O último cartucho

João Barone reúne objetos, fotos e documentos para construir a biografia de um dos 25 mil brasileiros que lutaram na Segunda Guerra: João de Lavor Reis e Silva, seu pai

 

Músico de sucesso e famoso baterista de Os Paralamas do Sucesso, João Barone assumiu uma missão: produzir e divulgar conteúdos que expliquem, contextualizem e, acima de tudo, valorizem a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Histórias não faltam: foram 25 mil brasileiros enviados para auxiliar os Aliados, liderados pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos, no combate contra as forças nazifascistas do Eixo, comandadas pela Alemanha de Adolf Hitler e a Itália de Benito Mussolini.

O desejo de tirar essa história do campo acadêmico e trazer para uma linguagem “pop”, como ele mesmo define, não vem apenas do interesse pelo tema, mas também porque um dos 25 mil “pracinhas” – como ficaram conhecidos os brasileiros enviados para a batalha em que a Itália se libertou de Mussolini e da influência alemã – era João de Lavor Reis e Silva, pai deste roqueiro de 60 anos, que já dirigiu três documentários e escreveu três livros sobre o tema. “Soldado Silva”, recém-lançado pelo selo “Livros de Guerra”, da Panda Books, é considerado por Barone como “o último cartucho” deste projeto de quase duas décadas. É que, depois de tanto esforço para reunir documentos históricos e apresentar essa parte muitas vezes subestimada na história do Brasil, faltava produzir algo que apresentasse uma biografia a respeito de pelo menos um dos combatentes brasileiros.

O Soldado Silva não falava muito sobre o seu período como pracinha do Exército Brasileiro, mas, quando o fazia, era pra desmistificar o que poderia haver de hollywoodiano na imaginação dos seus quatro filhos – João Henrique, João Guilherme, Maria Elisa e João Alberto, o caçula autor do livro: “De vez em quando, passava um filme de guerra na TV e a gente perguntava: ‘pai, a guerra era assim mesmo?’. E ele respondia: ‘Tudo mentira! A guerra era muito pior!’”, lembra Barone.

Silva era um homem que, apesar de ter sido escalado para combater a ascensão do nazismo, não se enxergava como um herói  (“Meu pai fugia do estereótipo do combatente que voltou neurótico de guerra: ele só queria retomar a vida”) e tampouco tinha qualquer apego exagerado às lembranças físicas dos seus tempos na Itália. “Os objetos fotografados para o livro eram a coisa mais concreta sobre a experiência de guerra do meu pai. Ele tinha roupas e uniformes que foram estragando… Antes que estragassem totalmente, ele doou tudo para um jardineiro que trabalhava em casa pra que ele trabalhasse com ela”.

Quando o soldado Silva morreu, em 2000, o baterista João assumiu a condição de guardião daquilo que hoje chama de “acervo histórico de um combatente”, mas que até não muito tempo antes era apenas uma parte da caixa de brinquedos da família: “A gente usava quando ia brincar de soldado. Incrivelmente, o capacete que ele usava sobreviveu a essas brincadeiras”, diverte-se Barone. Hoje esses itens estão guardados “longe de crianças” – os quatro filhos do Soldado Silva geraram oito netos e dois bisnetos.

Para proteger e valorizar memórias mais antigas que ele próprio, Barone também somou algumas viagens, incontáveis conversas com outras personagens – de companheiros ex-combatentes à mãe, Elisa, que durante a Guerra trocava correspondências com o soldado que então chamava apenas de namorado – e precisou superar contratempos como o roubo de um precioso álbum com fotos das memórias do pracinha 251126.

 

Quando foi que as memórias do Soldado Silva começaram a fazer parte da sua infância?

Esse era um assunto muito presente em casa. Eu e meus irmãos víamos o meu pai como um herói daqueles de filmes de guerra [risos]. Ele compartilhava as coisas com a gente de uma maneira muito antibelicista: ‘Foi rápido, a gente foi lá, deu uns tiros pro alto, espantou os alemães’… Ele não glamourizava a guerra. E eu fui desenvolvendo um interesse maior pela história do meu pai. Foi uma coisa lapidada com o tempo, um reencontro com o meu velho.

 

Como foi o trabalho de expandir essas memórias para além daquilo que já estava ali na sua casa, seja como registro oral, seja como lembrança física daqueles momentos?

Basicamente, o que está no livro são os objetos que a gente já tinha. São objetos simplórios, como o próprio capacete. Depois, a minha irmã me deu a cobrinha que era o símbolo da Força Expedicionária Brasileira e a medalha de identificação que eles usavam. Pelo meu interesse, especialmente depois da morte do meu pai, eu me aproximei de algumas associações de ex-combatentes e de outras pessoas que têm interesse nesse tema pela importância que teve a participação brasileira na guerra. É uma história muito interessante: a gente tinha uma representatividade muito grande, lutando contra o nazifascismo num gesto grandioso e ousado para se inserir na globalização. Eu fiquei imbuído de tentar valorizar o sacrifício de pessoas como o meu pai, que, aos 25 anos, largou o violão, pegou o fuzil e foi para a guerra.

 

O seu pai também tinha esse interesse em reencontrar esses ex-combatentes e falar sobre esse legado?

Meu pai ficou com uma certa “ressaca” pela forma como os combatentes foram negligenciados. Ele nunca se achou herói de coisa nenhuma e não gostava muito de valorizar a si mesmo. Tinha a percepção de que somos nós que temos que valorizar o esforço deles. Então nunca foi algo que fez parte do cotidiano principalmente porque as associações de ex-combatentes foram proibidas depois da guerra para impedir que houvesse qualquer representação política. A Casa da FEB, no Rio, por exemplo, só foi inaugurada em 1976. Meu pai frequentou eventualmente e ajudou alguns amigos que estavam em situação de penúria. Então, ele levava cestas básicas para ajudar um ou outro amigo. Teve também um evento em 1995 que marcou os 40 anos do final da guerra e eu o convenci para que fôssemos. Foi emocionante vê-lo ali, reencontrando e reconhecendo amigos ou o comandante da companhia dele. Na época as câmeras fotográficas não eram tão simples, mas eu consegui fazer uma foto ou outra.

 

Em que momento você percebeu que, além de uma lembrança sentimental de família, a história do Soldado Silva poderia ser tratada também como um registro histórico para a literatura brasileira dedicada à Segunda Guerra?

Eu aproveitei a minha condição de integrante de uma banda conhecida para abrir algumas janelas midiáticas. Dei uma de roqueiro excêntrico [risos]. Foi a partir dos anos 2000, quando eu me aproximei de alguns ex-combatentes e reencontrei esse legado. Eu tentei tirar aquilo do arcabouço acadêmico ou militaresco e levar para um ponto de vista mais pop. É engraçado: a gente olha os americanos, os ingleses… Eles têm um respeito muito grande pelos combatentes, e não só da Segunda Guerra. A gente olha e pensa: ‘poxa, como eles respeitam!’. Mas a gente tem um grande problema em valorizar a nossa própria história. Essa história tem episódios muito interessantes e que explicam o Brasil moderno. Isso tudo faz 80 anos, mas não parece. Muita coisa ainda está aí para ser entendida e assimilada. Tem muita coisa na nossa própria história que ainda precisa ser digerida. Para isso, precisa haver valorização.

 

O livro “Soldado Silva” tem registros fotográficos incríveis. Como foi reunir este acervo?

Essa é uma coisa que eu explico no livro: na época, ninguém viajava de avião. Era tudo de navio. Então, os soldados demoraram três meses para voltar. A Segunda Guerra acabou em maio e meu pai chegou em agosto de 1945. Então, ele comprou uma câmera e teve tempo para fazer alguns registros. Havia um álbum (e eu me lembro bem desse álbum), mas infelizmente ele foi levado quando roubaram nossa casa. Mas a minha lembrança é quase mágica: as fotos eram muito bem impressas. Parecia em 3D ou 4K. Eram muito bem reveladas. Ele tinha também papéis, folhetos, cartões postais de sítios turísticos ou históricos de Pompéia… Era uma viagem na história. Foi uma pena perder tudo por uma bobeira porque quem levou provavelmente nem sabia o valor que aquilo tinha. Felizmente as fotos podiam ser revisitadas pelos negativos que a gente achou aleatoriamente. Com algum esforço, pensei, seria possível transformar aqueles negativos que estavam se deteriorando em um acervo sentimental com o que sobrou das imagens que meu pai conseguiu fazer.  Acabou virando algo ainda mais mágico porque são fotos de pessoas que eu nem sei quem são. Então você fica pensando: quem é esse amigo? Será que meu pai se reencontrou com ele? Não é um acervo muito grande. São cerca de 30 fotos. Mas foram importantes para contar a história de maneira sensível. Foi um trabalho meticuloso de restauração.

 

A foto de capa, além de restaurada, também passou por um processo de colorização. Como foi feita essa escolha?

Conheci a Marina Amaral, uma brasileira de Belo Horizonte, que é referência mundial em colorização. Ela já editou livros fantásticos. A foto precisa ter uma qualidade muito boa, quase artística. E essa foto que a gente usou na capa o meu pai tirou numa máquina lambe-lambe lá na Itália. Os pracinhas faziam muito isso: tiravam a foto com um fotógrafo profissional e enviavam como um cartão postal pra família. Essa foto, inclusive, foi enviada pro Brasil com uma dedicatória para os meus avós. Então, essa foto passou por esse processo e foi escolhida para estampar a capa para passar a ideia de quem era o Soldado Silva.

 

De certa forma, a sua “pesquisa de campo” começou em casa e isso poderia já ser suficiente para dar conta da parte mais biográfica de seu trabalho. À medida que a sua obra ganhou também essa preocupação histórica, para onde essa pesquisa de campo se expandiu?

Tive a sorte de viajar várias vezes para a Itália. Foi muito emocionante porque eu me senti pisando nos lugares onde meu pai pisou. Os brasileiros até hoje são reconhecidos naquelas cidades pequenas, onde botaram os alemães para correr, sobretudo na região rural, na Emília-Romanha. Todo ano, na data da libertação da Itália, em 25 de abril, as crianças cantam a “Canção do Expedicionário”. Tentei captar essa percepção “in loco” para os documentários e livros. Ao mesmo tempo, eu tinha essa bagagem que vinha do meu interesse e da possibilidade de conversar não só com o meu pai. Infelizmente, não tive conversas suficientes sobre isso com o meu pai. Algumas coisas ele não contava. Por exemplo: ele deve ter dado os seus tiros por lá, mas isso ele nunca contou. Depois que morreu, conversei com outros combatentes e fui adquirindo uma bagagem própria, além de ler bastante sobre isso. Eu não sou historiador e não quero tirar o lugar dos historiadores. Sou um entusiasta e tentei botar meu interesse à serviço dessa história. É meu último cartucho pra abordar esse tema sobre esse ponto de vista mais “pop”. Mais que tudo, é um livro de imagens. É uma lupa sobre um desses 25 mil caras. É uma das 25 mil histórias. A ideia é dar a dimensão do que foi essa experiência de chegar à Europa no meio de uma guerra e voltar. Todos os comandantes do Regimento Sampaio [como é conhecida a unidade do Exército onde o soldado Silva serviu], que sabiam que o baterista do Paralamas era filho de um combatente, me convidavam para ir lá buscar a ficha de operações dele. Depois de uns 15 anos, eu fui e eles foram muito gentis. Me deram também um livro que conta toda a história do 3º Batalhão, que era onde ele estava na 9ª Companhia, e aí eu pude comparar as datas e criar essa narrativa para situar o leitor. Aí eu contei toda a história: nasceu em Foz do Iguaçu, conheceu minha mãe, foi pra Guerra, voltou, reencontrou minha mãe, teve filhos, trabalhou…

10 curiosidades sobre “O Máscara de Ferro”

Clássico de Alexandre Dumas é um livro dentro de um livro

O mais novo lançamento da série “Clássicos Internacionais”, da Panda Books, é um livro dentro de um livro que faz parte de uma trilogia. Difícil de entender? Das 2.500 páginas de “O Visconde de Bragelonne”, ponto final da sequência de três livros que contam a história de “Os Três Mosqueteiros”, foram recortadas as 728 que ganham vida própria ao narrar a história de “O Máscara de Ferro”.

A seguir, confira 10 curiosidades sobre esta que é uma das principais obras do escritor Alexandre Dumas e da literatura francesa.

  1. A história do homem da máscara de ferro é inspirada em um episódio real que  marcou a França no século XVIII: havia de fato na prisão da Bastilha – aquela que mais tarde acabaria tomada pelo povo na Revolução Francesa – um detento, chamado Eustache Dager, que era obrigado a cumprir pena com uma máscara de ferro sobre o rosto. O mistério em torno da figura de Dager criou uma série de teorias da conspiração nas ruas de Paris, dentre as quais se destaca aquela que faz parte da história de “O Visconde de Bragelonne”: Eustache seria um irmão gêmeo do rei Luís XIV (daí a necessidade de usar a máscara), lançado à prisão para não aspirar ao trono francês.
  2. Os primeiros documentos históricos que remetem à existência do “máscara de ferro” na vida real são de 1687 – 115 anos antes do nascimento do autor do livro. A chegada do prisioneiro é relatada em um diário de um carcereiro, o Monsieur de Saint-Mars, como fruto de uma “ordem do rei”. Além disso, segundo este relato, não se sabia a identidade do homem e era proibido falar o nome dele. À época, Dager estava preso na ilha de Sainte-Marguerite. Ele foi transferido para a Bastilha em 1698 e morreu cinco anos depois
  3. Muito antes de Alexandre Dumas nascer, outro grande nome da literatura e da filosofia francesa contou a história deste prisioneiro: François Marie-Arouet, conhecido mundialmente pelo pseudônimo de Voltaire, é considerado o responsável pela teoria de que o homem da máscara de ferro era o irmão do rei. Ele conheceu a história quando esteve preso na Bastilha, pouco mais de 10 anos depois da morte de Dager. Ferrenho opositor do absolutismo que concentrava todos os poderes na mão do rei, ele desenvolveu a teoria a partir da ideia de que só seria preciso colocar uma máscara em alguém que tivesse um rosto conhecido. Voltaire não chegou a registrar a sua interpretação para o mistério, mas descreveu no livro “O século de Luís XIV”, publicado em 1751, características físicas e um pouco do cotidiano de Dager na prisão. Foi este relato que inspirou Alexandre Dumas a desenvolver uma das principais tramas paralelas de “O Visconde de Bragelonne”.
  4. O homem da máscara de ferro apareceu apenas no último volume da trilogia mais famosa de Alexandre Dumas. A série começou em 1844, quando o escritor apresentou o trio Athos, Porthos e Aramis, além do escudeiro D’Artagnan, no livro “Os Três Mosqueteiros”. Já em 1845 foi publicado o segundo volume, “Vinte anos depois” e, por fim, em 1847, “O Visconde de Bragelonne”, onde Dumas pôde abordar o mistério do prisioneiro mascarado.
  5. No total, os três livros da trilogia “Os Três Mosqueteiros” somam algo em torno de 4.000 páginas: 700 para “Os Três Mosqueteiros”, 800 para “Vinte Anos Depois” e 2.500 para “O Visconde de Bragelonne” – que, de tão grande, foi publicado em 10 volumes, um deles dedicado ao Máscara de Ferro.
  6. Estima-se que “O Visconde de Bragelonne” tenha sido traduzido para cerca de 100 idiomas. No Brasil, a primeira versão da obra foi publicada em 1890 em 1.900 páginas divididas em três volumes. A edição foi, respeitando a grafia da época, da Empreza Litteraria Fluminense, que havia sido fundada em 1877 no Rio de Janeiro e tinha uma sucursal em Lisboa – por isso, as versões brasileira e portuguesa para o livro eram exatamente iguais.
  7. A Panda Books escalou um time de especialistas para oferecer uma versão absolutamente original desta obra: como em todos os demais volumes da série “Clássicos Internacionais”, a jornalista e escritora mineira Fátima Mesquita assumiu a missão de escrever a introdução com seu estilo inconfundível, carregado de bom humor e didatismo, além de rechear o livro com notas informativas que contextualizam eventos históricos e explicam expressões de difícil compreensão – garantindo assim que o texto original seja respeitado sem prejudicar o entendimento; a tradução é de Maria Cristina Guimarães Cupertino, que carrega mais de três décadas de experiência no mercado editorial e já traduziu outros clássicos como “O Grande Gatsby”, de Scott Fitzgerald; por fim, as ilustrações – que envolvem um infográfico que resume as interações entre as personagens e a corte francesa – são de Rafael Nobre, venceu do Brasil Design Award e finalista na categoria “Melhor Capa” no Prêmio Jabuti 2022, o mais importante da literatura brasileira.
  8. Além do Rei Luís XIV, outra figura da vida real que tem papel central na história do homem da máscara de ferro é Nicolas Fouquet, o famosíssimo superintendente de finanças da corte francesa, conhecido por conceder festas suntuosas para agradar o rei. Ele acabaria mandando prender Fouquet justamente por considerá-lo perigoso para a corte com as suas ambições.
  9. Alexandre Dumas, autor de “O Máscara de Ferro”, nasceu em 1802 e morreu em 1870. Até hoje é um dos autores mais lidos e mais traduzidos da história da literatura francesa, ainda que o reconhecimento à altura da sua produção literária tenha sido tardio. Apenas em 2002, mais de 130 anos depois de sua morte, o corpo de Dumas foi transferido do cemitério de Villers-Cotterêts para o Panteão de Paris, onde estão enterrados os principais escritores e filósofos da França. Na procissão que fez parte da solenidade do novo sepultamento de Dumas, o então presidente do país, Jacques Chirac, afirmou que o racismo foi um componente fundamental para que Dumas, que era negro, não tivesse o devido reconhecimento em vida.
  10. A história do homem da máscara de ferro sob a perspectiva do relato de Alexandre Dumas inspirou pelo menos nove filmes. O primeiro, ainda na era do cinema mudo, foi uma produção francesa lançada em 1904 com seis cenas sobre o reinado de Luís XIV, sendo uma delas dedicada ao prisioneiro Dager. Depois, vieram outras películas produzidas na Alemanha, no México, na Itália e nos Estados Unidos, onde a narrativa foi explorada em quatro oportunidades –  na mais recente e mais famosa, em 1998, Leonardo Di Caprio interpretou o rei e o seu irmão gêmeo detido.

O que você vê quando olha no espelho?

Padrões de beleza, anorexia, bulimia e cyberbullying: Shirley Souza narra os conflitos de três adolescentes em busca da autoaceitação

 

 

“O que você vê quando olha no espelho?”, pergunta a escritora paulista Shirley Souza em “Espelhos”, ficção juvenil lançada pela Panda Books. Para construir a história de três adolescentes, que lidam com os conflitos relacionados aos padrões de beleza impostos pela sociedade, foi preciso olhar para a vida real: “Esse constante conflito com a nossa imagem é algo que faz parte da realidade humana, bem como nossas inseguranças, sejamos adolescentes ou adultos. São questões atemporais e universais, que fazem parte da nossa construção”.

 

O tema é atemporal, mas a história em si é protagonizada por jovens na era das redes sociais. Isso exigiu de Shirley um trabalho de investigação para construir as personalidades, os conflitos e as reações de Felipe, Mara e Aline. “Olhei ao meu redor, ouvi adolescentes e pesquisei muito”, conta. “Foi um trabalho de imersão, de aproximação com a realidade de adolescentes que enfrentam a bulimia, a anorexia e este conflito com a autoimagem”.

 

Na história, Felipe é um estudante que, cansado de ser chamado de “gordo”, adere à febre das academias. Só que ele passa a exagerar na dose, a ponto de colocar a saúde em risco; Mara, antes despreocupada quanto aos padrões estéticos, passa a enxergar o tema com outros olhos ao se apaixonar pela primeira vez; e Aline perdeu o senso crítico e agora segue um número enorme de dietas malucas que encontra na internet.

 

Internet que, aliás, é de muitas formas uma protagonista de “Espelhos”: “A internet permite moldar a nossa imagem a ponto de construirmos algo que beira o irreal”, observa Shirley. “De que modo? Decidindo o que mostrar ou não ao mundo, distanciando nosso perfil de quem de fato somos. A maior exposição a que as pessoas se sujeitam gera novas nuances para nossas dores, inseguranças e ansiedades. Os sentimentos vividos hoje possuem a mesma essência de décadas atrás, mas a maneira como são experimentados mudou. Por exemplo: o cyberbullying é uma realidade que pode acompanhar um adolescente que se expõe na rede. Suas imagens, uma vez postadas, podem ser compartilhadas e utilizadas de maneira inadequada. Lidar com essa realidade é um desafio”, diz a autora.

 

Apesar do assédio virtual do cyberbullying e da construção de padrões inalcançáveis de beleza, a internet não é exatamente uma vilã na visão de Shirley. “Ela tem trazido a valorização da diversidade”, afirma. “É mais difícil valorizar um único padrão de beleza em um universo onde todos podem produzir conteúdos e dizer o que pensam. Ainda assim temos padrões arraigados em nossa cultura e isso não é fácil de desconstruir. É um processo longo e não sei se finito”. Ao longo da adolescência, quando se mudou para São Paulo, Shirley também passou por um processo de autodescoberta a respeito de quem era e de quem gostaria de ser: “Cada pessoa é diferente e a beleza da humanidade está justamente nessas diferenças”.

 

Mais do que narrar os sentimentos dos três protagonistas, o livro mostra as reações nem sempre amenas que as outras pessoas têm quando se deparam com os dramas de terceiros. Na verdade, mesmo que os três protagonistas tenham as suas questões, o conflito do outro parece sempre mais simples de entender e de resolver. Novamente falamos, então, da forma como a internet modifica as formas de interação: “Temos caminhos, regras de boas práticas, mas mesmo os adultos quebram estas regras com frequência”, acredita Shirley. “É uma nova modalidade de convívio social e, como tal, as nuances são muitas e o aprendizado só vem com a experiência”.

Quebrando mitos sobre o trabalho infantil

Problemas sociais de crianças e adolescentes brasileiros que trabalham na rua são tratados, com abordagem sensível, em livro-reportagem premiado

A cena é lamentavelmente comum em qualquer grande cidade brasileira: o sinal fechado é a senha para um grupo de crianças iniciarem um desfile por entre carros com vidros fechados,  comercializando balas e chicletes ou fazendo pequenos malabarismos para conseguir dinheiro.

No meio de tanta gente que escolhe ignorar esse grave problema social brasileiro, a jornalista Bruna Ribeiro escolheu outro caminho e fez disso o seu objeto de estudo e o seu norte dentro do seu campo de atuação profissional. “Eu cursei jornalismo para trabalhar com educação e direitos humanos”, explica. “Sempre acreditei que a comunicação tem um papel fundamental para o desenvolvimento social”. Bruna iniciou sua jornada em 2006 na Universidade Metodista de São Paulo e hoje é uma escritora premiada por “Meninos malabares – Retratos do trabalho infantil no Brasil”, lançado em 2021 pela Panda Books.

Este ano, o livro foi laureado na categoria Livro Informativo no prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) – premiação que carrega o nome de Malba Tahan, pseudônimo do escritor carioca Júlio César de Mello e Souza, um engenheiro de formação apaixonado por Matemática, fascinado pelos números e autor de 50 livros, que viveu entre 1895 e 1974. Os autores também foram agraciados com uma menção honrosa na categoria livro-reportagem do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, que reúne treze instituições em sua comissão julgadora: “Foi muito gratificante porque é difícil trabalhar com esse tema. Esse reconhecimento sinalizou que estamos no caminho certo”, comemora.

Ao interesse por utilizar as palavras como ferramenta para ajudar as pessoas, Bruna adicionou o gosto por contar histórias de pessoas anônimas. Ainda na faculdade, por exemplo, ela fez um trabalho de conclusão de curso que trazia os perfis de meninas da Fundação Casa, o centro de detenção de menores de São Paulo: “São nas histórias do dia a dia que moram as grandes questões da sociedade”, justifica Ribeiro, que passou pelas redações de “Jornal da Tarde”, “O Estado de S. Paulo” (onde hoje tem um blog sobre o tema e também sobre educação antirracista) e “Veja S. Paulo”.

O rito definitivo de passagem dos grandes veículos de mídia para a especialização na luta pelos direitos de crianças e adolescentes aconteceu em 2016, quando Bruna aceitou um convite para trabalhar na Cidade Escola Aprendiz, iniciativa do jornalista Gilberto Dimenstein que desenvolve políticas públicas para a educação. As histórias da jornalista e da organização se cruzaram quando nasceu, dentro da instituição, o projeto Criança Livre de Trabalho Infantil. “Comecei escrevendo reportagens com foco no trabalho infantil Não tinha grande conhecimento sobre o tema de maneira específica, mas a partir dessa oportunidade fui aprendendo mais”, admite ela, que hoje atua como gestora do projeto.

Bruna resolveu contar essas histórias para quebrar também o que ela classifica como “mitos” que foram criados a respeito do trabalho infantil ao longo dos anos: “Quando alguém diz ‘é melhor trabalhar do que ficar na rua sem fazer nada’, você está dizendo que essas crianças, em geral negras, só possuem essas duas opções”. Começou, então, o processo de pesquisa, apuração e produção que levaria à “Meninos malabares”, feito em parceria com o fotojornalista Tiago Queiroz Luciano, do Estadão, responsável por todas as fotos espalhadas pelas 112 páginas do livro.

O processo de produção da obra começou em 2016 e levou cinco anos. Três deles só para que os autores percebessem que ali havia mais do que uma série de reportagens: “Percebemos que podia dar um livro e então fomos atrás de mais histórias”, conta Bruna. “Começamos a pensar nas formas de trabalho infantil e exploramos aquelas que são mais presentes. Começamos a apurar justamente a partir dos meninos malabares. Essa é uma forma clássica de trabalho infantil nas grandes cidades”. Na sequência, o trabalho foi expandido para outras vertentes, como o trabalho nas praias, nos grandes pontos de concentração nos feriados (de blocos de Carnaval a cemitérios em Dia de Finados) ou na indústria têxtil: “Geralmente, quando se denunciam as grandes marcas, o trabalho análogo à escravidão ocorre na linha de produção, na oficina de costura terceirizada. Achei que seria interessante registrar a quantidade de imigrantes que são explorados. Também fomos verificar o trabalho no campo, que foi um desafio”, admite.

O processo de apuração foi, de certa forma, mais simples nos momentos em que o objetivo era abordar o trabalho em espaços públicos: bastava procurar, encontrar e então iniciar as conversas (“sempre com muita transparência”). Nos lixões, nas empresas ou no campo, por se tratarem de propriedades privadas, a conversa já era diferente: “Buscamos fontes em redes de proteção, projetos sociais e lideranças comunitárias que pudessem fazer a ponte com as famílias. Então, a gente apresentava o projeto e eles concordavam em participar”.

Não bastasse toda essa dificuldade, ainda surgiu, em 2020, já na reta final da apuração do livro-reportagem, a pandemia da Covid-19: “Mudou tudo”, resume Bruna. O acesso às famílias ficou mais difícil ao mesmo tempo em que a convulsão social aumentou a ponto de criar uma crise humanitária nas grandes cidades brasileiras: “Lógico que o trabalho infantil já existia antes e já tinha relação com a desigualdade social. Temos um capítulo que se chama ‘A pandemia e a fome’. Isso marcou muito: na fase mais dura, com as pessoas isoladas, sem vacina, com toda a desinformação dos primeiros meses, quando ninguém sabia quanto tempo aquilo ia durar… Fomos até uma fila de distribuição de marmitas e vimos muitas crianças sem máscara, descalças, em situação de rua… crianças que estavam indo todos os dias para aquela fila porque o comércio fechou. Foi algo que surpreendeu. Foi uma virada que agravou muito essa questão e colocou o país de volta no mapa da fome”, lamenta a jornalista, que também possui pós-graduação em Direito Internacional na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo com extensão na Academia de Direito Internacional de Haia, na Holanda.

Bruna Ribeiro também menciona outros choques que teve ao longo da apuração. Um deles, no capítulo que registra o trabalho no lixão: “É uma realidade totalmente insalubre num lugar totalmente afastado de qualquer política pública, onde a escola mais próxima fica a meia hora de distância e grande parte da comunidade não tem acesso a saneamento básico ou luz elétrica. Foi chocante ver aquela comunidade toda escalando uma montanha de lixo. Você vê o contraste: tinha uma criança de 10 anos que tem o sonho de ser médica, trabalhar na área de saúde e vive numa condição totalmente insalubre”. Para ela, as formas de trabalho infantil são todas nocivas, mas algumas parecem ter um significado mais expressivo, como o trabalho nos cemitérios, que marcou pela contraposição entra a infância e a morbidez.

Falar sobre trabalho infantil abre brecha para que outros temas paralelos sejam abordados: acidentes de trabalho, evasão escolar, gravidez na adolescência, dentre outras questões que aumentam ainda mais a complexidade do problema. Problema que, para ser corretamente compreendido, depende de uma boa noção a respeito da construção histórica do Brasil: “O trabalho infantil tem raízes históricas nos mais de 350 anos de escravização da população negra no país”, assegura Bruna. “Nós temos um recorte racial da questão: 66,1% das crianças e dos adolescentes nesta situação de vulnerabilidade no Brasil são pretas ou pardas”.

Um problema que afetou também crianças indígenas praticamente desde que o país nasceu, mas que, na visão da jornalista, atingiu outro patamar a partir de um momento que deveria marcar uma conquista para os negros. Em 1871, a Lei do Ventre Livre garantiu a liberdade dos descendentes de escravizados que nascessem depois daquela data. “A letra pequena daquela Lei dizia que as crianças deveriam trabalhar até os 8 anos para o escravizador, quando então ele decidiria se concederia a liberdade ou não. Se não concedesse, a criança trabalharia para ele até os 21 anos. Se concedesse a liberdade, seria indenizado pelo Estado. O Brasil escolheu indenizar o escravizador e não o escravizado”, critica. Bruna também faz ressalvas às legislações criadas para os menores ao longo do século XX: “Houve uma criminalização da pobreza. Considerava-se que uma criança em situação de vulnerabilidade era irregular. A história registra que, nos primeiros anos da Febem [hoje Fundação Casa], muitas crianças eram internadas simplesmente porque eram pobres e não tinham família”.

No fim das contas, todo esse processo mitigou os avanços trazidos até mesmo por boas iniciativas como o Estatuto da Criança e do Adolescente, que nasceu em 1990 no embalo da Constituição de 1988: “Todo o contexto histórico criou uma naturalização do trabalho infantil. A sociedade defende o trabalho infantil para uma parte das crianças. O filho do rico, branco, está na escola em tempo integral, bilíngue, fazendo natação, judô, balé… Não existe uma ‘fórmula mágica’ para acabar com o trabalho infantil. É preciso pensar em políticas públicas intersetoriais: gerar emprego para os adultos, criar uma educação antirracista, evitar o consumo de marcas que explorem crianças, comunicar autoridades sobre os abusos, estimular as políticas para aprendizes que trabalhem aos 14 anos protegidos e conciliando o trabalho com estudo, investir em saúde, em moradia…”, sugere a escritora.

Com amor para o Brasil

Consagrado escritor infantil americano, Todd Parr completa vinte anos no mercado brasileiro com vinte livros publicados pela Panda Books

O americano Todd Parr chegou a pensar que não levava jeito para desenhar. Durante muito tempo, uma avaliação ruim de um professor de arte acompanhou o menino nascido em 1962 em Wyoming, no oeste dos Estados Unidos. Somente em 1999, aos 37 anos, o então comissário de bordo da United Airlines voltou a investir naquilo que tinha virado apenas um hobbie: parou de desenhar para estamparias de camisetas e iniciou a carreira de autor e ilustrador de livros infantis. Hoje, com quase sessenta títulos publicados, ele consolidou um estilo e já colocou três obras na prestigiada lista de bestsellers do jornal “The New York Times”.

Com texto breve e desenhos grandes e coloridos, Todd tem em sua obra um instrumento poderoso para a alfabetização das crianças. Mas ele quer ensinar mais do que isso: uma de suas grandes preocupações é mostrar o valor das diferenças. Foi assim que ele começou a carreira com “The okay book”, de 1999 – livro que tinha como premissa “dar um ok” para aprovar comportamentos que sejam especiais, únicos e que eventualmente possam receber alguma reprovação justamente por serem diferentes.

Foi assim também que ele ganhou o mundo. Dos mais de 20 idiomas para os quais os seus livros já foram traduzidos, o português está em destaque. O autor chegou ao Brasil pelas mãos da Panda Books, editora que iniciou a sua trajetória no mercado editorial coincidentemente em 1999. Os caminhos de Todd e da Panda se cruzaram em 2002: Marcelo Duarte, fundador da editora, estava nos Estados Unidos quando encontrou em uma livraria “It’s okay to be different”. “Eu me apaixonei pelo livro na hora e comprei um exemplar pra minha filha do meio, Beatriz, que estava com 7 anos”, lembra Marcelo. “A Panda engatinhava nessa área de compra de direitos internacionais e nós nem sabíamos ainda como fazer isso direito”. Todd festeja: “É uma história incrível de como começou a minha parceria com a Panda”.

Depois de uma rápida troca de e-mails, e com a ajuda de Todd nas questões burocráticas, “Tudo bem ser diferente” chegou às livrarias brasileiras em novembro de 2002. Era o começo de uma parceria de sucesso, que completa vinte anos em 2022. Em uma outra coincidência, os vinte anos são comemorados com a marca de vinte livros publicados em português pela Panda Books. O número foi alcançado com a publicação recente de mais dois títulos: “Hora de dormir” e “Seja você mesmo”, este último também voltado para a questão das diferenças. “Eu sou muito grato e feliz pelo sucesso que faço no Brasil”, diz Todd.

Quando visitou o país, em 2014, às vésperas da Copa do Mundo, ele voltou carregado de lembranças: uma camisa da Seleção Brasileira com seu nome nas costas, um kit de pimentas especiais (pimentas e queijos estão no topo da lista de Todd quando o assunto é gastronomia) e até mesmo a chave da cidade de Pirenópolis, entregue pelo então prefeito Nivaldo Melo. A cidade de 25 mil habitantes, no interior de Goiás, abriga a Flipiri, uma feira literária onde o americano promoveu uma oficina de ilustrações e participou de debates. Todd também participou de eventos literários em Belo Horizonte, Brasília e São Paulo.

Inspirado no desenhista norte-americano Keith Haring, expoente das cores vivas com contornos pretos, Todd aposta em uma comunicação simples e direta com as crianças. Termina todos os textos com a frase “Com amor, Todd” e tenta criar em sua obra um ambiente confortável para os seus pequenos leitores – além da questão das diferenças, ele publicou obras como “Tudo bem cometer erros” e “O livro dos sentimentos”, para ajudar as crianças a aceitarem falhas e emoções negativas: “Eu aprendi muita coisa nesses últimos vinte anos, mas a essência continua a mesma: ajudar as crianças a se sentirem bem com elas mesmas e orgulhosas do que fazem”, resume.

Sem mudar a essência e sem abandonar algumas das suas figuras mais marcantes, como o cachorro Otto e o menino com a cueca na cabeça, Todd promoveu algumas pequenas mudanças no seu jeito de escrever e desenhar. Aderiu, por exemplo, aos sinais de pontuação, antes ignorados numa mera solução artística, mas agora respeitados para dar um bom exemplo ao seu público. Bem-humorado, aponta o que mais mudou nessas duas décadas: “Minha arte não parece mais coisa de uma criança de 6 anos; agora já parece coisa de uma de 10”.

Megafauna brasileira em livro e num jogo de cartas

Biólogo e paleontólogo fazem trabalho inédito sobre os animais que habitaram o território brasileiro, há dez mil anos, na Idade do Gelo – e os seus parentescos com a fauna atual

Você já ouviu falar dos notrotérios e dos gliptodontes? Saberia desenhar um pampatério? Prepare-se, então, para conhecer um pedaço ainda não revelado da história da fauna brasileira. Fauna, não. Megafauna. Lançado pela Panda Books, “Gigantes do Passado” é o livro que reúne informações e curiosidades sobre grandes espécies de animais que habitaram o território brasileiro durante a chamada Idade do Gelo, há cerca de 100 mil anos, e que de alguma forma estão relacionados a animais que estão por aqui até hoje, como onças, tatus e capivaras.

O texto é resultado de um encontro entre o biólogo Guilherme Domenichelli e o paleontólogo Ariel Milani Martine. Parceria iniciada há 20 anos. Além de serem nascidos na região do ABC, na Grande São Paulo, eles compartilham outras afinidades, que resultaram nesse lançamento. Os dois são professores (Ariel leciona em universidades, e Guilherme, nos ensinos fundamental e médio). “Gostamos de museus de história natural e também de estudar animais do passado”, acrescenta Guilherme, autor de quatro livros juvenis, todos publicados pela Panda. Cabe aqui, aliás, sublinhar a diferença fundamental entre biologia e paleontologia: o paleontólogo estuda a fauna do passado; o biólogo, a do presente.

Ficou a cargo de Ariel reunir as informações sobre este período distante da história, que habita o imaginário das pessoas de maneira muitas vezes distante do que foi a realidade. Afinal de contas, o planeta Terra já passou por diversos períodos glaciais, de temperaturas baixíssimas, mas poucos foram os que, de fato, congelaram todo o globo. Neste período glacial mais recente, o Brasil não congelou: “As pessoas têm uma ideia genérica de que na Idade do Gelo o mundo todo ficou coberto de gelo e a fauna era onipresente, como se tivéssemos, por exemplo, um mamute no território brasileiro. Comentando sobre esta confusão, percebemos que poderia dar um caldo para um livro”, lembra o paleontólogo. “Os bichos brasileiros eram diferentes dos bichos do Hemisfério Norte”.

Guilherme transportou essa história para os dias atuais. Alguns animais de hoje (como a onça pintada e o lobo guará) foram, em alguma época, contemporâneos e competidores desses gigantes extintos ou descaracterizados diante da evolução de suas espécies. Falando em evolução, alguns dos gigantes do passado evoluíram até desembocar em animais que hoje são conhecidos de todos nós: o notrotério, que abriu este texto, era um bicho-preguiça gigante; os tatus, por sua vez, guardam parentesco com os gliptodontes e os pampatérios: “Nós fizemos um paralelo muito bacana”, orgulha-se Guilherme. “Uma onça pintada disputou alimentos com um tigre-dente-de-sabre, por exemplo. Inclusive os humanos caçaram e foram caçados por esses bichos. Fizemos essa mistura porque ela existiu”.

Guilherme elogia também o trabalho do ilustrador Pábulo Dominicano, responsável por fazer a representação visual dessa mistura entre passado e presente, desenhando em um mesmo cenário as espécies extintas e as que estão conosco no presente. Ah, entra aqui uma outra ciência: a arqueologia, dedicada ao estudo do homem primitivo. Muito do que está no livro neste aspecto vem do trabalho da antropóloga Niède Guidon, uma das “feras da ciência” do Brasil exaltadas em um capítulo especial de “Gigantes do Passado”.

O livro já sai também com uma espécie de “spin-off” (produto derivado do original). Chega às livrarias ao mesmo tempo um jogo de cartas, no estilo Super Trunfo, com os animais de “Gigantes do Passado” A dupla reuniu fichas técnicas com peso, altura, hábitos e expectativa de vida de 50 animais, do passado e do presente (alguns não retratados no livro). Foi quando perceberam que a absorção seria melhor se isso se tornasse um jogo. As cartas são divididas entre os participantes e, de maneira alternada, eles escolhem um dos quesitos, comparam os números  e o vencedor fica com a carta do rival. É a cartada definitiva para que o livro atinja o seu principal objetivo: “Com tanta informação, a garotada entenderá que a paleontologia vai muito além dos dinossauros”, empolga-se Ariel. Eu também sou apaixonado por dinossauros, mas temos uma vida pretérita extraordinária”.

Livros infantojuvenis da Panda Books estão espalhados pelo mundo inteiro

Dezoito anos de vendas internacionais: Turquia é o novo mercado conquistado e título chega na China antes até de ser publicado no Brasil

Quando o primeiro exemplar de Nós duas foi vendido no Brasil, o leitor já podia conversar sobre a obra com alguém que estivesse literalmente do outro lado do mundo. Os direitos para a tradução do texto de Clarice Alphen e ilustrações de Cris Eich, publicado pela Panda Books, foram negociados tão rapidamente que o livro chegou às livrarias da China antes de a edição brasileira ser finalizada. Quem vê tamanha agilidade nesse contato comercial internacional mal pode imaginar o trabalho que a Panda Books teve para emplacar a primeira obra no país mais populoso do mundo: “Fomos procurados no final de 2011, começo de 2012…”, recorda Tatiana Fulas, uma das sócias da editora. “Naquela época, ninguém no Brasil tinha trabalhado com a China. Não sabíamos se estávamos trabalhando com editoras confiáveis ou não. Foi uma relação construída ao longo de muitos anos”.

Depois de incontáveis trocas de e-mails, um encontro na Feira de Bolonha, na Itália, em 2014, ajudou o negócio a se concretizar. “Foram quatro anos de namoro e aí, já numa primeira venda, os chineses publicaram quatro títulos nossos”, conta Tatiana, citando as versões chinesas de A incrível fábrica de cocô, xixi e pum, Em busca da meleca perdida e Pronto para o socorro, os três de Fátima Mesquita, e A viagem por dentro do cérebro, de Daniel Marins de Barros. Esses quatro livros são ilustrados por Fábio Sgroi.

Com Nós duas, a Panda Books chega a sete livros publicados na China desde então. A relação com as editoras do país asiático é tão boa que é difícil não imaginar que a escolha do panda, o animal preferido dos chineses, como nome e símbolo da editora, não tenha facilitado essa sintonia: “Algo me diz que foi por isso que entraram em contato com a gente”, brinca Tatiana. Muito além do nome, a afinidade também é editorial: todos os livros são infantojuvenis e abordam temas leves e divertidos, que é exatamente o que os editores chineses procuram na literatura estrangeira. Tatiana aponta que essa relação Brasil-China reproduz também uma tendência que se espalha pelo planeta: “Há um movimento mundial que coloca cada vez mais em evidência a literatura infantojuvenil brasileira e também a procura por novos mercados além de Estados Unidos e Europa”.

O sucesso com os chineses celebra a maioridade do projeto de internacionalização dos livros da Panda Books. Há 18 anos, em 2004, cinco anos depois da fundação da editora, a dupla O homem irresistível e A mulher irresistível, de Dalila Magarian, foi publicada no México. Dois anos antes, a Panda tinha vivido a primeira experiência na mão contrária, traduzindo uma obra estrangeira (Tudo bem ser diferente, do norte-americano Todd Parr). Aprender a comprar ajudou a Panda a aprender a vender: “Entendemos que poderíamos usar as mesmas condições que as editoras estrangeiras utilizavam para nos vender os direitos”, afirma Tatiana.

Pouco tempo depois, em 2008, um movimento importante do mercado editorial brasileiro serviu de combustível para este projeto: o lançamento do Brazilian Publishers, projeto de incentivo às exportações de livros nacionais, resultado da parceria entre a Câmara Brasileira do Livro e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos – ApexBrasil. “No passado, havia muita resistência à compra de direitos de livros brasileiros”, lembra Tatiana. “Sempre foi muito mais comum comprar títulos estrangeiros para traduzir aqui. Com o Brazilian Publisher, passamos a ser mais ativos. Antes, vendíamos apenas quando as editoras nos procuravam. Agora, passamos a frequentar as feiras internacionais, não só para comprar, mas também para vender”.

Àquela altura, em 2008, a Panda Books já desfrutava do assombroso sucesso de O doce veneno do escorpião. As histórias da garota de programa Raquel Pacheco, conhecida pelo pseudônimo Bruna Surfistinha, chegaram às livrarias brasileiras em 2005. Dois anos depois, surgiram as primeiras traduções: “O livro entrou muito rapidamente na lista dos mais vendidos, o que chamou a atenção dos agentes literários do mundo inteiro pela temática”, conta Tatiana. A obra foi negociada para cerca de 40 países.

Em todas essas negociações, a figura do agente literário é fundamental. São profissionais com experiência no mercado editorial e que têm a missão de construir pontes entre editoras de diferentes países. A Panda Books tem agentes dedicados especificamente aos mercados da Ásia, da América Latina e da Europa, cada um com a sua área de atuação. De modo geral, os livros com maior penetração nos mercados internacionais são aqueles que tratam de temas universais ou de questões mais existenciais: “Quando participo de reuniões com editores estrangeiros, eu sei o que vai funcionar e o que não vai, porque tratam de questões muito regionais”, admite Tatiana. Mas toda regra tem exceções. O livreiro do Alemão, de Otávio Júnior, por exemplo, atendia exatamente ao desejo de editoras da França e da Espanha por uma obra que retratasse a vida em uma favela do Rio de Janeiro. Já o Canadá tem procurado autores indígenas, como Werá Jeguaká Mirim. Além de autor de Kunumi Guarani, da Panda Books, ele é o rapper Owerá Kunumi MC, que já gravou com Criolo e Alok, fez sucesso fora do país e ajudou a abrir este mercado.

Na retomada dos eventos presenciais, em julho passado, na Bienal do Livro de São Paulo, a Panda Books conseguiu uma nova parceria para publicar As cores de Corina, de Carmen Lucia Campos e ilustrações de Camila Carrossine, na Turquia. Depois de dezoito anos e dezenas de títulos espalhados por dezenas de países, a sensação trazida por cada novo negócio fechado vai além das pretensões individuais da editora: “O principal é divulgar a literatura brasileira e o trabalho dos nossos autores e ilustradores no exterior”, finaliza Tatiana.

Um urso no percurso

Filho do consagrado escritor João Carlos Marinho, Beto Furquim não rejeita influências, mas trilha a própria caminhada como um “obcecado pelas palavras”

A história de “A barca do canoeiro” começou num exercício daqueles que só mesmo um apaixonado pelos vocábulos poderia desenvolver. O jornalista, músico, editor e escritor Beto Furquim procurava palavras dentro de outras para formar frases. A primeira delas foi “tem um urso no percurso”. Depois vieram outras: “é tempo de temporal”, “no estouro entra o touro” e “a foca quase sufoca”. Era tudo apenas uma brincadeira, sem pretensão, até a então namorada de Beto, Sandra, anunciar a senha: “Isso dá um livro”. Deu mesmo.

Da brincadeira ao livro, porém, era preciso amarrar uma história com começo, meio e fim. Foi então que o autor pensou na história da Arca de Noé. Fascinado pelo universo animal desde a infância, a ponto de colecionar fascículos para conhecer o maior número possível de espécies, Furquim passou a perceber que muitas das palavras encontradas dentro de outras palavras eram nomes de bichos – como você já deve ter percebido no parágrafo anterior. “Uma coisa legal foi juntar animais famosos, como girafa, leão, zebra, com outros, como os insetos, que geralmente são esquecidos quando se escreve para as crianças”, afirma ele, que se define como um “obcecado por brincar com as palavras”.

Brincar com palavras e amarrar histórias faz parte de um cotidiano que Beto Furquim viveu praticamente desde a sua infância. Com 58 anos recém-completados no último dia 21 de agosto, ele é o mais velho dos três filhos de João Carlos Marinho, um dos mais importantes escritores infantojuvenis da literatura brasileira, falecido em 2019. Celebrado especialmente pelo seu primeiro livro, “O gênio do crime”, de 1969, Marinho publicou dezenove obras e ganhou em 1982 o Prêmio Jabuti, o mais importante do país, na categoria juvenil por “Sangue Fresco”: “Acompanhar uma pessoa que está criando é algo que influencia”, conta o autor a respeito das suas memórias com o pai, a quem define como alguém que “tinha sempre a preocupação de ser surpreendente, fugir do óbvio e buscar o humor”.

Sem negar essa relação literária que veio do berço, Furquim rechaça qualquer comparação ou mesmo qualquer tentativa de alcançar a projeção dos livros do pai: “Também tenho outras influências, então não se trata de trilhar o mesmo caminho que o dele”, resume. Há, no entanto, um olhar especial para o fato de que a obra de João Carlos permanece nas prateleiras de sucessivas gerações, abordando costumes que também sobrevivem ao tempo. É o caso dos álbuns de figurinhas, protagonistas de “O gênio do crime” e que voltam a pipocar pelo Brasil inteiro às vésperas de mais uma Copa do Mundo: “Meu pai mostrava tudo o que escrevia para mim porque eu tinha a idade do público que ele queria. Ele buscava a identificação com o pensamento de uma criança de 9, 10 anos e com a criança de 9, 10 anos que ele próprio tinha sido”, lembra.

Depois do sucesso de “O gênio do crime”, João Carlos Marinho publicou, em 1971, “O caneco de prata”. Numa edição seguinte, ele modificou bastante o texto para se comunicar melhor com o seu público. Recentemente, Beto Furquim encontrou e compartilhou nas redes sociais um exemplar da versão original do livro que estava todo rabiscado com as ideias que temperariam as versões futuras. É só um dos exemplares do vasto acervo que hoje está sob responsabilidade de Cecília, a filha do meio de João Carlos e Marisa – o casal se separou em 1984 e Marisa faleceu em 2021: “Tem muita coisa interessante sobre o processo de escrita dele, principalmente sobre como ele fazia anotações. É muito rico pra quem deseja entender este processo criativo”, garante Furquim, pai de Nuno (20) e Len (24).

O processo de criação de “A barca do canoeiro”, lançamento da Panda Books, foi feito em uma via de mão dupla: a partir das frases criadas, Beto Furquim estruturava a adaptação da narrativa bíblica da Arca de Noé; ao mesmo tempo, quando necessário, ele buscava algum jogo de palavras que atendesse à alguma demanda para o desenvolvimento da obra. O toque final veio do ilustrador Marcello Araújo, outro apaixonado pelo mundo animal, que desenhou todas as ilustrações a lápis, nos dois lados de uma folha de papel, antes de transportá-las para o computador: “Assim como Marcello deu toques sobre o texto, eu também dei palpites sobre as ilustrações”, afirma Furquim. “Se cada um tivesse feito apenas o seu trabalho, algumas coisas não teriam surgido”.

Com toda essa fuzarca, muitas surpresas estão reservadas ao leitor da arca.

Crianças e idosos se encontram no afeto

Livro de poemas de Clarice Alphen e Cris Eich registra o ciclo de uma relação entre avó e neta

Claudia Ramos teve uma vida longa e cercada de amor. Prima do escritor Graciliano Ramos, a alagoana decidiu sozinha morar no Rio de Janeiro. Casou-se, teve dois filhos e quatro netos. Com eles, construiu uma relação harmoniosa, daquelas que deixam lembranças para toda a vida. Por isso, em 2018, quando a saúde da vovó Claudia começou a falhar, e as lembranças aos poucos foram sumindo da mente de 96 anos bem vividos, uma das netas resolveu eternizar tudo o que havia vivido com ela: “Passamos uma tarde juntas, ela estava muito consciente, e eu comecei a pensar em nossas trocas e como as nossas dinâmicas foram mudando ao longo do tempo”, recorda Clarice Alphen, hoje com 25 anos.

Clarice foi buscar as mais agradáveis lembranças nesta relação – os passeios, os momentos de afeto e o cuidado mútuo, que seria observado, mais tarde, como o ponto mais forte da construção do texto. Cerca de trinta versos apareceram nas coisas mais simples – e, àquela altura, Clarice ainda não imaginava que eles pudessem virar um livro. Assim nasceu “Nós duas”, lançamento da Panda Books.

O desabafo despretensioso foi escrito pouco antes de Claudia falecer. Clarice mostrou o texto para a mãe, a ilustradora Cris Eich: “Claudia era minha ex-sogra, mas continuou sendo uma grande amiga”, conta Cris. “Tive uma ótima relação com as minhas avós e, quando vi as brincadeiras, o cuidado e o afeto no poema, achei fantástico. Tudo casava com aquilo que eu acredito: crianças e idosos, em fases opostas da vida, estão sempre muito próximos. Eles se encontram no lúdico, numa visão de vida que a gente na idade adulta perde. O poema é belíssimo, numa linguagem que as crianças entendem”.

Essa sintonia entre o texto da filha e o trabalho da mãe se explica para além dos laços familiares: “Como eu falava do meu passado, eu escrevia me vendo como criança”, avalia Clarice, que trabalha como tradutora, mas já pensa em novos projetos na carreira como escritora infantojuvenil. “Mostrei para minha mãe porque ela é uma artista incrível e eu comecei a visualizar como o poema ficaria com o trabalho dela. Minha mãe transformou a história”.

Em seus últimos versos, o poema se revela como uma grande alegoria sobre as transformações vividas no ciclo da vida: no início, a avó cuida da neta. No final, a neta está cuidando da avó. Repetindo, com os papéis invertidos, muitas daquelas lembranças: “Coisas básicas como preparar uma refeição, sair para passear, levar para tomar banho… Foram coisas que tive que fazer quando ela se viu debilitada e eu pensei em como era bonita essa transformação”, emociona-se Clarice.

Embora quase tudo verse sobre lembranças reais, há no final de “Nós duas” uma licença poética. Ideia da ilustradora, Cris, explicada pela autora, Clarice: “A narradora tem uma filha no fim. Pensava apenas em deixar marcado que a avó faleceu, mas ela colocou essa questão muito bonita: existe a morte, mas existe a vida”.

Por que somos apaixonados por histórias de terror

A coletânea “Histórias de Tirar o Sono” traz contos assustadores de escritores consagrados como Alexandre Dumas, Edgar Allan Poe e Anton Tchekov

Se uma história de terror já é de dar medo, imagine treze… Para quem gosta de contos assustadores, carregados de suspense e horror, “Histórias de tirar o sono”, lançamento da Panda Books, é praticamente um parque de diversões. A dupla Regina Drummond e Taciana Ottowitz reuniu nesta coletânea treze contos que oscilam entre os gêneros fantástico e terror.

Na lista, estão nomes consagrados, como Alexandre Dumas, autor de “Os Três Mosqueteiros” e “O Conde de Monte Cristo”, aqui representado pelo conto “Solange” – e Edgar Allan Poe, de “O retrato oval”. A obra conta também com autores que são verdadeiras surpresas, caso do francês Hector Mugh Monro, que assinou o intrigante conto “Srdedni Vashtar”  com o pseudônimo Saki.

Mineira que hoje mora na alemã Munique, Regina tem cem livros publicados para crianças e adolescentes e atua também como tradutora e editora – já foi premiada com um Prêmio Jabuti. Taciana Ottowitz é brasileira, nascida na Inglaterra, também vive na Alemanha e tem trinta livros no currículo. Ainda é tradutora e ilustradora especializada em arte botânica e em desenhos de animais. “Nossa mente é capaz de nos pregar peças e isso dá muito medo. Esse é um dos motivos que tornam os contos fantásticos e de terror ainda tão relevantes no nosso dia a dia”, escreveram
as duas na apresentação da obra. “Outro motivo é que a gente se reconhece nos personagens e narradores dessas histórias. Às vezes eles são indecisos, misteriosos, medrosos, bobos e até um pouco ‘fora da casinha’”.

São histórias escritas em épocas, países e estilos narrativos diferentes, o que acaba provando que, independentemente da geração ou da forma, todo mundo sempre gostou de consumir obras de ficção que despertam medo, ansiedade e suspense. Não há nenhum autor brasileiro na lista, mas o país de alguma forma está representado em “O gato do Brasil”, de Arthur Conan Doyle – criador do Sherlock Holmes. O conto traz uma personagem que viveu em terras brasileiras, de onde trouxe uma espécie de misteriosa de gato sob os olhares europeus.