10 curiosidades sobre “Narrativa da vida de Frederick Douglass”

Retrato em primeira pessoa do período escravocrata nos Estados Unidos é o novo destaque da série “Clássicos Internacionais”

Um homem negro, escravizado desde a infância, foge e se torna uma das mais importantes vozes abolicionistas dos Estados Unidos no século XIX. Frederick Douglass trilhou esse caminho ao revelar para o mundo as suas experiências em duas décadas de escravidão no livro “Narrativa da vida de Frederick Douglass: um escravizado americano”, relançado na série “Clássicos Internacionais”, da Panda Books.

Veja abaixo algumas curiosidades sobre o autor e a obra.

1. O autor do livro nasceu como Frederick Augustus Washington Bailey em 1818. Ele adotou o novo nome aos 20 anos (sete antes de lançar a obra), quando fugiu da casa onde era escravizado em Maryland. Foi para a Filadélfia e depois para Nova Iorque, onde começou a se reunir com outros abolicionistas.

2. Bailey passou por vários outros endereços no campo e na cidade. Aos 6 anos, foi completamente separado da família. Alfabetizou-se apenas aos 12 anos, quando foi transferido para a propriedade da família Auld, em Maryland, depois da morte do antigo dono, Aaron Anthony. Ali, ele teve os primeiros contatos com a literatura abolicionista.

3. A primeira publicação de “Narrativas da Vida de Frederick Douglass” foi feita em 1845 pelo Escritório Antiescravidão da Rua Cornhill, em Boston. Aquele era um local que servia justamente para oferecer aos abolicionistas um espaço para publicação e divulgação de ideias, livros e folhetos. Era também um local para reuniões e palestras e servia de abrigo para escravizados que fugiam dos lugares onde eram dominados.

4. Em três anos, a narrativa de Frederick já havia demandado três tiragens e alcançado 11 mil cópias com traduções para o francês e para o holandês. Era muita coisa para uma época em que o mercado editorial ainda engatinhava.

5. Ainda em 1845, com a renda e a repercussão dos livros, Frederick foi convidado a contar suas experiências e suas ideias no Reino Unido. Lá, arrecadou fundos para comprar a sua liberdade: sete anos depois de fugir da casa de Maryland, ele pagou 711 dólares para a família Auld e virou oficialmente um homem livre. Corrigido pela inflação, o valor equivale hoje a aproximadamente 25 mil dólares.

6. Logo no início do livro, o autor conta que não sabia sua data de aniversário exata. Tinha conhecimento do mês e do ano: fevereiro de 1818. Por isso, escolheu o dia 14 para celebrar.

7. O livro não dá detalhes sobre a fuga de Frederick para o norte abolicionista porque ele não queria que as rotas e os planos de fuga fossem descobertos. Hoje, o que se sabe é que ele embarcou em um trem que partiu na noite de 3 de setembro de 1838 na estação de Baltimore da ferrovia Philadelphia, Washington & Baltimore Railway. Baltimore era o ponto inicial da linha que percorria uma distância de aproximadamente 1 mil quilômetros até a Filadélfia.

8. “Narrativa da vida de Frederick Douglass” não foi a única produção do autor. No total, escreveu cinco livros que o fizeram uma das mais relevantes vozes americanas do século XIX. Ele escreveu também para dois jornais abolicionistas.

9. Frederick Douglass tornou-se tão relevante que atuou também na política americana. Durante a Guerra de Secessão, que dividiu os Estados Unidos entre escravocratas e abolicionistas, ele manteve um contato bastante estreito com o presidente Abraham Lincoln – que viria a abolir a escravidão em território norte-americano.

10. Nos primeiros anos pós-abolição, Douglass ganhou progressivamente mais espaço no Partido Republicano. Chegou, inclusive, a disputar as prévias do partido para as eleições de 1888. Uma de suas bandeiras era o voto feminino, que só seria adotado em escala nacional nas eleições de 1920. Ele, no entanto, recebeu apenas um voto ao longo de oito primárias. Apesar da empreitada malsucedida nas urnas, ele foi nomeado cônsul-geral dos Estados Unidos no Haiti durante o governo do republicano Benjamin Harrison. Morreu em Washington em 20 de fevereiro de 1895 – no mês em que completaria 78 anos.

As memórias afetivas de um contador de histórias

Em “Bailarinos”, Giba Pedroza transporta os jovens leitores para dentro de um brinquedo analógico e ainda fascinante

Aos 12 anos, Giba Pedroza escreveu o primeiro texto para o teatro e, desde então, nunca mais parou de olhar para o passado na hora de escrever as suas narrativas. Pela Panda Books, ele lança este mês o livro “Bailarinos”, que define como “uma fotografia antiga dele mesmo”. O protagonista é o pião, brinquedo de criança há tantos séculos no Brasil. Com as ilustrações de Sidney Meirelles o autor transporta os jovens leitores – que talvez já tenham trocado os piões pelos celulares – para dentro do rodopiar de um brinquedo analógico, mas ainda fascinante. No livro, ele garante ter crescido “com os olhos no chão, admirando o bailar dos piões” e é este ângulo que ele realça em “Bailarinos”.

O paulista Giba Pedroza se apresenta como um contador de histórias. Foi ele, aliás, um dos primeiros a transformar esse talento de narrar fatos reais ou fictícios diante de um grupo de pessoas em uma área de atuação profissional. “Eu só sei marcar a data porque Regina Machado, que é o ‘Pelé’ dos contadores de história, diz que me conheceu por volta de 1986, 1987 e eu fui a primeira pessoa que se apresentou para ela como contador de história. Na época isso não era tão comum”, lembra. Quase quatro décadas depois, Giba é um dos mais renomados profissionais brasileiros do setor e promove oficinas, palestras e cursos, além de se dedicar também às pesquisas sobre a literatura infantil e oralidade.

Já naqueles passos iniciais Giba tinha a preocupação de construir uma narrativa “lúdica e bonita” mesmo para tratar de temas mais complexos. “Tem gente que acha que contar história é um mero entretenimento para fugir da realidade. Eu na verdade comecei a contar histórias para enfrentar a realidade”, argumenta. Por mais ou menos três anos, ele anotou as histórias que contou em um caderninho, que funcionou como um registro sentimental de momentos marcantes e de boas histórias que podem ser contadas a qualquer tempo e em qualquer lugar.

Mas, se todo mundo conta história o tempo todo entre amigos, no ambiente familiar ou mesmo para um estranho qualquer no meio da rua, o que é que define um profissional da área? O mestre garante que a resposta não é única: “Acho que o contador profissional de histórias dá uma espécie de testemunho. É sempre de dentro para fora, pelas memórias afetivas e pela experiência de vida. Cada um tem a sua técnica. É uma espécie de impressão digital de cada contador. Quanto mais conta mais você vai definindo essa sua impressão”, explica.

Escolha seu destino dentro do corpo humano

Fátima Mesquita e Fábio Sgroi apresentam a agência de viagens “Ana Tomia”. Com o cartão de embarque nas mãos, faça roteiros realmente surpreendentes

Em seu mais novo lançamento, a escritora mineira Fátima Mesquita apresenta Ana Tomia, uma agência de viagens especializada em roteiros pelo corpo humano. São 70 páginas com rimas criativas (como “o atlético sistema esquelético”), imagens simples de entender como a comparação entre a batida do coração e o toque de um instrumento musical, ilustrações caprichadas de Fábio Sgroi, e um divertido “Faça seu Pum” (sigla para Plano de Uso Meu, com dicas para o bom funcionamento de cada sistema do nosso organismo).

Confira, abaixo, os dez destinos mais procurados pelos clientes da agência Ana Tomia:

1. O circular chamado cardiovascular – Ideal para quem quer acumular milhas: todos os dias, o sangue percorre 19 mil quilômetros dentro do nosso corpo – o equivalente a vinte viagens de ida e volta entre São Paulo e o Rio de Janeiro a cada 24 horas!

2. Sistema muscular – Turismo para aventureiros. Mais que um destino específico, é uma espécie de volta ao mundo, que viaja dos pés à cabeça, cobrindo cerca de 50% do peso total do nosso corpo. Quem encarar o desafio de fazer esse tour vai terminar a viagem cansado, mas poderá dizer que viu de tudo e passeou por todo o corpo humano, dos músculos da parte frontal da cabeça até os músculos da planta dos pés. O roteiro inclui seiscentas paradas ao longo desta viagem!

3. O atlético sistema esquelético – Esse destino é para quem não tem o menor receio em mexer o corpo e exercitar os músculos durante as férias; é aqui que o viajante passeia pelas articulações que comandam os movimentos do joelho, do ombro, do cotovelo, do quadril… é nesse sistema que se apresenta a coluna vertebral, composta por 33 ossos.

4. Sistema respiratório – A escolha perfeita para quem quer paz, calma, silêncio, tranquilidade e ar fresco; todos os dias um ser humano adulto inspira cerca de 20 mil litros de gás oxigênio que auxilia o funcionamento de todos os outros sistemas.

5. Sistema tegumentar – Imagine uma lona de circo. É exatamente assim o aspecto desse sistema responsável por formar a nossa pele e demais revestimentos externos.

6. Sistema nervoso – Adrenalina total! É o destino que leva o viajante a conhecer o lugar onde são tomadas as decisões mais importantes, que impactam todo este universo que existe em cada ser humano. São 86 bilhões de neurônios trabalhando 24 horas por dia.

7. Não perturbe o sistema imune – Segurança acima de tudo neste destino. Os viajantes conhecem os mecanismos de proteção que o corpo humano cria para si mesmo. Para aproveitar bem o que esse roteiro tem a oferecer, é fundamental seguir as regras: beber muita água sempre é uma delas.

8. Sistema digestório – O roteiro mostra tudo o que acontece com a comida depois que ela passa pela fronteira da boca. Passado esse portal, os turistas serão recompensados com uma vista privilegiada de alguns dos maiores órgãos do corpo humano, como o fígado e o intestino delgado.

9. Sistema endócrino – É uma espécie de spa do corpo humano. Cuida da produção dos hormônios e regula funções do organismo de maneira que, caso esteja bem cuidado, irá proporcionar uma sensação de permanente bem-estar e disposição.

10. O multiplicativo sistema reprodutivo – Destino perfeito para casais e para quem quer constituir família. O roteiro inclui o que há de mais íntimo no corpo humano. Mas vale o alerta: apenas com permissão total e verdadeira ele pode ser tocado por outra pessoa!

O legado do centenário de Fernando Sabino

Caio Tozzi lança em “A viagem de Mundo” uma trama de conflitos familiares, amores e dilemas do início da vida adulta

Homenagens como a da 4ª edição da Feira Literária de Tiradentes (FLITI), que acontece no próximo mês de outubro, no interior de Minas Gerais, são uma boa forma de medir o legado do escritor mineiro Fernando Sabino para a literatura brasileira. O centenário de nascimento do autor, morto em 11 de outubro de 2004, será celebrado justamente em 12 de outubro.

Existe, porém, uma outra forma, talvez até mais impactante, de avaliar a presença que um escritor marca na cultura literária: observar o quanto de um autor existe na geração ou nas gerações de escritores que cresceram como leitores e hoje são responsáveis pela produção literária de um país. Nesse sentido, uma maneira de medir o tamanho de Fernando Sabino é ler o que escreve o paulista Caio Tozzi, de 39 anos, que lança o juvenil “A viagem de Mundo” pela Panda Books: “Ele sem dúvida é uma das principais influências da minha construção pessoal e profissional. Suas histórias povoaram minha infância, minha juventude e minha vida adulta trazendo não só a companhia que os livros podem nos dar mas também valores, pensamentos e olhares que me acompanham hoje em dia”, diz ele, lembrando-se com particular das frases de Eduardo Marciano do livro “O Encontro Marcado”, de 1956: “Essas frases ainda fazem parte do meu dia-a-dia”.

Portanto, não surpreende que Edmundo Zappe, o garoto de 16 anos que protagoniza “A viagem de Mundo”, tenha um livro de Fernando Sabino – “O Grande Mentecapto”, de 1979 como companheiro ao longo da trama que parte de um conflito familiar para mergulhar o leitor de uma série de dilemas típicos da transição entre a adolescência e a vida adulta ao mesmo tempo em que desenvolve uma história de amor: “Um autor de livros infantis e juvenis precisa estar sempre antenado ao que o leitor do seu tempo busca e o que se conecta com ele”, explica Tozzi. Com este, já são sete livros para este público, dois deles finalistas do Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira: “Não se trata apenas de colocar elementos de tecnologia na história. A questão é entender a cabeça desse leitor que nasceu e cresceu num tempo de múltiplas conexões. Fazer uma narrativa ágil, como se os leitores estivessem assistindo a algo”, resume. Para não se distanciar do público, Caio produz ainda textos teatrais e um podcast chamado #MOCHILA, onde se dedica a debater narrativas criadas para crianças e adolescentes.

Dentro do enorme campo da literatura juvenil, “A viagem de Mundo” pode ser segmentado de maneira mais específica na categoria de “romance de formação”, tão bem dominada por Fernando Sabino. Um subgênero que engloba as características clássicas do romance dentro da história de uma personagem que está se desenvolvendo do ponto de vista físico, moral e emocional: “Acho que o primeiro romance de formação que eu li na juventude foi ‘O encontro marcado’”, rememora Tozzi. “Foi definitivo. A história da passagem da juventude para a vida adulta”. Agora que o sonho está realizado, pode haver quem encontre uma contradição entre dizer que é preciso estar atento aos anseios de uma geração que nasceu conectada e ao mesmo tempo inspirar-se em livros escritos há cerca de cinquenta anos. Contradição nenhuma, explica Tozzi: “Tendo esse compromisso com o leitor de hoje, é possível mergulhar em coisas que nunca vão mudar em um adolescente independentemente da época: as angústias do crescer, as primeiras descobertas sentimentais e emocionais, um novo corpo, os medos…”, enumera. “Esse encontro com a vida durante a juventude pra mim é lindo e fascinante. Por isso eu gosto tanto de escrever para esse público e desejo continuar me dedicando a ele”.

Na história, dividida em 27 capítulos, o garoto Edmundo briga com o pai, com quem não consegue mais se comunicar. Confuso em um mundo onde ora é visto como alguém que “só tem 16 anos” e ora é cobrado como alguém que “já tem 16 anos”, Mundo amadurece na marra, principalmente a partir do momento em que se apaixonada por Lara, filha de um desafeto da família e, ao mesmo tempo, é mandado pelo pai para viver bem longe de casa. “O Grande Mentecapto”, livro que é o companheiro de Mundo nessa jornada, tem como protagonista Geraldo Viramundo, definido por Caio Tozzi como “uma figura libertária”: “Edmundo é um personagem que cria coragem para obedecer ao gigante que está dentro dele. Viramundo tem a alma que ele queria almejar”.

Para além de Sabino, Tozzi agregou ao seu rol de referências livros como “On the Road”, de 1957, escrito por Jack Kerouac; “O apanhador no campo de centeio”, de 1951, publicado por J.D. Sallinger; “The outsiders”, de S.E. Hinton, que nasceu em 1967 e virou filme de sucesso nos anos 80; e “As vantagens de ser invisível”, escrito por Stephen Chbosky em 1999. “Entendi que esses livros falavam sobre descobertas sexuais, morte, amizade… falavam sobre tudo. E muitas vezes traziam essa ideia de movimento, da personagem circulando pra se encontrar. Foi a partir desses elementos que eu fui construindo a jornada de Mundo. É uma descoberta de si mesmo ao mesmo tempo em que se descobre a vida que virá pela frente”, reflete.

Caio Tozzi enxerga como uma feliz coincidência que “A viagem de Mundo” seja publicado em 2023, ano do centenário de Fernando Sabino: “Converso com muitas pessoas que me dizem o quanto ele foi fundamental em suas formações e isso sempre faz com um sorriso abra no meu rosto”, diz ele. “O autor faz com sua personagem o que ela fez comigo. Sempre que eu resgatava algo do Sabino pra essa história eu pensava: ‘nossa, isso é tão meu também’. Foi nessa experiência de escrever sobre crescer sem perder a ternura, ver a vida com afeto e valorizar a amizade que eu entendi como eu sou mesmo constituído pela obra dele”. Por isso, não é difícil concluir qual será, para Tozzi, um dos maiores prêmios que sua obra poderá almejar: “Que a viagem de Mundo possa fazer com que novos leitores queiram conhecer e encontrar os livros de Fernando Sabino”.

10 curiosidades sobre “Marília de Dirceu”

Livro do português Tomás Antônio de Gonzaga é novo lançamento da série “Os clássicos” da Panda Books

Novo volume da série “Clássicos da Língua Portuguesa”, da Panda Books, o livro “Marília de Dirceu” tem mais de 200 anos e continua sendo presença constante nas listas de obras obrigatórias para os principais vestibulares do Brasil. Já está, inclusive, no caminho dos estudantes que irão prestar a Fuvest este ano.

Essa presença por si só marca a relevância e a força da obra, que mistura uma bela história de amor e os desabafos de um escritor talentoso, castigado por tentar mudar os rumos da política de um Brasil ainda preso às mãos de Portugal. Isso sem falar na estética própria do movimento conhecido como arcadismo, um dos primeiros “filhos” do iluminismo europeu.

1. Tomás Antônio de Gonzaga nasceu em Portugal em 1744. Filho de pai brasileiro, viveu entre os dois países e, na infância, morou no Recife e em Salvador, antes de voltar para Portugal para fazer faculdade em Coimbra. Ele já escrevia poemas por lá, mas foi quando voltou ao Brasil para trabalhar como magistrado em Vila Rica – hoje Ouro Preto – que a carreira de escritor decolou.

2. Além de poeta, Tomás participou ativamente da vida política mineira e brasileira. Ele foi um dos membros do movimento conhecido como Inconfidência Mineira, que tentava libertar Minas Gerais e o Brasil dos abusos da Coroa Portuguesa. Acabou preso e levado para a Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. Condenado, seguiu para um exílio forçado em Moçambique, onde se casou, teve dois filhos e morreu em 1810.

3. “Marília de Dirceu” é um livro estruturado em liras. O gênero literário lírico tem o seu batismo inspirado no instrumento musical “lira”, que na Grécia Antiga acompanhava os poetas em uma época na qual os poemas eram todos cantados, e não apenas declamados ou escritos. Foi a partir do século XV que as poesias, ou liras, deixaram de ser cantadas para serem apenas faladas ou escritas.

4. “Marília de Dirceu” foi publicado em um intervalo de vinte anos. A primeira parte, dividida em 33 liras, saiu em 1792; a segunda, com 38 liras, foi impressa em 1799; a parte final, com nove liras e mais treze sonetos (poema dividido em duas estrofes de quatro versos e mais duas estrofes de três versos) só foi revelada em 1812, dois anos depois da morte de Tomás Antônio de Gonzaga.

5. Embora isso não seja dito de maneira explícita, “Marília de Dirceu” revela em grande parte uma história pessoal de amor de Tomás Antônio de Gonzaga. Quando chegou ao Brasil, para trabalhar em Vila Rica como magistrado, ele conheceu Maria Doroteia Joaquina de Seixas e se apaixonou enlouquecidamente. Ela era muito mais jovem e muito mais rica. Mesmo assim, formou-se ali um casal. Antes mesmo do casamento, Tomás foi preso. Também militante da emancipação do Brasil, Maria escapou da prisão, mas nunca mais pôde viver ao lado do então noivo.

6. Dessa forma, a primeira parte do livro traz liras que versam sobre o amor de Dirceu (que seria um alter ego de Tomás) por Marília (personagem potencialmente inspirada em Maria) e também o amor de Marília por Dirceu; a segunda parte já fala sobre o desencontro e a saudade. A terceira parte reúne poemas escritos antes de Dirceu conhecer Marília.

7. Apesar da semelhança com os amores da vida real, o livro de Tomás Antônio de Gonzaga é ambientado no interior de Portugal. Dirceu e Marília são pastores de ovelhas e cultivam um amor que adota essa paisagem simples como um elemento importante para que esse amor floresça. Não há objetivo maior que viver ali, juntos, até o fim da vida.

8. A obra é uma das principais expoentes do arcadismo no Brasil. Esse movimento literário surgiu na Europa no século XVIII no vácuo das ideias do iluminismo. Valorizava as paisagens naturais, bucólicas e rurais, e o resgate de temáticas, ideias e referências da Antiguidade Clássica. Já no começo de “Marília de Dirceu”, o autor mostra um vasto repertório de deuses gregos, dentre outros elementos da Grécia Antiga, para que Dirceu se declare para Marília. A propósito, a “Arcádia” era uma província da Grécia Antiga e se tornou uma espécie de paraíso, um ideal para poetas e artistas que acreditavam na relação direta entre a felicidade e a vida em contato com a natureza.

9. O livro “Marília de Dirceu” inspirou o batismo da cidade de Marília, que fica 438 quilômetros a noroeste de São Paulo. O fundador da cidade, Bento de Abreu Sampaio Vidal, tinha lido o livro em uma viagem para a Europa e resolveu nomear o município paulista com uma homenagem à protagonista.

10. Em 1967, os Correios lançaram uma série de seis selos comemorativos em homenagem a grandes mulheres brasileiras. Em meio a heroínas da vida real como Madre Joana Angélica, Rita Lobato, Ana Neri, Darcy Vargas e Anita Garibaldi, havia um selo para uma personagem da ficção: Marília de Dirceu. O selo de 2 centavos foi lançado em 11 de agosto de 1967. Em 1994, Marília de Dirceu voltou a estampar um selo por ocasião dos 250 anos de nascimento de Tomás Antônio Gonzaga, com ilustração da artista plástica Martha Poppe.

Ô, abre a roda, tindolelê! Ô, abre a roda, tindolalá!

Ouça aqui todas as músicas que compõem o livro Cantigas para brincar. Conhecendo a melodia, siga as instruções trazidas no livro e abra a roda para começar a brincadeira e a cantoria!

Você conhece o ditado “Quem canta seus males espanta”? Pois é! Todo mundo gosta de alegrar o coração e mexer o corpo ao som de uma boa cantoria. Melhor ainda quando ela inspira brincadeiras e muita diversão.

Com letras simples, repetitivas e rimadas, além de um ritmo cativante, as cantigas nos provocam a cantar, dançar e brincar – sozinhos ou com quem estiver por perto. Sendo textos da literatura oral, as cantigas são passadas de boca em boca, ensinadas por crianças e adultos, o que permite que palavras entrem e saiam, mantendo as rimas e o ritmo.

Você encontrará no livro cantigas para brincar de roda e cirandar de mãos dadas; para jogar versos – recitar quadrinhas, poemas com quatro versos rimados; para brincar com os nomes e conhecer toda a turma; para brincar de se movimentar e sacudir o esqueleto; e para brincar de imitar, inventando gestos e expressões.

Ao lado das cantigas, as autoras explicam como brincar, e abaixo você pode ouvir a melodia de cada uma delas – estão por ordem alfabética de título. Junte as crianças e comece a cirandar!

O saber maior é o da criança

Educadora empoderou os alunos para as decisões do dia a dia da escola, colecionou prêmios, aplausos e experiências relatadas em livro

 

A educadora Marcia Corvelo Harmbach tinha vinte anos de carreira quando, em 2012, iniciou a sua jornada como diretora na Escola Municipal de Educação Infantil Dona Leopoldina, na zona oeste de São Paulo. Formada em letras e pedagogia e especialista em psicopedagogia pela Pontifícia Universidade Católica da capital paulista, ela já havia trabalhado em um setor especialmente dedicado à formação de professores durante a gestão de Paulo Freire na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo na década de 1990.

Durante todo este tempo, uma questão em especial incomodava Marcia: uma espécie de “adultocentrismo”, que concentrava todas as decisões que impactavam a vida e o dia a dia das crianças nos adultos. Decidiu criar pequenos conselhos para que seus alunos pudessem ter voz para conduzir a rotina na sala de aula: “Envolvi as crianças em todos os planejamentos e avaliações do cotidiano escolar”, explica. “Ao me tornar diretora, esse foi meu principal instrumento metodológico na gestão”.

A percepção e a ideia são próprias, mas foram embasados no trabalho de dois baluartes da educação no mundo: o brasileiro Paulo Freire, aquele mesmo com quem Marcia havia trabalhado na Secretaria vinte anos antes; e o italiano Francesco Tonucci, hoje com 82 anos, grande defensor da ideia de que um olhar atento para a infância pode mudar os rumos das cidades. “Ao ter contato com as teorias deles, comecei a refletir sobre a importância da escuta e participação de todos os envolvidos no processo educativo”, lembra a educadora.

Com um pouco de teoria, muito estudo, um olhar incomodado para as normas vigentes, uma cabeça aberta para novas ideias e um fôlego incansável para transformar uma das muitas escolas de educação infantil da maior cidade da América Latina, Marcia começou a desenvolver a experiência que agora está registrada no livro “Gestão Democrática – Minúcias, dizeres e fazeres do conselho mirim na educação infantil”, lançado pela Panda Books. Ao longo de dez anos à frente da EMEI Dona Leopoldina, ela desenvolveu mutirões para ouvir as demandas de pais e alunos e conduziu trabalhos coletivos para a reforma e construção de hortas, ateliês, bosques, parquinhos e salas de aula: “Não foi tão tranquilo por parte dos adultos no início”, admite ela. “Mas, depois de poucos meses, toda a comunidade estava envolvida. É impossível fazer um trabalho assim sem o envolvimento de todos: famílias, educadores, gestores, parceiros”.

Marcia garante que implementar o conselho, em si, não exigiu nenhum recurso financeiro adicional – por mais que as crianças muitas vezes tenham solicitado o direito de opinar sobre a destinação dos recursos dos quais a escola dispunha. O Conselho se reunia mensalmente para discutir as ações levantadas pelas crianças e, assim, os adultos percebiam concretamente toda a potência delas. “Os alunos levantavam hipóteses e sugestões muitas vezes mais criativas e factíveis para os problemas do cotidiano”, recorda.

Para a educadora, a experiência é um bom exemplo de aproximação entre teoria e prática. Foi justamente a partir dessa premissa que a experiência da EMEI Dona Leopoldina entrou na rota da Panda Books. O título faz parte da Série “Práticas Inspiradoras”, que une bases teóricas com resultados empíricos para aquecer o debate sobre educação no Brasil. A série faz parte do selo Panda Educação, criado para agrupar livros dedicados à formação de novos educadores.

Na outra ponta dessa parceria, Marcia celebra a oportunidade de poder registrar nas prateleiras das livrarias os resultados grandiosos de sua experiência nessa escola: “O registro é fundamental para dar visibilidade às vozes infantis e para a concretude da teoria participativa na prática cotidiana”. Ela classifica o livro como “um instrumento para o protagonismo infantil como potência, e não como um saber menor como a história sempre autenticou até pouco tempo”. E ampara essa ideia na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, adotada em 1989, que diz em seu artigo 12 que “a criança tem o direito de expressar suas opiniões livremente sobre todos os assuntos relacionados a ela” e “deve ter a oportunidade de ser ouvida em todos os processos judiciais ou administrativos que a afetem”.

Foi assim que os pequenos alunos da EMEI Dona Leopoldina detectaram problemas estruturais não apenas na escola como em toda a vizinhança. A escola está cercada por uma vasta área verde. Em um dos passeios, os alunos perceberam que vizinhos do outro lado da rua estavam despejando lixo na calçada da escola. Para não recorrer novamente em reclamações com o vigia da rua, pensaram em novas sugestões: “Entregar cartas nas casas vizinhas”, falou Rodrigo, de 4 anos; Isaac, de 5, apostou no didatismo: “Vamos explicar que lixo na rua pode provocar enchentes”; uma tática mais sutil que a de Valentim, também com 5 anos, que jogou suas fichas no constrangimento: “Quando o vizinho colocar lixo, um alto-falante avisa que não pode”; já Vitória, de 4 anos, e Helena, de 5, preferiram acreditar na boa vontade da comunidade e sugeriram distribuição de saquinhos de lixo nos muros da escola e a instalação de placas educativas pela rua.

De alguma forma, o livro é mais um reconhecimento para todos os envolvidos nessa empreitada da EMEI Dona Leopoldina. A escola ganhou oito prêmios, quatro deles voltados para a ideia dos conselhos: o Prêmio Paulo Freire de Qualidade do Ensino Municipal, da Câmara Municipal de São Paulo; o Prêmio Nacional de Projetos com Participação Infantil, do Centro de Criação de Imagem Popular; o Prêmio Territórios, do Instituto Tomie Ohtake; e o Prêmio Escola – Lugar de cultura, brincadeira e diversidade, parceria da Universidade Federal do Ceará com o Ministério da Educação.

Isso sem contar as dezenas de palestras no Brasil e no exterior para falar sobre o projeto, que inspirou também a criação de um Conselho Mirim na própria Câmara dos Vereadores de São Paulo – e que tem entre seus conselheiros dois alunos da EMEI Dona Leopoldina. Nada mal para quem passou mais de uma década lamentando que a ideia dos conselhos gestores, iniciada pela gestão Paulo Freire na secretaria de educação lá na virada da década de 1980 para a década de 1990, tenha sido descontinuada pelos seus sucessores. O reconhecimento maior, no entanto, virá sempre daqueles que sempre foram o alvo de todas as mudanças, mas que até então jamais tinham tido a oportunidade de serem mais do que passageiros das decisões tomadas pelos outros: “Neste livro, o saber maior é o da criança, minha grande mestra no ofício de aprender e ensinar”.

“As crianças gostam de boas histórias. Simples assim!”

Autor de “Pra que essa boca tão grande?”, Tino Freitas explica por que os contos de fadas continuam conquistando crianças há tantas gerações

 

“Vovó, qual é a senha do wi-fi?”, pergunta Chapeuzinho Vermelho em “Pra que essa boca tão grande?”, lançamento infantojuvenil da Panda Books. A brincadeira é uma das marcas do trabalho de Tino Freitas, autor cearense que, em menos de 15 anos de carreira como escritor, já publicou trinta livros – e faturou prêmios como o aclamado Jabuti e o Selo Altamente Recomendável da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil).

Na Panda Books, Tino estreou com “Um abraço passo a passo”, que ganhou também a versão em inglês “Little steps to a big hug”. Agora, chegou a vez dessa releitura da clássica história da Chapeuzinho Vermelho. Embora a versão mais famosa seja a dos irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm, Tino embasou a sua versão naquela que é a mais antiga história de Chapeuzinho Vermelho já registrada – a do francês Charles Perrault, escrita no final do século XVII.

Ele aposta num texto leve, bem-humorado e criativo, todo ilustrado por Raquel Matsushita, para preservar a força de uma das histórias mais conhecidas do mundo também para as crianças de hoje. Por falar nas ilustrações, cada página é uma espécie de moldura de página. É um livro dentro de um livro para o leitor olhar em perspectiva o olho do narrador sobre o livro que ele está folheando.

Tecnicamente, contos de fadas são histórias irreais, em geral com finais felizes, e marcadas também por grandes ensinamentos. Por causa disso, é difícil definir com precisão desde quando eles são publicados – há quem encontre histórias com essa estrutura datadas de mais de 6 mil anos.

A exemplo da Chapeuzinho Vermelho do livro, nós também somos muito perguntadores. Tem um monte de coisas que queremos saber do Tino:

 

Por que os contos de fadas ainda são fonte de inspiração para autores contemporâneos como você?

Os contos de fadas refletiam o cotidiano dos aldeões da Europa nos séculos XVII e XVIII. Falavam sobre o que nos torna humanos: o medo, a raiva, o desejo, o amor, a fome, a inveja. Os anos passam, mas seguimos humanos com as mesmas qualidades e os mesmos defeitos. Aquelas histórias curtas, em que o maravilhoso e o fantástico podem trazer a sorte ou o azar, delimitando o destino de personagens tão humanos quanto a gente, seguem emocionando leitores de todas as idades. São um espelho da humanidade e mantêm nosso sonho vivo. O sonho de encontrar a felicidade – seja lá o que seja isso. É inspiração para qualquer um que deseje contar boas histórias para crianças.

 

 

Depois de tanto tempo e de tantas mudanças geracionais, as “morais das histórias” continuam funcionando?

Muitos dos contos de fadas não tinham essa preocupação moral. Alguns dos contos franceses publicados no final do século XVII, por exemplo, falavam mais sobre esperteza do que sobre virtude. Prefiro essas histórias. Em “Contos de Outrora”, Charles Perrault inseriu essas morais ao final de cada um dos contos populares – o que não aparece de forma explícita nos contos que os Irmãos Grimm publicariam 115 anos depois. Entendo que haja a necessidade de ensinar por meio de histórias. E que, principalmente, a escola busca alguma didatização a partir delas. Mas acho que a gente aprende mais quando esses “sentidos” estão ocultos, inseridos no conto de uma forma em que o leitor construa a sua verdade e a sua moral.

 

Como é o seu processo de criação em cima de uma história clássica?

Estudei bastante a versão do Charles Perrault para escrever “Pra que essa boca tão grande?”. Foi a primeira vez em que Chapeuzinho Vermelho apareceu num livro. Ela serviu de base para escrever essa nova história e eu fui pensando em algum “espaço” que eu pudesse preencher com alguma originalidade. As perguntas que o Perrault faz são distintas das que os Irmãos Grimm pontuaram com mais ênfase nos sentidos. Então, lembrei que há uma fase nas crianças, ali entre os 5 e os 7 anos, em que se pergunta tudo. Pensei que esse seria o espaço para contar uma “nova” história e fui me colocando no lugar dessa criança de hoje. O wi-fi é o “cafezinho” de antigamente. A pessoa chega na casa da gente e já quer a senha, né? É uma forma de dizer “sinto-me em casa”. Assim eu fui escolhendo as novas perguntas.

 

Como foi o trabalho com a ilustradora Raquel Matsushita?

Trabalhar com a Raquel foi maravilhoso. Numa conversa prévia, apresentei a ela o universo dos contos de fadas, que estudo há anos na perspectiva dos livros publicados até o início do século XX. Começamos pelo manuscrito do livro do Perrault, que é uma joia escondida na internet. Ela “pescou” o manuscrito e veio com esse conceito de um livro dentro do outro – e usou as páginas do manuscrito, editadas, para contar a nossa história. Há outros “segredos”: o número da casa, que é o ano da publicação do livro original, as ilustrações nos quadros da casa da vovó [que são inspiradas ou reproduzem desenhos de algumas das mais famosas versões do conto]. Esses “paratextos”, que muitos não captam de imediato, são como camadas de leitura que oferecemos ao leitor. Um carinho a mais àqueles que desejarem retomar mais e mais vezes a história.

 

As crianças gostam de ver elementos modernos em histórias que elas conhecem de outro modo?

Se compararmos a leitura de uma história com um passeio na montanha-russa, podemos “ler” de duas formas. O primeiro passeio é surpreendente. Depois, seguimos dando voltas e mais voltas na pista, já sabendo que depois daquela curva virá uma pirueta que vai deixar todo mundo de cabelo em pé e com frio na barriga. A segunda é como se voltássemos ao parque depois de uma reforma. A montanha-russa é quase a mesma. Mas, em vez de uma pirueta, são duas e a pista dá uma nova guinada para a esquerda antes de chegar ao final. As crianças se divertem do mesmo modo. E, depois da surpresa do novo percurso, darão mais voltas e voltas. Sem surpresas, mas, mesmo assim, mantendo o cabelo em pé e aquele frio na barriga. No final, as crianças gostam de boas histórias. Simples assim!

10 curiosidades sobre “A Escrava Isaura”

Livro de Bernardo Guimarães, 12º da coleção de clássicos da Panda Books, colocou a causa abolicionista no centro do debate no Brasil ainda imperial

“A Escrava Isaura”, o maior sucesso do escritor mineiro Bernardo Guimarães, marcou época na literatura, ganhou o cinema e rodou o mundo em formato de telenovela. Agora, em nova edição publicada pela Panda Books, a obra ganha o auxílio das luxuosas notas informativas e parágrafos explicativos da também mineira Fátima Mesquita. Ela também contextualiza eventos históricos, situa a obra dentro do debate sobre a abolição dos escravizados no Brasil no último quarto do século XIX e “traduz” palavras que caíram em desuso com o passar dos últimos 140 anos.

Confira 10 curiosidades sobre o 12º título da Coleção Clássicos da Língua Portuguesa da Panda Books.

 

  1. O livro “A Escrava Isaura” foi publicado em 1875, quando a causa abolicionista estava no centro do debate sobre o Brasil ainda Imperial, treze anos antes da abolição definitiva. Àquela altura, o Brasil era um dos únicos dois países do continente americano que ainda permitiam legalmente a prática da escravidão. O outro era Cuba.
  2. Autor de “A Escrava Isaura”, Bernardo Guimarães foi escolhido por Raimundo Corrêa patrono da cadeira número 5 da Academia Brasileira de Letras – criada em 1897, treze anos depois da morte de Guimarães. Ele nasceu em Ouro Preto, no interior de Minas Gerais, e publicou doze livros de poesias e romances até encontrar em “A Escrava Isaura” o seu maior sucesso, nove anos antes de sua morte. Guimarães também foi juiz, professor e jornalista. No livro, optou por negar traços e características africanas à personagem Isaura para aproximar o seu perfil do perfil das leitoras em uma época em que a leitura era quase uma exclusividade branca. Entrou, assim, no debate abolicionista mostrando para pessoas iguais fenotipicamente à Isaura o quão absurda era a escravidão.
  3. Assim como vários outros romances famosos da literatura brasileira, “A Escrava Isaura” foi publicado originalmente em formato de folhetim – com um capítulo de cada vez – no jornal “O Constitucional”, de Ouro Preto, em Minas Gerais.
  4. A história de “A Escrava Isaura” começa em Campos dos Goytacazes, na região norte do estado do Rio de Janeiro, e depois se desenvolve em Recife. Existe em Campos dos Goytacazes – mais precisamente no distrito de Martins Lage, às margens da rodovia BR 356 – um local chamado Solar dos Ayrizes, que seria uma representação da “casa da Escrava Isaura”. Os responsáveis pelo local garantem que foi lá que Bernardo Guimarães encontrou a inspiração para escrever a história.
  5. A escravidão no Brasil foi um crime cometido fundamentalmente contra os negros e os povos originários. No entanto, jornais antigos trazem relatos e campanhas para libertar brancos escravizados em diferentes pontos do país – eram campanhas que não tinham caráter abolicionista, pois consideravam que apenas os brancos não poderiam ser escravizados. Em geral, sobretudo no século XIX, os casos de brancos escravizados eram de descendentes de relações entre mulheres negras escravizadas e os seus senhores brancos.
  6. A primeira adaptação audiovisual de “A Escrava Isaura” é de 1949. O diretor Eurides Ramos lançou o filme protagonizado pela atriz Fada Santoro, que interpretou Isaura, e pelos atores Cyll Farney (Álvaro) e Graça Mello (Leôncio).
  7. A presença da história de Bernardo Guimarães na cultura popular brasileira em grande parte se deve à novela “Escrava Isaura”, exibida pela TV Globo, na faixa das 6 da tarde, entre 11 de outubro de 1976 e 5 de fevereiro de 1977. Exibida em 100 capítulos, ela foi o primeiro grande sucesso do autor Gilberto Braga, que dois anos mais tarde estouraria no horário nobre com “Dancin’ Days” e enfileiraria sucessos como “Água Viva”, “Vale Tudo”, “O Dono do Mundo”, “Anos Rebeldes” e “Celebridade”. Lucélia Santos viveu a protagonista Isaura e Edwin Luisi e Rubens de Falco fizeram os papeis de Álvaro e Leôncio, respectivamente.
  8. Para sustentar 100 capítulos na TV, Gilberto Braga foi preciso fazer algumas adaptações. Criou um outro par romântico para Isaura: Tobias, interpretado por Roberto Pirillo. Além disso, em tempos de ditadura militar, a censura do governo federal proibiu o uso da palavra “escravo”. Segundo o autor, a justificativa dos censores foi a de que a escravidão era uma mancha na história brasileira, e não deveria ser relembrada. Para driblar a proibição, Braga passou a escrever “peça” no lugar de “escravo”. A novela registrou bons índices de audiência, foi reprisada cinco vezes pela TV Globo e ganhou uma versão especial em DVD. Em 2004, a TV Record lançou uma nova adaptação do clássico com Bianca Rinaldi (Isaura), Theo Becker (Álvaro) e Leopoldo Pacheco (Leôncio) na trama criada por Tiago Santiago. Herval Rossano, diretor da produção de 1976, também assinou a versão produzida pelo canal paulista.
  9. “Escrava Isaura” foi a novela mais exportada da teledramaturgia brasileira no século XX. Foi também a primeira produção da TV Globo a alcançar mais de 100 países (foram 104 no total), num processo que começou em 1979, com a venda dos direitos de exibição para emissoras da Itália e da Suíça. Ainda que hoje esse tipo de negociação seja muito mais simples, a produção baseada na obra de Bernardo Guimarães continua sendo uma das dez mais internacionalizadas da história da TV Globo.
  10. A novela “Escrava Isaura” foi um fenômeno de audiência na China. A trama foi exibida pela Televisão Central da China e por suas emissoras regionais em 1985, um ano depois de o romance original de Bernardo Guimarães ganhar a sua primeira tradução para o mercado editorial da China. Batizada de “Ninu”, “escrava” em chinês, a novela consagrou a atriz Lucélia Santos, intérprete de Isaura, no país mais populoso do mundo. O sucesso foi tão grande que ela viajou até a China para receber o prêmio de Melhor Atriz no Golden Eagle Award, uma das mais importantes premiações da televisão chinesa. Em 2013, em uma entrevista à revista “Caras”, Lucélia contabilizou pelo menos 25 viagens para eventos e produções televisivas em território chinês – que renderam outras produções como o documentário “Isaura em Pequim”, que mostra a atriz brasileira assediada por um batalhão de fotógrafos e fãs nas ruas da capital do país.