Mês da mulher: como é ser escritora no Brasil?

O inglês Ellis Bell (1818-1848) publicou em 1847 seu único romance: O morro dos ventos uivantes, obra relevante para além de seu tempo. Prova disso foram as inúmeras adaptações para o cinema e para a televisão em diferentes países durante o século XX – no Brasil tivemos uma novela homônima, e outra chamada Vendaval. Os irmãos de Ellis, Currer (1816-1855) e Acton (1820-1849), também foram escritores. Acontece que os três eram mulheres que utilizaram pseudônimos masculinos para publicar seus textos. Ellis se chamava Emily, Currer era Charlotte e Acton, Anne. O sobrenome real das irmãs era Brontë.

A utilização de nomes masculinos por escritoras aconteceu principalmente entre o século XIX e o início do XX. Aqui no Brasil, por exemplo, tivemos a pintora, pianista, cantora, atriz e cartunista Nair de Tefé (1886 – 1981), conhecida pelos seus trabalhos artísticos e por ter sido primeira-dama do país (era esposa do marechal Hermes da Fonseca). Ela publicava caricaturas nos jornais e assinava como Rian, seu nome escrito ao contrário. O pseudônimo também se assemelha ao som da palavra francesa rien, que significa “nada”.

Durante o século XX, romances conhecidos popularmente como “água com açúcar” foram tidos como único gênero aceitável para autoras mulheres. Algumas escritoras atuais optaram por publicar seus textos sem deixar o gênero claro, como J. K. Rowling, criadora da série Harry Potter.

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Josca Baroukh tem cinco livros publicados pela Panda Books. Foto: arquivo pessoal

Há exceções – autoras que conseguiram espaço sem deixar suas identidades de lado. “Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Marina Colasanti são muito lidas e citadas, e se tornaram expoentes da literatura nacional”, afirma Josca Ailine Baroukh, coautora de Ler antes de saber ler e outros quatro títulos para o público infantil publicados pela Panda Books.

Qual é o espaço que as mulheres têm hoje no meio editorial?

O Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB) pesquisou o perfil dos autores de livros nacionais publicados entre 1965 e 2014. De acordo com a pesquisa, no período de 2005 a 2014, 70,6% dos títulos foram escritos por homens.

Penélope Martins, autora de Aventuras de Pinóquio, fala sobre duas discussões importantes: existe a denominação “literatura feminina” para livros escritos por mulheres, da qual discorda. “Literatura é literatura, e pronto”, afirma a escritora; ela também aborda o termo “poetisa”, que, por causa da flexão de gênero, remete mais ao sentido romântico de musa inspiradora. Já com a palavra “poeta” isso não ocorre. “Repare bem que poeta termina com ‘a’, nem precisaríamos de esforço para entender como um substantivo sem gênero”, diz.

A escritora e ilustradora Clara Gavilan, de Me dá um abraço, retrata experiências conturbadas. Ela conta que ainda ouve homens dizendo frases como “Legal que você lançou o seu livrinho!” ou “Que fofinho!”. Clara questiona se receberia o mesmo tratamento caso fosse homem. “Não consigo imaginar alguém falando assim com Ziraldo ou Oliver Jeffers [autores e ilustradores de livros infantis]”.

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“Eu fui criada para estudar, buscar uma área de interesse, trabalhar e ter algum impacto sobre o mundo”, afirma Clara Gavilan. Foto: arquivo pessoal

Ao abordar a recepção de livros escritos por mulheres, Maísa Zakzuk, autora de Eu estou aqui, estranha haver diferenças nesse aspecto atualmente. “Ainda existe leitor que escolhe livro por gênero do autor?”, questiona. Josca possui opinião semelhante: “Uma vez que conseguem entrar no mercado, as autoras são bem recebidas, pois quem gosta de literatura, gosta de bons livros, independentemente do gênero do autor”.

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Maísa afirma que em um cenário ideal não precisaríamos discutir espaço por gênero. Foto: arquivo pessoal

A escritora Stella Florence, autora do romance Eu me possuo, tem opinião contrária à das colegas. Ela cita E.L. James (criadora da série 50 tons de cinza) e J.K. Rowling, que são atuais e esconderam seus gêneros no início das carreiras – Rowling publicou pela primeira vez em 1998, e James em 2015.

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Stella Florence explica que o mundo da literatura sofre os mesmos problemas com machismo que o restante da sociedade. Foto: arquivo pessoal.

Penélope olha para a diversidade de gêneros literários. De acordo com ela, nas literaturas infantil e juvenil há mais espaço para escritoras. “As funções na educação de crianças e jovens sempre foram garantidas às mulheres, o que não acontece no ensino superior, em geral”, diz. Segundo ela, nos livros considerados adultos a realidade é oposta. De acordo com a pesquisa da UnB, o perfil médio dos romancistas brasileiros é: homem branco, nascido no Rio de Janeiro ou em São Paulo e pertencente à classe média.

Entre o público leitor a realidade se inverte. A última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2016 pela Fundação Pró-Livro, mostrou que 48% dos leitores do país são homens e 52%, mulheres.

As mais belas histórias do Evangelho: papa Francisco lança livro para crianças

“Um homem que fala de frente tanto com líderes políticos quanto com crianças”. Assim Frei Alvaci Mendes da Luz, padre franciscano e mestrando em história pela PUC-SP, define o papa Francisco, que completará sete anos à frente da Igreja Católica no dia 13 de março. Durante esse período, o pontífice chamou atenção pela forma como aborda assuntos considerados polêmicos, e escreveu livros mostrando sua visão de mundo. Agora, ele lança uma nova obra escrita especialmente para crianças: As mais belas histórias do Evangelho, pela Panda Books.

O livro é movido por um questionamento – “que tipo de mundo deixaremos àqueles que virão depois de nós, às crianças que estão crescendo?” – e reúne as passagens dos evangelhos que mais marcaram a vida do papa, usadas por ele em orações e pregações até hoje. Ao todo, foram selecionados 16 textos dos quatro evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João). Francisco ainda acrescentou comentários dele feitos em discursos, audiências, pregações, preces e até mesmo postagens no Twitter.

Frei Alvaci explica que as discussões levantadas pelo papa não são novas. “Padres casados e ordenação de mulheres são debatidos há séculos”, diz. A diferença está no fato de o pontífice priorizar questões que não recebiam a mesma atenção antes. Como exemplos, o frade cita a atenção dada aos pobres, o menor uso de liturgia nas pregações e a busca pela atenção do público infantil. “Igrejas e religiões são difíceis, os textos, os ritos, as missas são chatos para as crianças, não são acessíveis”, explica o religioso. Ele também fala sobre o papa Francisco ter realizado missas para os pequenos enquanto vivia na Argentina, onde adaptou pregações ao público infantil. Sobre As mais belas histórias do evangelho, o frade afirma que se aproximar das crianças é uma preocupação que Bergoglio já tinha antes de se tornar papa.

Muito noticiado e com poucas soluções: o problema dos refugiados no Brasil

Um relatório da ONU estima que, por ano, cerca de 272 milhões de pessoas deixam seus países em direção a outras terras. No Brasil, a situação é dramática: dos 1,1 milhão de imigrantes, 11 mil são refugiados. O país teve três grandes ondas migratórias nesta última década: a dos haitianos, depois do terremoto que matou cerca de 150 mil pessoas em 2010; a síria, em decorrência da guerra civil que assola o país há anos (e que já vitimou 500 mil pessoas) e a venezuelana, com a acentuação das tensões políticas no país vizinho.

A vida de um refugiado não é fácil por aqui. Além da falta de políticas públicas, muitos deles têm de lidar com o preconceito e a violência no dia a dia Grave para todos os envolvidos, a questão se torna ainda mais delicada quando envolve os mais jovens. “O medo, a desconfiança e o problema da língua foram alguns dos obstáculos que eu encontrei para me aproximar de crianças refugiadas”, diz Maísa Zakzuk, autora do livro Eu Estou Aqui, o primeiro no Brasil a abordar a questão para o público infantil. Maísa conta ter visitado 50 entidades e instituições ligadas a refugiados e à imigração, além de escolas da rede municipal, em um processo de apuração que durou 13 meses. A escritora revela que, apesar de a maioria ter se entusiasmado com o projeto, muitos tinham receio de dar entrevistas ou indicar alguém que se propusesse a falar.

Sobre como esses jovens lidam com a sensação de morar em outro país, com costumes completamente diferentes de sua terra natal, Maísa acredita que certa dificuldade em entender a situação pela qual estão passando – além da própria questão da língua – faz com que eles não falem com tanta profundidade sobre o assunto.

A história desses jovens

Em seu livro, lançado pela editora Panda Books, Maísa Zakzuk traz as histórias de 12 crianças, de 12 países diferentes. Confira alguns personagens “revelados” pela autora:

 

Mariam – Palestina

Oficialmente, a jovem Mariam nasceu em Damasco, capital da Síria, mas é considerada apátrida, isso é, sem uma nação oficial, por causa de um conflito que dura longas décadas. A família da garota é da Palestina, região formada pela Cisjordânia, Faixa de Gaza e parte de Jerusalém, que nunca foi reconhecida oficialmente como país. Portanto, todos os seus parentes foram desde cedo privados dos direitos básicos de cidadãos. Antes de vir para o Brasil, a família viveu em um campo de refugiados na Síria e no Líbano, e nesse tempo a garota aprendeu a lidar com sentimentos de medo e tensão.

No Brasil, a família foi acolhida por um grupo de palestinos no centro de São Paulo. O pai de Mariam teve seu sonho de se formar em psicologia interrompido pela guerra. Já a garota quer aprender a pilotar aviões, e vive com a certeza certeza de que por aqui terá mais chances de ver seu sonho realizado.

 

 

 

 

 

Sebastien – Haiti

 

Um garoto apaixonado por Michael Jackson e futebol. Um sonho extremamente nobre, que reflete o tanto que viveu na sua ainda curta vida: ser missionário e propagar a paz pelo mundo. Depois do terremoto que devastou o Haiti em 2010, a mãe de Sebastien abandonou o país para buscar uma vida melhor. Chegou em 2014 ao Brasil. O menino ficou um ano e meio vivendo com o pai em Porto Príncipe, capital do país, até que sua mãe foi buscá-lo.

Apesar da barreira enfrentada pelo novo idioma, Sebastien já aprendeu uma de nossas palavras mais bonitas: saudade. Diz ter saudade do pai que ficou no Haiti, e também sente falta do chicô, um salgado de milho de sua terra.

 

 

 

 

 

 

 

Rosa – Angola

Em 2013, depois de chegar ao Rio de Janeiro com sua família da Luanda, Angola, a garota Rosa tomou seu primeiro banho de chuveiro com água quente na vida. No dia seguinte, a jovem, o pai e a mãe e as duas irmãs pegaram um ônibus com destino a São Paulo para buscar uma nova vida.

Rosa já está acostumada com sua rotina na capital paulista. Aqui, vai para a escola, estuda, tem aulas de balé, culinária e bordado. Apesar de muito jovem, lembra com carinho de quando ela e as irmãs esquentavam arroz e feijão em uma latinha de refrigerante vazia. Essa memória despertou em Rosa o desejo de se tornar uma grande chef de cozinha de um restaurante de comida africana, além de virar mestre em artes marciais.

 

 

 

 

 

 

 

Curiosidade: Apesar de existir uma crescente onda de xenofobia no Brasil, dados do Instituto Ipsos mostram que nossa percepção quanto à presença de estrangeiros é um tanto equivocada: os brasileiros acreditam que os imigrantes ocupam em média 30% de nossa população, quando na realidade o número não passa de 0,4%.

“O que está por trás das roupas que vestimos?”: Projeto escolar fala sobre o futuro da indústria têxtil

Como são produzidas as roupas que usamos no nosso dia a dia? Como podemos pensar esses processos?

As dúvidas estavam nas cabeças dos alunos do colégio Sagrado Coração de Jesus, localizado no bairro da Pompeia, em São Paulo. Coordenados pela professora Deborah Vallilo, produziram o projeto “O que está por trás das roupas que vestimos? Moda consciente e sustentável”, que fez parte de uma série de atividades interdisciplinares na escola no segundo semestre de 2019.

Em meio a discussões sobre possíveis temas, Luisa, uma das alunas, levou para a sala de aula o livro Alinhavos – O futuro do planeta está no seu guarda-roupa, escrito pela mãe, a estilista Alessandra Ponce Rocha. O livro logo se tornou um sucesso na sala de Luisa, e a autora enviou vários exemplares para que ele fosse utilizado em aula.

O livro “Alinhavos – O futuro do planeta está no seu guarda-roupa”, que foi utilizado pela sala de Luisa.

“Confesso que esse projeto superou as minhas expectativas, pois alunos, pais e comunidade escolar se envolveram”, conta a professora Deborah. O livro inspirou uma série de exposições e exibições dos alunos, desde pequenos seminários sobre a origem das mais variadas peças de vestimenta até oficinas de customização. A própria Alessandra acabou participando. Levou exemplos de tecidos e respondeu a todas as perguntas dos alunos em diversas visitas ao colégio. “Eles me perguntaram em que momento eu comecei a refletir sobre o processo de produção dessas roupas”, conta. “Mesmo com mais de 20 anos de experiência na indústria da moda, fiquei impactada com aquela questão”.

A turma ainda produziu um podcast onde os alunos debateram temas relacionados aos seus trabalhos. A ideia veio como um complemento às aulas de Texto Opinativo sendo dadas na matéria de Língua Portuguesa. “Ao ler os textos, em casa, fiquei muito impressionada com a diversidade de temas e a profundidade da escrita dos meus alunos”, elogia Deborah.

Ouça aqui o podcast produzido pelos alunos.

Sobre o objetivo do projeto de ajudar a desenvolver uma consciência ambiental e sustentável mais forte em seus alunos, Deborah não tem dúvidas de que tenha sido alcançado. “Estou certa de que, no meu papel de educadora, lancei sementes para cidadãos mais conscientes, mais críticos, mais questionadores, mais sensíveis e, consequentemente, preocupados e comprometidos com um futuro melhor!”

Almanaque de games de futebol: Jornalista reúne dados e curiosidades do gênero de jogos eletrônicos

Acredite: a rivalidade entre FIFA e Pro Evolution Soccer (PES), as duas franquias de games de futebol que dominam o mercado, é tão quanto um Fla-Flu ou um Grenal Apesar de as duas terem fãs assíduos, e discussões sobre qual jogo é melhor ocuparem páginas e páginas de fóruns na internet, os números de vendas mostram um competidor em larga vantagem: das 12,7 milhões de unidades vendidas das edições dos respetivos games em 2018, 12,2 milhões são de FIFA, enquanto PES (que é o sucessor da série Winning Eleven, clássico do início da década de 2000) ficou com apenas meio milhão.

Em países como Brasil e Inglaterra, onde o futebol é uma paixão nacional, esses games tornaram-se fenômenos culturais, e lideram as listas de vendas dos principais consoles. Buscando se aprofundar na história dessa categoria tão importante, o jornalista Guilherme Athaide escreveu o livro Almanaque de games de futebol, recém-lançado pela editora Panda Books. A obra fala sobre o surgimento do gênero (com Odyssey, em 1972) e sua evolução, e aborda temas como as trilhas sonoras dos games (adoradas pelos fãs!) e os mais famosos bugs – problemas no funcionamento do jogo que acabam gerando cenas e momentos pra lá de bizarros. Comenta também sobre a polêmica de licenciamento de jogadores e equipes, onde a recusa da venda de direitos autorais faz com que muitos times e atletas tenham nomes genéricos. O mais emblemático caso é o de Allejo, craque fictício da Seleção Brasileira no International Superstar Soccer de 1994. Apesar de não existir na vida real, a Konami, produtora do game, revelou que Allejo foi inspirado em Bebeto, campeão mundial no mesmo ano. Recentemente, edições do FIFA e do PES não têm conseguido os direitos para todos os times e jogadores do Campeonato Brasileiro, então muitos fãs não conseguem jogar com seu time do coração no mundo virtual.

O lendário Allejo em ação pela Seleção Brasileira no International Superstar Soccer.

“Faltava alguma publicação que compilasse e discutisse todas as mudanças e influências que os games de futebol fizeram na indústria de videogames, no entendimento do esporte e na vida dos jogadores”, disse Guilherme ao Panda News. Segundo o autor, os fãs desses games tiveram sua própria relação com o esporte influenciada pelos jogos. Ele cita como exemplo a oportunidade de conhecer jogadores que poderiam passar despercebidos no campo da vida real. “A garotada conversa sobre essas descobertas entre amigos, mas isso nunca havia sido registrado em um livro”.

O processo de apuração foi bem intenso, conta Guilherme. Além de experimentar todos os jogos do gênero que encontrou, o autor estudou gameplays no YouTube e outros livros que falassem sobre games em geral. Também visitou exposições sobre games em São Paulo, além de sebos e lojas com jogos mais antigos.

FIFA 20 e PES 2020 chegaram às lojas na segunda metade de setembro de 2019, e conquistaram notas boas da crítica, depois de um fraco 2018 para ambos.

Prato firmeza, volume 3: Nova edição da coletânea foca em espaços de lazer nas periferias paulistanas

Um dos principais projetos da escola de Jornalismo ÉNois, criada em 2009, é o Prato Firmeza, coletânea com histórias e dicas de lugares para comer nas regiões mais afastadas do centro da capital paulista. A série de guias acaba de ganhar seu terceiro volume, lançado pela editora Panda Books.

Desta vez, o enfoque é em atividades culturais e de lazer nas “quebradas”, em adição às recomendações de restaurantes e lanchonetes. Dividido em seis capítulos regionais (Sul, Oeste, Leste, Norte, Noroeste e Região Metropolitana), o livro revela espaços multiculturais espalhados por toda a cidade, desde uma barraca de pastel que virou ponto de encontro para batalhas de MC’s até uma hamburgueria com um cinema e cursos da sétima arte integrados.

O Panda News conversou com Gustavo Revaneio e Vitória Guilhermina, estudantes da ÉNois e repórteres do projeto, sobre a importância do projeto para a inclusão cultural da periferia:

PANDA NEWS: Como o Prato Firmeza potencializa a culinária e a cultura da periferia?

GUSTAVO REVANEIO: É importante para o empreendedor ver seu trabalho sendo reconhecido. Como no terceiro volume procuramos focar mais em opções de lazer, vimos que existe uma conexão entre a comida e a cultura sensorial das regiões.

PN: O Prato Firmeza desmistifica a imagem que o público tem da periferia?

GR: Com toda certeza! Muitas pessoas associam a periferia a um bairro dormitório, sem movimentação cultural, então é importante não só para as pessoas de fora desmistificarem a periferia, mas para os próprios moradores.

Vitória Guilhermina: Falamos de lazer e de cultura de uma forma que atinge a periferia e também quem mora fora, provando que lá não tem só violência. Uma coisa importante que tenho percebido nesse período de divulgação é que mostramos para as pessoas da periferia que elas têm sim opções de lazer em seus bairros, e não só fora deles.

PN: Olhando o terceiro volume, que história chamou mais atenção?

GR: A matéria que mais me marcou foi uma sobre sarau e açaí. É um coletivo LGBT que se considera uma família, e age como tal! O livro, além de tudo, me ajudou a ressignificar várias coisas, como o próprio conceito de família. Sendo um homem trans, me senti muito representado ao fazer essa matéria e divulgar essas pessoas.

VG: Uma que mexeu profundamente comigo foi a Pastelaryka. Achei incrível como um casal de amigas LGBT disse que um dos locais onde se sentem mais seguras é uma pastelaria evangélica, cheia de cultos e celebrações. Foi fascinante pensar nessa espécie de contradição (que na verdade não deveria ser uma contradição!), e depois de fazer a matéria fiquei refletindo sobre muitas coisas da nossa sociedade.

A equipe responsável pelo terceiro volume de Prato Firmeza.

Eu sou Ricardo Boechat: Novo livro de memórias relembra histórias do grande jornalista

Em 1987, um homem dirigia um Monza pela ponte Rio-Niterói sem carteira de habilitação, de bermuda e chinelos. Ao ser parado pela polícia, deu a desculpa mais absurda já ouvida pelo guarda: o carro tinha sido emprestado a ele pela amiga Maitê Proença, atriz que fazia enorme sucesso na época. Sem conseguir comprovar que o carro era dela (até porque legalmente era de seu pai, cujo nome ele não sabia), o rapaz foi levado para a delegacia, só sendo liberado depois de um telefonema a seu advogado.

O rapaz em questão Ricardo Boechat, um dos maiores nomes da história da Comunicação brasileira (com 18 estatuetas do prêmio Comunique-se, o mais importante da área), morto em 11 de fevereiro de 2019 em um trágico acidente de helicóptero em são Paulo.

A história com o carro de Maitê Proença é apenas uma das 100 reunidas pelos jornalistas Eduardo Barão e Pablo Fernandez, companheiros de Boechat na BandNews FM, no livro de memórias Eu sou Ricardo Boechat, lançado pela editora Panda Books.

“A ideia é revelar ao público mais detalhes de como era a pessoa Boechat”, diz Barão, em entrevista ao Panda News. Em um dos relatos, descobrimos que ele, mesmo calejado por anos de jornalismo, não conteve as lágrimas ao conversar ao vivo com o pai de um garoto de três anos morto pela violência policial no Rio de Janeiro. “Apesar de se expor bastante no ar, ele tinha um lado muito íntimo e humano que poucos conheciam”, lembra Barão.

Os autores também reforçam nestas histórias a figura intensa que era Boechat, marcada pelas críticas, denúncias e demonstrações de amor e afeto. Barão e Pablo citam desde uma discussão acalorada com o pastor pentecostal Silas Malafaia até a total indignação do jornalista com a displicência das autoridades brasileiras em relação às vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), em janeiro de 2013.

Sobre o legado jornalístico deixado por Boechat, Barão cita o esforço do amigo em ensinar todos na redação a nunca dar a palavra oficial como verdade absoluta, e sempre ir atrás do público afetado e “daqueles mais indefesos”. “Boechat mudou a forma como é feito o colunismo social, passando a noticiar furos, e foi um âncora que ‘desceu do muro’, indo para a briga para defender os interesses da população”.

 

Prepare-se para se emocionar

O prefácio da obra é assinado por Veruska Boechat, viúva do âncora, que fala sobre as homenagens feitas a seu amado, sem deixar de fazer a sua: “Cada história vivida por Ricardo Boechat e todo o pessoal da rádio era uma história que ele levava para casa, cada problema de cada um deles passava a ser um problema dele”.

A última das 100 histórias é uma carta escrita pela mãe de Boechat, Mercedes Carrascal, contando como foi passar o primeiro Dia das Mães sem o filho:

“Coitadas, perderam o filho. Isso não é verdade! Não perderam nada, elas tiveram um filho, que permanece em sua mente e em seu coração. Que tiveram com eles sonhos, esperanças, sofrimentos, frustrações, com os quais riram e choraram, que os viram aprender a andar, a levantar-se, a cair, a pular, a ler, a escrever e que depois escolheram seus caminhos.”

Serviço

Lançamento do livro Eu sou Ricardo Boechat (São Paulo)

09/12 (segunda-feira) às 18:30

Livraria da Vila – Lorena (Alameda Lorena, 1731 – Jardim Paulista/Tel: 3062-1063)

 

Lançamento do livro Eu sou Ricardo Boechat (Rio de Janeiro)

11/12 (quarta-feira) às 19:00

Livraria Travessa – Shopping Leblon (Av. Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon/Tel: 3138-9600)

21ª Festa do Livro da USP

Vem aí a 21ª edição da Festa do Livro da USP! Aguardado ansiosamente pela comunidade editorial e pelos devoradores de livros em geral, o evento reúne as 178 principais editoras do país para quatro dias de valorização da cultura e da leitura, com a proposta de venda de livros com descontos irresistíveis.

Na edição de 2018, cerca de 70 mil pessoas passaram pela festa literária, e nesse ano a expectativa é de superação desse público. A Panda Books tem presença confirmada, e leva 3922 livros de seu catálogo com 50% de desconto.

Antônio Carlos Soares, coordenador de divulgação na Panda, define a Festa da USP como a feira mais importante do ano para as editoras. “É uma oportunidade para contato com escolas do interior de São Paulo, e até de outros estados”, comenta. “Amplia o nosso raio de atuação”. Além dos tradicionais livros de educação infantil, a Panda Books investe muito este ano no lançamento de Rastros de resistência, de Ale Santos, que traz histórias de luta da população negra no Brasil e na África.

A Festa do livro da USP ocorre desde 1999, com apenas 31 editoras participando de sua primeira edição, que ocupava um espaço de apenas 200m² (em comparação com uma área de 3600m² usada hoje). Em números totais, a quantidade de exemplares vendidos nesses 21 anos ultrapassa os dois milhões!

O divulgador da Panda Books considera a época em que a feira é realizada a melhor possível, já que, além de estar perto do período de festas, permite que pais e alunos universitários aproveitem para adquirir os livros que serão utilizados em aula no ano seguinte.

Serviço

21ª Festa do Livro da USP

27 a 30 de novembro

Avenida Professor Mello Moraes, Travessa C, Cidade Universitária

09:00 às 21:00 (dias 27, 28 e 29)

09:00 às 20:00 (dia 30)

“A Roda da vida” e o abandono parental: livro aborda o tema de forma inédita ao público jovem

Ainda pouco debatido no Brasil, o abandono parental atinge cerca de 47 mil crianças e adolescentes, que vivem em abrigos no território nacional, de acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

O problema é atual, mas não é novo. Há mais de cinco séculos atrás, instituições de caridade (especialmente abadias, igrejas e centros de acolhimento) criaram um dispositivo que ficou conhecido como a Roda dos Expostos. Era uma portinhola giratória onde recém-nascidos podiam ser deixados pela mãe. Essas crianças eram postas para adoção, mas muitas delas passavam a infância inteira aos cuidados da instituição, até se tornarem independentes. É difícil dizer quando a roda surgiu: alguns arquivos apontam que a primeira foi fundada em Portugal, em 1498, enquanto outras fontes dizem que o método de acolhimento já era utilizado na Itália do século XIII.

Autor consagrado de livros infanto-juvenis, Manuel Filho aborda de forma inédita essa questão no livro A Roda da Vida, ilustrado por Guilherme Petreca e lançado pela Panda Books. A obra traz a história de Ricardo, um jovem de 15 anos que recebe de seu avô Aparecido uma carta que revela a verdadeira origem de sua família.

Sempre de maneira muito sensível, Roda da Vida fala sobre a questão do abandono parental.

 

Em entrevista ao Panda News, o autor conta ter descoberto a existência da Roda dos Expostos ainda jovem (e ter ficado muito curioso e ao mesmo tempo assustado).  O processo de produção do livro foi baseado principalmente em arquivos históricos e na leitura de cartas deixadas por jovens nas instituições de caridade que visitou. “As pessoas que foram abandonadas na Roda já são muito idosas e difíceis de entrar em contato”, justifica Manuel. “O material de ficção a respeito da Roda é muito escasso e o livro pode ser uma boa oportunidade para quem quiser conhecer a história, por muitas vezes trágica, por meio da literatura”.

Falando sobre a questão do abandono parental nos dias de hoje, Manuel defende que o assunto ainda precisa ser muito debatido, pois o abandono segue ocorrendo sob as mais variadas formas. “Mesmo crianças que possam ter a presença de pai e mãe não estão totalmente protegidas da falta de atenção, da violência, do abandono parental, tão comum atualmente”, analisa. Em relação às políticas públicas voltadas para a área, o autor argumenta: “ao se ‘abandonar’ investimentos que poderiam provocar a diminuição da desigualdade social, cria-se uma reação em cadeia que, certamente, irá colaborar para que mais e mais crianças permaneçam desassistidas em nosso país”.

 

A Roda dos Expostos no Brasil

No Brasil, a Roda dos Expostos tem seu surgimento datado na primeira metade do século XVIII, nas Santas Casas de Misericórdia de Salvador (1726) e Rio de Janeiro (1738). Com o passar do tempo, questões como a falta de recursos e o surgimento de ideologias higienistas fez com que as Rodas dos Expostos lentamente começassem a desaparecer.

A última Roda dos Expostos a ter sido fechada no mundo foi brasileira. Localizada em São Paulo, a roda da Santa Casa de Misericórdia foi desativada em 26 de dezembro de 1960.

Dia da Consciência Negra: conheça vinte histórias de luta da população negra

No aniversário da morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares e mártir do povo negro brasileiro, comemora-se o dia da Consciência Negra. Mais que uma celebração, o 20 de novembro é uma data para marcar a luta por aceitação e respeito da população negra.

Zumbi já tem seu nome gravado na memória do brasileiro, mas há muitos outros negros e negras que permanecem apagados dos livros de história. Em Rastros de resistência, lançado pela Panda Books, o pesquisador e digital influencer Ale Santos (@savagefiction) reúne fatos e personagens de diferentes períodos do Brasil e de países da África, numa obra indispensável na luta constante contra o racismo e o preconceito.

Histórias de luta e liberdade da população negra apagadas com o passar do tempo são contadas em Rastros de Resistência.

De acordo com Ale Santos, o principal objetivo do livro é contribuir para a construção de um império cultural afro-brasileiro, e ajudar as pessoas a apagarem de suas memórias figuras racistas, substituindo-as por personalidades fortes do movimento negro. “Vivemos um momento extremamente politizado e marcado por extremos, e alguns desses extremos negam processos históricos fundamentais para a construção da nossa sociedade”, afirma o autor.

Conheça três dos vinte heróis e heroínas negros apresentados em Rastros de resistência:

Chico Rei: O rei congolês perdeu sua mulher e filha na embarcação que o trouxe ao Brasil, e foi transformado em escravo. Trabalhou por muito tempo em Vila Rica, cidade que hoje tem o nome de Ouro Preto, em Minas Gerais. Depois de ter uma visão de Santa Ifigênia, filha do rei da Etiópia Égipo, usou de sua astúcia e genialidade para libertar diversos irmãos negros e retomar seu império no Congo.

Zacimba: Princesa de Angola e guerreira, Zacimba foi responsável por formar o primeiro quilombo do Espírito Santo. Depois de revoltar-se e matar o covarde barão que dela abusou em sua chegada ao Brasil, passou a invadir navios negreiros durante a noite com seus companheiros de quilombos para libertar irmãos acorrentados.

Inácio: O paraibano Inácio usou a música e a habilidade na composição de versos para lutar pelo seu povo. Seu talento com o pandeiro chamou a atenção do senhor de engenho onde ele trabalhava como escravo. Ao ganhar notoriedade na região, disputou uma lendária batalha com outro fazendeiro pelo título de melhor cantador do local, que dizem ter durado oito dias.