestre de 2019.

Em meio a discussões sobre possíveis temas, Luisa, uma das alunas, levou para a sala de aula o livro Alinhavos – O futuro do planeta está no seu guarda-roupa, escrito pela mãe, a estilista Alessandra Ponce Rocha. O livro logo se tornou um sucesso na sala de Luisa, e a autora enviou vários exemplares para que ele fosse utilizado em aula.

O livro “Alinhavos – O futuro do planeta está no seu guarda-roupa”, que foi utilizado pela sala de Luisa.

“Confesso que esse projeto superou as minhas expectativas, pois alunos, pais e comunidade escolar se envolveram”, conta a professora Deborah. O livro inspirou uma série de exposições e exibições dos alunos, desde pequenos seminários sobre a origem das mais variadas peças de vestimenta até oficinas de customização. A própria Alessandra acabou participando. Levou exemplos de tecidos e respondeu a todas as perguntas dos alunos em diversas visitas ao colégio. “Eles me perguntaram em que momento eu comecei a refletir sobre o processo de produção dessas roupas”, conta. “Mesmo com mais de 20 anos de experiência na indústria da moda, fiquei impactada com aquela questão”.

A turma ainda produziu um podcast onde os alunos debateram temas relacionados aos seus trabalhos. A ideia veio como um complemento às aulas de Texto Opinativo sendo dadas na matéria de Língua Portuguesa. “Ao ler os textos, em casa, fiquei muito impressionada com a diversidade de temas e a profundidade da escrita dos meus alunos”, elogia Deborah.

Ouça aqui o podcast produzido pelos alunos.

Sobre o objetivo do projeto de ajudar a desenvolver uma consciência ambiental e sustentável mais forte em seus alunos, Deborah não tem dúvidas de que tenha sido alcançado. “Estou certa de que, no meu papel de educadora, lancei sementes para cidadãos mais conscientes, mais críticos, mais questionadores, mais sensíveis e, consequentemente, preocupados e comprometidos com um futuro melhor!”

Almanaque de games de futebol: Jornalista reúne dados e curiosidades do gênero de jogos eletrônicos

Acredite: a rivalidade entre FIFA e Pro Evolution Soccer (PES), as duas franquias de games de futebol que dominam o mercado, é tão quanto um Fla-Flu ou um Grenal Apesar de as duas terem fãs assíduos, e discussões sobre qual jogo é melhor ocuparem páginas e páginas de fóruns na internet, os números de vendas mostram um competidor em larga vantagem: das 12,7 milhões de unidades vendidas das edições dos respetivos games em 2018, 12,2 milhões são de FIFA, enquanto PES (que é o sucessor da série Winning Eleven, clássico do início da década de 2000) ficou com apenas meio milhão.

Em países como Brasil e Inglaterra, onde o futebol é uma paixão nacional, esses games tornaram-se fenômenos culturais, e lideram as listas de vendas dos principais consoles. Buscando se aprofundar na história dessa categoria tão importante, o jornalista Guilherme Athaide escreveu o livro Almanaque de games de futebol, recém-lançado pela editora Panda Books. A obra fala sobre o surgimento do gênero (com Odyssey, em 1972) e sua evolução, e aborda temas como as trilhas sonoras dos games (adoradas pelos fãs!) e os mais famosos bugs – problemas no funcionamento do jogo que acabam gerando cenas e momentos pra lá de bizarros. Comenta também sobre a polêmica de licenciamento de jogadores e equipes, onde a recusa da venda de direitos autorais faz com que muitos times e atletas tenham nomes genéricos. O mais emblemático caso é o de Allejo, craque fictício da Seleção Brasileira no International Superstar Soccer de 1994. Apesar de não existir na vida real, a Konami, produtora do game, revelou que Allejo foi inspirado em Bebeto, campeão mundial no mesmo ano. Recentemente, edições do FIFA e do PES não têm conseguido os direitos para todos os times e jogadores do Campeonato Brasileiro, então muitos fãs não conseguem jogar com seu time do coração no mundo virtual.

O lendário Allejo em ação pela Seleção Brasileira no International Superstar Soccer.

“Faltava alguma publicação que compilasse e discutisse todas as mudanças e influências que os games de futebol fizeram na indústria de videogames, no entendimento do esporte e na vida dos jogadores”, disse Guilherme ao Panda News. Segundo o autor, os fãs desses games tiveram sua própria relação com o esporte influenciada pelos jogos. Ele cita como exemplo a oportunidade de conhecer jogadores que poderiam passar despercebidos no campo da vida real. “A garotada conversa sobre essas descobertas entre amigos, mas isso nunca havia sido registrado em um livro”.

O processo de apuração foi bem intenso, conta Guilherme. Além de experimentar todos os jogos do gênero que encontrou, o autor estudou gameplays no YouTube e outros livros que falassem sobre games em geral. Também visitou exposições sobre games em São Paulo, além de sebos e lojas com jogos mais antigos.

FIFA 20 e PES 2020 chegaram às lojas na segunda metade de setembro de 2019, e conquistaram notas boas da crítica, depois de um fraco 2018 para ambos.

Prato firmeza, volume 3: Nova edição da coletânea foca em espaços de lazer nas periferias paulistanas

Um dos principais projetos da escola de Jornalismo ÉNois, criada em 2009, é o Prato Firmeza, coletânea com histórias e dicas de lugares para comer nas regiões mais afastadas do centro da capital paulista. A série de guias acaba de ganhar seu terceiro volume, lançado pela editora Panda Books.

Desta vez, o enfoque é em atividades culturais e de lazer nas “quebradas”, em adição às recomendações de restaurantes e lanchonetes. Dividido em seis capítulos regionais (Sul, Oeste, Leste, Norte, Noroeste e Região Metropolitana), o livro revela espaços multiculturais espalhados por toda a cidade, desde uma barraca de pastel que virou ponto de encontro para batalhas de MC’s até uma hamburgueria com um cinema e cursos da sétima arte integrados.

O Panda News conversou com Gustavo Revaneio e Vitória Guilhermina, estudantes da ÉNois e repórteres do projeto, sobre a importância do projeto para a inclusão cultural da periferia:

PANDA NEWS: Como o Prato Firmeza potencializa a culinária e a cultura da periferia?

GUSTAVO REVANEIO: É importante para o empreendedor ver seu trabalho sendo reconhecido. Como no terceiro volume procuramos focar mais em opções de lazer, vimos que existe uma conexão entre a comida e a cultura sensorial das regiões.

PN: O Prato Firmeza desmistifica a imagem que o público tem da periferia?

GR: Com toda certeza! Muitas pessoas associam a periferia a um bairro dormitório, sem movimentação cultural, então é importante não só para as pessoas de fora desmistificarem a periferia, mas para os próprios moradores.

Vitória Guilhermina: Falamos de lazer e de cultura de uma forma que atinge a periferia e também quem mora fora, provando que lá não tem só violência. Uma coisa importante que tenho percebido nesse período de divulgação é que mostramos para as pessoas da periferia que elas têm sim opções de lazer em seus bairros, e não só fora deles.

PN: Olhando o terceiro volume, que história chamou mais atenção?

GR: A matéria que mais me marcou foi uma sobre sarau e açaí. É um coletivo LGBT que se considera uma família, e age como tal! O livro, além de tudo, me ajudou a ressignificar várias coisas, como o próprio conceito de família. Sendo um homem trans, me senti muito representado ao fazer essa matéria e divulgar essas pessoas.

VG: Uma que mexeu profundamente comigo foi a Pastelaryka. Achei incrível como um casal de amigas LGBT disse que um dos locais onde se sentem mais seguras é uma pastelaria evangélica, cheia de cultos e celebrações. Foi fascinante pensar nessa espécie de contradição (que na verdade não deveria ser uma contradição!), e depois de fazer a matéria fiquei refletindo sobre muitas coisas da nossa sociedade.

A equipe responsável pelo terceiro volume de Prato Firmeza.