Os nerds herdarão a Terra… ontem, hoje e sempre

Por Rosana Rios

 

Quando, há dez anos, eu e o Luís Flávio Fernandes lançamos o livro “Enciclonérdia”, essa frase estava no âmago de nossas pesquisas. Como dissemos na introdução a esse almanaque de cultura nerd, o mundo se nerdifica a cada segundo que passa… Pois nerdice é curiosidade, é busca de conhecimento; e conhecimento é não apenas poder, como diversão – e mais gente com a marca da curiosidade e da nerdice continua nascendo e crescendo por aí.

Dez anos depois do lançamento, depois de milhares de exemplares vendidos e um spin-off, o jogo de cards “Nerd Quiz”, esses conceitos não desapareceram, mas prosperaram (afinal teremos Vida Longa e Próspera, como profetizou um vulcano). Muita coisa mudou, naturalmente; novos seriados, games e tecnologias nerds surgiram, pois esse é o curso natural das coisas. O mundo se tornou mais paranoico, com a chegada da pandemia de 2020 e a saída do armário (ou das profundezas em que se ocultavam) de criaturas que não gostam de ciência, não têm curiosidade e não buscam o  conhecimento; sabemos que sempre existiram anti-nerds, e sempre existirão, claro.

Porém, a nerdificação da humanidade é um processo irreversível; e os que se isolaram em busca de segurança contra o vírus atual (e os que virão) encontraram e encontram apoio nos livros, nos quadrinhos, nos jogos, nos seriados, na pesquisa, na música, na arte, na tecnologia e na cultura. Se sobrevivemos em isolamento foi graças a nerds que, um dia, sonharam conceitos revolucionários como plataformas de comunicação remota, celulares inteligentes, algoritmos, streaming, bluetooth e outras nerdices… Ainda nos falta o teletransporte – mas, do jeito que a coisa vai, não duvido de que logo estejamos dizendo “Beam me up, Scotty” em um comunicador subcutâneo.

Comemoremos, pois, estes dez anos de nossa “Enciclonérdia” lembrando que, sim, por mais que os antinerds, anticuriosos e anticiência ainda existam, somos nós, nerds e geeks, que herdaremos a Terra.

“Quero um abraço!”: A volta do livro-presente

O mês de março marcou o novo lançamento da Panda Books: Quero um abraço!, de Lisa Whitfield. O título retoma o formato livro presente, muito popular no início dos anos 2000. “Desde o início de 2020, estamos sem uma afetividade próxima, só podemos nos tocar com o punho ou com o cotovelo. Decidimos falar sobre a importância do abraço, que vai muito além da pandemia”, conta a diretora comercial da editora e autora Patth Pachas.

O responsável pelo sucesso do gênero na virada do século foi Bradley Trevor Greive, um autor repleto de experiências de vida. Nascido na Tasmânia, em 1970, ele foi morar com a família na Austrália aos 10 anos de idade, depois de terem passado por: Inglaterra, Escócia, Hong Kong e Cingapura. Bradley cresceu, venceu o medo de altura e se tornou paraquedista do exército australiano. Ele deixou as Forças Armadas depois de uma séria infecção no pulmão contraída durante um treinamento.

Livros-presente ainda em catálogo na Panda Books.

Foi no ano 2000 que o autor lançou Um dia “daqueles” (The Blue Day Book). O livro utilizava fotos de animais e textos curtos para falar sobre um dia exaustivo. No mesmo ano ele chegou ao Brasil pela Editora Sextante. Por aqui, o título vendeu 1,2 milhão de exemplares. Também foi publicado em outros 114 países e ultrapassou a marca de 25 milhões de livros vendidos. Bradley foi condecorado com o prêmio Ordem da Austrália pelo serviço prestado à literatura e à vida selvagem.

Livros-presente ainda em catálogo na Panda Books.

O primeiro livro-presente da Panda Books foi Viva feliz, que chegou às livrarias em 2002. Seguindo a fórmula do gênero, apresentava fotos de crianças e frases motivadoras. A Panda lançou outros 10 livros-presente e continua com sete em catálogo: Amo você!; Falando com Deus; Mamãe eu super te amo!; Obrigado, doutor!; Pai, você é o maior!; Querida vovó; Sonhar e realizar é só começar. Eles venderam um total de 320 mil exemplares. Jornalista de formação e autora de Sonhar e realizar é só começar, Patth sempre se dedicou mais ao empreendedorismo do que aos textos e gostou da experiência: “Acho que fiz bem e foi gostoso escrever. Entrar nessa área lúdica foi uma experiência muito rica”.

Livros-presente ainda em catálogo na Panda Books.

O lançamento Quero um abraço! retoma o estilo com imagens emocionantes e textos simples. Ele mescla crianças e bichos para falar sobre os diferentes tipos de abraços e pessoas com quem podem ser divididos. O formato permite que o livro seja um presente, independentemente do tipo de relação que se tenha com quem recebê-lo. A ideia central é celebrar o amor, o carinho e a gratidão expressos nesse gesto que é simples e poderoso ao mesmo tempo.

Como usar os podcasts como aliados em sala de aula

O radialista e professor universitário Marcelo Abud é um dos pioneiros na produção de podcasts no Brasil. O formato surgiu nos Estados Unidos em 2004. Marcelo conheceu a nova ferramenta em reportagens que saíram na imprensa. Começou a estudá-la e fez especialização em 2007, quando pesquisou a possibilidade de ser usada como meio de interação entre professores e alunos. Também é responsável há nove anos pelo podcast Instituto Claro, um dos mais importantes em educação no Brasil.

Como os professores usam podcasts com os alunos?
Na FAAP, faculdade onde trabalho, os docentes já indicaram podcasts ou para que os alunos os produzam. É uma ferramenta que chegou às escolas. Da mesma forma que indicamos um bom livro podemos sugerir podcasts – ou utilizar os dois, se houver complemento. O audiolivro também é uma ferramenta muito boa. Quando os professores discutem um assunto, podem recomendar um podcast sobre ele. É possível introduzir o tema na classe, sugerir que os alunos busquem o conteúdo de uma forma interessante e organizar um debate na aula seguinte.

Você tem algum exemplo recente de podcast que faz isso?
Tem um projeto inovador da escola La Fontaine, em Jundiaí, interior de São Paulo, feito pelo educador, escritor e contador de histórias Giba Pedroza. Acredito que tenha parado durante a pandemia. Ele criava regularmente radionovelas com os alunos. O Giba reunia professores e estudantes, entendia quais histórias queriam contar e construía tudo com eles. As crianças pensavam em como criar sons. Por exemplo, quando precisava de uma campainha, eles não baixavam o áudio da internet. Criavam aquele som por meios próprios.

Como a questão das fake news pode ser levada para a sala de aula?
Podemos usar a Revolta da Vacina como exemplo. Em 1904, a população do Rio de Janeiro acreditava que, se tomasse a vacina contra a varíola, viraria vaca. E agora temos o jacaré. Essa situação cria um interesse na criançada quando o professor fala sobre assunto. E tem todo um plano de fundo: foi justamente a desinformação que gerou a Revolta da Vacina, além de questões sociais. Acredito que fazer um paralelo entre a história da vaca e a do jacaré é uma forma de gerar um exercício. Dá para buscar podcasts que falem do assunto, desenvolver a narrativa, fazer uma reportagem, contar a história no formato de radionovela ou criar um boletim de 1 minuto. Tudo depende muito mais do professor do que de fórmulas. Cada um vai encontrar aquilo que seja melhor para aplicar e despertar interesse nos alunos. A liberdade é o que o podcast tem de mais rico para aplicação em sala de aula.

Qual é a importância de um projeto que une livro e podcast como o Esquadrão Curioso – Caçadores de fake news, de Marcelo Duarte?
Os formatos podem ser completares. Cada um tem a sua importância, mas, quando ouço, quero conhecer os personagens no livro, ver como são descritos e o que fazem. Quando leio a história, penso como seriam os personagens em uma ação fora dela. Então, tenho um complemento – isso é chamado de transmídia. O importante é saber o papel de cada formato e respeitá-lo. Se fosse feita apenas a leitura do livro, o podcast teria uma relevância, mas ele ofereceria menos do que pode.

Tino e a Olivetti Valentine / Crédito: Andréa Lemos

Memórias da minha máquina de escrever

Em 6 de fevereiro, Tino Freitas, autor de Um abraço passo a passo, estava em completa alegria: uma máquina de escrever vermelha chegou em sua casa. Cheia de estilo e em ótima forma, a Olivetti Valentine logo pousou para fotos e fez sucesso no Instagram. As máquinas foram comuns até meados da década de 1990, quando passaram a ser substituídas por computadores. O século XX pode parecer distante olhando assim, mas conversamos com quatro autores que começaram suas carreiras batendo nas teclas – literalmente.

Tino Freitas

Ganhei a primeira máquina do meu pai nos anos 1980. Gostava de escrever poemas românticos nela na adolescência. Usei pouco, porque logo tivemos um computador em casa. Cursei jornalismo, mas fui músico até me tornar escritor em 2009. Então, durante um passeio pelo Rio de Janeiro, encontrei uma Remington Noiseless antiga, que era portátil, uma espécie de notebook do final da Segunda Guerra. Comprei e gosto de levar para visitas em escolas. As crianças adoram conhecer. Na virada deste ano tive vontade de voltar às máquinas para escrever meu próximo livro, que se passará na Idade Média. A Remington funciona, mas é muito antiga, e prefiro preservá-la. Pesquisei até chegar a um colecionador conhecido como “Sergio Type”. Ele me apresentou a Valentine e eu fiquei louco. O modelo foi criado em 1968 pelo austríaco Ettore Sottsass e pelo britânico Perry King. Os dois foram premiados pelo trabalho, e até hoje há uma unidade em exposição no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. Ainda estou me acostumando aos mecanismos, mas tenho certeza de que terei uma história afetiva com ela.

Ivan Jaf, autor de Jahú; E desaparecemos um no outro; Conde drácula e outros vampiros; e Frankenstein e outros mortos vivos

Tinha o sonho de ser fotógrafo na juventude e era hippie – estava sempre em um lugar diferente. Na década de 1970, fui para Londres e encontrei uma máquina de escrever em uma feira de antiguidades. Comecei a fazer poemas nela e mudei a minha vida – descobri que era escritor. Ela era pequena, portátil, e eu gostava de máquinas assim, porque colocava na mochila e levava para onde ia. Escrevi nelas até o ano 2000. A última com que trabalhei foi uma Lexikon 80 – com essa eu não viajava. Ela é feita de aço, deve pesar 30 quilos, mas parece uma tonelada, é um bicho que dura para sempre. Tenho as pontas dos dedos quadradas de tanto bater nas teclas. Bater mesmo, literalmente. Quando a linha chegava ao fim, ainda precisava dar um tapa em uma alavanca para voltar ao outro lado do papel. A cada 30 linhas era necessário trocar de folha em pleno processo criativo. Era um confronto com o bicho e tinha muito barulho. No final, você sentia cansaço físico, não só mental. Não tenho saudade de usar a máquina, mas sinto falta de me relacionar com um objeto que compreendo. Eu mesmo fazia manutenções. No máximo, levava em mecânica de bicicleta para usar o jato de ar comprimido e limpar os mecanismos.

Ivan Jaf e sua Lexikon 80.

Regina Drummond, autora de Quando tudo muda e Lobisomem e outros seres da escuridão

Eu comecei a escrever na adolescência, quando fazia tudo à mão. Já não lembro mais se foi no meu aniversário de 20 ou de 21 anos que ganhei minha primeira máquina do meu então marido. Era bem pequena, portátil, tinha uma caixa para colocá-la dentro e carregar, como a Valentine. O que eu lembro é que chegava a doer o dedo – tinha que bater com força, era uma patada! Adorava a minha máquina, mas quando mudei para a Alemanha, precisei me desfazer dela. Meu primeiro livro, Aquarela Infantil, foi escrito na máquina de escrever, chamava Aquarela Infantil. Ele era bem feio e, para piorar, fazia parte de uma coleção de obras coloridas em que só ele era preto e branco. Apesar disso, é muito especial, pois foi como tudo começou.

Madalena Monteiro, autora de O veado e o sapo e O filho do caçador e outras histórias-dilema da África

Sou de uma família bastante pobre e a gente precisava fazer o curso de datilografia, porque poderia ajudar a arrumar trabalho logo que terminasse o ginásio, (atual Ensino Médio). Então, fiz o curso e meu pai comprou uma máquina de escrever. Lembro dos exercícios em que repetíamos sequências de letras, como “a, s, d, f, g”, cada uma com um dedo, do mindinho ao polegar. Parecia que aquilo ativava músculos da mão que a gente não usava para mais nada – não tínhamos computador e celular. Quando digitava uma letra errada, precisava pegar um papel pequeno e branco que era colocado em cima dela. Então, batia a letra novamente para apagar e, em seu lugar, escrevia a correta. Quando me tornei professora, fiz um investimento e comprei uma máquina elétrica para escrever relatórios de alunos – era bem mais rápido do que na mecânica.

Gustavo Piqueira: o designer original, criativo e moderno da coleção “Clássicos”

Quem está por trás do bem sucedido projeto da coleção Clássicos, da Panda Books, é o designer gráfico Gustavo Piqueira. Fundador do estúdio Casa Rex, ele e a equipe já receberam mais de 500 prêmios internacionais – e continuam somando. Gustavo e a Casa Rex são os responsáveis pela ideia das capas e da organização interna dos livros, incluindo ilustrações, notas de rodapé e boxes.

Como um projeto assim começa a surgir?

Primeiro há uma concepção geral, que é rápida. A ideia era assumir que um clássico em versão escolar precisaria trabalhar uma possível aversão que o aluno tem de leituras obrigatórias. Por isso, esse teor um pouco anárquico – já vem rabiscado. Desse princípio, nós temos alguns desdobramentos: como abordar todas as notas, os boxes, misturar ilustrações diferentes. Essa quantidade de elementos maior que em um livro comum atende o conceito do livro de um jovem e, ao mesmo tempo, ajuda a organizar a grande quantidade de paratextos.

Quais são as etapas seguintes?

São dois passos paralelos que se cruzam em um momento. Depois desse que eu chamo de “tom”, que não precisa ser materializado, temos a parte prática: entender o conteúdo. O livro é um território que você vai ocupar. É importante entender tanto suas características físicas quanto o que precisa caber nele. Tudo isso envolve pegar o texto, jogar no espaço, no número de páginas, usar um tamanho de fonte que seja bom para leituras e entender quais são os paratextos, para saber quantas variações serão necessárias. Nos Clássicos, da Panda Books, a mancha, que é a parte ocupada pelo texto, é menor do que o comum, para caber as notas e os boxes. Essa série de testes é um pré-projeto. Aí, nós escolhemos a fonte, a cor e as ilustrações.

Coleção “Clássicos” da Panda Books

Como foi o desenvolvimento do projeto da capa?

A proposta de capa original era diferente da que acabou adotada. Ela apresentava retratos dos autores rabiscados. Por exemplo, o Machado de Assis com o bigode rabiscado da forma que os alunos costumam fazer de brincadeira. Foi a única mudança do original. Gosto desse trabalho, porque já tem 10 anos e ainda se mantém. Alguns ficam velhos, é um aspecto inerente da minha atividade. Sempre que um projeto continua interessante com o passar do tempo é sinal de que ele se apoiava em algo original, e não apenas no espírito da época em que foi feito.

Josca Ailine Baroukh

Josca Ailine Baroukh: A autora que forma crianças e educadores

A autora e educadora Josca Ailine Baroukh é do tipo de pessoa que se diverte com suas atividades profissionais e, consequentemente, trabalha bastante. Em 1984, ela se formou no Instituto de Psicologia da USP. Voltada à psicanálise, terminou o curso e logo abriu um consultório. “Comecei a atender crianças, mas sou filha única e não tive muitas crianças no meu entorno. Então, eu senti a necessidade de estar mais próxima delas”. Partiu para um estágio na Escola de Educação Infantil Alecrim e se apaixonou – já em 1986 fechou o consultório e migrou para o ensino.

Ao longo de 14 anos, Josca trabalhou com diferentes faixas etárias da educação infantil e início do Ensino Médio, o que abriu portas para outros trabalhos. Tornou-se formadora de educadores, realizou projetos no Instituto Tomie Ohtake e foi indicada para colaborar com a Panda em 2010. Por aqui, ela realizou leituras críticas, catálogos e escreveu pequenos textos. Josca também traduziu a coleção “Pequenos filósofos”. Então, veio o convite da Coordenadora de Projetos Especiais da editora, Tatiana Fulas: “Você já faz tantas coisas, por que não escreve um livro também?”. Foi o início da história de “Parlendas para brincar”, feito em parceria com Lucila Silva de Almeida. “Eu gosto de escrever com outra pessoa, para conversar. Assim, o livro fica mais rico”.

Em seu primeiro livro, buscou valorizar a cultura brasileira e fornecer um repertório de parlendas maior para professores e crianças com cerca de 6 anos de idade. “Eu tinha várias, que usava quando dava aulas para o pré. A Lucila vem de uma família do nordeste e do centro-oeste e tinha outras parlendas”. Ficaram empolgadas e também escreveram “Adivinhas para brincar”. Josca ainda participou da formulação do selo Panda Educação, quando veio mais um convite: “Ler antes de saber ler − Oito mitos escolares sobre a leitura literária” é fruto de sua experiência com a formação de professores e da parceria com a autora Ana Carolina Carvalho.

Por volta de 2017 chegou o momento de a Panda ter mais livros para bebês, e Tatiana sabia com quem conversar. “Você vê que a maior parte dos meus livros foram propostos pela Tati, e eu sou muito agradecida por isso. Se ela não me cutucasse, talvez eu não teria escrito”. Com textos que variam entre o estilo literário e o didático, “O penico do bebê” e “Vamos tomar banho” foram as primeiras obras solo de Josca. Ela gostou de escrever e mais livros ainda estão por vir.

Podcast Esquadrão Curioso

Esquadrão Curioso ensina como identificar e combater notícias falsas em novo podcast

O livro Esquadrão Curioso – Caçadores de fake news, do jornalista e escritor Marcelo Duarte, lançado em 2018, acaba de ganhar uma versão no formato podcast. “Caçadores de Fake News” chegará às principais plataformas de streaming (Spotify, Deezer, Google Podcast e Apple Podcast, entre outros) na primeira quinta-feira de fevereiro, dia 4. Misturando ficção com realidade, os quatro personagens da trama – Isa, Pudim, Leo e Débora – entrevistam 11 jornalistas, educadores e formadores de opinião de Brasil, Estados Unidos e outros países, para entender o que são as fake news, como elas surgem e como se espalham tão depressa, os perigos que causam e como combatê-las.

A série teve apoio da Embaixada e Consulados dos Estados Unidos no Brasil, por meio de seu Edital Anual de Projetos, que financia programas que fortaleçam as relações entre Brasil e Estados Unidos, destaquem valores compartilhados entre os dois países e promovam a cooperação bilateral. “Informações falsas podem até tirar vidas, então é crucial fomentar o pensamento crítico em jovens desde cedo, de modo a ajudar a formar cidadãos engajados e conscientes.  Os Estados Unidos já têm bastante experiência nessa área e achamos que é importante dividir essa experiência com os brasileiros”, afirmou o cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Adam Shub.

São cinco episódios de 20 minutos com muito entretenimento e informação, que poderão ser trabalhados nas escolas, com alunos do Ensino Fundamental e Médio. “Não quisemos limitar a faixa etária, pois nunca sabemos quando a criança passará por uma situação assim. Elas precisam estar preparadas”, afirma Marcelo. Os educadores poderão encontrar sugestões pedagógicas, o perfil dos entrevistados, links importantes e até mesmo um glossário no site www.cacadoresdefakenews.com.br, criado especialmente como suporte do podcast.

Na trama, os personagens recebem o desafio de criar um podcast sobre fake news para um trabalho escolar. Com o objetivo de coletar informações relevantes e verdadeiras para o programa, eles conversam com diversos jornalistas especialistas no assunto de todas as formas – pelo telefone, trocando mensagens de WhatsApp, entrando em plataformas de reunião e mesmo presencialmente. “É urgente e necessário falar de educação midiática e, agora, mais do que nunca, precisamos que nossos jovens aprendam a importância de uma notícia bem apurada. Estamos vivendo um momento crítico, as pessoas precisam confiar e acreditar na imprensa profissional”, diz Marcelo.

Os episódios têm muito humor. Os personagens foram muito bem recebidos pelos entrevistados, que entraram no clima da aventura e colaboraram com sua didática e muito conhecimento. As vozes dos personagens foram criadas por atores profissionais de muito destaque em musicais, programas de TV e dublagem no cinema. Fazem parte do elenco Mariana Elisabetsky (“Mudança de Hábito”, “O Mágico de Oz” e “Grease”), interpretando Isa; Arthur Berges (“Um Violonista no Telhado”, “Rent” e “Chaplin – O musical”), que dá voz ao Pudim; Luciana Ramanzini (“Natureza Morta” e “Bento Batuca”), no papel de Débora; e Hugo Picchi (“Cocoricó” e “Irmão do Jorel”), que faz Leo e do narrador.

Fábio Sgroi

“Faço piada do tiozão do pavê mesmo!”

Na década de 1980, a mãe do então adolescente Fábio Sgroi gerenciava o café do Teatro Imprensa, na região central de São Paulo. O garoto era sempre escalado para ajudá-la. “Levava café para atores importantes, como o Dionísio Azevedo e a Elizabeth Savalla”, lembra ele. “Os autores me davam até cópias dos roteiros para ler”. Enquanto as peças eram encenadas, Fábio tinha cerca de duas horas para se dedicar ao passatempo preferido: o desenho. “Um dia, um cara viu os meus desenhos e passou para minha mãe o telefone de um primo dele, que trabalhava com o Maurício de Sousa. Ela pegou o telefone, mas eu achei que fosse mentira”.

Aquele foi o “número da sorte” de Fábio Sgroi, hoje com 47 anos e cerca de cem livros lançados. O ilustrador e escritor já publicou seus desenhos em 13 livros da Panda Books. Os destaques são os seis livros que ele fez em parceria com a escritora Fátima Mesquita e Viagem por dentro do cérebro, escrito pelo psiquiatra Daniel Martins de Barros e finalista do Prêmio Jabuti de 2014.

Pelo sim pelo não, Fábio resolveu ligar para o número de telefone e a história era verdadeira. A partir daí, ele passou cerca de dois anos visitando a Maurício de Sousa Produções, sempre às quartas-feiras: “Foi informal, mas eu aprendi mais com ele do que com qualquer professor na vida”. Acabou conhecendo todos os funcionários. “Só o Maurício não sabia que eu ia na empresa dele”, conta, dando risada. Para não gerar problemas a ninguém, Fábio prefere manter em segredo os nomes dos amigos que fez. “Aqueles eram outros tempos. Na época, eu era tão fã do Maurício, que acharia uma tremenda honra ser jogado da janela do estúdio dele pelos seguranças”, brinca.

Mas com a frequência de visitas, um dia eles se cruzaram. Fábio tomou o elevador com destino ao quarto andar, onde trabalhava seu amigo. Só que ele parou no primeiro e o pai da Turma da Mônica entrou. “Acho até ele achou que eu trabalhava lá”, diverte-se. “Fiquei com medo de ele perguntar como estava a produção, mas foi uma conversa de elevador – por três andares falamos sobre vento e chuva”.

Trabalhar com Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão e companhia virou a sua meta da adolescência. Começou copiando duas páginas de gibis por dia. Acabou largando a escola para se trancar no quarto e dobrar o ritmo de trabalho. “Minha família começou a achar que eu estava ficando louco. Até eu pensei que estava louco”. Não era loucura, Fábio ficou entre os finalistas dos complicados testes para trabalhar com Maurício, mas não passou. Com os contatos feitos na empresa, conseguiu outros trabalhos e retomou os estudos.

No final da adolescência, ele se tornou roteirista de histórias em quadrinhos. Escritor prolixo, fazia cerca de trezentas páginas por mês: “Duzentas não eram aprovadas, mas as outras, sim, e eu ganhava um bom dinheiro para quem tinha só 19 anos. Minha mãe começou a pensar que eu estava fazendo atividades ilícitas!”. Tudo mudou em 1992. Por causa do Plano Collor, o mercado de quadrinhos afundou.

Depois de receber indicações de outros profissionais dos tempos dos Estúdios Maurício de Sousa, ele se estabilizou fazendo ilustrações para livros didáticos. “Com a prática, pude amadurecer meu desenho e me soltar mais”. Seus amigos já haviam avisado que Fábio estava muito focado em quadrinhos e precisava diversificar. Deu certo. Hoje, ele se diz muito mais confortável com ilustrações do que com a escrita. “Qualquer demanda de desenho que aparecer eu aceito, tanto faz se for um projeto experimental ou algo realista. Para escrever, eu não consigo, apesar de gostar muito”. Os livros de sua própria autoria são voltados ao público infantil, principalmente do início do Fundamental. Por gostar do lado didático, Fábio se define como arte-educador.

Atualmente, Fábio Sgroi é mestre em Arquitetura e Urbanismo – desenvolveu uma proposta de política pública, por meio de uma estratégia pedagógica de arte-educação, que usava o desenho como um meio para a criança se conectar com o seu ambiente. O ilustrador e autor também acaba de iniciar sua carreira como professor universitário, na Faculdade São Judas Tadeu. “Tenho muito prazer em dar aulas. Além de desenhar, gosto de pesquisar o desenho e transmitir esse conhecimento”. Ele também ministra cursos na Universidade do Livro e já ensinou quadrinhos para alunos do Fundamental II.

No início dos anos 2000, foi trabalhar por um período no estúdio de um amigo, para ajudar em um projeto. Na mesma época, a Panda contratou a empresa para diagramar e ilustrar Almanaque de puns, melecas e coisas nojentas, de Fátima Mesquita. Fábio, que ainda não havia trabalhado com a Panda Books, estava em hora de almoço quando se deparou com o livro: “Comecei a ver e adorei, fiquei me perguntando quem era a doida que tinha escrito aquilo”. Por três dias seguidos, ele passou uma parte do almoço vendo aquele livro e imaginando as ilustrações, mas esse trabalho já estava combinado com outro profissional. “Não lembro o que aconteceu, mas ele desistiu. Como não tinha muita voz ali, fiquei na minha e foram atrás de outro cara, que também não deu certo. Então, me pediram um rafe (rascunho). Eu fiz e enviaram para a Panda, que adorou meu desenho”. Foi assim que começou a parceria com a autora, hoje chamada carinhosamente por ele de “comadre”: “Só com ela eu desenho coisas como um cara que solta um pum e sai voando”.

Segundo Fábio, suas maiores influências são quadrinhos de humor galhofeiro, com destaque para o ilustrador espanhol Sergio Aragonés, que fez fama com quadrinhos sem fala na revista Mad. Outros nomes são Alcir Linhares, Eva Furnari e a revista Chiclete com Banana – lançada em 1983 com os cartuns escrachados de humor político de Glauco, Angelí e Laerte. “Faço piada de tiozão do pavê mesmo, é divertido, as pessoas gostam”.

 

Veja abaixo as capas de todos os livros da Panda Books ilustrados por Fábio Sgroi:

Lançamento "Eu estou aqui"

Lançamentos virtuais ou presenciais: emoção é o que não falta

Agora, no mês de fevereiro, estamos completando um ano sem aquele contato com nossos leitores em tardes e noites de autógrafos. O isolamento social fez os lançamentos de livros migrarem para o formato digital. A primeira experiência virtual que tivemos foi com o livro A vez e a voz das crianças – Escutas antropológicas e poéticas das infâncias, escrito pela educadora Adriana Friedmann e publicado pelo selo Panda Educação em maio de 2020. A autora diz que foi emocionante interagir com as pessoas por meio das câmeras e revela que o formato superou suas expectativas: “Mesmo sendo virtual, a gente se conecta e se emociona profundamente”. Adriana tem filhos e familiares vivendo em diferentes Estados e até mesmo fora do Brasil. O evento pela internet foi a primeira oportunidade de reunir a todos em lançamento dela.

Em novembro passado, o jornalista Dudu Monsanto lançou seu segundo livro sobre o Flamengo: A virada – milagre em Lima aborda o título da Libertadores conquistado em 2019. A live de lançamento reuniu 300 pessoas simultaneamente e teve início com um vídeo especial – Zico, ídolo rubro-negro, estava no Japão e gravou uma mensagem para o autor, parabenizando pelo livro e incentivando torcedores à leitura. “Ele é a razão de eu ser Flamengo”, revela Dudu. No dia seguinte, Dudu foi até a editora e autografou 750 exemplares do livro vendidos durante a live. O trabalho começou às 9 da manhã e só terminou às três e meia da tarde, sem paradas.

Embora o formato digital tenha encontrado um jeito de conectar autores e leitores, as recordações de lançamentos presenciais estão muito fortes nas lembranças de todos. No final de 2019, os jornalistas Eduardo Barão e Pablo Fernandes lançaram Eu sou Ricardo Boechat, com histórias do companheiro da rádio Band News FM, falecido em 11 de fevereiro daquele ano. Barão chegou com 40 minutos de antecedência à Livraria da Vila, da Alameda Lorena, em São Paulo, e se surpreendeu com uma fila de espera que dava a volta no quarteirão. E não se trata de força de expressão. “Fiquei assustado!”, confessa ele. “Jamais imaginei que iria tanta gente”. Além dos fãs, que passaram até quatro horas para pegar o autógrafo, Barão e Pablo foram cercados naquela noite por amigos, parentes e por Veruska, mulher de Boechat, e pelas filhas dele, Valentina e Catarina. No lançamento na Livraria Travessa, no Rio de Janeiro, logo depois, as emoções se repetiram. A mãe de Boechat, dona Mercedes, e irmãos dele atendiam também os pedidos de autógrafos dos leitores.

Lançamento "Eu sou Ricardo Boechat"
Eduardo Barão e Pablo Luiz Fernandez no lançamento de Eu sou Ricardo Boechat.

Em 2019, a estilista-educadora Alessandra Ponce Rocha lançou seu primeiro livro: Alinhavos – O futuro do planeta está no seu guarda-roupa. Comunicada pela editora de que o lançamento seria em agosto, ela não teve dúvidas em sugerir o dia 23, data de seu aniversário. Melhor ainda que, naquele ano, a comemoração caiu numa sexta-feira.  “Dormi só quatro horas, pois estava ansiosa”, conta Alessandra. “De manhã, li uma nota sobre o lançamento na coluna da Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo, e minha ansiedade aumentou”. A sessão de autógrafos e aniversário teve muitos presentes. Nos dois sentidos.  Amigos e familiares prestigiaram o lançamento e trouxeram também mimos para a autora. “Ganhei até doce de abóbora, que é o meu favorito!”, diverte-se. O momento mais emocionante aconteceu no começo da festa: “Recebi a filha de uma amiga que não está mais entre nós, e havia seis anos que eu não via a menina”. Aquele dia era especial e se estendeu pela madrugada com amigos e empanadas em um bar próximo.

Lançamento de "Alinhavos"
Alessandra Ponce Rocha no lançamento de Alinhavos – O futuro do planeta está no seu guarda-roupa. Foto: Beto Jeon Folktography.

Para o lançamento de Eu Estou Aqui, seu quinto livro, em setembro de 2019, a autora Maísa Zakzuk fez questão de convidar as 12 crianças que estavam perfiladas nas 64 páginas da obra. Crianças que deixaram seus países, como refugiadas ou imigrantes, para começar uma nova vida no Brasil. Ela desejava reunir todos os personagens, mas sabia da dificuldade que eles enfrentariam para chegar na Livraria da Vila, da Vila Madalena. Não colocou muita expectativa, mas acabou sendo surpreendida. Instalada na mesa de autógrafos, ao lado da fotógrafa Daiane da Mata, responsável pelas imagens de Eu estou aqui, Maísa arregalou os olhos quando quatro de seus personagens entraram juntos na livraria:  Cristina, da República Democrática do Congo; Mariam, da Palestina; Rosa, da Angola; e Sebastien, do Haiti “Sou muito emotiva e comecei a chorar quando os abracei”, lembra. “O livro tinha ficado pronto poucos dias antes e eles viram as histórias deles impressas ali pela primeira vez. Foi o momento mais legal da minha carreira como escritora”.

"Formas de pensar o desenho", de Edith Derdyk.

A nova edição de um clássico da arte-educação infantil

Formas de pensar o desenho foi lançado em 1988 e acaba de chegar à 3ª edição pela Panda Books. A autora Edith Derdyk escreveu uma nova apresentação e adicionou mais um capítulo na parte final do livro: “proposições”. A ampliação se une ao conteúdo adicionado na segunda edição – capítulos sobre Leonardo da Vinci, Eugène Delacroix e os brasileiros Iberê Camargo, Amilcar de Castro, Regina Silveira e Artur Barrio. O texto traz ideias e reflexões para ampliar o conhecimento dos educadores e artistas em formação, sobre quem Edith relata carinho e preocupação.

“Qualquer comunidade só desenvolve cultura, educação e conhecimento com seres sensíveis”, afirma a autora, que vê na união entre educação e arte um fundamento necessário para a construção do conhecimento. “A arte é uma forma de acordar o corpo e a consciência, de ajudar a constituir a própria subjetividade”, explica. Edith parte de uma visão geral dos percursos do desenho que nasce da ótica da História da Arte, que registra as experiências dos artistas por meio das obras realizadas ao longo do tempo. Para lançar um novo olhar sobre a expressão das crianças, ela trilha um caminho que passa por relações como entre a linha e o papel, o corpo e o movimento.

Os capítulos sobre a produção gráfica dos artistas aproximam museus de escolas, pensando em alunos e professores brasileiros que não têm a possibilidade de visitar exposições. “A história da arte é o nosso álbum de figurinhas”, explica Edith. “Fiz um recorte da produção gráfica de alguns dos artistas que, de alguma forma, contribuíram para o percurso da história do desenho”. A autora mostra fases do desenvolvimento da linguagem infantil que conversam com momentos da história da arte.

“É muito usual e praticado nas escolas, de forma geral, o ensino do desenho como cópia do real, sem entendê-lo como linguagem expressiva”. A autora busca manter acesa a chama pelo interesse na expressão. Com sua busca pela valorização do ensino da arte e da formação de educadores, Edith propõe práticas e atividades de interpretação reformulados e revisitados ao longo dos 32 anos de história do livro Formas de pensar o desenho.