10 curiosidades sobre Nathaniel Hawthorne e “A letra escarlate”

Livro de 1850 ganha nova edição na série “Clássicos Internacionais”

 

Mais nova publicação da série “Clássicos Internacionais”, da Panda Books, “A letra escarlate” é o grande sucesso do escritor Nathaniel Hawthorne, um dos maiores fenômenos da história do mercado editorial dos Estados Unidos e símbolo da literatura norte-americana do século XIX. Conheça algumas curiosidades sobre o autor:

  1. Nathaniel Hawthorne nasceu em 1804 em Salem, Massachusetts. A cidade americana é conhecida mundialmente pelo julgamento das “bruxas de Salem”, como eram chamadas as mulheres que foram condenadas à morte sob acusação de prática de bruxaria. Um dos bisavôs de Hawthorne foi um dos juízes desse julgamento, entre 1692 e 1693.
  2. A relação entre a família Hawthorne e o puritanismo – a corrente protestante que prega uma régua moral extremamente rígida – é ainda mais antiga que a presença do bisavô no julgamento do caso das “bruxas de Salem”. O tetravô de Nathaniel, William Hawthorne, foi quem trouxe a família para os Estados Unidos, vindo da Inglaterra, berço do puritanismo, já como seguidor desta corrente. O historiador Philip Macfarlane, autor de uma biografia sobre o autor, acredita que o escritor pode ter acrescentado uma letra ao seu sobrenome – alterando-o de Hathorne para Hawthorne – para tentar se dissociar do passado de sua família.
  3. O escritor recebeu o mesmo nome do pai: Nathaniel Hathorne pai foi um capitão de navios, que morreu de febre amarela, em 1808, durante uma expedição pelo Suriname, então colônia holandesa no extremo-norte da América do Sul. A tragédia fez com que a mãe se mudasse com o filho Nathaniel e mais as duas filhas para a casa de familiares em Salem.
  4. Hawthorne gostava de escrever desde a infância. Aos 15 anos, por sinal, ele já produzia sozinho “The Spectator”, uma espécie de jornal com notícias e poemas que ele distribuía para seus familiares.
  5. Seu primeiro romance, “Fanshawe”, foi publicado de maneira anônima em 1828. Nathaniel pagou do próprio bolso os 100 dólares necessários para a impressão e a distribuição da obra.
  6. Depois de “Fanshawe”, Hawthorne abandonaria os romances por 22 anos até publicar “A letra escarlate” em 1850 – no meio deste caminho, publicou 30 livros de contos e viveu tempos difíceis. Em 1845, já casado com Sophia Peabody e pai da recém-nascida Una, o escritor precisou voltar para a casa da mãe, Elizabeth. No ano seguinte, conseguiu um emprego no porto de Salem com um salário mensal de apenas 100 dólares. A vida seguiu complicada até a publicação de “A letra escarlate”.
  7. “A letra escarlate” foi um sucesso instantâneo que surgiu exatamente num momento em que a tecnologia de impressão e publicação de livros avançava nos Estados Unidos. Os primeiros 2.500 exemplares foram vendidos em um intervalo de apenas 10 dias.
  8. A obra de Nathaniel é marcada por explorar os cenários onde ele viveu ou trabalhou. Em “A letra escalarte”, por exemplo, o prefácio “A alfândega” rememora suas experiências na alfândega de Boston. Tão logo se casou, antes de se mudar para a casa da mãe, viveu com a mulher numa casa ligada à igreja chamada “Old Manse”, de onde extraiu boa parte do conteúdo dos contos que formam a coleção “Mosses from an old manse”, de 1846. O próprio romance “Fanshawe”, que marca a estreia do autor, foi baseado na sua experiência acadêmica em Bowdoin College (uma espécie de faculdade das artes no Maine, extremo nordeste do país), onde era tido como um aluno rebelde e negligente.
  9. Ainda na escola, Nathaniel Hawthorne conheceu e desenvolveu uma grande amizade com um garoto de New Hampshire chamado Franklin Pierce. Muitos anos depois, Hawthorne foi convidado a escrever uma espécie de biografia que serviu como material de campanha para Pierce nas eleições presidenciais de 1852. O democrata venceu Winifeld Scott, do antigo Partido Whig (espécie de percursor do Partido Republicano) para se tornar o 14º presidente dos Estados Unidos da América. Hawthorne foi recompensado com o cargo de cônsul dos Estados Unidos em Liverpool, no Reino Unido.
  10. Um dos últimos trabalhos do autor de “A letra escarlate” foi o ensaio “Chieflly About War Matters”, publicado em 1862, como testemunho da convivência de Hawthorne com o então presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, durante a guerra civil, travada entre o norte abolicionista e o sul escravocrata. Nathaniel Hawtorne morreu em 1864 na cidade de Plymouth, em New Hampshire, tendo publicado oito romances, 34 livros de contos e seis de não-ficção, além de ensaios e artigos.

Os símbolos brasileiros em seus mínimos detalhes

Depois de 12 anos de pesquisa, Tiago José Berg apresenta a obra mais completa sobre o tema: “Eram 90 anos sem uma publicação com esse peso”

Desde cedo, Tiago José Berg, 38 anos, paulista de Cordeirópolis, sonhava em viajar o mundo e gostava de observar as bandeiras dos países em um atlas. Nada muito diferente do interesse de qualquer criança. Até que veio a Copa do Mundo de 1998. Encantado com as traduções dos hinos dos países nas transmissões de TV, o menino de 14 anos começou a estudar o tema. “Eu escrevia para embaixadas e consulados para conseguir informações”, conta. “Tenho até hoje os envelopes de cerca de 140 embaixadas”. Em 2006, Berg passou a amadurecer a ideia de transformar todo esse trabalho de pesquisa em um livro. “Hinos de todos os países do mundo” foi lançado pela Panda Books em 2008. Na esteira desse sucesso, veio o segundo: “Bandeiras de todos os países do mundo”, em 2013.

Agora, a Panda Books publica “Símbolo do Brasil”, uma reunião de bandeiras, brasões e hinos do Brasil, dos estados brasileiros e das capitais de cada unidade da federação. Além dos símbolos vigentes, o livro traz outros símbolos históricos como os brasões dados pelos holandeses às capitanias hereditárias do Nordeste, a bandeira de São Luís na época de sua fundação e projetos que não vingaram para a bandeira do Brasil: “Fiz uma seleção de conteúdo que fosse significativo para as pessoas”, resume ele, formado em Geografia pela Universidade Estadual Paulista.

Muito mais do que um banco de dados de imagens, Berg executou um trabalho que ele próprio resume como “desafiador”. A partir da descrição técnica que consta nos projetos de lei que homologaram as bandeiras e brasões, ele redesenhou no computador boa parte desses símbolos. Sua ideia, com isso, era corrigir distorções ou preencher lacunas que constavam até mesmo nos sites oficiais de governos e prefeituras. “Tinha a frustração de ver um desenho e não saber o que era. Queria que as pessoas percebessem a beleza do material: que a folha de café fosse a mais realista possível, que as bolinhas dos frutos de laranjeiras fossem fiéis… Um exemplo: o brasão do Amazonas tem uma cornucópia [vaso em forma de chifre] cheios de frutas, flores, moedas… Procurei trazer esses detalhes para que as pessoas vissem exatamente o que estavam lendo na descrição”, explica.

Aqui a entrevista de Tiago José Berg para o “Panda News”:

 

Você já estuda bandeiras, hinos e brasões há muito tempo. Quando foi que surgiu especificamente a ideia de reunir essas informações sobre os estados e capitais brasileiras em um livro?
Percebi que não havia um livro que compilasse informações sobre os nossos símbolos. Na verdade, o último livro a abordar esse assunto com ilustrações era de 1933: “Brazões e Bandeiras do Brasil”, de Clóvis Ribeiro. Mas ele não tinha os hinos. Minha ideia foi preencher esse vácuo de 90 anos sem uma publicação de peso e sem um material pensado de forma didática para apresentar mais sobre os nossos hinos, bandeiras e brasões. Foi um trabalho de pesquisa que começou de 2009 para 2010 e durou 12 anos.

Que tipo de informações você levantou durante todo esse processo?
Em primeiro lugar, uma descrição da bandeira e do brasão de cada Estado e do Brasil. Também as letras e as partituras de cada hino porque quem tem o dom da música vai ter muito interesse em tocar os hinos. Inicialmente, escrevi para secretarias de cultura, governos e assembleias legislativas, pedindo essas informações. Percebi que havia uma discrepância muito grande entre lugares com materiais muito bons e outros que não tinham quase nada além do “procura no site”. O que havia no site era um brasão bem pequenininho… E me deparei com outro problema: geralmente as imagens são feitas por terceiros ou mesmo por pessoas com boa vontade, mas que não tinham a riqueza de detalhes que eu precisava. Alguns símbolos, portanto, perderam o sentido original em relação ao que dizia a lei. Eu revi todas as leis e redesenhei praticamente 90% dos brasões e 50% das bandeiras que estão no livro.

Qual foi o estado ou a capital que lhe deu mais trabalho?
Tive muita dificuldade com Boa Vista. Até pouco tempo, eles usavam uma imagem com a inscrição “Território federal de Roraima” (título carregado até 1988, quando Roraima se tornou um estado). Eu ligava para lá e as pessoas não sabiam me dar informação nenhuma. Só em 2019 começou a melhorar. Em outro caso, uma colega da pós-graduação amapaense conseguiu, em uma viagem ao Amapá, ir à Biblioteca Municipal e fazer uma cópia do brasão de Macapá com o texto da lei. E aí eu consegui redesenhar. Outro caso interessante foi o de São Luís: eu tinha o brasão, mas não a descrição da lei. A avó de um colega que morava lá me mandou uma cópia de um encarte da Academia Maranhense de Letras com a descrição.

No caso dos hinos, foi preciso reescrever partituras também?
Sim, foi outro caso complexo. Muitos estados têm partituras disponíveis principalmente para bandas de polícias militares. Mas partituras para piano, que são as mais comuns, nem todo Estado tem. Fiquei em dúvida sobre qual partitura usar. Acabei escolhendo as partituras para canto, que foram as que eu encontrei em todos os estados. Como as fontes são diferentes, eu precisei usar um programa de digitalização para escrever algumas. Tive aula de teclado por muitos anos, então acredito não ter tido muitos problemas nesse sentido.]

Por que algumas capitais não têm hino, como São Paulo, ou adotaram músicas populares, como o “Cidade Maravilhosa” do Rio de Janeiro?
É uma questão cultural. Em muitos lugares, o hino surge de uma tradição popular e acaba sendo adotado como um símbolo oficial. Mas algumas capitais de fato não têm. Belo Horizonte é uma delas. No caso da cidade de São Paulo, nas comemorações do IV Centenário, a cidade não tinha bandeira. Só usava o brasão. A bandeira nasce um pouco depois, quando o brasão é estampado num retângulo branco. Ela só vai ganhar contornos oficiais na década de 1970, com o brasão readaptado. Depois, em 1987, ela ganha o desenho atual.

No Brasil, não existe uma lei que sistematize esses símbolos. Não existe lei que obrigue uma cidade ou um estado a ter um brasão, uma bandeira ou um hino. É facultativo. Muitos adotam por costume, por observar outro estado. Esses símbolos regionais só foram vetados no Estado Novo de Getúlio Vargas – ele tinha o receio de que eles alimentassem movimentos separatistas. Somando todos esses fatores, temos brasões que respeitam as normas heráldicas e outros que não respeitam. O de Sergipe, por exemplo, não tem nem um escudo, que é um princípio básico para qualquer brasão.

O alfabeto de A a Z

Lançamento da Panda Books auxilia no processo de alfabetização a partir da identificação de palavras conhecidas

A escritora Silvana Salerno lembra bem do fascínio que sentiu quando percebeu que era capaz de ler outdoors. Para encurtar os caminhos que levarão as crianças de hoje a esse momento especial, ela escreveu “Os amigos no alfabeto”, livro lançado pela Panda Books e que traz ilustrações de Fran Junqueira.

O processo se desenvolve primeiro por meio dos objetos, das coisas, das palavras que estão no vocabulário de todos os dias; depois, pelos nomes que estão na lista de chamada da escola ou em algum contato nas redes sociais; e por último, com as ilustrações que ajudam na missão de associar o objeto que se vê à palavra que se escreve.

Veja curiosidades de algumas das palavras que são apresentadas no livro de Silvana:

“A” de açaí: a fruta conhecida por ser símbolo de energia foi batizada a partir do tupi “iwasa’i”, que significa “fruto que chora”.

“B” de batatinha: a sequência “batatinha quando nasce”, que hoje abre uma das quadras de versos mais famosas da cultura popular brasileira, foi registrada pela primeira vez em 1883 no livro “Cantos populares do Brasil”, de Silvio Romero. Na época, a estrofe dizia: “batatinha quando nasce / deixa a raiz no chão / menina quando se deita / bota a mão no coração”.

 

“C” de casinha: uma das particularidades da Língua Portuguesa é a demarcação dos diminutivos por meio dos sufixos, sobretudo o sufixo “inho” ou “inha”, e não de uma outra palavra. Em inglês, por exemplo, uma casa pequena é uma “little house”. Na língua portuguesa, uma casa pequena é uma “casinha”.

“D” de dragão: seres mitológicos que fascinam as crianças, os dragões foram batizados a partir do grego “drakon” e do latim “draconem”.

“E” de escorpião: existem cerca de 160 espécies diferentes de escorpiões vivendo no Brasil; o nome do animal vem do grego “skorpios”.

“F” de futebol: quando o esporte mais popular do mundo ainda engatinhava aqui no Brasil, muitos se incomodavam com o excesso de expressões em inglês – a começar pelo próprio nome que é uma fusão de “foot” (pé) e “ball” (bola). Então, a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro abriu um debate para buscar um batismo 100% brasileiro para essa prática: “pebóla”, “peból” e “balípodo” (do grego “bali”, lançar, e “podos”, pé) foram alguns dos nomes que foram propostos, mas não vingaram.

“G” de guaraná: os descobridores do guaraná foram os índios sateré-mawé, que vivem na Amazônia; eles cultuam uma lenda segundo a qual o fruto teria surgido a partir dos olhos enterrados de Kahuê (daí o aspecto semelhante a um olho humano), um jovem índio filho da bela Anhyã-Muasawê e vítima da maldade de uma serpente. “Guaraná” vem de “waraná”, que significa “árvore que sobe apoiada em outra”.

“H” de helicóptero: essa é mais uma palavra herdada dos gregos; neste caso, uma junção de “héliks” (espiral) e “pterón” (asa).

“I” de ioiô: a origem do brinquedo é incerta, mas a origem da palavra é conhecida: ela foi importada do filipino e quer dizer “volte aqui”.

“J” de jacaré: no livro, a palavra “jacaré” aparece aplicada à frase “ficam longe da jiboia, mas gostam de pegar jacaré”. É uma gíria pra quem gosta de surfar: “pegar um jacaré” é encarar uma onda com o peito para ser levado por ela até a praia.

“K” de kalimba: o instrumento formado por pequenas placas metálicas que emitem sons quando dedilhadas ecoa na África desde o ano 1.000 antes de Cristo; no Brasil, chegou com africanos escravizados no século XVII e já no século seguinte foi retratado pelo pintor Jean-Baptiste Debret.

“L” de leopardo: etimologicamente falando, a palavra “leopardo” é uma fusão de duas expressões em latim: “leo” (leão ou grande felino); “pardus” (pantera). Era assim, como uma mistura dos dois animais, que o leopardo era visto na Idade Média.

“M” de mãe: apesar dos registros de alguns festejos para as mães na Grécia e também durante a Idade Média na Europa, o Dia das Mães foi comemorado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1914, quando também ficou estabelecido que a comemoração aconteceria no segundo domingo de maio. No Brasil, os primeiros registros são de 1918, mas a data só acabou oficializada em 1932 durante o governo de Getúlio Vargas.

“N” de Natal: a primeira celebração do Natal de que se tem notícia aconteceu em 336 na cidade de Roma. Em 350, por influência do Papa Júlio I, foi instituído o 25 de dezembro como data da comemoração. A partir do imperador Justiniano, o Natal tornou-se feriado em 529.

“O” de ornitorrinco: embora seja um mamífero, o “ornitorrinco” foi batizado como um animal “com bico de ave” a partir da junção das expressões do grego antigo “ornitho” (ave) e “rhynchus” (bico).

“P” de paçoca: foi o engenheiro e historiador Teodoro Sampaio quem revelou que a palavra “paçoca” vem do tupi “poçoca” (esmigalhar à mão).

“Q” de queimada: o jogo de queimada, aquele em que os times arremessam a bola de um lado a outro para eliminar os adversários atingidos, tem pelo menos outros dez nomes Brasil afora: baleado, barra-bola, bola queimada, caçador, carimba, carimbada, cemitério, mata-mata, mata-soldado e matada.

“R” de rolimã: “carrinho de rolimã” é um aportuguesamento da expressão francesa “roulement”, criada para definir este pequeno carro de madeira e rodas de aço.

“S” de sorvete: a primeira sorveteria do Brasil foi inaugurada em 1835 por uma dupla norte-americana que aproveitou parte de um carregamento de 270 toneladas de gelo que chegou em um navio vindo dos Estados Unidos.

“T” de telefone: o primeiro grande entusiasta do telefone no Brasil foi o então imperador Dom Pedro II; ele foi um dos poucos a se empolgar com a invenção do escocês Alexander Graham Bell, apresentada na Filadélfia, Estados Unidos, em 1876. Já no ano seguinte o Brasil se tornou o segundo país do mundo a ter um telefone.

“U” de uirapuru: o canto deste pássaro inspirou e batizou uma das mais famosas sinfonias de Heitor Villa-Lobos: o trabalho de composição começou em 1917 e terminou apenas em 1934.

“V” de violão: “violão” vem do italiano “violone”, um aumentativo de “viola”. O primeiro violão de seis cordas chegou ao Brasil no início do século XIX: um dos pioneiros, foi justamente o italiano Bartolomeu Bortolazzi, que em 1826 já anunciava nos jornais o seu trabalho como professor de violão.

“W” de wi-fi: está confirmado desde 2005 pelo próprio Phil Belanger, um dos membros fundadores da Wi-Fi Alliance, o grupo que de empresas que criou a tecnologia do wi-fi: a palavra não tem significado absolutamente nenhum. Ela foi criada por marqueteiros para substituir o tecnicista “IEEE 802.11 b Direct Sequence”,
que era o termo técnico pra definir a tecnologia.

“X” de xaxado: a dança típica do Nordeste nasceu em Serra Talhada, no interior de Pernambuco, como uma provocação dos cangaceiros do bando de Lampião aos adversários derrotados.

“Y” de yin-yang: a contraposição entre “yin” (a noite) e “yang” (o sol) é um dos conceitos mais fortes da cultura chinesa e valoriza o equilíbrio entre as forças antagônicas da natureza.

“Z” de zabumba: indispensável nas festas folclóricas nordestinas, a zabumba é uma das heranças do período de colonização portuguesa no Brasil; no Maranhão, anualmente é celebrado o Festival do Bumba-Meu-Boi de Zabumba. Os bois e grupos locais carregam a tradição do sotaque de zabumba, que, além de ser marcado pela
produção artesanal das zabumbas, traz também uma mistura com outros instrumentos de percussão, como o tambor-de-fogo e o tamborinho.

Vai ter comida para todo mundo?

Sabia que 1,6 bilhão de tonelada de alimentos vai para o lixo todos os anos? Livro explica como o consumo alimentar mais responsável e racional pode salvar o planeta

“O que você coloca no prato pode mudar o planeta”, diz o subtítulo do livro infantojuvenil “O que vai ter para comer?”, de Ariela Doctors e Maísa Zakzuk, lançado pela Panda Books. Escrita leve, ilustrações de bom gosto e gráficos bem pensados são alguns dos caminhos utilizados pela dupla para levar aos mais jovens o alerta sobre a necessidade de um consumo mais responsável e racional.

Alerta este que é endossado por um arsenal de números e curiosidades baseados em estudos e pesquisas brasileiros e estrangeiros que ajudam a dimensionar os nossos exageros e o risco ao qual estamos expostos se este cenário não mudar. Todas as informações estão bem contextualizadas no livro. Primeiro as autoras fazem um breve passeio pela história da comida ao narrar o processo evolutivo que atravessa a era dos caçadores, a descoberta do fogo e o início da agricultura, dentre outros marcos históricos. Na sequência, se aprofundando nos tempos atuais, a obra explica
todo o processo que leva o alimento até a mesa dos brasileiros, do plantio até as prateleiras dos supermercados.

1. A produção agrícola é responsável por 70% do consumo de água no Brasil. São 15.500 litros de água (ou um ano inteiro de banhos de 5 minutos) para cada quilo de carne de boi que chega ao supermercado.

2. Existem aproximadamente 350 mil espécies de sementes. Os seres humanos, no entanto, não aproveitam sequer 1% dessa variedade, priorizando a alimentação básica com arroz, milho, trigo, batata e soja.

3. Segundo a organização inglesa Friends of The Earth (Amigos da Terra), 19.307 hectares de terra do Brasil são utilizados para cultivar a soja que serve de alimento para os porcos criados na Irlanda do Norte. A área equivale a 24 mil campos de futebol.

4. Enquanto os bois vivem em média dois anos antes do abate, porcos e frangos são abatidos bem mais jovens, com uma idade que varia de 28 a 45 dias.

5. Atualmente, cerca de 820 milhões de pessoas ao redor do mundo enfrentam o drama de não ter o que comer. A produção de alimentos, no entanto, é suficiente, em número, para alimentar todas as 7,8 bilhões de pessoas que vivem no planeta.

6. No Brasil, cada família desperdiça, em média, 128 quilos de comida por ano. Expandindo o olhar para o desperdício no mundo, observamos que 1,6 bilhão de tonelada de alimentos vai para o lixo todos os anos.

7. 54% do desperdício de comida está concentrado nos períodos de produção, pós-colheita e armazenagem. Os outros 46%, no processamento, distribuição e consumo.

8. 80% das embalagens de alimentos são descartadas depois da primeira utilização. Uma caixa de pizza leva seis meses para se decompor. O vidro, 4 mil anos.

9. A cada 50 quilos de papel reciclado, uma árvore é salva.

10. 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros vêm da agricultura familiar – ou seja, de pequenas propriedades mantidas por trabalhadores que guardam laços familiares.

11. Cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo inteiro já comeram insetos. São 1.900 espécies catalogadas dentre as já consumidas – embora apenas 1.400 sejam consideradas comestíveis. Nos Estados Unidos, existem cada vez mais fazendas de criação de grilos (vendidos secos ou em pó após oito semanas de vida). No Brasil, farinha de grilo, barrinha de besouros e chocolate com formiga são alguns dos itens no cardápio.

12. Hortas, fazendas e jardins verticais – instalados em paredes ou armários dentro de espaços urbanos – consomem 95% menos água que as plantações a céu aberto.

13. Existem 40 mil variedades de feijão e 100 mil variedades de arroz no mundo. No entanto, dentre todas elas, apenas 8 mil são comestíveis.

14. Se o ritmo atual de consumo da humanidade não mudar, o planeta Terra precisará, em 2050, de 40% mais água, 50% mais energia e 60% mais comida.

15. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) reúne 350 mil famílias brasileiras em busca de terras para morar e produzir em 24 estados nas cinco regiões do Brasil. “O que vai ter para comer? – O que você coloca no prato pode mudar o planeta”, de Ariela Doctors e Maísa Zakzuk, foi contemplado com uma bolsa do ProAC (Programa de Ação Cultural), o projeto do governo do estado de São Paulo que concede patrocínios e incentivos fiscais para projetos que ajudam a difundir a produção artística no Estado.

10 curiosidades sobre “O alienista”

Clássico de Machado de Assis ganha nova edição na coleção “Clássicos da Língua Portuguesa”

“O alienista”, de Machado de Assis, tem 141 anos e dezenas de edições e adaptações. Na coleção “Clássicos da Língua Portuguesa”, porém, ele é envelopado de uma maneira especial: com notas informativas, ilustrações e infográficos que ajudam o leitor a entender o texto de Machado de Assis de acordo com o contexto da época e também a dimensão que a obra tem na história da literatura brasileira.

A seguir, 10 curiosidades sobre um dos grandes clássicos do maior escritor brasileiro da história. O quarto de Machado de Assis na coleção da Panda Books:

1. A profissão de “alienista”, que dá origem ao nome do livro, equivale ao que hoje se chama de psiquiatra. O alienista de Machado de Assis é o dr. Simão Bacamarte, que abre um manicômio, mas acaba se tornando uma das vítimas dos cada vez mais arbitrários conceitos de “loucura” que se desenvolvem ao longo da obra.

2. O conto se passa em uma cidade real: Itaguaí fica na região metropolitana do Rio de Janeiro, a cerca de 70 quilômetros da capital fluminense. A cidade tem 130 mil habitantes. A Biblioteca Municipal de Itaguaí, instalada num pequeno castelo erguido na estação ferroviária da cidade, leva o nome de Machado de Assis. A biblioteca veio um ano antes do que “O alienista”: 1880. O escritor admirava bastante o então Imperador do Brasil, D. Pedro II, que foi fiador da inauguração da biblioteca, embora o batismo do local só tenha se dado no ano de 2000.

3. “O alienista”, publicado pela primeira vez em 1881, não por acaso apresenta ganchos irresistíveis ao final de cada capítulo. Na época, o texto foi publicado capítulo a capítulo ao longo de várias edições do jornal carioca “A Estação”, entre outubro de 1881 e março de 1882. Era preciso, então, prender a atenção do leitor para deixá-lo à espera das próximas atualizações da história.

4. Em 1948, a Imprensa Nacional publicou uma edição deste clássico ilustrada por Candido Portinari, um dos maiores pintores brasileiros. Foram 37 ilustrações para dar o tom da abordagem original que Machado fez para as reflexões acerca da loucura.

5. Machado de Assis foi o fundador da Academia Brasileira de Letras. Ao longo de sua carreira, ficou marcado como um escritor versátil, que mostrou talento para produzir em diversas frentes: livros, romances, contos, peças teatrais, poesias e por aí vai… Tanto assim que nem é tão simples definir se “O alienista” é um conto, por causa do estilo, ou uma novela, como sugere a sua extensão e os seus ganchos entre os capítulos.

6. Nesta versão de “O alienista”, a Panda Books apresenta ao longo de toda a narrativa as notas informativas de Fátima Mesquita, que explica e contextualiza os eventos históricos, as expressões e os costumes retratados no livro. Traz também as ilustrações de oito profissionais: Camila Matos, Evandro Marenda, Kin Noise, Leblu, Leticia Vieira, Loro Verz, Marcelo Anche e Marina Hauer.

7. “O alienista” inspirou diversas adaptações ao longo das últimas décadas. Uma delas foi a “graphic novel” de Fabio Moon e Gabriel Bá, que faturou o Prêmio Jabuti na categoria “Livro didático ou paradidático do ensino fundamental e médio”.

8. As adaptações de “O alienista” extrapolam a literatura: na música, a obra inspirou uma canção homônima da banda Detonautas; na TV, o livro foi adaptado para o programa “Caso Especial”, da TV Globo, em 1993. Marco Nanini interpretou o doutor Simão Bacamarte.

9. Machado de Assis não conseguiu realizar o sonho de conhecer a Europa, mas “O alienista” recebeu traduções para o inglês, o espanhol e o italiano. A obra também foi adaptada, junto de outros contos de Machado de Assis, para o chinês.

10. Dois anos antes de “O alienista”, Machado de Assis escreveu um ensaio no qual disse que “o realismo (movimento artístico baseado na representação fiel da vida e dos costumes de uma época) não presta para nada”. A resistência do autor à corrente literária que predominava na época, e à qual ele próprio é muitas vezes ligado, se manifesta não só em “O alienista” como também no seu livro mais famoso, “Memórias póstumas de Brás Cubas”, publicado igualmente em 1881.

O último cartucho

João Barone reúne objetos, fotos e documentos para construir a biografia de um dos 25 mil brasileiros que lutaram na Segunda Guerra: João de Lavor Reis e Silva, seu pai

 

Músico de sucesso e famoso baterista de Os Paralamas do Sucesso, João Barone assumiu uma missão: produzir e divulgar conteúdos que expliquem, contextualizem e, acima de tudo, valorizem a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Histórias não faltam: foram 25 mil brasileiros enviados para auxiliar os Aliados, liderados pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos, no combate contra as forças nazifascistas do Eixo, comandadas pela Alemanha de Adolf Hitler e a Itália de Benito Mussolini.

O desejo de tirar essa história do campo acadêmico e trazer para uma linguagem “pop”, como ele mesmo define, não vem apenas do interesse pelo tema, mas também porque um dos 25 mil “pracinhas” – como ficaram conhecidos os brasileiros enviados para a batalha em que a Itália se libertou de Mussolini e da influência alemã – era João de Lavor Reis e Silva, pai deste roqueiro de 60 anos, que já dirigiu três documentários e escreveu três livros sobre o tema. “Soldado Silva”, recém-lançado pelo selo “Livros de Guerra”, da Panda Books, é considerado por Barone como “o último cartucho” deste projeto de quase duas décadas. É que, depois de tanto esforço para reunir documentos históricos e apresentar essa parte muitas vezes subestimada na história do Brasil, faltava produzir algo que apresentasse uma biografia a respeito de pelo menos um dos combatentes brasileiros.

O Soldado Silva não falava muito sobre o seu período como pracinha do Exército Brasileiro, mas, quando o fazia, era pra desmistificar o que poderia haver de hollywoodiano na imaginação dos seus quatro filhos – João Henrique, João Guilherme, Maria Elisa e João Alberto, o caçula autor do livro: “De vez em quando, passava um filme de guerra na TV e a gente perguntava: ‘pai, a guerra era assim mesmo?’. E ele respondia: ‘Tudo mentira! A guerra era muito pior!’”, lembra Barone.

Silva era um homem que, apesar de ter sido escalado para combater a ascensão do nazismo, não se enxergava como um herói  (“Meu pai fugia do estereótipo do combatente que voltou neurótico de guerra: ele só queria retomar a vida”) e tampouco tinha qualquer apego exagerado às lembranças físicas dos seus tempos na Itália. “Os objetos fotografados para o livro eram a coisa mais concreta sobre a experiência de guerra do meu pai. Ele tinha roupas e uniformes que foram estragando… Antes que estragassem totalmente, ele doou tudo para um jardineiro que trabalhava em casa pra que ele trabalhasse com ela”.

Quando o soldado Silva morreu, em 2000, o baterista João assumiu a condição de guardião daquilo que hoje chama de “acervo histórico de um combatente”, mas que até não muito tempo antes era apenas uma parte da caixa de brinquedos da família: “A gente usava quando ia brincar de soldado. Incrivelmente, o capacete que ele usava sobreviveu a essas brincadeiras”, diverte-se Barone. Hoje esses itens estão guardados “longe de crianças” – os quatro filhos do Soldado Silva geraram oito netos e dois bisnetos.

Para proteger e valorizar memórias mais antigas que ele próprio, Barone também somou algumas viagens, incontáveis conversas com outras personagens – de companheiros ex-combatentes à mãe, Elisa, que durante a Guerra trocava correspondências com o soldado que então chamava apenas de namorado – e precisou superar contratempos como o roubo de um precioso álbum com fotos das memórias do pracinha 251126.

 

Quando foi que as memórias do Soldado Silva começaram a fazer parte da sua infância?

Esse era um assunto muito presente em casa. Eu e meus irmãos víamos o meu pai como um herói daqueles de filmes de guerra [risos]. Ele compartilhava as coisas com a gente de uma maneira muito antibelicista: ‘Foi rápido, a gente foi lá, deu uns tiros pro alto, espantou os alemães’… Ele não glamourizava a guerra. E eu fui desenvolvendo um interesse maior pela história do meu pai. Foi uma coisa lapidada com o tempo, um reencontro com o meu velho.

 

Como foi o trabalho de expandir essas memórias para além daquilo que já estava ali na sua casa, seja como registro oral, seja como lembrança física daqueles momentos?

Basicamente, o que está no livro são os objetos que a gente já tinha. São objetos simplórios, como o próprio capacete. Depois, a minha irmã me deu a cobrinha que era o símbolo da Força Expedicionária Brasileira e a medalha de identificação que eles usavam. Pelo meu interesse, especialmente depois da morte do meu pai, eu me aproximei de algumas associações de ex-combatentes e de outras pessoas que têm interesse nesse tema pela importância que teve a participação brasileira na guerra. É uma história muito interessante: a gente tinha uma representatividade muito grande, lutando contra o nazifascismo num gesto grandioso e ousado para se inserir na globalização. Eu fiquei imbuído de tentar valorizar o sacrifício de pessoas como o meu pai, que, aos 25 anos, largou o violão, pegou o fuzil e foi para a guerra.

 

O seu pai também tinha esse interesse em reencontrar esses ex-combatentes e falar sobre esse legado?

Meu pai ficou com uma certa “ressaca” pela forma como os combatentes foram negligenciados. Ele nunca se achou herói de coisa nenhuma e não gostava muito de valorizar a si mesmo. Tinha a percepção de que somos nós que temos que valorizar o esforço deles. Então nunca foi algo que fez parte do cotidiano principalmente porque as associações de ex-combatentes foram proibidas depois da guerra para impedir que houvesse qualquer representação política. A Casa da FEB, no Rio, por exemplo, só foi inaugurada em 1976. Meu pai frequentou eventualmente e ajudou alguns amigos que estavam em situação de penúria. Então, ele levava cestas básicas para ajudar um ou outro amigo. Teve também um evento em 1995 que marcou os 40 anos do final da guerra e eu o convenci para que fôssemos. Foi emocionante vê-lo ali, reencontrando e reconhecendo amigos ou o comandante da companhia dele. Na época as câmeras fotográficas não eram tão simples, mas eu consegui fazer uma foto ou outra.

 

Em que momento você percebeu que, além de uma lembrança sentimental de família, a história do Soldado Silva poderia ser tratada também como um registro histórico para a literatura brasileira dedicada à Segunda Guerra?

Eu aproveitei a minha condição de integrante de uma banda conhecida para abrir algumas janelas midiáticas. Dei uma de roqueiro excêntrico [risos]. Foi a partir dos anos 2000, quando eu me aproximei de alguns ex-combatentes e reencontrei esse legado. Eu tentei tirar aquilo do arcabouço acadêmico ou militaresco e levar para um ponto de vista mais pop. É engraçado: a gente olha os americanos, os ingleses… Eles têm um respeito muito grande pelos combatentes, e não só da Segunda Guerra. A gente olha e pensa: ‘poxa, como eles respeitam!’. Mas a gente tem um grande problema em valorizar a nossa própria história. Essa história tem episódios muito interessantes e que explicam o Brasil moderno. Isso tudo faz 80 anos, mas não parece. Muita coisa ainda está aí para ser entendida e assimilada. Tem muita coisa na nossa própria história que ainda precisa ser digerida. Para isso, precisa haver valorização.

 

O livro “Soldado Silva” tem registros fotográficos incríveis. Como foi reunir este acervo?

Essa é uma coisa que eu explico no livro: na época, ninguém viajava de avião. Era tudo de navio. Então, os soldados demoraram três meses para voltar. A Segunda Guerra acabou em maio e meu pai chegou em agosto de 1945. Então, ele comprou uma câmera e teve tempo para fazer alguns registros. Havia um álbum (e eu me lembro bem desse álbum), mas infelizmente ele foi levado quando roubaram nossa casa. Mas a minha lembrança é quase mágica: as fotos eram muito bem impressas. Parecia em 3D ou 4K. Eram muito bem reveladas. Ele tinha também papéis, folhetos, cartões postais de sítios turísticos ou históricos de Pompéia… Era uma viagem na história. Foi uma pena perder tudo por uma bobeira porque quem levou provavelmente nem sabia o valor que aquilo tinha. Felizmente as fotos podiam ser revisitadas pelos negativos que a gente achou aleatoriamente. Com algum esforço, pensei, seria possível transformar aqueles negativos que estavam se deteriorando em um acervo sentimental com o que sobrou das imagens que meu pai conseguiu fazer.  Acabou virando algo ainda mais mágico porque são fotos de pessoas que eu nem sei quem são. Então você fica pensando: quem é esse amigo? Será que meu pai se reencontrou com ele? Não é um acervo muito grande. São cerca de 30 fotos. Mas foram importantes para contar a história de maneira sensível. Foi um trabalho meticuloso de restauração.

 

A foto de capa, além de restaurada, também passou por um processo de colorização. Como foi feita essa escolha?

Conheci a Marina Amaral, uma brasileira de Belo Horizonte, que é referência mundial em colorização. Ela já editou livros fantásticos. A foto precisa ter uma qualidade muito boa, quase artística. E essa foto que a gente usou na capa o meu pai tirou numa máquina lambe-lambe lá na Itália. Os pracinhas faziam muito isso: tiravam a foto com um fotógrafo profissional e enviavam como um cartão postal pra família. Essa foto, inclusive, foi enviada pro Brasil com uma dedicatória para os meus avós. Então, essa foto passou por esse processo e foi escolhida para estampar a capa para passar a ideia de quem era o Soldado Silva.

 

De certa forma, a sua “pesquisa de campo” começou em casa e isso poderia já ser suficiente para dar conta da parte mais biográfica de seu trabalho. À medida que a sua obra ganhou também essa preocupação histórica, para onde essa pesquisa de campo se expandiu?

Tive a sorte de viajar várias vezes para a Itália. Foi muito emocionante porque eu me senti pisando nos lugares onde meu pai pisou. Os brasileiros até hoje são reconhecidos naquelas cidades pequenas, onde botaram os alemães para correr, sobretudo na região rural, na Emília-Romanha. Todo ano, na data da libertação da Itália, em 25 de abril, as crianças cantam a “Canção do Expedicionário”. Tentei captar essa percepção “in loco” para os documentários e livros. Ao mesmo tempo, eu tinha essa bagagem que vinha do meu interesse e da possibilidade de conversar não só com o meu pai. Infelizmente, não tive conversas suficientes sobre isso com o meu pai. Algumas coisas ele não contava. Por exemplo: ele deve ter dado os seus tiros por lá, mas isso ele nunca contou. Depois que morreu, conversei com outros combatentes e fui adquirindo uma bagagem própria, além de ler bastante sobre isso. Eu não sou historiador e não quero tirar o lugar dos historiadores. Sou um entusiasta e tentei botar meu interesse à serviço dessa história. É meu último cartucho pra abordar esse tema sobre esse ponto de vista mais “pop”. Mais que tudo, é um livro de imagens. É uma lupa sobre um desses 25 mil caras. É uma das 25 mil histórias. A ideia é dar a dimensão do que foi essa experiência de chegar à Europa no meio de uma guerra e voltar. Todos os comandantes do Regimento Sampaio [como é conhecida a unidade do Exército onde o soldado Silva serviu], que sabiam que o baterista do Paralamas era filho de um combatente, me convidavam para ir lá buscar a ficha de operações dele. Depois de uns 15 anos, eu fui e eles foram muito gentis. Me deram também um livro que conta toda a história do 3º Batalhão, que era onde ele estava na 9ª Companhia, e aí eu pude comparar as datas e criar essa narrativa para situar o leitor. Aí eu contei toda a história: nasceu em Foz do Iguaçu, conheceu minha mãe, foi pra Guerra, voltou, reencontrou minha mãe, teve filhos, trabalhou…

10 curiosidades sobre “O Máscara de Ferro”

Clássico de Alexandre Dumas é um livro dentro de um livro

O mais novo lançamento da série “Clássicos Internacionais”, da Panda Books, é um livro dentro de um livro que faz parte de uma trilogia. Difícil de entender? Das 2.500 páginas de “O Visconde de Bragelonne”, ponto final da sequência de três livros que contam a história de “Os Três Mosqueteiros”, foram recortadas as 728 que ganham vida própria ao narrar a história de “O Máscara de Ferro”.

A seguir, confira 10 curiosidades sobre esta que é uma das principais obras do escritor Alexandre Dumas e da literatura francesa.

  1. A história do homem da máscara de ferro é inspirada em um episódio real que  marcou a França no século XVIII: havia de fato na prisão da Bastilha – aquela que mais tarde acabaria tomada pelo povo na Revolução Francesa – um detento, chamado Eustache Dager, que era obrigado a cumprir pena com uma máscara de ferro sobre o rosto. O mistério em torno da figura de Dager criou uma série de teorias da conspiração nas ruas de Paris, dentre as quais se destaca aquela que faz parte da história de “O Visconde de Bragelonne”: Eustache seria um irmão gêmeo do rei Luís XIV (daí a necessidade de usar a máscara), lançado à prisão para não aspirar ao trono francês.
  2. Os primeiros documentos históricos que remetem à existência do “máscara de ferro” na vida real são de 1687 – 115 anos antes do nascimento do autor do livro. A chegada do prisioneiro é relatada em um diário de um carcereiro, o Monsieur de Saint-Mars, como fruto de uma “ordem do rei”. Além disso, segundo este relato, não se sabia a identidade do homem e era proibido falar o nome dele. À época, Dager estava preso na ilha de Sainte-Marguerite. Ele foi transferido para a Bastilha em 1698 e morreu cinco anos depois
  3. Muito antes de Alexandre Dumas nascer, outro grande nome da literatura e da filosofia francesa contou a história deste prisioneiro: François Marie-Arouet, conhecido mundialmente pelo pseudônimo de Voltaire, é considerado o responsável pela teoria de que o homem da máscara de ferro era o irmão do rei. Ele conheceu a história quando esteve preso na Bastilha, pouco mais de 10 anos depois da morte de Dager. Ferrenho opositor do absolutismo que concentrava todos os poderes na mão do rei, ele desenvolveu a teoria a partir da ideia de que só seria preciso colocar uma máscara em alguém que tivesse um rosto conhecido. Voltaire não chegou a registrar a sua interpretação para o mistério, mas descreveu no livro “O século de Luís XIV”, publicado em 1751, características físicas e um pouco do cotidiano de Dager na prisão. Foi este relato que inspirou Alexandre Dumas a desenvolver uma das principais tramas paralelas de “O Visconde de Bragelonne”.
  4. O homem da máscara de ferro apareceu apenas no último volume da trilogia mais famosa de Alexandre Dumas. A série começou em 1844, quando o escritor apresentou o trio Athos, Porthos e Aramis, além do escudeiro D’Artagnan, no livro “Os Três Mosqueteiros”. Já em 1845 foi publicado o segundo volume, “Vinte anos depois” e, por fim, em 1847, “O Visconde de Bragelonne”, onde Dumas pôde abordar o mistério do prisioneiro mascarado.
  5. No total, os três livros da trilogia “Os Três Mosqueteiros” somam algo em torno de 4.000 páginas: 700 para “Os Três Mosqueteiros”, 800 para “Vinte Anos Depois” e 2.500 para “O Visconde de Bragelonne” – que, de tão grande, foi publicado em 10 volumes, um deles dedicado ao Máscara de Ferro.
  6. Estima-se que “O Visconde de Bragelonne” tenha sido traduzido para cerca de 100 idiomas. No Brasil, a primeira versão da obra foi publicada em 1890 em 1.900 páginas divididas em três volumes. A edição foi, respeitando a grafia da época, da Empreza Litteraria Fluminense, que havia sido fundada em 1877 no Rio de Janeiro e tinha uma sucursal em Lisboa – por isso, as versões brasileira e portuguesa para o livro eram exatamente iguais.
  7. A Panda Books escalou um time de especialistas para oferecer uma versão absolutamente original desta obra: como em todos os demais volumes da série “Clássicos Internacionais”, a jornalista e escritora mineira Fátima Mesquita assumiu a missão de escrever a introdução com seu estilo inconfundível, carregado de bom humor e didatismo, além de rechear o livro com notas informativas que contextualizam eventos históricos e explicam expressões de difícil compreensão – garantindo assim que o texto original seja respeitado sem prejudicar o entendimento; a tradução é de Maria Cristina Guimarães Cupertino, que carrega mais de três décadas de experiência no mercado editorial e já traduziu outros clássicos como “O Grande Gatsby”, de Scott Fitzgerald; por fim, as ilustrações – que envolvem um infográfico que resume as interações entre as personagens e a corte francesa – são de Rafael Nobre, venceu do Brasil Design Award e finalista na categoria “Melhor Capa” no Prêmio Jabuti 2022, o mais importante da literatura brasileira.
  8. Além do Rei Luís XIV, outra figura da vida real que tem papel central na história do homem da máscara de ferro é Nicolas Fouquet, o famosíssimo superintendente de finanças da corte francesa, conhecido por conceder festas suntuosas para agradar o rei. Ele acabaria mandando prender Fouquet justamente por considerá-lo perigoso para a corte com as suas ambições.
  9. Alexandre Dumas, autor de “O Máscara de Ferro”, nasceu em 1802 e morreu em 1870. Até hoje é um dos autores mais lidos e mais traduzidos da história da literatura francesa, ainda que o reconhecimento à altura da sua produção literária tenha sido tardio. Apenas em 2002, mais de 130 anos depois de sua morte, o corpo de Dumas foi transferido do cemitério de Villers-Cotterêts para o Panteão de Paris, onde estão enterrados os principais escritores e filósofos da França. Na procissão que fez parte da solenidade do novo sepultamento de Dumas, o então presidente do país, Jacques Chirac, afirmou que o racismo foi um componente fundamental para que Dumas, que era negro, não tivesse o devido reconhecimento em vida.
  10. A história do homem da máscara de ferro sob a perspectiva do relato de Alexandre Dumas inspirou pelo menos nove filmes. O primeiro, ainda na era do cinema mudo, foi uma produção francesa lançada em 1904 com seis cenas sobre o reinado de Luís XIV, sendo uma delas dedicada ao prisioneiro Dager. Depois, vieram outras películas produzidas na Alemanha, no México, na Itália e nos Estados Unidos, onde a narrativa foi explorada em quatro oportunidades –  na mais recente e mais famosa, em 1998, Leonardo Di Caprio interpretou o rei e o seu irmão gêmeo detido.

O que você vê quando olha no espelho?

Padrões de beleza, anorexia, bulimia e cyberbullying: Shirley Souza narra os conflitos de três adolescentes em busca da autoaceitação

 

 

“O que você vê quando olha no espelho?”, pergunta a escritora paulista Shirley Souza em “Espelhos”, ficção juvenil lançada pela Panda Books. Para construir a história de três adolescentes, que lidam com os conflitos relacionados aos padrões de beleza impostos pela sociedade, foi preciso olhar para a vida real: “Esse constante conflito com a nossa imagem é algo que faz parte da realidade humana, bem como nossas inseguranças, sejamos adolescentes ou adultos. São questões atemporais e universais, que fazem parte da nossa construção”.

 

O tema é atemporal, mas a história em si é protagonizada por jovens na era das redes sociais. Isso exigiu de Shirley um trabalho de investigação para construir as personalidades, os conflitos e as reações de Felipe, Mara e Aline. “Olhei ao meu redor, ouvi adolescentes e pesquisei muito”, conta. “Foi um trabalho de imersão, de aproximação com a realidade de adolescentes que enfrentam a bulimia, a anorexia e este conflito com a autoimagem”.

 

Na história, Felipe é um estudante que, cansado de ser chamado de “gordo”, adere à febre das academias. Só que ele passa a exagerar na dose, a ponto de colocar a saúde em risco; Mara, antes despreocupada quanto aos padrões estéticos, passa a enxergar o tema com outros olhos ao se apaixonar pela primeira vez; e Aline perdeu o senso crítico e agora segue um número enorme de dietas malucas que encontra na internet.

 

Internet que, aliás, é de muitas formas uma protagonista de “Espelhos”: “A internet permite moldar a nossa imagem a ponto de construirmos algo que beira o irreal”, observa Shirley. “De que modo? Decidindo o que mostrar ou não ao mundo, distanciando nosso perfil de quem de fato somos. A maior exposição a que as pessoas se sujeitam gera novas nuances para nossas dores, inseguranças e ansiedades. Os sentimentos vividos hoje possuem a mesma essência de décadas atrás, mas a maneira como são experimentados mudou. Por exemplo: o cyberbullying é uma realidade que pode acompanhar um adolescente que se expõe na rede. Suas imagens, uma vez postadas, podem ser compartilhadas e utilizadas de maneira inadequada. Lidar com essa realidade é um desafio”, diz a autora.

 

Apesar do assédio virtual do cyberbullying e da construção de padrões inalcançáveis de beleza, a internet não é exatamente uma vilã na visão de Shirley. “Ela tem trazido a valorização da diversidade”, afirma. “É mais difícil valorizar um único padrão de beleza em um universo onde todos podem produzir conteúdos e dizer o que pensam. Ainda assim temos padrões arraigados em nossa cultura e isso não é fácil de desconstruir. É um processo longo e não sei se finito”. Ao longo da adolescência, quando se mudou para São Paulo, Shirley também passou por um processo de autodescoberta a respeito de quem era e de quem gostaria de ser: “Cada pessoa é diferente e a beleza da humanidade está justamente nessas diferenças”.

 

Mais do que narrar os sentimentos dos três protagonistas, o livro mostra as reações nem sempre amenas que as outras pessoas têm quando se deparam com os dramas de terceiros. Na verdade, mesmo que os três protagonistas tenham as suas questões, o conflito do outro parece sempre mais simples de entender e de resolver. Novamente falamos, então, da forma como a internet modifica as formas de interação: “Temos caminhos, regras de boas práticas, mas mesmo os adultos quebram estas regras com frequência”, acredita Shirley. “É uma nova modalidade de convívio social e, como tal, as nuances são muitas e o aprendizado só vem com a experiência”.

Quebrando mitos sobre o trabalho infantil

Problemas sociais de crianças e adolescentes brasileiros que trabalham na rua são tratados, com abordagem sensível, em livro-reportagem premiado

A cena é lamentavelmente comum em qualquer grande cidade brasileira: o sinal fechado é a senha para um grupo de crianças iniciarem um desfile por entre carros com vidros fechados,  comercializando balas e chicletes ou fazendo pequenos malabarismos para conseguir dinheiro.

No meio de tanta gente que escolhe ignorar esse grave problema social brasileiro, a jornalista Bruna Ribeiro escolheu outro caminho e fez disso o seu objeto de estudo e o seu norte dentro do seu campo de atuação profissional. “Eu cursei jornalismo para trabalhar com educação e direitos humanos”, explica. “Sempre acreditei que a comunicação tem um papel fundamental para o desenvolvimento social”. Bruna iniciou sua jornada em 2006 na Universidade Metodista de São Paulo e hoje é uma escritora premiada por “Meninos malabares – Retratos do trabalho infantil no Brasil”, lançado em 2021 pela Panda Books.

Este ano, o livro foi laureado na categoria Livro Informativo no prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) – premiação que carrega o nome de Malba Tahan, pseudônimo do escritor carioca Júlio César de Mello e Souza, um engenheiro de formação apaixonado por Matemática, fascinado pelos números e autor de 50 livros, que viveu entre 1895 e 1974. Os autores também foram agraciados com uma menção honrosa na categoria livro-reportagem do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, que reúne treze instituições em sua comissão julgadora: “Foi muito gratificante porque é difícil trabalhar com esse tema. Esse reconhecimento sinalizou que estamos no caminho certo”, comemora.

Ao interesse por utilizar as palavras como ferramenta para ajudar as pessoas, Bruna adicionou o gosto por contar histórias de pessoas anônimas. Ainda na faculdade, por exemplo, ela fez um trabalho de conclusão de curso que trazia os perfis de meninas da Fundação Casa, o centro de detenção de menores de São Paulo: “São nas histórias do dia a dia que moram as grandes questões da sociedade”, justifica Ribeiro, que passou pelas redações de “Jornal da Tarde”, “O Estado de S. Paulo” (onde hoje tem um blog sobre o tema e também sobre educação antirracista) e “Veja S. Paulo”.

O rito definitivo de passagem dos grandes veículos de mídia para a especialização na luta pelos direitos de crianças e adolescentes aconteceu em 2016, quando Bruna aceitou um convite para trabalhar na Cidade Escola Aprendiz, iniciativa do jornalista Gilberto Dimenstein que desenvolve políticas públicas para a educação. As histórias da jornalista e da organização se cruzaram quando nasceu, dentro da instituição, o projeto Criança Livre de Trabalho Infantil. “Comecei escrevendo reportagens com foco no trabalho infantil Não tinha grande conhecimento sobre o tema de maneira específica, mas a partir dessa oportunidade fui aprendendo mais”, admite ela, que hoje atua como gestora do projeto.

Bruna resolveu contar essas histórias para quebrar também o que ela classifica como “mitos” que foram criados a respeito do trabalho infantil ao longo dos anos: “Quando alguém diz ‘é melhor trabalhar do que ficar na rua sem fazer nada’, você está dizendo que essas crianças, em geral negras, só possuem essas duas opções”. Começou, então, o processo de pesquisa, apuração e produção que levaria à “Meninos malabares”, feito em parceria com o fotojornalista Tiago Queiroz Luciano, do Estadão, responsável por todas as fotos espalhadas pelas 112 páginas do livro.

O processo de produção da obra começou em 2016 e levou cinco anos. Três deles só para que os autores percebessem que ali havia mais do que uma série de reportagens: “Percebemos que podia dar um livro e então fomos atrás de mais histórias”, conta Bruna. “Começamos a pensar nas formas de trabalho infantil e exploramos aquelas que são mais presentes. Começamos a apurar justamente a partir dos meninos malabares. Essa é uma forma clássica de trabalho infantil nas grandes cidades”. Na sequência, o trabalho foi expandido para outras vertentes, como o trabalho nas praias, nos grandes pontos de concentração nos feriados (de blocos de Carnaval a cemitérios em Dia de Finados) ou na indústria têxtil: “Geralmente, quando se denunciam as grandes marcas, o trabalho análogo à escravidão ocorre na linha de produção, na oficina de costura terceirizada. Achei que seria interessante registrar a quantidade de imigrantes que são explorados. Também fomos verificar o trabalho no campo, que foi um desafio”, admite.

O processo de apuração foi, de certa forma, mais simples nos momentos em que o objetivo era abordar o trabalho em espaços públicos: bastava procurar, encontrar e então iniciar as conversas (“sempre com muita transparência”). Nos lixões, nas empresas ou no campo, por se tratarem de propriedades privadas, a conversa já era diferente: “Buscamos fontes em redes de proteção, projetos sociais e lideranças comunitárias que pudessem fazer a ponte com as famílias. Então, a gente apresentava o projeto e eles concordavam em participar”.

Não bastasse toda essa dificuldade, ainda surgiu, em 2020, já na reta final da apuração do livro-reportagem, a pandemia da Covid-19: “Mudou tudo”, resume Bruna. O acesso às famílias ficou mais difícil ao mesmo tempo em que a convulsão social aumentou a ponto de criar uma crise humanitária nas grandes cidades brasileiras: “Lógico que o trabalho infantil já existia antes e já tinha relação com a desigualdade social. Temos um capítulo que se chama ‘A pandemia e a fome’. Isso marcou muito: na fase mais dura, com as pessoas isoladas, sem vacina, com toda a desinformação dos primeiros meses, quando ninguém sabia quanto tempo aquilo ia durar… Fomos até uma fila de distribuição de marmitas e vimos muitas crianças sem máscara, descalças, em situação de rua… crianças que estavam indo todos os dias para aquela fila porque o comércio fechou. Foi algo que surpreendeu. Foi uma virada que agravou muito essa questão e colocou o país de volta no mapa da fome”, lamenta a jornalista, que também possui pós-graduação em Direito Internacional na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo com extensão na Academia de Direito Internacional de Haia, na Holanda.

Bruna Ribeiro também menciona outros choques que teve ao longo da apuração. Um deles, no capítulo que registra o trabalho no lixão: “É uma realidade totalmente insalubre num lugar totalmente afastado de qualquer política pública, onde a escola mais próxima fica a meia hora de distância e grande parte da comunidade não tem acesso a saneamento básico ou luz elétrica. Foi chocante ver aquela comunidade toda escalando uma montanha de lixo. Você vê o contraste: tinha uma criança de 10 anos que tem o sonho de ser médica, trabalhar na área de saúde e vive numa condição totalmente insalubre”. Para ela, as formas de trabalho infantil são todas nocivas, mas algumas parecem ter um significado mais expressivo, como o trabalho nos cemitérios, que marcou pela contraposição entra a infância e a morbidez.

Falar sobre trabalho infantil abre brecha para que outros temas paralelos sejam abordados: acidentes de trabalho, evasão escolar, gravidez na adolescência, dentre outras questões que aumentam ainda mais a complexidade do problema. Problema que, para ser corretamente compreendido, depende de uma boa noção a respeito da construção histórica do Brasil: “O trabalho infantil tem raízes históricas nos mais de 350 anos de escravização da população negra no país”, assegura Bruna. “Nós temos um recorte racial da questão: 66,1% das crianças e dos adolescentes nesta situação de vulnerabilidade no Brasil são pretas ou pardas”.

Um problema que afetou também crianças indígenas praticamente desde que o país nasceu, mas que, na visão da jornalista, atingiu outro patamar a partir de um momento que deveria marcar uma conquista para os negros. Em 1871, a Lei do Ventre Livre garantiu a liberdade dos descendentes de escravizados que nascessem depois daquela data. “A letra pequena daquela Lei dizia que as crianças deveriam trabalhar até os 8 anos para o escravizador, quando então ele decidiria se concederia a liberdade ou não. Se não concedesse, a criança trabalharia para ele até os 21 anos. Se concedesse a liberdade, seria indenizado pelo Estado. O Brasil escolheu indenizar o escravizador e não o escravizado”, critica. Bruna também faz ressalvas às legislações criadas para os menores ao longo do século XX: “Houve uma criminalização da pobreza. Considerava-se que uma criança em situação de vulnerabilidade era irregular. A história registra que, nos primeiros anos da Febem [hoje Fundação Casa], muitas crianças eram internadas simplesmente porque eram pobres e não tinham família”.

No fim das contas, todo esse processo mitigou os avanços trazidos até mesmo por boas iniciativas como o Estatuto da Criança e do Adolescente, que nasceu em 1990 no embalo da Constituição de 1988: “Todo o contexto histórico criou uma naturalização do trabalho infantil. A sociedade defende o trabalho infantil para uma parte das crianças. O filho do rico, branco, está na escola em tempo integral, bilíngue, fazendo natação, judô, balé… Não existe uma ‘fórmula mágica’ para acabar com o trabalho infantil. É preciso pensar em políticas públicas intersetoriais: gerar emprego para os adultos, criar uma educação antirracista, evitar o consumo de marcas que explorem crianças, comunicar autoridades sobre os abusos, estimular as políticas para aprendizes que trabalhem aos 14 anos protegidos e conciliando o trabalho com estudo, investir em saúde, em moradia…”, sugere a escritora.

Com amor para o Brasil

Consagrado escritor infantil americano, Todd Parr completa vinte anos no mercado brasileiro com vinte livros publicados pela Panda Books

O americano Todd Parr chegou a pensar que não levava jeito para desenhar. Durante muito tempo, uma avaliação ruim de um professor de arte acompanhou o menino nascido em 1962 em Wyoming, no oeste dos Estados Unidos. Somente em 1999, aos 37 anos, o então comissário de bordo da United Airlines voltou a investir naquilo que tinha virado apenas um hobbie: parou de desenhar para estamparias de camisetas e iniciou a carreira de autor e ilustrador de livros infantis. Hoje, com quase sessenta títulos publicados, ele consolidou um estilo e já colocou três obras na prestigiada lista de bestsellers do jornal “The New York Times”.

Com texto breve e desenhos grandes e coloridos, Todd tem em sua obra um instrumento poderoso para a alfabetização das crianças. Mas ele quer ensinar mais do que isso: uma de suas grandes preocupações é mostrar o valor das diferenças. Foi assim que ele começou a carreira com “The okay book”, de 1999 – livro que tinha como premissa “dar um ok” para aprovar comportamentos que sejam especiais, únicos e que eventualmente possam receber alguma reprovação justamente por serem diferentes.

Foi assim também que ele ganhou o mundo. Dos mais de 20 idiomas para os quais os seus livros já foram traduzidos, o português está em destaque. O autor chegou ao Brasil pelas mãos da Panda Books, editora que iniciou a sua trajetória no mercado editorial coincidentemente em 1999. Os caminhos de Todd e da Panda se cruzaram em 2002: Marcelo Duarte, fundador da editora, estava nos Estados Unidos quando encontrou em uma livraria “It’s okay to be different”. “Eu me apaixonei pelo livro na hora e comprei um exemplar pra minha filha do meio, Beatriz, que estava com 7 anos”, lembra Marcelo. “A Panda engatinhava nessa área de compra de direitos internacionais e nós nem sabíamos ainda como fazer isso direito”. Todd festeja: “É uma história incrível de como começou a minha parceria com a Panda”.

Depois de uma rápida troca de e-mails, e com a ajuda de Todd nas questões burocráticas, “Tudo bem ser diferente” chegou às livrarias brasileiras em novembro de 2002. Era o começo de uma parceria de sucesso, que completa vinte anos em 2022. Em uma outra coincidência, os vinte anos são comemorados com a marca de vinte livros publicados em português pela Panda Books. O número foi alcançado com a publicação recente de mais dois títulos: “Hora de dormir” e “Seja você mesmo”, este último também voltado para a questão das diferenças. “Eu sou muito grato e feliz pelo sucesso que faço no Brasil”, diz Todd.

Quando visitou o país, em 2014, às vésperas da Copa do Mundo, ele voltou carregado de lembranças: uma camisa da Seleção Brasileira com seu nome nas costas, um kit de pimentas especiais (pimentas e queijos estão no topo da lista de Todd quando o assunto é gastronomia) e até mesmo a chave da cidade de Pirenópolis, entregue pelo então prefeito Nivaldo Melo. A cidade de 25 mil habitantes, no interior de Goiás, abriga a Flipiri, uma feira literária onde o americano promoveu uma oficina de ilustrações e participou de debates. Todd também participou de eventos literários em Belo Horizonte, Brasília e São Paulo.

Inspirado no desenhista norte-americano Keith Haring, expoente das cores vivas com contornos pretos, Todd aposta em uma comunicação simples e direta com as crianças. Termina todos os textos com a frase “Com amor, Todd” e tenta criar em sua obra um ambiente confortável para os seus pequenos leitores – além da questão das diferenças, ele publicou obras como “Tudo bem cometer erros” e “O livro dos sentimentos”, para ajudar as crianças a aceitarem falhas e emoções negativas: “Eu aprendi muita coisa nesses últimos vinte anos, mas a essência continua a mesma: ajudar as crianças a se sentirem bem com elas mesmas e orgulhosas do que fazem”, resume.

Sem mudar a essência e sem abandonar algumas das suas figuras mais marcantes, como o cachorro Otto e o menino com a cueca na cabeça, Todd promoveu algumas pequenas mudanças no seu jeito de escrever e desenhar. Aderiu, por exemplo, aos sinais de pontuação, antes ignorados numa mera solução artística, mas agora respeitados para dar um bom exemplo ao seu público. Bem-humorado, aponta o que mais mudou nessas duas décadas: “Minha arte não parece mais coisa de uma criança de 6 anos; agora já parece coisa de uma de 10”.