Aniversário de São Paulo – curiosidades sobre símbolos da cidade

A cidade de São Paulo foi fundada em 25 de janeiro de 1554, mas só teve um brasão e uma bandeira para representá-la no século XX. Para comemorar os 467 anos da capital paulista, recebemos um artigo do geógrafo Tiago José Berg, autor de Hinos de todos os países do mundo e Bandeiras de todos os países do mundo.

Brasão da cidade de São Paulo

Em dezembro de 1915, a Câmara Municipal de São Paulo instituiu um concurso para a escolha do brasão de armas da cidade, atendendo uma solicitação do prefeito Washington Luís. Até então, o emblema usado pela prefeitura era o brasão da República Brasileira. Formou-se uma comissão composta de personagens da vida cultural paulistana para julgar os trinta e seis concorrentes. Nenhum dos trabalhos satisfez o júri. Pouco se sabe sobre os desenhos, mas havia muitos brasões cheios de águias, bandeiras, fortalezas, correntes partidas e até capacetes de Mercúrio. O projeto de número 32, de autoria do ilustrador José Wasth Rodrigues foi de grande importância no primeiro concurso – introduziu o lema NON DUCOR DUCO (não sou conduzido, conduzo), que se imortalizaria mais tarde como lema heráldico paulistano. Houve um segundo concurso com trinta e dois trabalhos. Nele, sagrou-se vencedor o projeto de número 7, de autoria do poeta e heraldista Guilherme de Almeida, em parceria com Wasth Rodrigues.

Em relação ao modelo atual, o desenho contava com um braço armado empunhando uma espada batalhante, que partia da direita do escudo (destra), com uma coroa mural revestida de ouro e três torres, além do lema escrito em negro. A comissão sugeriu algumas modificações, como a retirada da espada e as letras do mote passaram a ser escritas em vermelho. O projeto foi aprovado por Washington Luís no ato n.º 1.057, em 8 de março de 1917.

Em 2 de outubro de 1974, promulgou-se a lei n.º 8.129, que alterou o seu desenho original para a versão usada até hoje. Foi sugerido um novo posicionamento do braço armado, agora saindo do flanco esquerdo do escudo, para dar a ideia de ação na figura, que também se tornou maior. A coroa mural passou a ter cinco torres – trata-se de um castelo localizado na parte superior dos brasões municipais. São as muralhas que cercavam as antigas cidades medievais. Essa tradição é vem de Portugal, onde há uma regra: três torres para aldeia, quatro para vila ou distrito e cinco para município. Além disso, só a capital pode ter as muralhas em ouro, os outros municípios usam em prata ou cinza.

Bandeira da cidade de São Paulo

A primeira bandeira da capital paulista era toda branca, com o brasão da cidade ao centro. Esse desenho foi sugerido pelo publicitário Caio de Alcântara Machado para ser hasteado na Feira Industrial Têxtil de 1958. A partir de então, a prefeitura resolveu adotá-lo.

Em 1986, o prefeito Jânio Quadros organizou uma comissão para elaborar uma nova bandeira. Usado até hoje, o desenho de Lauro Ribeiro Escobar é formado por um campo branco, onde está inserida uma cruz da Ordem de Cristo de braços alargados ao estilo escandinavo. A cor é vermelha vazada de branco.

No cruzamento dos braços da cruz foi posto um círculo, nas mesmas cores, que ostenta o brasão de armas do município. A cor branca simboliza a paz, a pureza, a verdade, a integridade, a amizade e a síntese das raças. O vermelho é a cor-símbolo da audácia, da coragem, do valor, da galhardia, da generosidade e da honra. A cruz evoca a fundação da cidade pelos padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta. Lembra também a herança da colonização portuguesa e a ação desbravadora dos bandeirantes em busca de novas conquistas.

O círculo é o emblema da eternidade, além de simbolizar que todas as decisões saem e convergem para ele, pois a cidade é centro de poder e capital do “estado bandeirante”. A atual bandeira foi instituída pela lei nº 10.260, de 6 de março de 1987, e hasteada pela primeira vez no dia 18 daquele mês, em cerimônia realizada no parque do Ibirapuera.

Caio Vilela

Dia do Fotógrafo: Os registros de Caio Vilela pelo mundo

8 de janeiro é Dia do Fotógrafo. Celebramos a data com Caio Vilela, autor das imagens de “Futebol sem fronteiras” e “Um mundo de crianças”. Ele faz diversas viagens a trabalho, já visitou 108 países e foi até para a Antártida, mas, curiosamente, cresceu em uma casa onde esses passeios não aconteciam. Os pais caíam na estrada apenas para visitar avós de Caio, que moravam no interior de São Paulo. Tem outra: eles também não eram de tirar fotos. Nunca. Apenas o avô materno, Alcyr Ribeiro, tinha câmera e fez registros da infância do fotógrafo. “Era só aquela foto de aniversário, do moleque assoprando o bolo”, lembra.

O interesse por clicar o mundo surgiu graças ao amigo de escola Cláudio Wakahara: “Ele fotografava por diversão, revelava e ampliava fotos no laboratório de seu pai”. Caio visitava o lugar e teve seu primeiro emprego lá, como assistente do arquiteto e museólogo Júlio Abe Wakahara. “Era um casarão antigo na Bela Vista. Você entrava e descia várias escadas para chegar ao laboratório”. Tinha, então, 16 anos e ganhou de presente a câmera do avô. A levou para sua primeira viagem internacional, quando fotografou na Patagônia, em 1990, aos 19 anos. A vontade de viajar foi estimulada pelo outro avô: Saulo Vilela. Apaixonado por trens e geografia, gostava de testar o conhecimento dos netos: “Ele nos perguntava coisas como a capital da República do Congo e países banhados pelo Oceano Índico”.

Conforme juntava economias com o dinheiro do trabalho, Caio viajava e fotografava. Em seus mochilões, gostava de brincar com crianças, especialmente nas regiões pobres. “Eu me divertia com elas, desenhava e visitava escolas. Também fazia anotações sobre como era o lazer, a alimentação, e a educação”. Chegou um momento em que reuniu todo o material e criou o livro “Um mundo de crianças”, com a jornalista Ana Busch.

Em suas andanças pelo mundo, certa vez, fotografou uma partida de futebol de rua no Irã. Estava em uma cidade chamada Yazd e gostou do contraste entre a pelada e a arquitetura característica do local ao fundo. O estalo veio depois de a imagem ser publicada na revista de bordo da Varig: “Comecei a procurar futebol nas viagens”. Em visitas a lugares muito emblemáticos, como o Machu Picchu, ele até levava uma bola. Mas Caio virou um especialista e descobriu até o horário sagrado do futebol: 17h. “Quem trabalha, já trabalhou; quem estuda, estudou; o sol já baixou e, nos países islâmicos, é o horário logo depois da reza. Às 5 da tarde, com uma bicicleta alugada ou um taxista esperto, eu consigo achar o futebol acontecendo em qualquer lugar do mundo”.

O livro deu origem a uma exposição no Museu do Futebol, em São Paulo, entre 2009 e 2010. Era chamada “Ora, Bolas! O Futebol Pelo Mundo”. Caio não parou de fotografar o esporte nas ruas de onde viajava. O material cresceu, e os convites para expor também. No Brasil, suas imagens foram apresentadas em shopping centers, no Conjunto Nacional, em São Paulo, e em diferentes unidades do Sesc, como na “Futegrafias”, exposição que aconteceu durante a Copa do Mundo de 2014.

O trabalho ganhou o mundo e foi apresentado em lugares como Belgrado (Sérvia), Islamabade (Paquistão), Doha (Catar), Quito (Equador), a prefeitura de Paris (França) e o Planetário de Bogotá (Colombia).

Presente de Natal: Autores da Panda Books escrevem conto coletivo com sete finais felizes

A Panda Books convidou sete autores para um desafio de fim de ano: escrever um conto de Natal coletivo. Cada um teve apenas um dia para criar um parágrafo da história. Com essa parte pronta, cada escritor foi responsável por um final feliz diferente, também no prazo de 24 horas. A história se transformou em um livro, oferecido gratuitamente para nossos leitores. Ele está disponível para download no site www.pandabooks.com.br. O Panda News conversou com os sete autores – Caio Tozzi, Carmen Lucia Campos, Henrique Sitchin, Manuel Filho, Marcelo Duarte, Penélope Martins e Shirley Souza – sobre a participação nessa brincadeira.

Penélope gostou tanto do convite, que confirmou presença rapidamente – já com sua parte pronta. Assim como ela, Shirley Souza conta que se divertiu com a ideia: “Mas logo depois de aceitar, me deu um frio na barriga”, lembra. Quando parou para escrever, o parágrafo saiu fácil e deixou Shirley curiosa para saber que rumo a história tomaria. Henrique Sitchin lembrou do telefone sem fio da infância e de um exercício que propunha em uma oficina de dramaturgia para o teatro: “Cada participante fazia uma parte da história e, depois, nos juntávamos para criarmos os elos dos diversos trechos”.

Marcelo foi o responsável por começar: “Estava me perguntando aqui em casa como seria a noite de Natal este ano sem beijos e abraços e logo me veio a imagem de Papai Noel não podendo sair do Polo Norte por causa da idade”, lembra. Durante a escrita, cada autor acrescentou elementos novos, deixando em aberto aos próximos o que aconteceria com a novidade. Caio Tozzi se deparou com um cachorro durante a história: “Um personagem ótimo!”. Então, criou um amigo para ele – assim, surgiu mais um personagem. Henrique teve uma ideia ao mexer no próprio bolso e pegar o smartphone: “Fiquei pensando como seria um celular mágico, um dispositivo com alguma função fantástica, algo muito além dos aparelhos que nós usamos”. A ideia se unia à necessidade de comunicação à distância por causa da pandemia.

“Gostei de usar a engenhoca do Henrique no meu final”, lembra Carmen Lucia Campos. O parágrafo dela se relaciona com o de Manuel Filho. Nas duas partes, a autora buscou acrescentar magia. Para Manuel foi diferente, pois crítica social é um aspecto marcante em sua obra. “Não consigo sentar para escrever uma coisa em que não apareça o meu envolvimento com o mundo”, afirma o autor. Com características diferentes, os autores prepararam o caminho para a trama natalina.

O final

Perguntados como foi criar um final feliz em um conto feito por sete pessoas diferentes, cada autor trouxe uma história nova. Colocamos os relatos abaixo.

Caio Tozzi: “Quando vou escrever minhas histórias, planejo os acontecimentos, as viradas e tudo mais. Mas a proposta da Panda tinha o sabor da surpresa – inclusive porque tínhamos um prazo curto para fazer nossa parte. Tive que ler e reler toda a história e pensar em todos os elementos que os meus colegas colocaram desde a primeira parte e, de repente, utilizá-los no meu encerramento, de uma forma coerente com a trama construída. Foi divertidíssimo! E o mais bonito, neste momento que estamos vivendo, é poder imaginar que teremos, sim, um belo final feliz para breve”.

Carmen Lucia Campos: “Havia muitos elementos que surgiram ao longo da história, mas eu encontrei um especial para transformá-lo no agente da magia que se deu naquela noite de Natal. Queria um desfecho leve e, de certa forma, surpreendente, que resgatasse o espírito natalino e representasse uma mensagem de esperança”.

Henrique Sitchin: “Um dos grandes desafios é tentar ser coerente com tudo o que já foi escrito. Então, há que se provocar a criatividade, mas sem deixar de lado a coerência com as demais ideias. É um exercício delicioso. Assim que recebi os textos dos colegas, minha cabeça não parou mais de funcionar até que eu enviasse a minha parte. A cabeça se embaralha toda e a gente passa o resto do dia tentando desfazer os nós para organizar tudo e entregar um bom texto. Isso é tão bom! Deixa-nos em ‘estado produtivo’, que é essencial. Agora estou curioso, roendo as unhas de ansiedade para ler todos os finais”.

Manuel Filho: “Não me deu nenhum nó na cabeça. Eu li a história toda. Como era livre, pude fazer como achei melhor. Foi tranquilo e gostoso de escrever”.

Marcelo Duarte: “Fui dormir pensando em como amarrar tudo aquilo com o final que eu tinha imaginado. Quem disse que eu dormi? Tive insônia e resolvi ir para o computador e terminar de escrever o conto de Natal em plena madrugada. O resultado ficou bem divertido”.

Penélope Martins: Eu me diverti somando imaginários e tentei dar um final surpreendente com todos os elementos trazidos pela turma.

Shirley Souza: “Vi o trecho criado pelo Henrique e fiquei pensando que missão seria capaz de transformar tudo, de levar o acalento e a proteção a todos, de devolver o brilho do Natal até para quem não tem um teto sobre sua cabeça. Eu tinha um dia inteiro de trabalho pela frente e não consegui me concentrar em nada. Só ficava pensando no que Noel faria. Depois de horas com isso formigando dentro de mim, a ideia veio forte. Ninguém precisaria se arriscar, se expor ao vírus e, ainda assim, seria poderoso. Não teria como ignorar, tampouco não assumir que algo muito especial estaria acontecendo. O nó se desfez. Fui escrever e o final nasceu. Espero que nossa história aqueça os corações de todos que a receberem neste Natal”.

Eduardo Monsanto, o rubro-negro que escreve sobre conquistas históricas do Flamengo

O jornalista carioca Eduardo Monsanto, mais conhecido como Dudu Monsanto, passou o dia 23 de novembro de 2019 driblando a ansiedade. Era a final da Copa Libertadores. O Flamengo, seu time do coração, perdia por 1 X 0 para os argentinos do River Plate. “Quando chegou aos 40 do segundo tempo, comecei a me conformar com a ideia de que, talvez, o título não viesse”, lembra. Três minutos depois, tudo mudou: Gabigol marcou para a equipe carioca. “Sou muito contido emocionalmente, mas me peguei gritando na varanda do apartamento. Nunca tinha feito isso em 15 anos morando em São Paulo”. Aos 46 minutos, Gabriel fez outro gol. Dudu chorou, e o Flamengo levou o título pela segunda vez. Tudo foi tão intenso, que o jornalista dormiu pesado, já no início da noite. De repente, acordou em plena madrugada e sacudiu a esposa:

— Aconteceu mesmo?
— Sim, é verdade!

“Então, dormi feliz”, relembra e cai na risada. Ele acaba de lançar A virada – Milagre em Lima, sobre essa conquista histórica do Flamengo. O livro também aborda os garotos do Ninho do Urubu, tragédia que ocorreu pouco antes do início do campeonato. Monsanto ainda é autor de 1981 – O ano rubro-negro, onde fala da primeira vez em que o time foi campeão da América, liderado por Zico.

Panda News: Foi mais fácil escrever o 1981 – O ano rubro-negro, ou agora o A virada?

Dudu Monsanto: Para o 1981, eu sabia que teria a efeméride dos 30 anos do mundial e me programei para fazer com cerca de três anos de antecedência. A virada não era para ser um livro, mas um capítulo que atualizaria o 1981 com as conquistas do ano passado. Eu tinha 16 páginas para isso. Fui escrever e pensei que não poderia falar só de 2019, porque a vitória começa com a reestruturação em 2013. Também não tinha como deixar passar a história dos garotos do Ninho. As 16 páginas viraram 120.

Quantas entrevistas você fez para o livro?

No primeiro livro, conversei com todos os titulares, o treinador, alguns reservas, os dirigentes e até torcedores. Eu tinha que fazer isso de novo, mas o prazo era de 40 dias. Por sorte, liguei para uma amiga, a produtora Ana Paula Garcez, para conseguir o telefone de um atleta. Expliquei que estava fazendo o livro, ela tinha tempo naquele momento, e se propôs a me ajudar. Foi o meu Gabigol. A Ana chegou aos 43 do segundo tempo, construiu essa virada junto comigo, e entrevistamos praticamente todo mundo. O único que não conseguimos foi o próprio Gabriel. Mas não deixamos de registrar as impressões dele. Colhemos depoimentos que o jogador deu para documentários feitos sobre a conquista e colocamos os créditos das fontes.

Por que incluir o drama da morte dos garotos do Ninho do Urubu?

Eu tentei contar, de uma maneira bem humana, quem era cada um deles. Junto com a queda do avião da Chapecoense, para mim, essa é a maior tragédia do futebol brasileiro. Foram dez meninos entre 14 e 16 anos, com muita coisa para viver, todos eram a esperança e o orgulho das famílias, e morreram por negligência. Eles estavam até que bem instalados, mas houve uma falha muito grave. Nós não podemos virar as costas. O livro traz fotos dos jogadores em visitas a sobreviventes – isso mexeu com todo mundo. Mas a postura do clube foi muito ruim, faltou humanidade no trato. Eu não seria honesto se deixasse de contar o que aconteceu. Cada um dos meninos ganhou uma página, e o livro é dedicado a eles. Não se pode esquecer o que aconteceu, porque nesses casos falta justiça – descobrir quem foi o culpado, os motivos que levaram à tragédia, criar mecanismos para que isso não se repita, normas de segurança para quem vai receber essas crianças na base.

Sobre a Libertadores, você estava em Lima no jogo da decisão?

Não. Quando a final mudou para Lima, eu cheguei a fazer contas para saber quanto custava a viagem. Tenho um filho de 5 anos, e dava seis meses de mensalidades da escola dele. A escola do meu filho marcou a apresentação de fim de ano para aquele mesmo dia. Ele não gosta de muito barulho, é mais quieto, a apresentação era com uma música do Carrapicho e tinha coreografia. Fui pensando que não aconteceria muita coisa. Chegou na hora, ele parecia profissional, dançou, fez a coreografia inteira, eu me emocionei e chorei junto com a minha esposa. Quando acabou, eu sabia que, independentemente do que acontecesse em Lima, o meu dia estava ganho. Mas ainda teve a surpresa de o jogo ser como foi.

Você tinha quantos anos na conquista de 1981?

O 1981 é um ajuste meu por não ter visto aquele time jogar, pois eu tinha 2 anos. Acabou que A virada, apesar de não planejado, faz as pazes com esse outro momento. Como eu conversei com todo mundo, vi cada uma das partidas, desde o começo da Libertadores, para poder contar, é como se eu tivesse ido a Lima. Acho que eu vi e ouvi mais do que quem estava lá.

Qual foi o sentimento de receber um vídeo do Zico na live de lançamento?

Ele é a razão de eu ser Flamengo! Cresci no auge do Zico. É um cara que norteia muito o meu caminho até o jornalismo esportivo. O primeiro livro me colocou em uma encruzilhada. Eu tive chances de entrevistá-lo antes, mas sempre corri. Ficava pensando que, se ele não fosse uma pessoa boa, a minha vida desmoronaria. Quando escrevi o 1981, fiz duas entrevistas grandes com ele, cada uma com cerca de duas horas. E o Zico é muito mais legal do que eu poderia imaginar, mais craque fora do que em campo. Quando recebi o vídeo, vi que ele, lá do Japão, perdeu um tempo para mandar uma mensagem de carinho e fazer toda a nação rubro-negra olhar para o lançamento. Foi um prêmio tão grande quanto são o texto da orelha escrito pelo Lúcio de Castro e a contracapa do Mauro Cézar Pereira.

Como é que se faz a gravação de um audiolivro?

Nos primeiros meses de 2020, o radialista Eduardo Barão e a Panda Books mergulharam juntos em um projeto ambicioso: gravar o audiolivro Eu sou Ricardo Boechat. A editora escolheu esse título para estrear sua parceria com o serviço de streaming Ubook não por acaso: o jornalista biografado tinha uma voz inconfundível, assim como é a de Barão, coautor do livro. Para os fãs, seria especial ouvir na voz do colega de trabalho e amigo de Boechat as divertidas e emocionantes histórias de sua vida.

Apesar de sempre ter trabalhado com a voz, Barão encarou a tarefa como um desafio. “Tinha dúvidas principalmente sobre como interpretar as falas de Boechat”, lembra. Mas uma intercorrência do acaso deu um toque especial à gravação: no meio do trabalho, estourou a pandemia do coronavírus e o estúdio da Ubook teve que fechar as portas. Barão correu para sua segunda casa – a Band News FM – e conseguiu autorização para terminar lá sua missão. “Muitos que me ouviram durante esse processo lembraram de histórias que o próprio Boechat tinha contado no ar”, lembra, com carinho.

Cris Albuquerque, gerente de conteúdo editorial da Ubook.

Gerente de conteúdo editorial da Ubook, Cris Albuquerque explica que, além das pessoas com deficiência visual, o formato tem sido procurado por quem não quer ficar longe dos livros, mesmo quando não pode segurá-los para ler, como no trânsito e até na hora da faxina. Ela contou ao Panda News como é feito um audiolivro e por que ele é diferente de outras produções em áudio.

Leitura. Na primeira etapa, os produtores leem uma parte do livro para entender quais as características deverão buscar no narrador. “Geralmente só uma pessoa grava o texto todo. Mesmo que tenha muitos personagens, a história traz uma voz central”, explica. Este é o ponto que define se um audiolivro terá sucesso ou não. As buscas são feitas no banco de vozes da empresa – um registro de narradores com suas características. Eles nem sempre encontram alguém nos arquivos, então procuram atores, personalidades, locutores ou outros bancos.

Há os casos em que os próprios autores fazem a narração, como em Eu sou Ricardo Boechat. “Quem escreve traz uma verdade para a leitura e tem mais liberdade.” Quando outra pessoa faz a narração, ninguém mexe em nada do texto. Porém, livros com tabelas ou notas precisam de edição: “A gente trabalha essa parte, envia para a editora e pede autorização. Se for o autor, ele faz o que quiser.”

Teste de voz. Nesta etapa, a pessoa selecionada recebe um trecho do texto para ler. Se for aprovada, a produção compartilha com a editora. “Fora o autor, ninguém conhece melhor um livro do que quem o edita”. Por isso, Cris considera importante só gravar depois deste passo.

Gravação. A entonação de audiolivros tem características próprias: “Não é uma peça de teatro e nem um documentário. O ideal é que a leitura seja natural para transmitir sinceridade”. Cris ainda conta que cada sessão de gravação tem, no máximo, três horas. A voz e o cansaço mental impossibilitam períodos mais longos.

Revisão. Os audiolivros costumam ter entre 6 e 10 horas. “É impossível não ter que regravar”. Alguma palavra pode ficar incompreensível, acontecem problemas de pronúncia com termos estrangeiros. Até se a barriga do narrador roncar durante uma fala, o barulho aparece, e o trecho é refeito. A edição também é revista.

Finalização. Nesta última etapa, o objetivo é a homogeneização do conteúdo. “Por exemplo, o narrador pode se aproximar mais do microfone em uma palavra. Isso muda o volume naquele trecho”, explica Cris, justificando correções realizadas com o uso de software.

Todas as etapas envolvem treinamento de novos profissionais, numa área onde ainda há poucas pessoas especializadas. “Não é só pegar o texto e sair lendo. A edição e a revisão também têm características próprias. Nossa vida é treinar gente. Eu gosto bastante”.

Clique aqui para mais informações sobre o audiolivro Eu sou Ricardo Boechat, de Eduardo Barão e Pablo Fernandez. A coleção Hora do medo também está disponível no site e no aplicativo da Ubook.

Dia do Cordelista: Uma festa de rimas e ritmos

Certa vez uma criança
Disse: — O poeta me deve
Uma história em cordel,
Bonita, atraente e leve.
Quando perguntei: — Qual era?
Respondeu: — Branca de Neve!

Em 19 de novembro, comemora-se o Dia do Cordelista, homenagem a Leandro Gomes de Barros. Considerado criador do gênero, o poeta inovou com rimados textos populares bem humorados e na publicação de suas obras – criou uma gráfica para imprimi-las e viajava pelo sertão para divulgar o trabalho.

O escritor Varneci Nascimento sempre comemora essa data. Natural de Banzaê, cidade baiana a 300 quilômetros de Salvador, cresceu cercado por tradições locais, como o “batalhão” – dezenas de homens se unem para realizar trabalhos em sítios e fazendas de amigos. Nesses encontros, quando o suor dá lugar ao descanso, começa uma cantoria feita de improviso. “Os repentes do Nordeste costumam usar viola, mas a gente batia enxada no chão para fazer o ritmo”, conta o autor, que, em parte da vida, dividiu o gosto por cantar com a leitura de cordel, uma influência do pai. Varneci cursou História na faculdade, mas sempre trabalhou como escritor de cordel, onde juntou suas habilidades artísticas. Pela Panda Books, publicou duas adaptações de clássicos mundiais: Branca de Neve e O Pequeno Polegar.

Qual é a importância do cordel para a nossa literatura?

O cordel cativa com as rimas, os ritmos e a beleza de toda a sua construção. É uma delícia de ler! Esse gênero tem um grande poder de atração, ele pode transformar alguém que não gosta de ler em apaixonado por livros. Minha namorada é professora, ela lê para as crianças O Pequeno Polegar e Branca de Neve. Quando pega o texto em prosa, os alunos logo pedem: “Não, professora, a gente não quer assim, a gente quer do outro jeito”. Olha como eles gostam! Mas também não é brincadeira ler um clássico na escola. Eu sempre peço para os educadores falarem de cordel quando realmente se apaixonarem por ele. Com sinceridade, vão cativar os alunos.

Onde nasceu a literatura de cordel?

Algumas pesquisas dizem que ela surgiu em Portugal, no século XVII, mas o português não a mesma coisa que o nosso. Lá, era cordel só por estar pendurado num cordão – o cordel. Podia ter qualquer coisa escrita. A forma poética e o escrever rimado são do Nordeste. Uma vez, eu perguntei sobre isso para a professora Jerusa Pires Ferreira, pesquisadora da USP, que estudou o cordel em várias partes do mundo. Ela é baiana, como eu, e disse: “ixe, meu filho, lá é muito diferente!”. Hoje, nós não podemos dizer mais que o cordel é uma coisa só do Nordeste, tanto que foi tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como patrimônio cultural do Brasil. O cordel também dialoga com o mundo por meio de expressões culturais, como a música e o cinema.

Como você comemora o Dia do Cordelista?

Desde 2013, eu vou a Natal (RN), onde acontece um grande encontro de poetas chamado “Ciclo Natalense do Cordel”. Esse ano ele terá que ser online. Também é um dia em que postamos bastante nas redes sociais, a gente faz muita zoada.

Todd Parr de A a Z

A Panda Books está preparando uma grande novidade para o final do ano: O livro da gentileza, de Todd Parr, estará disponível em livrarias físicas e virtuais a partir de dezembro. Para celebrar o lançamento do 20º livro de Todd no Brasil, o Panda News preparou um A a Z sobre o autor com detalhes curiosos de sua vida.

A – Arte

Todd Parr é artista desde criança. Aos 7 anos, ele ganhou um concurso de quadrinhos de um jornal americano. Já adulto, desenhava e pintava como hobbie. Até que passou a vender roupas estampadas com seus trabalhos. De repente, Todd estava criando coleções especiais para lojas importantes, como a Macy’s, e expondo seus quadros. Lançou uma linha de produtos infantis. O trabalho impressionou um editor de Nova York, que sugeriu que ele escrevesse livros para crianças.

B – Berkeley

A cidade de Berkeley foi fundada na Califórnia no século XIX para abrigar uma universidade com o mesmo nome. Além do ambiente universitário, ela ficou famosa ao longo do tempo por se posicionar a favor de causas como a proteção de imigrantes e de americanos que se recusaram participar da Guerra do Vietnã. É nesta cidade que Todd Parr vive atualmente.

C – “Com amor, Todd”

O autor tem uma forma especial de lidar com as crianças, que o permite falar sobre temas delicados com leveza. Um exemplo dessa característica está nos finais de seus livros. Todos terminam com uma mensagem carinhosa, direcionada aos pequenos leitores, seguida por: “Com amor, Todd”.

D – Dezoito anos no Brasil

O primeiro livro de Todd Parr lançado no Brasil foi Tudo bem ser diferente, em 2002, pela Panda Books. Ele logo conquistou crianças, pais e professores. O Panda News mostrou recentemente um caso do carinho que os livros de Todd recebem: a entrevista com a pediatra Fernanda Ribeiro, que indica leituras aos pacientes e defende a importância desse ato desde o desenvolvimento da fala. Ela começou a divulgar literatura para crianças pela internet justamente com Tudo bem ser diferente.

E – Escolas

É comum professores de educação básica trabalharem Todd Parr com as crianças. E Todd gosta de visitar os alunos nos Estados Unidos e em suas viagens, como fez no Brasil. O autor fez visitas a duas escolas em Brasília e em São Paulo, além de ter dado uma palestra no CEU Caminho do Mar, zona sul paulistana.

F – Flipiri

A Festa Literária de Pirenópolis (Flipiri), no interior de Goiás, foi o primeiro compromisso da visita que Todd Parr fez ao Brasil em maio de 2014. No evento, o autor realizou debates, promoveu uma oficina de ilustração e foi homenageado pelo prefeito com a chave da cidade – presente simbólico dado a pessoas que realizam feitos especiais aos cidadãos.

G – Guias de atividades

Em seu site oficial, o autor compartilha atividades para as crianças. A página é em inglês. Há desenhos para colorir – incluindo ilustrações de seus livros – e bonecos chamados paper dolls, feitos para imprimir, recortar e montar. Também há um guia de como criar o seu próprio livro.

H – Humor

Uma criança com cueca na cabeça é uma ilustração comum nos livros de Todd Parr. Com delicadeza e diversão, ele fala sobre assuntos como adoção, perda de alguém especial e ter dois pais ou duas mães.

I – It’s Okay to Be Different

Esse é o título original de Tudo bem ser diferente, o primeiro livro escrito por Todd Parr, publicado em 2001. A obra é um sucesso até hoje, e a tradução para o português está entre as mais vendidos da Panda Books. Em sua estreia, o autor escreveu sobre diferenças culturais, sociais, físicas e étnicas.

J – Julian

Todd Parr criou um desenho para televisão. O ToddWorld (Mundo de Todd) estreou em 2004 nos Estados Unidos e ficou no ar até 2008. Ele retratou personagens e cenários da mesma maneira dos livros. Entre os que fizeram parte da turma está Julian, um garoto que anda de cadeira de rodas e é artista. Sua primeira aparição foi no episódio “It’s Okay to Have Wheels” (Tudo Bem ter Rodas). No Brasil, ToddWorld foi transmitido pelo canal “Discovery Kids”. Em 2007, o desenho foi ao ar em Portugal pela emissora “Canal Panda”.

K – Keith Haring

O desenhista norte-americano Keith Haring (1958-1990) gostava de usar cores vivas e linhas pretas nas suas obras. Essa característica do artista é uma das principais influências de Todd Parr, que desenha em um tablet gráfico ligado a um computador.

L – Livros fáceis de ler

Durante a infância, Todd gostava de livros fáceis, especialmente os ilustrados. O autor considera importante que os adultos façam perguntas para as crianças quando estão lendo com elas – como de quais elementos elas mais gostam nas páginas e as cores que chamam mais atenção.

M – Mensagens para caridade

Todd gosta de ajudar instituições de caridade. Para contar com a parceria dos fãs, ele entrou para o site Cameo. Nele, é possível pagar por uma assinatura e receber mensagens e vídeos que o autor faz com exclusividade para os assinantes. Todo o dinheiro que ele ganha dessa forma é doado às suas instituições preferidas.

N – Nove de julho

Todd Parr nasceu em 9 de julho de 1962, em uma cidade chamada Rock Springs, no estado norte-americano de Wyoming. Ele mora na Califórnia desde 1995.

O – Otto

Uma das estrelas dos livros é o cachorro Otto. Todd adora bichos, especialmente os cães. Em sua visita ao Brasil, contribuiu com a União Protetora dos Animais de Pirenópolis (Upapiri) e adotou um cachorro que tinha sido atropelado – o autor cedeu suas obras para a criação de um calendário que foi vendido pela associação. Os lucros foram usados para sustentar o bicho, até ele encontrar um lar. Nos Estados Unidos, também há instituições para o cuidado de animais que recebem ajuda de Todd Parr. Atualmente, ele vive com três pit bulls bem dóceis resgatados na cidade onde mora – os cachorros se chamam Pete, Tater Tot e Jer-Jer. Otto só nos livros.

P – Pimentas

Todd adora cozinhar, e as pimentas estão entre seus temperos favoritos. Quando veio ao Brasil, em 2014, ele recebeu de presente da equipe da Panda Books um kit de pimentas tradicionais brasileiras, além de uma camisa da Seleção Brasileira com o número 10 e seu nome nas costas.

Q – Queijo

Todd adora queijo, ainda mais para comer com macarrão. Ele gosta tanto que compartilha duas receitas com o ingrediente em seu site. A paixão por massa aparece de uma forma divertida no primeiro livro: “Tudo bem comer macarrão com almôndegas na banheira”. Esse foi o menu de um almoço com jornalistas quando o autor esteve no Brasil – mas fora da banheira!

R – Reconhecimento

Todd Parr já recebeu seis prêmios como reconhecimento pelo seu trabalho. O destaque fica com O livro do planeta Terra, premiado duas vezes nos Estados Unidos. Ele também fez parte da famosa lista de mais vendidos do jornal The New York Times.

S – Sentimentos

Sentir-se com raiva, medo, angústia ou euforia é comum desde a infância. Mas para as crianças, dar nomes e entender esses sentimentos pode ser complicado. Em O livro dos sentimentos, de 2011, Todd Parr aborda diferentes emoções e explica cada uma delas aos pequenos leitores com textos e ilustrações simples e cativantes.

T – Tudo bem cometer erros

As crianças podem ficar constrangidas ao fazer algo errado. No livro Tudo bem cometer erros, Todd Parr mostra que não se deve ficar triste por esse motivo. Os erros podem ser uma fonte de aprendizado. O próprio autor passou por isso no início da carreira literária. Nos quadros, ele não usava pontuação quando escrevia frases, e seguiu com o formato nos primeiros livros infantis. Então, Todd percebeu que estava dando um mau exemplo. Atualmente, ele toma cuidado para que todas as suas obras tenham a pontuação correta.

U – United

Antes de ser autor de livros infantis, Todd Parr trabalhou como comissário de voo na companhia aérea United. O emprego foi a maneira que ele conseguiu para sair da pequena cidade onde morava. Passou 15 anos trabalhando para a empresa, e foi durante os horários livres das viagens que ele pôde desenvolver sua arte.

V – Vietnã

O Vietnã é um pequeno país asiático, que ao norte faz fronteira com a China. Ele possui uma rica cultura e belas paisagens naturais. O idioma oficial por lá é o vietnamita, que conta com traduções de livros de Todd Parr, feitas por uma editora chamada Crabit Kidbooks. O autor já foi traduzido para outras 14 línguas em quatro continentes diferentes.

W – Wyoming

O estado natal de Todd é o décimo maior dos Estados Unidos, mas tem uma população pequena por causa do clima árido, das grandes regiões montanhosas e da localização distante do litoral. As principais atividades econômicas do Wyoming são o turismo e a agropecuária.

X – Xangai

Todd Par já visitou a terra dos pandas: a China. Ele viajou para Xangai quando livros seus foram traduzidos para o idioma local. Lá, visitou crianças e tirou fotos dos ursos que são símbolo do país e o nome de sua editora no Brasil.

Y – Yellowstone

O estado onde o autor nasceu é o destino de muitos turistas, principalmente por causa do Parque Nacional de Yellowstone. Fundado em 1872, ele foi um dos primeiros do mundo a receber dinheiro público para proteger os animais e a vegetação local. Nele, os visitantes podem ver de perto animais como lobos, alces e ursos, além de 300 gêiseres, que dão um show natural de água quente lançada ao alto. Também é possível fazer trilhas, praticar canoagem, mountain bike e pesca esportiva.

Z – Zoo de Todd

Um dos livros de Todd a retratar animais é Zoo Do’s and Don’ts, com dicas divertidas sobre o que pode ser feito em um zoológico – e o que não pode de jeito nenhum. O autor sempre desenha animais de um jeito próprio – eles são coloridos, sorriem, ficam tristes e também possuem os traços simples que fazem sucesso entre as crianças.

Os quatro passos que transformaram um biólogo em youtuber

Guilherme Domenichelli vê Biologia em tudo. “Para se pendurar na árvore, o macaco fica com um braço em um galho, o rabo enrolado em outro e apoia onde mais puder. Se tiver problema em algum lado, o bicho não cai”. Essa tática do reino animal é uma comparação com a própria vida – atualmente, ele atua como palestrante; consultor ambiental; escritor (com quatro livros publicados pela Panda Books!) e virou youtuber. Seu canal Animal TV tem quase 700 mil inscritos. O autor deixou um emprego fixo este ano para se dedicar integralmente aos vídeos e conta como foi o processo.

1. Paciência e planejamento

O canal começou em 2016, com incentivo de uma amiga também youtuber. Já tinha a pretensão de fazer o Animal TV crescer, mas não imaginava que ele me manteria. O galho cresceu e ficou forte. Deu certo porque sempre teve planejamento em tudo, desde quando eu postava um vídeo por semana. Hoje, como tenho mais tempo, faço três. Precisa ter paciência no começo! Conheci canais legais que deixaram de existir por causa da demora para ter projeção e retorno financeiro.

2. O trabalho exige disciplina

Estou gostando de não ter mais chefe, horário certo para trabalhar, uso a roupa que eu quero e faço as coisas em casa – mas disciplina é tudo. Apesar de ser uma coisa sua, que você gosta de fazer, tem dias em que a gente não se sente bem, é normal. Às vezes, eu só quero assistir a um jogo da Champions League, mas, se bobear, perco o ritmo. Além disso, trabalho em finais de semana e feriados, porque procuro responder o máximo de comentários dos vídeos. Nos domingos, por exemplo, eu interajo com o pessoal de manhã e descanso no resto do dia.

3. Experiência com o assunto e cuidado na produção do conteúdo

Adoro ter contato com pessoas e ensinar Biologia. Então, isso acaba me ajudando. Como interajo com os seguidores, a maior parte dos vídeos são sobre temas sugeridos por eles. Também falo de assuntos que eu acho interessantes e notícias da semana. Costumo postar segunda, quarta e sexta, mas faço tudo sozinho, nem sempre dá tempo de seguir esse calendário. As pessoas me conhecem e sabem disso. Demoro para pesquisar cada assunto abordado e produzir o roteiro.

4. Respeito com os animais

Em parte dos vídeos, os animais aparecem comigo. Como estou na área há cerca de vinte anos, conheço pessoas de confiança que têm bichos legalizados, e eu também tenho alguns em casa, como jabutis e um teiú. Às vezes, acontecem situações engraçadas. Uma vez, por exemplo, eu gravei com uma iguana que ficou andando pelos meus ombros. Estava ocorrendo tudo bem, até que ela pegou no meu nariz e fez um buraco com a garra. Até brinco no vídeo que poderia colocar um piercing. São apenas sustos e ficam como cenas de bastidores divertidas do Animal TV.

Meninas nas Ciências: não é ficção científica, não!

A Netflix lançou recentemente A caminho da Lua. A animação conta a história de Fei Fei, uma garota que constrói seu próprio foguete para viajar ao satélite natural da Terra. Entre perdas, aceitação e conquistas, ela realiza inúmeros testes para que a sua criação decole. O longa reforça um conceito chamado STEM, sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática. As áreas têm sido cada vez mais difundidas entre os jovens em escolas e projetos de divulgação científica. Em muitos casos, as meninas são o foco de ações para estimular o aumento da participação feminina nas áreas abordadas.

Uma brasileira viveu todo o processo de encanto pela ciência desde a infância até chegar a um posto na NASA muito antes de surgir a sigla STEM. Duília de Mello era fã de filmes e séries que mostravam o que havia fora da Terra – desde a ficção de Star Trek às explicações reais e acessíveis de Carl Segan em Cosmos. “Eu sou fruto da ficção científica”, revela a astrônoma, que é vice-reitora da Universidade Católica da América, em Washington, e colaboradora da Agência Espacial Norte-Americana.

Duília foi uma das primeiras pessoas a fazer divulgação científica no Brasil, trabalho que conta no livro Vivendo entre as estrelas, publicado pela Panda Books. Na obra, ela explica o passo a passo que seguiu desde quando começou a se interessar pela carreira, até chegar à NASA. “Foi uma ideia inovadora, pois ainda não se falava em incentivar meninas para as áreas STEM”, afirma a autora, que viu o estímulo para as jovens surgir nos Estados Unidos por volta de 2009.

Sua geração foi a primeira a ter mulheres em cargos de chefia na ciência como algo comum. Ela cita como exemplo o próprio posto de vice-reitora e amigas que lideram laboratórios da NASA. A autora conta que a Agência Espacial Norte-americana tem um programa para incentivar meninas a se tornarem cientistas. Como parte dos resultados, há o aumento de mulheres em diferentes cargos da própria agência. “A sociedade não é feita só por homens, e as mulheres têm seu jeito de resolver problemas”, destaca Duília. “Por que também não nas áreas de STEM?”.

O maior desafio para se iniciar na astronomia é o tempo até a profissionalização: “Precisa fazer mestrado e doutorado. Da entrada na faculdade até um vínculo de trabalho, são 10 anos”. Depois de enfrentar esses desafios, Duília construiu uma carreira com diferentes realizações: já descobriu uma estrela, a Supernova 1997D, e participou da descoberta das Bolhas Azuis, aglomerados de estrelas fora das galáxias. Outro motivo de alegria para a autora é ver pessoas que decidiram estudar astronomia após lerem seu livro. Ela destaca Geisa Ponte e Ana Carolina Posses. As duas seguiram seus passos e se tornaram astrônomas: “Sou mãezona das minhas pupilas”.

Para incentivar as meninas hoje, cada vez mais obras estão sendo lançadas. Como em A caminho da Lua, o livro Ara – A engenheira das estrelas, também lançado pela Panda Books, conta a história de uma garota cientista. A autora Komal Singh é engenheira de software e gestora de programas no Google. Certa vez, sua filha de 4 anos perguntou: “Engenharia é coisa de menino, né, mamãe?”. O espanto foi tamanho, que estimulou o surgimento do livro. Ara é uma garota com o desejo de programar seu robô DeeDee para contar todas as estrelas que existem, mas não sabe muito bem como fazer isso. Então, ela entra em uma aventura com quatro superengenheiras que vão ajudá-la a realizar seu sonho – todas elas colegas de trabalho de Komal. Mulheres reais, como Duília.

Tiago Berg

O sabe-tudo de hinos e bandeiras do mundo inteiro

No dia 3 de julho de 1998, a seleção brasileira venceu a Dinamarca por 3 X 2 pelas Quartas de Final da Copa da França. Tiago José Berg tinha 14 anos, estava na 8ª série e vivia ainda em sua cidade natal, Cordeirópolis, a 164 quilômetros de São Paulo. Ele estava encantado. Apesar de o Brasil perder a final para os anfitriões, foi a Copa mais importante da sua vida. Foi quando TV Globo começou a exibir traduções de hinos nacionais tocados antes dos jogos.

“O hino dinamarquês fala que o país é a sala de Freya. Mas quem é ela?”. Tiago pesquisou e descobriu que se trata da deusa nórdica da fertilidade. Também soube que a Dinamarca definiu seu nacionalismo entre os séculos XVIII e XIX, quando houve um festival de música para escolher o hino. Uma canção estudantil se tornou muito popular e acabou vencedora.

Curioso, ele decidiu buscar hinos, bandeiras e brasões. Contou com a ajuda dos pais para escrever cartas a embaixadas de outros países. Também pedia para a mãe gravar as aberturas dos jogos em fita cassete e avisava: “Quero só os hinos, não precisa gravar o jogo”.

Conforme contatava as embaixadas, ele recebia diversos materiais, como bandeiras, partituras de hinos e cartões com fotos de líderes políticos – “Tenho um do casal que é dono de Lichtenstein. É curioso, Luxemburgo e Arábia Saudita também são países com famílias que os fundaram ou são praticamente donas”. No processo, acabou recebendo endereços de outras embaixadas e passou a conversar com entidades esportivas. Do Comitê Olímpico Internacional, veio um guia com endereços de representações oficiais que os países têm ao redor do mundo.

Logo foi buscar embaixadas fora do Brasil. “Aqui não tinha um representante da Namíbia, por exemplo, mas tinha em Washington.” Para escrever textos em outros idiomas, ainda na virada do século, ele juntou dinheiro e comprou um programa de computador que fazia traduções. Desses lugares, também recebeu materiais, todos guardados com cuidado até hoje. “Antes da internet, eu usava isso como garantia do meu trabalho”, revela.

Ao terminar a escola, pôde unir a paixão às possibilidades que a vida oferecia. Sem dinheiro para estudar em uma cidade distante, cursou Geografia na Unesp da vizinha Rio Claro. Com 12 quilômetros entre sua casa e a universidade, ia e voltava todos os dias. Lá, também fez mestrado e doutorado, sempre estudando símbolos nacionais. Hoje, é professor do Instituto Federal de São Paulo, no campus Capivari. É casado e mora em Piracicaba, a principal cidade da região.

Tiago publicou com a Panda Books os livros Hinos de todos os países do mundo (2008) e Bandeiras de todos os países do mundo (2013). Dois anos após o primeiro chegar às livrarias, recebeu um convite de Jô Soares para ir ao Programa do Jô. Com pouco mais de 20 mil habitantes, Cordeirópolis madrugou para assistir. Segundo ele, em cidades pequenas no interior ainda há mais resistência quando alguém tenta fazer algo diferente: “a entrevista foi boa porque mudou a percepção que as pessoas têm do meu trabalho”. Em 2011, o autor foi homenageado pela Câmara Municipal de Cordeirópolis com o Diploma de Gratidão do Município.

Além das informações completas, seus livros utilizam formatos originais. Bandeiras de todos os países do mundo lembra um álbum de figurinhas e traz não só os modelos atuais, mas também versões históricas utilizadas no passado.

Tiago sempre tem espaço para mais curiosidade. Durante a pesquisa com hinos, criou interesse pela vexilologia, o estudo das bandeiras. Ele participou de um congresso mundial sobre o assunto pela primeira vez em 2013, na cidade de Roterdã, Holanda. Lá, apresentou reflexões sobre bandeiras e paisagens. Ficou em uma mesa com representantes de Rússia, China e Índia – “Era um encontro do BRICS!”.

Em 2017, Tiago conseguiu participar pela segunda vez do Congresso de Vexilologia, agora em Londres, Inglaterra. Conheceu representantes da Geórgia e foi fazer amizade: “Perguntei se o nome do país em georgiano é Sakartvelo”. Ao receber uma resposta positiva, o autor cantou o Hino da Geórgia para os novos amigos. “Ficaram emocionados e me deram a bandeira deles de presente”. Na ocasião, também conheceu o autor polonês Alfred Znamierowski, que inspirou seu livro sobre bandeiras.

Durante o congresso, Tiago apresentou um trabalho que faz na escola e foi bem recebido pelos vexilologistas. Como exemplo, ele cita um projeto realizado durante a Copa da Rússia, em 2018. “Nós temos 27 unidades federativas, nos Estados Unidos são 50, na Rússia, 84.” Pediu aos alunos que pesquisassem e fizessem as bandeiras de todas essas regiões. Assim, conheceram melhor a diversidade e a geografia do país, além de desmistificá-lo. O trabalho virou uma exposição na escola, chamada “Bandeiras regionais da Rússia”.

Tiago tem um quadro na Rádio Educativa de Piracicaba, chamado Hinos do Mundo, foi curador de uma exposição sobre bandeiras durante a Copa de 2014 e quer fundar a associação de vexilologia do Brasil e ir para o YouTube com curiosidades relacionadas à geografia. “Por exemplo, em 1971, o Turcomenistão fazia parte da URSS. Foram perfurar um poço de gás por lá, e começou a pegar fogo. Não tinha como apagar e os soviéticos deixaram lá. Pega fogo até hoje.”