Casa Flores: construindo lares para ex-presidiárias

O primeiro contato foi um choque. “Eu me lembro que vi um monte de varais com roupas coloridas por todos os cantos em contraste com aquele chão carcomido, as paredes manchadas e o ambiente cinza”. Quando Flávia Ribeiro de Castro entrou na penitenciária feminina de Santos, havia cerca de 200 presas em um ambiente com capacidade para sessenta. Eram vinte mulheres para seis camas em uma cela. A primeira troca de olhares foi com Adriana Graças Pereira, a Xal. “Entrou alguém na cadeia Xal já ia para perto da grade. Ele era o jornal da cadeia, é um comunicador puro.

No livro “Xal – Órfã, Moradora de Rua, Prostituída, Presidiária e Milagre de Superação”, escrito em parceria com o jornalista Thales Guaracy e lançado pela Panda Books, Adriana diz que a sua vida mudou com a chegada de Flávia: “Ela foi capaz de construir um lar, um ambiente de acolhimento em, talvez, um dos locais menos acolhedores do mundo”.

Flávia Ribeiro de Castro é fundadora e presidente da ONG Casa Flores, instituição dedicada à ressocialização de mulheres que viveram a experiência do cárcere. A Casa Flores é também lar e a primeira experiência de refúgio para muitas delas. A Casa Flores oferece apoio social, educacional e de saúde. Tem mais uma parte que Flávia define como fundamental: o olho no olho, o café da tarde com bolo e a convivência dignos de um verdadeiro lar. Essa iniciativa impacta diretamente as famílias das pessoas atendidas e se estende às comunidades de onde vêm.

Livro Xal - Órfã, drogada, moradora de rua, prostituída, presidiária. E milagre de superação.
Livro Xal – Órfã, drogada, moradora de rua, prostituída, presidiária. E milagre de superação.

1. Amigas além do tempo
A Casa Flores nasceu de um encontro de amigas em 2016, logo depois de uma sessão de cinema do filme “Estrelas Além do Tempo”, história em que um grupo de matemáticas negras da NASA é obrigado a trabalhar à parte de outros engenheiros. “Eu tinha um contato com a Maria Laura Canineu, que estabeleceu a Human Rights Watch aqui no Brasil, também começando”, conta Flávia, que tinha lançado em 2011 um livro, “Flores do Cárcere”, com sua experiência na penitenciária de Santos. O livro explica como o amor, o respeito e a compaixão melhoraram a convivência das encarceradas, a ponto de muitas resolverem mudar de vida. As amigas passaram um ano pesquisando temas até que conversaram com a procuradora Berenice Gianella, que ficou à frente da Fundação Casa por doze anos. Chegaram à conclusão que o momento de maior vulnerabilidade era a saída do cárcere, onde não há qualquer tipo de atendimento.

2. Preconceito no aluguel
A ONG foi fundada oficialmente em 2018. O começo não foi sem dificuldades: tiveram o aluguel do espaço recusado várias vezes depois de revelar que a entidade ajudaria mulheres saídas do sistema prisional. “Lidar com todo esse preconceito é um dos lados difíceis”, explica Flávia. “A gente tem preconceitos que estão estruturados ou que, na verdade, estruturam a nossa sociedade. E essas falsas ideias atrapalham muito o nosso trabalho.”

3. Flores do cárcere
No ano seguinte, a Casa Flores lançou o documentário “Flores do cárcere”, onde algumas das egressas visitam o antigo “Segundinho”, penitenciária feminina de Santos-SP, desativada em 2014, por causa das más condições e da superlotação. À ocasião das gravações, Flávia reencontrou Xal: “Foi terrível. Ela estava morando na rua, numa tenda de plástico amarela, completamente drogada… No presídio, o chuveiro é frio, água é fria, mas ele está lá. Na rua não tem nada disso. Na rua é a calçada suja, a poluição, a chuva, o calor… é você viver completamente vulnerável, sem nenhum tipo de proteção: só com uma lona amarela. Xal vivia drogada com crack 24 horas por dia. Estava muito magra, quase sem mais nenhum dente. Nossa, foi horrível”

4. Abandonadas pelo Estado
A ONG tem atuado também em duas outras frentes: ativismo político, voltado à conscientização da realidade do sistema carcerário e das pessoas que ali estão, e produção de conteúdo, iniciativa que deu origem ao livro “Xal” e também ao documentário “Flores do cárcere”. Nenhuma participante do programa reingressou no sistema prisional. Mas a quantidade de pessoas atendidas é pequena. Há a esperança que, com a difusão dessas histórias, outras iniciativas semelhantes apareçam e o preconceito da sociedade diminua. Um terço das mulheres encarceradas sequer foram julgadas. A maioria é negra, de origem pobre, e processada por pequenos furtos ou envolvimento com o tráfico, onde usualmente são exploradas na ponta do trabalho, têm envolvimento com um traficante e são dependentes químicas. “Se um de nossos filhos errou e fez uma bobagem, o que queremos pra ele? É assim que as pessoas precisam pensar. E é assim que um governo deveria pensar. O governo não olhou para essas crianças em nenhuma das fases importantes da vida delas. Então não pode dar certo isso.”.

5. Bichinhos assustados
O trabalho com mulheres egressas do sistema prisional não foi o seu primeiro. Foi durante quatro anos diretora voluntária de um abrigo de crianças na cidade de São Paulo. Observou as crianças que chegavam “como bichinhos assustados”, muitas vezes sem sequer falar: vindas da vida na rua, do completo abandono e do consumo de drogas, sem documento ou nome que as identificasse. Ao constatar que isso era fruto em vários casos de uma mãe
encarcerada, quis entender o que poderia ser feito antes, para evitar esse abandono e solidão. O abandono paterno é frequente no Brasil e toda a responsabilidade é posta sobre a mulher.

Na infância, Flávia conta que estudou em colégios particulares e ajudava a madrinha, diretora de escola pública, a dar aulas de reforço nos fins de semana. Recorda-se também da mãe que, ao ouvir uma criança batendo no portão para pedir comida, a punha para dentro, a alimentava, dava-lhe banho e só depois ligava para o tio, que trabalhava no Juizado de Menores. “Quando era pequenininha, eu mudei de escola”, conta. “Nessa escola nova tinha uma casinha de madeira. Todo recreio eu ia lá para arrumar as coisas que estavam desarrumadas naquele larzinho. Para mim, lar é o símbolo de meu lugar do mundo, o espaço em que recebo afeto”.

Alimentada por todas essas experiências, Flávia repete até hoje o gesto de consertar outros larzinhos.

“O Retrato de Dorian Gray” e as vidas perfeitas no Instagram

A Panda Books abriu sua nova coleção de Clássicos em Língua Estrangeira  com um dos títulos mais controversos e interessantes do século XIX: “O Retrato de Dorian Gray”, do irlandês Oscar Wilde. O texto de 1890 ganhou nova tradução do jornalista, crítico e tradutor José Geraldo Couto e conta também com os já consagrados e divertidos comentários e notas da jornalista, escritora e pesquisadora Fátima Mesquita. A pedido do Panda News, Fátima fez uma apresentação da edição:

“O cenário é a Inglaterra Vitoriana do século XIX e a trama gira em torno de Dorian, um narciso que se encantou com a própria imagem e ansiou pela eterna juventude, milagrosamente ou amaldiçoadamente a conseguindo. Hedonista, Dorian vivia pelos prazeres da vida, degradando-se moralmente com o decorrer do tempo.

“O prefácio da obra é uma digressão de Wilde acerca da arte, do artista e da utilidade de ambos, encerrado com a conclusão: “A arte é perfeitamente inútil”. O movimento esteticista da época, crítico ao utilitarismo da Revolução Industrial, por vezes interpretou essa busca do belo e da felicidade como verdades absolutas, enquanto o desenvolvimento da trama se assemelha mais a um aviso de cautela a esse modo de vida. As discussões presentes na obra permanecem atuais e relevantes, numa sociedade de vidas perfeitas no Instagram e trabalhos alienantes da realidade: o culto extremo à beleza e à imagem, as consequências de uma vida centrada nos prazeres ou em sua ausência.

“A obra e seu autor foram alvo de diversas polêmicas. O que mais me atrai no Oscar Wilde é a ousadia. Dá pra imaginar como ele arrasava onde quer que fosse? E ele era esse abusado e amostrado dentro e fora, né, porque se vestia e se comportava e escrevia e conversava e vivia na boca do abismo, de verdade e com intensidade máxima. E ele tinha essa coisa quase mágica de não ficar dourando pílulas, mas ao mesmo tempo se expressar sempre como uma purpurina ambulante.” 

Os nerds herdarão a Terra… ontem, hoje e sempre

Por Rosana Rios

 

Quando, há dez anos, eu e o Luís Flávio Fernandes lançamos o livro “Enciclonérdia”, essa frase estava no âmago de nossas pesquisas. Como dissemos na introdução a esse almanaque de cultura nerd, o mundo se nerdifica a cada segundo que passa… Pois nerdice é curiosidade, é busca de conhecimento; e conhecimento é não apenas poder, como diversão – e mais gente com a marca da curiosidade e da nerdice continua nascendo e crescendo por aí.

Dez anos depois do lançamento, depois de milhares de exemplares vendidos e um spin-off, o jogo de cards “Nerd Quiz”, esses conceitos não desapareceram, mas prosperaram (afinal teremos Vida Longa e Próspera, como profetizou um vulcano). Muita coisa mudou, naturalmente; novos seriados, games e tecnologias nerds surgiram, pois esse é o curso natural das coisas. O mundo se tornou mais paranoico, com a chegada da pandemia de 2020 e a saída do armário (ou das profundezas em que se ocultavam) de criaturas que não gostam de ciência, não têm curiosidade e não buscam o  conhecimento; sabemos que sempre existiram anti-nerds, e sempre existirão, claro.

Porém, a nerdificação da humanidade é um processo irreversível; e os que se isolaram em busca de segurança contra o vírus atual (e os que virão) encontraram e encontram apoio nos livros, nos quadrinhos, nos jogos, nos seriados, na pesquisa, na música, na arte, na tecnologia e na cultura. Se sobrevivemos em isolamento foi graças a nerds que, um dia, sonharam conceitos revolucionários como plataformas de comunicação remota, celulares inteligentes, algoritmos, streaming, bluetooth e outras nerdices… Ainda nos falta o teletransporte – mas, do jeito que a coisa vai, não duvido de que logo estejamos dizendo “Beam me up, Scotty” em um comunicador subcutâneo.

Comemoremos, pois, estes dez anos de nossa “Enciclonérdia” lembrando que, sim, por mais que os antinerds, anticuriosos e anticiência ainda existam, somos nós, nerds e geeks, que herdaremos a Terra.

“Quero um abraço!”: A volta do livro-presente

O mês de março marcou o novo lançamento da Panda Books: Quero um abraço!, de Lisa Whitfield. O título retoma o formato livro presente, muito popular no início dos anos 2000. “Desde o início de 2020, estamos sem uma afetividade próxima, só podemos nos tocar com o punho ou com o cotovelo. Decidimos falar sobre a importância do abraço, que vai muito além da pandemia”, conta a diretora comercial da editora e autora Patth Pachas.

O responsável pelo sucesso do gênero na virada do século foi Bradley Trevor Greive, um autor repleto de experiências de vida. Nascido na Tasmânia, em 1970, ele foi morar com a família na Austrália aos 10 anos de idade, depois de terem passado por: Inglaterra, Escócia, Hong Kong e Cingapura. Bradley cresceu, venceu o medo de altura e se tornou paraquedista do exército australiano. Ele deixou as Forças Armadas depois de uma séria infecção no pulmão contraída durante um treinamento.

Livros-presente ainda em catálogo na Panda Books.

Foi no ano 2000 que o autor lançou Um dia “daqueles” (The Blue Day Book). O livro utilizava fotos de animais e textos curtos para falar sobre um dia exaustivo. No mesmo ano ele chegou ao Brasil pela Editora Sextante. Por aqui, o título vendeu 1,2 milhão de exemplares. Também foi publicado em outros 114 países e ultrapassou a marca de 25 milhões de livros vendidos. Bradley foi condecorado com o prêmio Ordem da Austrália pelo serviço prestado à literatura e à vida selvagem.

Livros-presente ainda em catálogo na Panda Books.

O primeiro livro-presente da Panda Books foi Viva feliz, que chegou às livrarias em 2002. Seguindo a fórmula do gênero, apresentava fotos de crianças e frases motivadoras. A Panda lançou outros 10 livros-presente e continua com sete em catálogo: Amo você!; Falando com Deus; Mamãe eu super te amo!; Obrigado, doutor!; Pai, você é o maior!; Querida vovó; Sonhar e realizar é só começar. Eles venderam um total de 320 mil exemplares. Jornalista de formação e autora de Sonhar e realizar é só começar, Patth sempre se dedicou mais ao empreendedorismo do que aos textos e gostou da experiência: “Acho que fiz bem e foi gostoso escrever. Entrar nessa área lúdica foi uma experiência muito rica”.

Livros-presente ainda em catálogo na Panda Books.

O lançamento Quero um abraço! retoma o estilo com imagens emocionantes e textos simples. Ele mescla crianças e bichos para falar sobre os diferentes tipos de abraços e pessoas com quem podem ser divididos. O formato permite que o livro seja um presente, independentemente do tipo de relação que se tenha com quem recebê-lo. A ideia central é celebrar o amor, o carinho e a gratidão expressos nesse gesto que é simples e poderoso ao mesmo tempo.

Como usar os podcasts como aliados em sala de aula

O radialista e professor universitário Marcelo Abud é um dos pioneiros na produção de podcasts no Brasil. O formato surgiu nos Estados Unidos em 2004. Marcelo conheceu a nova ferramenta em reportagens que saíram na imprensa. Começou a estudá-la e fez especialização em 2007, quando pesquisou a possibilidade de ser usada como meio de interação entre professores e alunos. Também é responsável há nove anos pelo podcast Instituto Claro, um dos mais importantes em educação no Brasil.

Como os professores usam podcasts com os alunos?
Na FAAP, faculdade onde trabalho, os docentes já indicaram podcasts ou para que os alunos os produzam. É uma ferramenta que chegou às escolas. Da mesma forma que indicamos um bom livro podemos sugerir podcasts – ou utilizar os dois, se houver complemento. O audiolivro também é uma ferramenta muito boa. Quando os professores discutem um assunto, podem recomendar um podcast sobre ele. É possível introduzir o tema na classe, sugerir que os alunos busquem o conteúdo de uma forma interessante e organizar um debate na aula seguinte.

Você tem algum exemplo recente de podcast que faz isso?
Tem um projeto inovador da escola La Fontaine, em Jundiaí, interior de São Paulo, feito pelo educador, escritor e contador de histórias Giba Pedroza. Acredito que tenha parado durante a pandemia. Ele criava regularmente radionovelas com os alunos. O Giba reunia professores e estudantes, entendia quais histórias queriam contar e construía tudo com eles. As crianças pensavam em como criar sons. Por exemplo, quando precisava de uma campainha, eles não baixavam o áudio da internet. Criavam aquele som por meios próprios.

Como a questão das fake news pode ser levada para a sala de aula?
Podemos usar a Revolta da Vacina como exemplo. Em 1904, a população do Rio de Janeiro acreditava que, se tomasse a vacina contra a varíola, viraria vaca. E agora temos o jacaré. Essa situação cria um interesse na criançada quando o professor fala sobre assunto. E tem todo um plano de fundo: foi justamente a desinformação que gerou a Revolta da Vacina, além de questões sociais. Acredito que fazer um paralelo entre a história da vaca e a do jacaré é uma forma de gerar um exercício. Dá para buscar podcasts que falem do assunto, desenvolver a narrativa, fazer uma reportagem, contar a história no formato de radionovela ou criar um boletim de 1 minuto. Tudo depende muito mais do professor do que de fórmulas. Cada um vai encontrar aquilo que seja melhor para aplicar e despertar interesse nos alunos. A liberdade é o que o podcast tem de mais rico para aplicação em sala de aula.

Qual é a importância de um projeto que une livro e podcast como o Esquadrão Curioso – Caçadores de fake news, de Marcelo Duarte?
Os formatos podem ser completares. Cada um tem a sua importância, mas, quando ouço, quero conhecer os personagens no livro, ver como são descritos e o que fazem. Quando leio a história, penso como seriam os personagens em uma ação fora dela. Então, tenho um complemento – isso é chamado de transmídia. O importante é saber o papel de cada formato e respeitá-lo. Se fosse feita apenas a leitura do livro, o podcast teria uma relevância, mas ele ofereceria menos do que pode.

Tino e a Olivetti Valentine / Crédito: Andréa Lemos

Memórias da minha máquina de escrever

Em 6 de fevereiro, Tino Freitas, autor de Um abraço passo a passo, estava em completa alegria: uma máquina de escrever vermelha chegou em sua casa. Cheia de estilo e em ótima forma, a Olivetti Valentine logo pousou para fotos e fez sucesso no Instagram. As máquinas foram comuns até meados da década de 1990, quando passaram a ser substituídas por computadores. O século XX pode parecer distante olhando assim, mas conversamos com quatro autores que começaram suas carreiras batendo nas teclas – literalmente.

Tino Freitas

Ganhei a primeira máquina do meu pai nos anos 1980. Gostava de escrever poemas românticos nela na adolescência. Usei pouco, porque logo tivemos um computador em casa. Cursei jornalismo, mas fui músico até me tornar escritor em 2009. Então, durante um passeio pelo Rio de Janeiro, encontrei uma Remington Noiseless antiga, que era portátil, uma espécie de notebook do final da Segunda Guerra. Comprei e gosto de levar para visitas em escolas. As crianças adoram conhecer. Na virada deste ano tive vontade de voltar às máquinas para escrever meu próximo livro, que se passará na Idade Média. A Remington funciona, mas é muito antiga, e prefiro preservá-la. Pesquisei até chegar a um colecionador conhecido como “Sergio Type”. Ele me apresentou a Valentine e eu fiquei louco. O modelo foi criado em 1968 pelo austríaco Ettore Sottsass e pelo britânico Perry King. Os dois foram premiados pelo trabalho, e até hoje há uma unidade em exposição no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. Ainda estou me acostumando aos mecanismos, mas tenho certeza de que terei uma história afetiva com ela.

Ivan Jaf, autor de Jahú; E desaparecemos um no outro; Conde drácula e outros vampiros; e Frankenstein e outros mortos vivos

Tinha o sonho de ser fotógrafo na juventude e era hippie – estava sempre em um lugar diferente. Na década de 1970, fui para Londres e encontrei uma máquina de escrever em uma feira de antiguidades. Comecei a fazer poemas nela e mudei a minha vida – descobri que era escritor. Ela era pequena, portátil, e eu gostava de máquinas assim, porque colocava na mochila e levava para onde ia. Escrevi nelas até o ano 2000. A última com que trabalhei foi uma Lexikon 80 – com essa eu não viajava. Ela é feita de aço, deve pesar 30 quilos, mas parece uma tonelada, é um bicho que dura para sempre. Tenho as pontas dos dedos quadradas de tanto bater nas teclas. Bater mesmo, literalmente. Quando a linha chegava ao fim, ainda precisava dar um tapa em uma alavanca para voltar ao outro lado do papel. A cada 30 linhas era necessário trocar de folha em pleno processo criativo. Era um confronto com o bicho e tinha muito barulho. No final, você sentia cansaço físico, não só mental. Não tenho saudade de usar a máquina, mas sinto falta de me relacionar com um objeto que compreendo. Eu mesmo fazia manutenções. No máximo, levava em mecânica de bicicleta para usar o jato de ar comprimido e limpar os mecanismos.

Ivan Jaf e sua Lexikon 80.

Regina Drummond, autora de Quando tudo muda e Lobisomem e outros seres da escuridão

Eu comecei a escrever na adolescência, quando fazia tudo à mão. Já não lembro mais se foi no meu aniversário de 20 ou de 21 anos que ganhei minha primeira máquina do meu então marido. Era bem pequena, portátil, tinha uma caixa para colocá-la dentro e carregar, como a Valentine. O que eu lembro é que chegava a doer o dedo – tinha que bater com força, era uma patada! Adorava a minha máquina, mas quando mudei para a Alemanha, precisei me desfazer dela. Meu primeiro livro, Aquarela Infantil, foi escrito na máquina de escrever, chamava Aquarela Infantil. Ele era bem feio e, para piorar, fazia parte de uma coleção de obras coloridas em que só ele era preto e branco. Apesar disso, é muito especial, pois foi como tudo começou.

Madalena Monteiro, autora de O veado e o sapo e O filho do caçador e outras histórias-dilema da África

Sou de uma família bastante pobre e a gente precisava fazer o curso de datilografia, porque poderia ajudar a arrumar trabalho logo que terminasse o ginásio, (atual Ensino Médio). Então, fiz o curso e meu pai comprou uma máquina de escrever. Lembro dos exercícios em que repetíamos sequências de letras, como “a, s, d, f, g”, cada uma com um dedo, do mindinho ao polegar. Parecia que aquilo ativava músculos da mão que a gente não usava para mais nada – não tínhamos computador e celular. Quando digitava uma letra errada, precisava pegar um papel pequeno e branco que era colocado em cima dela. Então, batia a letra novamente para apagar e, em seu lugar, escrevia a correta. Quando me tornei professora, fiz um investimento e comprei uma máquina elétrica para escrever relatórios de alunos – era bem mais rápido do que na mecânica.

Gustavo Piqueira: o designer original, criativo e moderno da coleção “Clássicos”

Quem está por trás do bem sucedido projeto da coleção Clássicos, da Panda Books, é o designer gráfico Gustavo Piqueira. Fundador do estúdio Casa Rex, ele e a equipe já receberam mais de 500 prêmios internacionais – e continuam somando. Gustavo e a Casa Rex são os responsáveis pela ideia das capas e da organização interna dos livros, incluindo ilustrações, notas de rodapé e boxes.

Como um projeto assim começa a surgir?

Primeiro há uma concepção geral, que é rápida. A ideia era assumir que um clássico em versão escolar precisaria trabalhar uma possível aversão que o aluno tem de leituras obrigatórias. Por isso, esse teor um pouco anárquico – já vem rabiscado. Desse princípio, nós temos alguns desdobramentos: como abordar todas as notas, os boxes, misturar ilustrações diferentes. Essa quantidade de elementos maior que em um livro comum atende o conceito do livro de um jovem e, ao mesmo tempo, ajuda a organizar a grande quantidade de paratextos.

Quais são as etapas seguintes?

São dois passos paralelos que se cruzam em um momento. Depois desse que eu chamo de “tom”, que não precisa ser materializado, temos a parte prática: entender o conteúdo. O livro é um território que você vai ocupar. É importante entender tanto suas características físicas quanto o que precisa caber nele. Tudo isso envolve pegar o texto, jogar no espaço, no número de páginas, usar um tamanho de fonte que seja bom para leituras e entender quais são os paratextos, para saber quantas variações serão necessárias. Nos Clássicos, da Panda Books, a mancha, que é a parte ocupada pelo texto, é menor do que o comum, para caber as notas e os boxes. Essa série de testes é um pré-projeto. Aí, nós escolhemos a fonte, a cor e as ilustrações.

Coleção “Clássicos” da Panda Books

Como foi o desenvolvimento do projeto da capa?

A proposta de capa original era diferente da que acabou adotada. Ela apresentava retratos dos autores rabiscados. Por exemplo, o Machado de Assis com o bigode rabiscado da forma que os alunos costumam fazer de brincadeira. Foi a única mudança do original. Gosto desse trabalho, porque já tem 10 anos e ainda se mantém. Alguns ficam velhos, é um aspecto inerente da minha atividade. Sempre que um projeto continua interessante com o passar do tempo é sinal de que ele se apoiava em algo original, e não apenas no espírito da época em que foi feito.

Aniversário de São Paulo – curiosidades sobre símbolos da cidade

A cidade de São Paulo foi fundada em 25 de janeiro de 1554, mas só teve um brasão e uma bandeira para representá-la no século XX. Para comemorar os 467 anos da capital paulista, recebemos um artigo do geógrafo Tiago José Berg, autor de Hinos de todos os países do mundo e Bandeiras de todos os países do mundo.

Brasão da cidade de São Paulo

Em dezembro de 1915, a Câmara Municipal de São Paulo instituiu um concurso para a escolha do brasão de armas da cidade, atendendo uma solicitação do prefeito Washington Luís. Até então, o emblema usado pela prefeitura era o brasão da República Brasileira. Formou-se uma comissão composta de personagens da vida cultural paulistana para julgar os trinta e seis concorrentes. Nenhum dos trabalhos satisfez o júri. Pouco se sabe sobre os desenhos, mas havia muitos brasões cheios de águias, bandeiras, fortalezas, correntes partidas e até capacetes de Mercúrio. O projeto de número 32, de autoria do ilustrador José Wasth Rodrigues foi de grande importância no primeiro concurso – introduziu o lema NON DUCOR DUCO (não sou conduzido, conduzo), que se imortalizaria mais tarde como lema heráldico paulistano. Houve um segundo concurso com trinta e dois trabalhos. Nele, sagrou-se vencedor o projeto de número 7, de autoria do poeta e heraldista Guilherme de Almeida, em parceria com Wasth Rodrigues.

Em relação ao modelo atual, o desenho contava com um braço armado empunhando uma espada batalhante, que partia da direita do escudo (destra), com uma coroa mural revestida de ouro e três torres, além do lema escrito em negro. A comissão sugeriu algumas modificações, como a retirada da espada e as letras do mote passaram a ser escritas em vermelho. O projeto foi aprovado por Washington Luís no ato n.º 1.057, em 8 de março de 1917.

Em 2 de outubro de 1974, promulgou-se a lei n.º 8.129, que alterou o seu desenho original para a versão usada até hoje. Foi sugerido um novo posicionamento do braço armado, agora saindo do flanco esquerdo do escudo, para dar a ideia de ação na figura, que também se tornou maior. A coroa mural passou a ter cinco torres – trata-se de um castelo localizado na parte superior dos brasões municipais. São as muralhas que cercavam as antigas cidades medievais. Essa tradição é vem de Portugal, onde há uma regra: três torres para aldeia, quatro para vila ou distrito e cinco para município. Além disso, só a capital pode ter as muralhas em ouro, os outros municípios usam em prata ou cinza.

Bandeira da cidade de São Paulo

A primeira bandeira da capital paulista era toda branca, com o brasão da cidade ao centro. Esse desenho foi sugerido pelo publicitário Caio de Alcântara Machado para ser hasteado na Feira Industrial Têxtil de 1958. A partir de então, a prefeitura resolveu adotá-lo.

Em 1986, o prefeito Jânio Quadros organizou uma comissão para elaborar uma nova bandeira. Usado até hoje, o desenho de Lauro Ribeiro Escobar é formado por um campo branco, onde está inserida uma cruz da Ordem de Cristo de braços alargados ao estilo escandinavo. A cor é vermelha vazada de branco.

No cruzamento dos braços da cruz foi posto um círculo, nas mesmas cores, que ostenta o brasão de armas do município. A cor branca simboliza a paz, a pureza, a verdade, a integridade, a amizade e a síntese das raças. O vermelho é a cor-símbolo da audácia, da coragem, do valor, da galhardia, da generosidade e da honra. A cruz evoca a fundação da cidade pelos padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta. Lembra também a herança da colonização portuguesa e a ação desbravadora dos bandeirantes em busca de novas conquistas.

O círculo é o emblema da eternidade, além de simbolizar que todas as decisões saem e convergem para ele, pois a cidade é centro de poder e capital do “estado bandeirante”. A atual bandeira foi instituída pela lei nº 10.260, de 6 de março de 1987, e hasteada pela primeira vez no dia 18 daquele mês, em cerimônia realizada no parque do Ibirapuera.

Presente de Natal: Autores da Panda Books escrevem conto coletivo com sete finais felizes

A Panda Books convidou sete autores para um desafio de fim de ano: escrever um conto de Natal coletivo. Cada um teve apenas um dia para criar um parágrafo da história. Com essa parte pronta, cada escritor foi responsável por um final feliz diferente, também no prazo de 24 horas. A história se transformou em um livro, oferecido gratuitamente para nossos leitores. Ele está disponível para download no site www.pandabooks.com.br. O Panda News conversou com os sete autores – Caio Tozzi, Carmen Lucia Campos, Henrique Sitchin, Manuel Filho, Marcelo Duarte, Penélope Martins e Shirley Souza – sobre a participação nessa brincadeira.

Penélope gostou tanto do convite, que confirmou presença rapidamente – já com sua parte pronta. Assim como ela, Shirley Souza conta que se divertiu com a ideia: “Mas logo depois de aceitar, me deu um frio na barriga”, lembra. Quando parou para escrever, o parágrafo saiu fácil e deixou Shirley curiosa para saber que rumo a história tomaria. Henrique Sitchin lembrou do telefone sem fio da infância e de um exercício que propunha em uma oficina de dramaturgia para o teatro: “Cada participante fazia uma parte da história e, depois, nos juntávamos para criarmos os elos dos diversos trechos”.

Marcelo foi o responsável por começar: “Estava me perguntando aqui em casa como seria a noite de Natal este ano sem beijos e abraços e logo me veio a imagem de Papai Noel não podendo sair do Polo Norte por causa da idade”, lembra. Durante a escrita, cada autor acrescentou elementos novos, deixando em aberto aos próximos o que aconteceria com a novidade. Caio Tozzi se deparou com um cachorro durante a história: “Um personagem ótimo!”. Então, criou um amigo para ele – assim, surgiu mais um personagem. Henrique teve uma ideia ao mexer no próprio bolso e pegar o smartphone: “Fiquei pensando como seria um celular mágico, um dispositivo com alguma função fantástica, algo muito além dos aparelhos que nós usamos”. A ideia se unia à necessidade de comunicação à distância por causa da pandemia.

“Gostei de usar a engenhoca do Henrique no meu final”, lembra Carmen Lucia Campos. O parágrafo dela se relaciona com o de Manuel Filho. Nas duas partes, a autora buscou acrescentar magia. Para Manuel foi diferente, pois crítica social é um aspecto marcante em sua obra. “Não consigo sentar para escrever uma coisa em que não apareça o meu envolvimento com o mundo”, afirma o autor. Com características diferentes, os autores prepararam o caminho para a trama natalina.

O final

Perguntados como foi criar um final feliz em um conto feito por sete pessoas diferentes, cada autor trouxe uma história nova. Colocamos os relatos abaixo.

Caio Tozzi: “Quando vou escrever minhas histórias, planejo os acontecimentos, as viradas e tudo mais. Mas a proposta da Panda tinha o sabor da surpresa – inclusive porque tínhamos um prazo curto para fazer nossa parte. Tive que ler e reler toda a história e pensar em todos os elementos que os meus colegas colocaram desde a primeira parte e, de repente, utilizá-los no meu encerramento, de uma forma coerente com a trama construída. Foi divertidíssimo! E o mais bonito, neste momento que estamos vivendo, é poder imaginar que teremos, sim, um belo final feliz para breve”.

Carmen Lucia Campos: “Havia muitos elementos que surgiram ao longo da história, mas eu encontrei um especial para transformá-lo no agente da magia que se deu naquela noite de Natal. Queria um desfecho leve e, de certa forma, surpreendente, que resgatasse o espírito natalino e representasse uma mensagem de esperança”.

Henrique Sitchin: “Um dos grandes desafios é tentar ser coerente com tudo o que já foi escrito. Então, há que se provocar a criatividade, mas sem deixar de lado a coerência com as demais ideias. É um exercício delicioso. Assim que recebi os textos dos colegas, minha cabeça não parou mais de funcionar até que eu enviasse a minha parte. A cabeça se embaralha toda e a gente passa o resto do dia tentando desfazer os nós para organizar tudo e entregar um bom texto. Isso é tão bom! Deixa-nos em ‘estado produtivo’, que é essencial. Agora estou curioso, roendo as unhas de ansiedade para ler todos os finais”.

Manuel Filho: “Não me deu nenhum nó na cabeça. Eu li a história toda. Como era livre, pude fazer como achei melhor. Foi tranquilo e gostoso de escrever”.

Marcelo Duarte: “Fui dormir pensando em como amarrar tudo aquilo com o final que eu tinha imaginado. Quem disse que eu dormi? Tive insônia e resolvi ir para o computador e terminar de escrever o conto de Natal em plena madrugada. O resultado ficou bem divertido”.

Penélope Martins: Eu me diverti somando imaginários e tentei dar um final surpreendente com todos os elementos trazidos pela turma.

Shirley Souza: “Vi o trecho criado pelo Henrique e fiquei pensando que missão seria capaz de transformar tudo, de levar o acalento e a proteção a todos, de devolver o brilho do Natal até para quem não tem um teto sobre sua cabeça. Eu tinha um dia inteiro de trabalho pela frente e não consegui me concentrar em nada. Só ficava pensando no que Noel faria. Depois de horas com isso formigando dentro de mim, a ideia veio forte. Ninguém precisaria se arriscar, se expor ao vírus e, ainda assim, seria poderoso. Não teria como ignorar, tampouco não assumir que algo muito especial estaria acontecendo. O nó se desfez. Fui escrever e o final nasceu. Espero que nossa história aqueça os corações de todos que a receberem neste Natal”.

Eduardo Monsanto, o rubro-negro que escreve sobre conquistas históricas do Flamengo

O jornalista carioca Eduardo Monsanto, mais conhecido como Dudu Monsanto, passou o dia 23 de novembro de 2019 driblando a ansiedade. Era a final da Copa Libertadores. O Flamengo, seu time do coração, perdia por 1 X 0 para os argentinos do River Plate. “Quando chegou aos 40 do segundo tempo, comecei a me conformar com a ideia de que, talvez, o título não viesse”, lembra. Três minutos depois, tudo mudou: Gabigol marcou para a equipe carioca. “Sou muito contido emocionalmente, mas me peguei gritando na varanda do apartamento. Nunca tinha feito isso em 15 anos morando em São Paulo”. Aos 46 minutos, Gabriel fez outro gol. Dudu chorou, e o Flamengo levou o título pela segunda vez. Tudo foi tão intenso, que o jornalista dormiu pesado, já no início da noite. De repente, acordou em plena madrugada e sacudiu a esposa:

— Aconteceu mesmo?
— Sim, é verdade!

“Então, dormi feliz”, relembra e cai na risada. Ele acaba de lançar A virada – Milagre em Lima, sobre essa conquista histórica do Flamengo. O livro também aborda os garotos do Ninho do Urubu, tragédia que ocorreu pouco antes do início do campeonato. Monsanto ainda é autor de 1981 – O ano rubro-negro, onde fala da primeira vez em que o time foi campeão da América, liderado por Zico.

Panda News: Foi mais fácil escrever o 1981 – O ano rubro-negro, ou agora o A virada?

Dudu Monsanto: Para o 1981, eu sabia que teria a efeméride dos 30 anos do mundial e me programei para fazer com cerca de três anos de antecedência. A virada não era para ser um livro, mas um capítulo que atualizaria o 1981 com as conquistas do ano passado. Eu tinha 16 páginas para isso. Fui escrever e pensei que não poderia falar só de 2019, porque a vitória começa com a reestruturação em 2013. Também não tinha como deixar passar a história dos garotos do Ninho. As 16 páginas viraram 120.

Quantas entrevistas você fez para o livro?

No primeiro livro, conversei com todos os titulares, o treinador, alguns reservas, os dirigentes e até torcedores. Eu tinha que fazer isso de novo, mas o prazo era de 40 dias. Por sorte, liguei para uma amiga, a produtora Ana Paula Garcez, para conseguir o telefone de um atleta. Expliquei que estava fazendo o livro, ela tinha tempo naquele momento, e se propôs a me ajudar. Foi o meu Gabigol. A Ana chegou aos 43 do segundo tempo, construiu essa virada junto comigo, e entrevistamos praticamente todo mundo. O único que não conseguimos foi o próprio Gabriel. Mas não deixamos de registrar as impressões dele. Colhemos depoimentos que o jogador deu para documentários feitos sobre a conquista e colocamos os créditos das fontes.

Por que incluir o drama da morte dos garotos do Ninho do Urubu?

Eu tentei contar, de uma maneira bem humana, quem era cada um deles. Junto com a queda do avião da Chapecoense, para mim, essa é a maior tragédia do futebol brasileiro. Foram dez meninos entre 14 e 16 anos, com muita coisa para viver, todos eram a esperança e o orgulho das famílias, e morreram por negligência. Eles estavam até que bem instalados, mas houve uma falha muito grave. Nós não podemos virar as costas. O livro traz fotos dos jogadores em visitas a sobreviventes – isso mexeu com todo mundo. Mas a postura do clube foi muito ruim, faltou humanidade no trato. Eu não seria honesto se deixasse de contar o que aconteceu. Cada um dos meninos ganhou uma página, e o livro é dedicado a eles. Não se pode esquecer o que aconteceu, porque nesses casos falta justiça – descobrir quem foi o culpado, os motivos que levaram à tragédia, criar mecanismos para que isso não se repita, normas de segurança para quem vai receber essas crianças na base.

Sobre a Libertadores, você estava em Lima no jogo da decisão?

Não. Quando a final mudou para Lima, eu cheguei a fazer contas para saber quanto custava a viagem. Tenho um filho de 5 anos, e dava seis meses de mensalidades da escola dele. A escola do meu filho marcou a apresentação de fim de ano para aquele mesmo dia. Ele não gosta de muito barulho, é mais quieto, a apresentação era com uma música do Carrapicho e tinha coreografia. Fui pensando que não aconteceria muita coisa. Chegou na hora, ele parecia profissional, dançou, fez a coreografia inteira, eu me emocionei e chorei junto com a minha esposa. Quando acabou, eu sabia que, independentemente do que acontecesse em Lima, o meu dia estava ganho. Mas ainda teve a surpresa de o jogo ser como foi.

Você tinha quantos anos na conquista de 1981?

O 1981 é um ajuste meu por não ter visto aquele time jogar, pois eu tinha 2 anos. Acabou que A virada, apesar de não planejado, faz as pazes com esse outro momento. Como eu conversei com todo mundo, vi cada uma das partidas, desde o começo da Libertadores, para poder contar, é como se eu tivesse ido a Lima. Acho que eu vi e ouvi mais do que quem estava lá.

Qual foi o sentimento de receber um vídeo do Zico na live de lançamento?

Ele é a razão de eu ser Flamengo! Cresci no auge do Zico. É um cara que norteia muito o meu caminho até o jornalismo esportivo. O primeiro livro me colocou em uma encruzilhada. Eu tive chances de entrevistá-lo antes, mas sempre corri. Ficava pensando que, se ele não fosse uma pessoa boa, a minha vida desmoronaria. Quando escrevi o 1981, fiz duas entrevistas grandes com ele, cada uma com cerca de duas horas. E o Zico é muito mais legal do que eu poderia imaginar, mais craque fora do que em campo. Quando recebi o vídeo, vi que ele, lá do Japão, perdeu um tempo para mandar uma mensagem de carinho e fazer toda a nação rubro-negra olhar para o lançamento. Foi um prêmio tão grande quanto são o texto da orelha escrito pelo Lúcio de Castro e a contracapa do Mauro Cézar Pereira.